Hora de recolher os livros que aqui foram se acumulando em cima da mesa durante oito semanas... Esses títulos marcaram uma trilha de leituras compartilhadas complementares ao trabalho de textualizar histórias, prazeres, temores e outras invenções no curso Escrever para Crianças 2018.
Depois de Lobato, o que há? Foi interessante pontuar a incessante apropriação dos personagens da literatura universal até os mais contemporâneos: da comunicação narrativa de Dona Benta sobre as aventuras de Peter Pan (1930) à fome de brincar com o Lobo Mau, em tantos autores, o leitor cai dentro do livro com Alexandre Rampazo: ESTE É O LOBO (2016). A fim de desconstruir papéis ou os gêneros da literatura de tradição, o leitor passou a ser convocado a tomar decisões sobre como, onde e quando despertar uma história, e isso bem demonstra o capítulo inicial de Glaucia Lewicki: ERA MAIS UMA VEZ OUTRA VEZ (2006). Ou então Laura Rankin: POMPOM E BICUDO (1997). Ler para frente, ler para trás. Ler sob muitos ângulos, como propunha a coleção DOZE OLHOS E UMA HISTÓRIA, com Angela Carneiro, Lia Neiva e Sylvia Orthof, mais Elisabeth Teixeira, Roger Mello e Mariana Massarani nas ilustrações (1994).
Com um pé no conto e outro na fábula, um dedo apontando o universo mágico-simbólico e outro a alegoria/metáfora, vamos chegando às histórias de animais contemporâneas. Aqui é preciso também pensar na variedade de intenções: há sempre um texto atrás de novos textos, repetindo, parafraseando, questionando, parodiando, velhos modos de pensar e sentir a realidade... Como é “O lobo e o cordeiro” retomado por Millôr Fernandes: FÁBULAS FABULOSAS (1963)? E a “História de uma gata”, na tradução de Chico Buarque para OS SALTIMBANCOS (1976)? E olha ali o LIN E O OUTRO LADO DO BAMBUNZAL, de Lúcia Hiratsuka (2004).
O leitor está sempre inscrito no texto, daí a importância de ancorar bem, logo de saída, sua presença na cena da comunicação narrativa. E o escritor é o narrador? Um ou outro pega a criança pela mão para atravessar a história? Fomos aos diálogos com uma possível Clarice Lispector, em O MISTÉRIO DO COELHO PENSANTE (1967), e ao fio que não cessa de torcer a Sorte e a Preguiça, no mirabolante corre-corre de Roger Mello: MENINOS DO MANGUE (2001). E então: conto, fábula, narrativa em encaixe ou tudo ao mesmo tempo agora?
A construção do personagem de ficção passa por muitas dúvidas e descobertas: o que faz, o que deixa de fazer, o que diz, mas – principalmente – tudo o que poderá silenciar para o Outro imaginar e entender... Ora lemos um capítulo do Italo Calvino: O VISCONDE PARTIDO AO MEIO (1952), ora outro de Lygia Bojunga: FAZENDO ANA PAZ (1991) e, então, tendo construído o seu personagem, quem terá coragem para descosê-lo? Vamos espiar o desenho “derretendo” INDO NÃO SEI AONDE BUSCAR NÃO SEI O QUÊ (2000).
Indo e já não sabemos aonde... Um pouco de luz, eu peço a José de Alencar: LUCÍOLA (1861), nessa luta entre o narrador e o seu personagem. Como eles se veem? Outro José, Saramago, finge doçuras em A MAIOR FLOR DO MUNDO (2001) e, então, Angela vira Angelus Lago em A BANGUELINHA (2002). Já sabemos, não sabemos, contudo gostamos quando o narrador vem e espinafra com o leitor! E lhe dou o ultimato: O PERSONAGEM ENCALHADO (1995).
Quanto mais a teoria nos desafia, os textos vão se abrindo descomplicados, bonitos e simples. Um afeto, eis o leitor real se identificando com o personagem-leitor inscrito nas páginas de Don e Audrey Wood: MEUS PORQUINHOS (1992). E podemos escolher o verso ou a prosa nos livros ilustrados de Mary e Eliardo França... Sintagma narrativo – isto tá fácil? BANANA (1998). Ou voar ou mergulhar no paradigma que empilha possibilidades, DIA E NOITE (1980). Costurando escolhas numa infância reinventada com TANTOS CANTOS (2012).
