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9 de agosto de 2015

hora de largar a pata!

peter o'sagae


Quantas vezes sinto que não é preciso dizer nada, mas saber ouvir… Já disseram por aí que um conto é a poesia da alma popular; quando ela se faz voz, forma e força, a sabedoria então se revela. E hoje, domingo bom, recorto quadrados de uma história para compartilhar com a família – e suas crianças também.
Au, au, au, hi-ho, hi-ho
Miau, miau, miau, cocorocó

Essa história é mais velha que a história
Dos tempos de glória do velho barão
Quem não sabe de cor essa história
Refresque a memória e me preste atenção
Não sou eu quem repete essa história
É a história que adora uma repetição
Uma repetição [+]

Das recolhas dos irmãos Grimm,
você pode abrir estrada com Os músicos de Bremen na tradução de Fernando Klabin, acompanhando as ilustrações muito vivas de Claudia Scatamacchia (Global, 2008).


Ou ainda ouvir Os quatro heróis, uma breve adaptação com melodias de Braguinha para a coleção Disquinho (1961), ou Os saltimbancos, musical infantil composto por Luiz Enriquez, libreto de Sergio Bardotti com tradução de Chico Buarque (Polygram, 1977), em afinadas [e atualizadas] montagens, cujo texto chegou em um livro com projeto gráfico e colagens de Sônia Magalhães (Global, 1999); ou assistir o filme Os saltimbancos Trapalhões (1981), a partir do musical – porém, com algumas novas canções de Chico Buarque para a trilha sonora.


Ora, entre a letra e a voz, livro ilustrado, disco, disquinho, filme, espetáculo – a imagem que o conto dos quatros amigos representa tem permanecido intacta! Ao longo do tempo, sinto que o significado tem sido um só, em busca de alimento, agasalho, abrigo e inteligência. Como diz Paul Zumthor
... o que concerne à poesia, a escritura parece moderna; a voz, antiga. Mas a voz "moderniza‐se" pouco a pouco: ela atestará um dia, em plena "sociedade do ter", a permanência de uma "sociedade do ser".
Todos juntos! Era ainda num certo país…


Quem me dera, dera um dia, arriscar uma adaptação.
E saber, de tudo isso, como está e o que pensa você...


* Imagens adicionais: Town Musicians, estátua de bronze confeccionada por Gerhard Marcks e instalada na cidade Bremen em 1953, fotografia: Torsten Krüger / BTZ Bremer Touristik-Zentrale; Embroidery Library; e Arthur Rackham (1909).

26 de julho de 2012

avó deliciosa

Temporada de Contos e Recontos, 8

Qual a avó mais gostosa que habita os contos folclóricos? Eu apostaria na velha bruxa da floresta que mora, há muitos e muitos recontos, na casinha feita de coisas doces...


Invenção dos colecionadores de histórias alemães do XIX, a casa com telhado de pão de ló e janelas de açúcar não era encontrada por crianças em antigas narrativas, como Nennillo e Nennella, de Giambattista Basile (1635), conto que conta igualmente as desventuras de dois irmãos pelo mundo afora; surgiu, no caminho de Hänsel e Gretel, tão somente em 1812, ano em que Napoleão, com seu famoso cavalo branco, fez campanha nas terras de Baba-Yaga, outra simpática avozinha que mora nos lugares ermos da floresta... Seja lá como for, temos nos habituados a sonhar com este lugar de confeitos e excessos como permitem as deliciosas avós, uma casa onde nos espera uma cama quente e macia, na companhia dos nomes de João e Maria.


Sei que inúmeros intérpretes de contos tradicionais olham para a bruxa da floresta como a contraparte simbólica da madrasta, uma e outra jogando com a promessa e a pressa de não passarem fome juntamente às crianças. Mas, um símbolo não impõe imagens partidas, porque abriga o que é aparentemente oposto em seu interior; do contrário, não teria forma nem força para atuar como símbolo! A velha espelha quem pode substituir a mãe; é a mesma imagem da madrasta, frações de bruxa e fada, em sua maternidade ancestral, um convite nutriz e, ao mesmo tempo, devorador.


É esta ideia que surge na ilustração de Victor Escandell, às primeiras páginas do livro João e Maria, em uma versão espanhola seguindo de perto o conto configurado pelos Grimm, na tradução de Andrea Ponte (Escala Educacional, 2011). Como uma avó inventando parlenda, a voz da velha suave soa:
“Será que é a ratinha que está roendo a minha casinha?”.
O menino responde com inteligência e imaginação:
“É o vento, é o vento, aquele que faz girar o cata-vento!”


