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6 de setembro de 2013

o esboço do pensamento

setembro na mesa 1


É a palavra sobre a imagem no livro ilustrado para crianças que encontramos em TRAÇO E PROSA, entrevistas com ilustradores de livros infantojuvenis por Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu (Cosac Naify, 2012), recontando uma história íntima da literatura infantil brasileira sob a perspectiva que mais atende ao interesse de leitores entre adultos e crianças: a ilustração, em primeira pessoa, em primeiro plano, nas conversas registradas dentro dos ateliês de doze grandes nomes.

Eliardo França, Rui de Oliveira, Eva Furnari, Alcy Linares, Ricardo Azevedo, Helena Alexandrino, Nelson Cruz, Marilda Castanha, Graça Lima, Mariana Massarani, Roger Mello e Angela Lago delineiam a ambição do livro ilustrado como uma linguagem única em nosso cenário editorial, abrindo os bastidores de seus sonhos e todo o esforço criativo para estabelecer laços de comunicação e afetos com os leitores. “Para o preparo das entrevistas”, afirmam os organizadores, “consultamos a bibliografia existente sobre o assunto. Apesar de escassa, achamos alguns temas comuns nessas fontes, o que nos levou a dividir em três os tipos de abordagem que seriam de grande ajuda para nosso projeto. Elas foram denominadas por nós de histórico-sociológica, pedagógica e formalista. Essa classificação, mesmo não sendo completa, demonstrou-se suficientemente abrangente e útil para o propósito de definir as perguntas para as entrevistas.” Dentre os muitos desafios de recorte e método, os autores necessitaram eleger a geografia editorialmente demarcada por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e o curso da década de 1970 aos dias atuais, no generoso diálogo com quatro representantes de cada estado.


Em quase 250 páginas de espontaneidade, riso fácil, segredos, formação profissional, vidas envolvidas com livros e imagens, TRAÇO E PROSA oferece um panorama compreensivo a respeito da dinâmica de processos artísticos que, muitas vezes, ultrapassa o depoimento personalíssimo e vai esboçando ordens mais gerais da produção contemporânea. Um exemplo instigante que lá encontramos é o tema da autoria em três diferentes articulações – quando um autor escreve, depois outro ilustra; a parceria entre escritor e ilustrador; e, por fim, escritor-ilustrador como um só criador –, que implicam nas relações convencionais, contratuais e contextuais da leitura que se transportam para dentro livro ilustrado para crianças. Ora, se o conjunto das entrevistas não responde por uma formulação teórica única, positivamente enseja ser o objeto de análise e reflexão junto a muitos pesquisadores de editoração, teoria literária, pedagogia ou crítica genética, interessados em rever o estatuto da literatura infantil brasileira, no reconhecer a transformação da leitura entre palavras e imagens, redesenhando o conceito sobre o que é livro ilustrado para crianças.

5 de abril de 2013

macaco galante vestido de gente...

Peter O. Sagae*


Há no mundo algum animal mais esperto que a Raposa? No Brasil, tem: um pássaro chamado Quenquém, danado, orgulho de toda parentalha de bicos, asas e penas. Pois esse Quenquém conseguiu vingar a honra daquele primo europeu, o Corvo que trazia um naco de queijo no bico, quando uma raposa o avistou, ‘tá lembrado? Pois o pássaro brasileiro, com muita lábia e ciência, embora tão perto do fim preso à boca da Raposa, não se desesperou e conseguiu escapar-lhe... Voando para bem longe!

É impagável a cena em que a velha matreira pensa passar uma decompostura em alguns meninos, como contou Câmara Cascudo, e Mary França transformou em miquinhos encarapitados na árvore, ao selecionar cinco histórias para a coletânea O MACACO FAZ DAS SUAS: um passeio pelo folclore, com ilustrações de Eliardo França (Global, 2007). Contudo, dá no mesmo, quando querem: meninos são dados às macaquices.


A segunda fábula fala do pequeno filhote de Rato que saí de casa pela primeira vez. Embora prudente, ouvindo os conselhos cautelosos da mãe, deixa-se enganar pelas aparências. Quem, afinal, será seu amigo: o Gato fofinho ou o Galo estridente?

O leitor, com certeza, estava esperando o Macaco... Ele mesmo só aparece quando perde uma banana no oco do tronco de uma árvore e dá a pedir ajuda aos outros: tenta o lenhador, o soldado, o rei, mais Rato, Gato e Cachorro – esse Macaco é mesmo atentado – e vai à Raposa e à Onça! Mas, como todos estão ocupados com a própria vida, o Macaco decide chamar Aquela-que-não-se-cansa e mete medo em bicho e gente...