Você pode não acreditar, mas gosto dos textos simples... nos quais é preciso assumir que talvez não seja fácil reduzir a linguagem verbal e visual à uma nobreza muito própria, dentro de um projeto gráfico enxuto, sem páginas e páginas que cansam a mão do pequeno leitor. E Eva Furnari joga com o leitor: FILÓ E MARIETA (1983), AMENDOIM (1983), livros de imagem são texto. De Luiz Gouvêa de Paula e Ciça Fittipaldi: O TUCUNARÉ (1989); uma aula de narrativa visual! De Stephen Michael King: O HOMEM QUE AMAVA CAIXAS (1995), a articulação do livro ilustrado não-brasileiro.
Então, um inesperado encontro com o texto que nos devora, Guimarães Rosa: FITA VERDE NO CABELO (conto publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, no dia 8 de fevereiro de 1964). Mas, aqui, a velha nova história vem com os desenhos de Roger Mello (1992) emoldurando devaneios e silêncio. O que é um texto? Quais os fatores de textualidade? Leonor Lopes Fávero responde. Para quê o texto literário, para quê a busca de uma descrição singular? Chklovski responde. E a nossa inspiração para todos os incursos: “De que serve um livro sem figuras nem diálogos?” Alice pergunta (1865), Lewis Carroll não responde. Claramente.
E um finalmente para ir em frente... As travessuras de Suzy Lee são lembradas em A TRILOGIA DA MARGEM (2012). Escrever, desenhar é arremeter-se à página. O livro para crianças e jovens pede ou não pede ilustrações? Os caminhos (não os conselhos) são muitos, mergulho, desapego, renascimento, como A EXTRADIORNÁRIA JORNADA DE EDWARD TULANE, de Kate DiCamillo (2007).
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9 de junho de 2018
dobras da leitura em curso
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
Alexandre Rampazo,
angela-lago,
Ciça Fittipaldi,
Clarice Lispector,
Eva Furnari,
Glaucia Lewicki,
José Saramago,
Lewis Carroll,
Lúcia Hiratsuka,
Lygia Bojunga,
Mary França,
RHJ Editora,
Roger Mello,
Suzy Lee
15 de julho de 2015
o outro problema do Clóvis
Quando o carteiro chegou... 6
Sempre há algo, alguém diferente no meio da repetição. Esta é a primeira dobra que a mim se mostra, quase leitura, diante da capa branca do livro UNIFORME, de Tino Freitas e Renato Moriconi (Edições de Janeiro, 2015). Pinguins, aonde vão assim, sempre tão iguaizinhos no mesmo passo e compasso? Entretanto, entre eles, dentro de sua casaca, confortavelmente estranho, está um velho senhor. Puro disfarce, imitação? Algo ou alguém anda fora do padrão?
Tino vem contar a história de Clóvis, alguém como nós que nasceu livre e pelado, que aprendeu a viver camuflado e sobreviver como todo camaleão. A presença da símile, repetida como um bordão, evidencia a intencionalidade da narrativa logo de início... Clóvis não é um camaleão, mas agirá como um. Até quando? A ilustração também trabalha com a mesma figura retórica através da repetição do desenho e, como um livro-jogo, o leitor vai percebendo e procurando alguma coisa que sempre sai fora da constante uniformidade da ordem da reprodução....
Clóvis vai e vem no meio do rebanho das ovelhas, segundo os interesses e as circunstâncias, algo assim Maria vai com as outras! E Clóvis ouve dizer coisas e faz tudo igual a todo mundo, finge, esconde-se, caminha de cabeça baixa e... E jogou-se aos tubarões, macaqueou-se, dançou conforme a música... Adiantou? O destino, diz Tino, parece ter sido uma aprendizagem para tirar os disfarces, desnudar-se e seguir adiante somente com o próprio coração.
No final do livro, o leitor desdobra uma página e...
vê todos os seus bichos coloridos!
P.S. A leitura é sempre uma brincadeira por inúmeras obras e aqui desdobro a memória de alguns autores e títulos que constituem a série ou família literária de onde a produção contemporânea se cria e arroja-se em novos passos. É isto o que permite uma tradição para a literatura infantil brasileira! Saudamos Tino Freitas com suas lembranças e possíveis inspirações: O pinguim, poema de Vinícius de Moraes (1977), Maria-vai-com-as-outras, desenhos e história de Sylvia Orthof (1982) e O problema do Clóvis, livro ilustrado de Eva Furnari (1992).