A partir dos Grimm também, è giusto, a versão italiana de Roberto Piumini para João e Maria traz Anna Laura Cantone nas expressivas ilustrações coloridas de um humor cômico e cativante; tradução de Daniela Bunn (Positivo, 2010). E vale lembrar que a história não deixa de mostrar o caldo de netos que, por vezes, oferecemos a nossas avós. Diz a velha desgostosa a respeito de João: “Ah! Come, come e não engorda!”. E quanto trabalho na hora de abrir o forno...


Há uma versão brasileira, registrada por Câmara Cascudo (1919) que, quando a velha bate nas brasas e labaredas, queimando-se toda, gritava toda desesperada: “Água, meus netinhos!”, mas os sonsos respondiam: “Azeite, senhora avó!” E, como são muitas as portas que me levam aos contos, tiro da estante...


O indefectível compacto 33 ½ de vinil azul com João e Maria, na adaptação de Elza Fiusa e a orquestração de Radamés Gnattali (1961). Sem madrasta na história, os irmãozinhos perdem-se na floresta na hora de levar o almoço para o pai, conforme se vê na capa do disco. E a velha bruxa-avó era, sim, uma fada!

* * *

P.S. Compare as duas produções para a Coleção Disquinho.
Serão uma versão dos anos 40, mais próxima do texto dos Grimm, e outra dos anos 60, com outros elementos introduzidos no conto tradicional? Quem tiver qualquer informação, compartilhe!



* * *

20 de julho de 2012

para sempre vermelho

Temporada de contos e recontos, 7


Dizem que Chapeuzinho Vermelho não é propriamente um conto folclórico, muito menos conto de fadas, tendo surgido como uma lenda local de âmbito restrito às regiões europeias mais centrais, ao longo do Loire rumo ao Tirol, tão ao norte da Itália, indo à meio caminho dos Alpes, quem sabe, alcançando o que hoje muitos chamam Suíça, quase Eslovênia... E são muitos os estudos sobre as origens, os significados, as aplicações do conto à vida prática ou psicológica, em um volume de notas volúveis entre o anseio infantil e o imaginário, nem sempre freado, dos comentaristas adultos. Pouco importa.

Chapeuzinho Vermelho é dessas matérias literárias de alta plasticidade textual: quem não conheceria um conto, seu reconto, paródia, paráfrase, anedota, caso, chiste, animação, thriller, leitura, tradução, transcrição, ensaio fotográfico, ilustração, roupa, propaganda, jogo que trace o caminho da menina em direção à boca do Leitor, mais faminto e severo que o lobo? Angela-Lago bem definiu o conto-personagem como A Interminável Chapeuzinho Vermelho, dada a avidez que temos de buscar possibilidades para digerirmos a história... E há um insinuante vídeo de Jan Kounen, O Último Chapeuzinho Vermelho (1996), que não é apenas uma versão... Na floresta dos meios de produção de linguagem, Chapeuzinho Vermelho tornou-se um objeto-nexo-contexto de representações. É o que importa.

Mas, vamos aos livros.
I.

Na Espanha, dizem que Caperucita ganhou uma capa de sua mãe e Eva Navarro ilustra seu Chapeuzinho Vermelho de braços abertos para a vida. E o que leva na cestinha? Bolinhos de mel... O livro, com tradução de Andrea Ponte, diz seguir o caminho francês de Charles Perrault (1697), desembocando, no entanto, no final alemão dos Irmãos Grimm (1812): um caçador, mais um lavrador enchem a barriga do lobo com pedras (Escala Educacional, 2011).

II.

O italiano Roberto Piumini reconta Chapeuzinho Vermelho, a partir de J. e W. Grimm, lembrando que a avô dera à menina linda um chapéu de veludo vermelho... E os ingredientes da cesta – bolo e suco de uva – farão parte da ceia para festejar o fim do lobo e do conto! Ilustrado pelas pinceladas de Alessandro Sanna, o texto foi traduzido por Daniela Bunn (Positivo, 2010).

III.

Em uma proposta bem humorada, Chapeuzinho (Anuncie Aqui!) Vermelho pode ser considerado um “livro ilustrado com propaganda”, na concepção de Alain Serres (Scipione, 2011). O autor apostou no texto integral do conto de Charles Perrault, com tradução de Ana Luiza Baesso, e nas ilustrações de Clotilde Perrin, mas convidou diversos outros ilustradores para dar cor e uma linguagem própria a cada anúncio que invade as páginas do livro... Ainda que termine a narrativa, de acordo com a tradição francesa, a publicidade de um aparelho de telefonia móvel garante a reinvenção da velha história. Total cobertura de humor.


19 de junho de 2012

o enigma Rapunzel

Temporada de contos e recontos, 2


Há muitos anos, interesso-me pela história da jovem presa no alto da torre, vendo aí uma imagem axial céu-terra que constitui o centro da narrativa, entorno do qual gira o velho refrão: Rapunzel, Rapunzel, jogue-me suas tranças! Contudo, a história da moça de longas madeixas não parece ser das mais populares entre crianças ou mesmo especialistas de literatura infantil. Por quê?