Depois, em outro conto de esperteza, sem dar conta de seu atrevimento, o Macaco convoca a Onça e o Touro para um cabo-de-guerra. Ele gosta-que-se-enrosca de por à prova qualquer bicho, não importa o tamanho – e, pulando de página em página, na última história, o Macaco vira Rei dos Animais. Como isso aconteceu? Ora, pregunte para a Raposa, mais falastrona que eu ;-)

O casal França repete o sucesso de sempre: o texto de Mary anda leve pelas cenas enriquecidas com a reação dos personagens e as ilustrações de Eliardo investem nos olhares que revelam a natureza humana mascarada de animal. As imagens, aqui, se apresentam ora colorindo toda uma página, isolada do texto, ora em molduras e requadros que retomam a linguagem gráfica de antigos livros de fábula.

***
« A Onça, vendo os cocos, quis saber a quem pertenciam. O macaco respondeu: — Os cocos são meus. Naturalmente, se a amiga não os quiser. A Onça falou que não queria saber de cocos. Desejava saber se o Macaco tinha visto o Bicho Homem. — Faz tempo que não o vejo — disse o Macaco —, mas já aprendi muita coisa com ele. »

* Comentários extraídos de Dobras da Leitura 47, agosto de 2007.
** Texto revisto em abril de 2013. Link revisitado em abril de 2016.

24 de maio de 2012

quase tudo de volta ao rei

peter o.sagae


Um dos mais importantes livros ilustrados da história da literatura infantil brasileira está de volta – O REI DE QUASE-TUDO (1974) que marcou a estreia de Eliardo França no campo da autoria palavra & imagem, após alguns anos unicamente como ilustrador de cores vibrantes e traços de sincera comunicação com as crianças. A obra havia conquistado Menção Honrosa no Concurso Paz na Terra, promovido pela FNLIJ em 1972 e, uma vez publicada, viajaria à Eslováquia onde conquistou Menção Honrosa na Bienal de Ilustração de Bratislava – BIB 1975 e, no ano seguinte, em um pouso na Grécia, receberia nova Menção Honrosa durante o Congresso do IBBY em Atenas; esteve presente na Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, em 1978; veio-lhe o reconhecimento da Unesco, em 1979, primeiro lugar na categoria “Livro para um Mundo Melhor”, além de festejado com vários selos de ‘Altamente Recomendável’ e quatro vezes eleito como O Melhor para Criança – FNLIJ 1974, 1979, 1985 e 1986.

Os prêmios, em uma lista assim, dão conta de evidenciar como a força de um livro ilustrado para crianças vem de sua simplicidade combinada à exatidão do projeto gráfico, da escolha das palavras e das ilustrações focadas em transmitir sensações e mensagem. Em quase quarenta anos de caminho, absolutamente nada se alterou no texto, nas imagens ou na concepção original do livro.


Eliardo França criou uma breve parábola sobre um rei que tinha terras, exército e muito ouro, mas isso não era tudo para quem desejava todas as terras, todos os exércitos e todo ouro que houvesse no mundo. Porém, tudo isso ainda era pouco e o Rei de Quase-Tudo desejou tomar as flores, os frutos, os pássaros, as estrelas, o sol... Nada apaziguou seu coração ambicioso sempre triste, até tardiamente descobrir que as coisas mais importantes não são as coisas, nem nas coisas estão, como o brilho das estrelas, o canto dos pássaros, o perfume das flores, o sabor vivo dos frutos.


É bonito ver como as ilustrações e o projeto gráfico conversam com a narrativa. Enquanto manda tomar tudo o que pode e não pode, mas quer, a figura do Rei de Quase-Tudo apresenta-se nas páginas pares, com o dedo em riste, apontando para a esquerda e para a direita, como quem anda para cá e para lá. Até que, nas páginas centrais, o reizinho aponta o próprio nariz em diálogo, mascarada ou espelho com a ilustração da página impar. Este encontro consigo coincide com o início da tomada de consciência do personagem: tudo o que fez, logo verá, não lhe trouxe descanso ou alegria. Do meio para o final do livro, nas páginas que apresentam o texto, o Rei de Quase-Tudo caminha, para lá e para cá, numa figura cabisbaixa.