Sempre há algo, alguém diferente no meio da repetição. Esta é a primeira dobra que a mim se mostra, quase leitura, diante da capa branca do livro UNIFORME, de Tino Freitas e Renato Moriconi (Edições de Janeiro, 2015). Pinguins, aonde vão assim, sempre tão iguaizinhos no mesmo passo e compasso? Entretanto, entre eles, dentro de sua casaca, confortavelmente estranho, está um velho senhor. Puro disfarce, imitação? Algo ou alguém anda fora do padrão?
Tino vem contar a história de Clóvis, alguém como nós que nasceu livre e pelado, que aprendeu a viver camuflado e sobreviver como todo camaleão. A presença da símile, repetida como um bordão, evidencia a intencionalidade da narrativa logo de início... Clóvis não é um camaleão, mas agirá como um. Até quando? A ilustração também trabalha com a mesma figura retórica através da repetição do desenho e, como um livro-jogo, o leitor vai percebendo e procurando alguma coisa que sempre sai fora da constante uniformidade da ordem da reprodução....
Clóvis vai e vem no meio do rebanho das ovelhas, segundo os interesses e as circunstâncias, algo assim Maria vai com as outras! E Clóvis ouve dizer coisas e faz tudo igual a todo mundo, finge, esconde-se, caminha de cabeça baixa e... E jogou-se aos tubarões, macaqueou-se, dançou conforme a música... Adiantou? O destino, diz Tino, parece ter sido uma aprendizagem para tirar os disfarces, desnudar-se e seguir adiante somente com o próprio coração.
No final do livro, o leitor desdobra uma página e...
vê todos os seus bichos coloridos!
* * *
P.S. A leitura é sempre uma brincadeira por inúmeras obras e aqui desdobro a memória de alguns autores e títulos que constituem a série ou família literária de onde a produção contemporânea se cria e arroja-se em novos passos. É isto o que permite uma tradição para a literatura infantil brasileira! Saudamos Tino Freitas com suas lembranças e possíveis inspirações: O pinguim, poema de Vinícius de Moraes (1977), Maria-vai-com-as-outras, desenhos e história de Sylvia Orthof (1982) e O problema do Clóvis, livro ilustrado de Eva Furnari (1992).
25 de setembro de 2014
ouvindo conversa alheia
Peter o.O'Sagae
É interessante observar como, na criação de textos para crianças, uma mesma cena pode gerar ou promover narrativas completamente diversas. Ou não?
Eva Furnari conta:
A sátira dá o tom. As personagens de Eva Furnari são cômicas e a ilustração contribui para completar e ampliar o efeito da mensagem – em suas banquetas de assento baixo, pés paralelos, pernas cruzadas, mãos no joelho ou no colo, braços fechados, mãos segurando a cabeça, o pescoço torto, um ouvido espichado, o nariz virado de lado, os olhos procurando alguma coisa, o silêncio, um fio de cabelo fora do lugar etc. Existe, na cena, um equilíbrio incômodo: seis personagens em busca de um assunto, debaixo de uma árvore de galhos simétricos, debaixo de seis passarinhos sentados... O que eles contam? Uma piada?
Pois o livro COCO DE PASSARINHO (Companhia das Letrinhas, 1999, Moderna, 2013) pertence ao gênero das anedotas.
Entre o ridículo e o desânimo, a crítica de Hermes Bernadi Jr. é contrabalanceada por uma ilustração sem figuras definidas, ou definitivas. A árvore voa da tinta para o papel, mostrando-se aos poucos. Hermes lançou mão dos pincéis e do movimento rápido para sugerir uma árvore que página a página vai ganhando seu colorido: sapatos ou flores? O texto de PÉ DE SAPATO (Biruta, 2011) conta-se como uma sugestão de lenda.
É interessante observar como, na criação de textos para crianças, uma mesma cena pode gerar ou promover narrativas completamente diversas. Ou não?
Eva Furnari conta:
Era uma vez uma cidade bem pequena. Tinha seis habitantes. Todo fim de tarde eles iam para a praça conversar. Sentavam-se sempre no mesmo lugar e diziam as mesmas coisas:E conta Hermes Bernardi Jr...
— Puxa, que calor!
— Calor horrível!
— Como vão os negócios?
— Vão mal.
— O ano que vem vai ser pior.
— Vai.
Morria a árvore no centro do vilarejo. De pés descalços, os habitantes do lugar desfrutavam do conforto de suas casas. Nunca pisavam do lado de fora. Temiam machucar os pés. Todos os dias, as janelas das casas se abriam.
— Vai chover.
— Acho que vai.