Ora, o leitor deve saber que o livro termina em um momento de paz! A narrativa verbal não sofreu a alteração de uma vírgula sequer, as imagens em quadros e diálogo com o leitor estão todas lá. No livro.


As diferenças que encontro entre a edição de 2004, realizada por Mary e Eliardo França Produções, em parceira com a Zit Editora, e a 15a. edição publicada pela Global, em 2011, dizem respeito às características do produto: o tamanho do livro, 25 x 25 cm agora, a encadernação com lombada quadrada em vez de grampos metálicos, a localização do logotipo da editora em frente à capa, mais outros elementos que alteram o que os olhos lentamente vão lendo: uma tipologia mais dura, sem as velhas serifas reais; as capitulares rubras fora de lugar, os quadros um tanto mais comprimidos na linha horizontal, as cores saturadas da impressão cobrindo os melhores efeitos da aquarela... Talvez não importe, o livro está de volta. Quase-todo.

16 de setembro de 2010

meu reino por uma palavra

nas dobras do tempo, por peter o’sagae


Em 1974, Eliardo França abriria páginas e portas para uma tendência na literatura infantil brasileira: a recusa aos despropósitos de quem está no poder, ao escrever e ilustrar O REI DE QUASE-TUDO, obra que se consagrou como “O Melhor para a Criança”, conquistando o Prêmio Ofélia Fontes da FNLIJ, além das inúmeras menções honrosas em concursos dentro e fora do país (saiba mais). Conquanto a denúncia talvez seja o efeito de sentido para alguns, podemos sentir poesia nas antíteses que tratam da impossibilidade de possuir o inefável que mais nos causa prazer. Escreve assim Eliardo: “Porque tendo as flores, não lhes podia prender a beleza e o perfume. Tendo os pássaros, não lhes podia prender o cantar. Tendo as estrelas, não lhes podia prender o brilho. E tendo o sol, não lhe podia prender a luz. O Rei era ainda o Rei de quase tudo. E ficou triste.” Mas, ademais, sob o manto da figura do rei, a crítica especializada encontrou o tema de sua predileção: o desejo de liberdade contra qualquer forma de poder ditatorial e injusta.

E houve também por aqui, em nosso reino de letras e política, certo REIZINHO MANDÃO, na parceria de Ruth Rocha e Walter Ono (1978). Láureas da época, o selo “Altamente Recomendável para Crianças” e participação na Lista de Honra do IBBY. Uma fábula sobre o poder absurdo (e mesmo ingênuo, digo eu) de um pequeno déspota que silencia a todos — e acabaria a história com dor no coração e na consciência, não fosse uma menininha quebrar o feitiço com um estrondoso “Cala a boca já morreu! Quem manda na minha boca sou eu!” Sob a figura de uma criança, o brado e o tema do velho conto de Andersen, As roupas novas do rei (1837), né mesmo?

Arguta, Angela-Lago sabe como destronar um rei mandão, contorcendo exclusivamente UMA PALAVRA SÓ (Moderna, 1996), selo “Altamente Recomendável” concedido pela FNLIJ e menção honrosa no Prêmio Bloch Educação, no mesmo ano de seu lançamento. Em diálogo com o passado, a denúncia passa a vez para o lúdico, numa obra, ora, ora, ora, pra lá de shakespeareana, com a condenação do príncipe às ordens reais de seu pai! O menino não poderia mais falar tudo o que pensava, mas pensava tudo falando intimamente consigo: “Se ao menos eu pudesse ler e escrever”.


E relendo e escrevendo histórias de reis, a literatura para crianças tem se ocupado em mostrar como as coisas podem ser realmente diferentes. “Utopia, delírio, realismo fantástico ou ficção, não importa. Essa combinação de leituras não teria sentido se ela não tivesse anexado o perdão como elemento de continuidade da história”, escreve Nelson Cruz, no “pós-fácil” do livro O DIA EM QUE TODOS DISSERAM NÃO (Global, 2009), entre os finalistas do Prêmio Jabuti – Melhor Livro Infantil. Somando a inspiração via Jorge Luis Borges e Vinícius de Moraes, a obra de Nelson Cruz alinha-se ao ideário mais amplo e fraterno de democracia contra a prepotência dos mais fortes ou das formas autoritárias de governo. Ao atualizar o tema, o grito de liberdade faz-se imenso como o silêncio, quando o rei conclama o povo e demanda guerra aos países vizinhos. Mas ele há de cair do cavalo... Temos direito à escolha pela própria ordem e paz!
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