— Vai nevar.
— Talvez.
— Mãe, posso passear?
— Vem aí uma tempestade.
— Se vem!
— Até outro dia!
— Até!
A sátira dá o tom. As personagens de Eva Furnari são cômicas e a ilustração contribui para completar e ampliar o efeito da mensagem – em suas banquetas de assento baixo, pés paralelos, pernas cruzadas, mãos no joelho ou no colo, braços fechados, mãos segurando a cabeça, o pescoço torto, um ouvido espichado, o nariz virado de lado, os olhos procurando alguma coisa, o silêncio, um fio de cabelo fora do lugar etc. Existe, na cena, um equilíbrio incômodo: seis personagens em busca de um assunto, debaixo de uma árvore de galhos simétricos, debaixo de seis passarinhos sentados... O que eles contam? Uma piada?
Pois o livro COCO DE PASSARINHO (Companhia das Letrinhas, 1999, Moderna, 2013) pertence ao gênero das anedotas.
Entre o ridículo e o desânimo, a crítica de Hermes Bernadi Jr. é contrabalanceada por uma ilustração sem figuras definidas, ou definitivas. A árvore voa da tinta para o papel, mostrando-se aos poucos. Hermes lançou mão dos pincéis e do movimento rápido para sugerir uma árvore que página a página vai ganhando seu colorido: sapatos ou flores? O texto de PÉ DE SAPATO (Biruta, 2011) conta-se como uma sugestão de lenda.
* Conheça a história na [postagem anterior]...
31 de agosto de 2014
a lição do passaredo
Peter o.O'Sagae
Chico Buarque e Francis Hime certamente não pensavam em literatura infantil ou fazer uma canção para crianças, quando escreveram a letra e a melodia de “Passaredo” para o filme A noiva da cidade, de Alex Viany (1976), cuja história, a partir de um argumento desenvolvido pelo cineasta e pioneiro Humberto Mauro, tomava como cenário a cidade ficcional de Catavento, em meio à zona da mata mineira, onde uma famosa atriz busca resgatar e viver a paz de suas raízes interioranas. Contudo, os políticos do lugarejo assediam a estrela no intuito de usarem sua influência nas causas que defendem... Ora, o tema musical funde-se a esse ambiente de tranquilidade prestes a romper-se – existe, realçada pelo arranjo instrumental, uma carga de aflição entre os sons das madeiras e a percussão acelerada cheia de estrídulos e alarmes. Bico calado, toma cuidado! Só um ouvinte incauto perguntaria: que homem vem aí ameaçando a liberdade do passaredo humano?
É viva a escolha lexical na construção do poema, com o chamamento das interjeições e os verbos no imperativo: ei, oi, ai, foge, vai, xô, xô, xô, some, anda, te esconde, voa, voa... E tamanho passaredo rapidamente viria pousar, com um arranjo mais calmo e as vozes do conjunto MPB-4, na trilha sonora de O sítio do pica-pau amarelo (1978). Humberto Werneck (1989) lembra como Chico trabalhou a letra, caçando pássaros nos livros e nas enciclopédias, e comenta que
Voaram agorinha três livros para cima da mesa...
No mesmo ano de 1976, o poeta português Sidónio Muralha entregava aos leitores brasileiros A DANÇA DOS PICA-PAUS, com ilustrações de Isabel Pires, hoje com traços e cores de Eva Furnari (Global, 1997). Brincando com a repetição e a divisão de umas poucas palavras, o autor não veio apenas falar de pássaros e outros bichos; ele solfeja ritmos e dialoga com a criança nos diferentes níveis da imaginação, dos afetos e dos valores que pretende despertar.
Nos últimos anos, tem sido grande a investidura em um discurso ecológico, solicitado pela Escola, e a própria poesia muitas vezes se repete nas aliterações e paronomásias exploradas no passado. Vamos ver e ouvir a nova informação literária?
FEIRA DAS AVES, de Jorge Fernando dos Santos e Cláudio Martins (Prumo, 2010), usa de rimas paralelas e traz um desabafo frente às gaiolas de um viveiro, despertando pena em gente e silêncio, tristeza, carranca e padecimento no passaredo aprisionado. O livro faz parte da coleção Natureza Viva e coube à ilustração um papel preponderante ao exibir vinte e duas aves coloridas, ainda que os traços de Cláudio Martins tendam para a estilização, como sempre, humanizando plantas e animais com olhares e expressões várias.
PASSARINHOS DO BRASIL: poemas que voam, de Lalau e Laurabeatriz (Petrópolis, 2013) apresenta-se às nossas mãos como um catálogo ilustrado de espécies que habitam os seis biomas brasileiros – pampas, mata atlântica, pantanal, cerrado, caatinga e floresta amazônica. O nome de cada ave funciona como o título de um texto muito breve, praticamente uma frase simples para as crianças não tropeçarem na linguagem, ao modo de slogans. É Laurabeatriz quem capricha nos detalhes ao retratar as particularidades de pássaros tão belos, quanto exóticos de nossa fauna.
Chico Buarque e Francis Hime certamente não pensavam em literatura infantil ou fazer uma canção para crianças, quando escreveram a letra e a melodia de “Passaredo” para o filme A noiva da cidade, de Alex Viany (1976), cuja história, a partir de um argumento desenvolvido pelo cineasta e pioneiro Humberto Mauro, tomava como cenário a cidade ficcional de Catavento, em meio à zona da mata mineira, onde uma famosa atriz busca resgatar e viver a paz de suas raízes interioranas. Contudo, os políticos do lugarejo assediam a estrela no intuito de usarem sua influência nas causas que defendem... Ora, o tema musical funde-se a esse ambiente de tranquilidade prestes a romper-se – existe, realçada pelo arranjo instrumental, uma carga de aflição entre os sons das madeiras e a percussão acelerada cheia de estrídulos e alarmes. Bico calado, toma cuidado! Só um ouvinte incauto perguntaria: que homem vem aí ameaçando a liberdade do passaredo humano?
É viva a escolha lexical na construção do poema, com o chamamento das interjeições e os verbos no imperativo: ei, oi, ai, foge, vai, xô, xô, xô, some, anda, te esconde, voa, voa... E tamanho passaredo rapidamente viria pousar, com um arranjo mais calmo e as vozes do conjunto MPB-4, na trilha sonora de O sítio do pica-pau amarelo (1978). Humberto Werneck (1989) lembra como Chico trabalhou a letra, caçando pássaros nos livros e nas enciclopédias, e comenta que
Famintos por visibilidade, alguns urubus de plantão logo quiseram vincular Chico Buarque à tão nobre causa ecológica. Profundo conhecedor desta espécie de urubus, quando indagado se havia aderido a algum movimento ecológico, o compositor, irônico, foi categórico: “Eu não entendo nada de bicho. Aliás, eu não gosto de bicho. Pra falar a verdade, eu detesto bicho.”Pois bem: na poesia para crianças, há mais amor aos pássaros ou às palavras?
Voaram agorinha três livros para cima da mesa...
No mesmo ano de 1976, o poeta português Sidónio Muralha entregava aos leitores brasileiros A DANÇA DOS PICA-PAUS, com ilustrações de Isabel Pires, hoje com traços e cores de Eva Furnari (Global, 1997). Brincando com a repetição e a divisão de umas poucas palavras, o autor não veio apenas falar de pássaros e outros bichos; ele solfeja ritmos e dialoga com a criança nos diferentes níveis da imaginação, dos afetos e dos valores que pretende despertar.
Nos últimos anos, tem sido grande a investidura em um discurso ecológico, solicitado pela Escola, e a própria poesia muitas vezes se repete nas aliterações e paronomásias exploradas no passado. Vamos ver e ouvir a nova informação literária?
FEIRA DAS AVES, de Jorge Fernando dos Santos e Cláudio Martins (Prumo, 2010), usa de rimas paralelas e traz um desabafo frente às gaiolas de um viveiro, despertando pena em gente e silêncio, tristeza, carranca e padecimento no passaredo aprisionado. O livro faz parte da coleção Natureza Viva e coube à ilustração um papel preponderante ao exibir vinte e duas aves coloridas, ainda que os traços de Cláudio Martins tendam para a estilização, como sempre, humanizando plantas e animais com olhares e expressões várias.
PASSARINHOS DO BRASIL: poemas que voam, de Lalau e Laurabeatriz (Petrópolis, 2013) apresenta-se às nossas mãos como um catálogo ilustrado de espécies que habitam os seis biomas brasileiros – pampas, mata atlântica, pantanal, cerrado, caatinga e floresta amazônica. O nome de cada ave funciona como o título de um texto muito breve, praticamente uma frase simples para as crianças não tropeçarem na linguagem, ao modo de slogans. É Laurabeatriz quem capricha nos detalhes ao retratar as particularidades de pássaros tão belos, quanto exóticos de nossa fauna.
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