Lembrando as lições de Propp a respeito do conto maravilhoso, conto de fadas ou conto de encantamento, talvez “Rapunzel” não seja exatamente um conto, uma vez que, nele, não se encontram os objetos mágicos com a função de ajudarem a personagem a vencer obstáculos e inimigos em seu caminho.

Na versão dos Grimm, de 1812, a jovem e o príncipe certamente sofrem influência da velha má, ou Senhora Gothel, mas não a vemos usar qualquer forma de magia contra os protagonistas: ela usa apenas a força, cortando os cabelos de Rapunzel e arremessando o rapaz contra os espinheiros ao pé da torre; ela também não é morta ou destruída... e sua permanência, após o final feliz, provoca grande inquietação. Os encontros amorosos sob o manto prodigioso da noite não se escondem sob a superfície do texto e o príncipe, ainda que vagando anos e anos, às cegas, encontrará a amada na companhia dos filhos gêmeos que deixou em seu ventre: um menino e uma menina. Vertidas dos olhos dela aos olhos dele, duas lágrimas recuperam milagrosamente a visão do moço, o caminho para o castelo e a possibilidade de viverem juntos para sempre.

 Aventurando-nos rumo ao passado, em 1634, no livro de Basille, encontraremos um conto napolitano chamado “Petrosinella” que apresenta toda sequência desde o nascimento da menina até a prisão na torre, mas termina de um modo bem diferente: com a perseguição mágica de uma ogra feiticeira aos dois apaixonados. Por sua vez, outro conto da mesma coletânea, “Tália, Sol e Lua”, anterior à versão francesa de A Bela Adormecida, traz elementos que ressurgem na Rapunzel alemã, como o isolamento nupcial na floresta e as duas crianças que, no deserto, nascem. São figuras que pertencem a um arquivo cosmogônico da memória humana, falando-nos da Ordem, a divisão do tempo, em um território iluminado pela alternância do Sol e da Lua, em volta do eixo amoroso que uniu a donzela e o príncipe. De fato, o nascimento do menino e da menina, em pleno deserto, simboliza e promete continuidade ao tema do casal céu-terra e dos ciclos da natureza exuberante...


De outra parte, sem lenda, sem tanto mito, ou medo de arriscar-se na noite das narrativas, Rapunzel é um texto, ainda hoje, sem fortes marcas de fixação artística. Tudo no conto me obriga a pensar em reminiscências, às quais ainda faltam uma forma e sequência conclusiva. Os motivos flutuam, o que muito favorece o exercício do reconto – como no livro de Sarah Gibb, Rapunzel, a partir da versão dos Grimm, texto de Alison Sage e tradução de Fabiana Medina (Caramelo, 2010).


As imagens de Sarah Gibb, realizadas em computador, resgatam a linguagem dos velhos livros ilustrados de contos, revelando transparências e silhuetas que evocam as projeções da lanterna mágica e do tradicional teatro de sombras, tão rico em detalhes caros a Arthur Rackham. Objetos e móveis dos cenários, árvores e animais da floresta, até mesmo o corpo dos personagens repetem-se em diferentes combinações, sugerindo a possibilidade do movimento ao olhar. Sem deserto ou crianças antes do casamento, vem delicado e elegante o texto. “Quanto à bruxa, ela continuou amarga e maldosa e só lhe restou se esconder num assombroso castelo e nunca mais sair de lá.”

3 de maio de 2010

Um lance de dados e um lobo

Ah, Mallarmé, que sorte para a menina!


“Vê, Chapeuzinho Vermelho, que lindas flores há por aqui. E como os passarinhos estão cantando! Caminhas muito séria, sem sequer olhar para os lados, como se estivesses indo para a escola, sem prestar atenção na beleza da floresta.” (Contos de Grimm: obra completa, trad. David Jardim Júnior. Villa Ricca, 1994 p. 330).

2 de outubro de 2009

cores e ambientes instintivos

por Peter O'Sagae


Da voz à palavra escrita, os contos tradicionais guardaram imagens sabiamente mágicas na medida em que libertam a mente para o sonho. Mesmo um conto que se inicia tristemente e desperta sentimentos de desamparo, possui nuances de força, brilho e otimismo. Assim, para escapar da floresta, João e Maria ludibriam a má sorte com pedrinhas brancas cor de lua e encontram o caminho de volta para a casa. No entanto, ao marcarem a trilha com pedacinhos de pão, as crianças são conduzidas à ventura em bico de passarinho...

Inspirado no conto registrado pelos Irmãos Grimm e nas pinturas de Kirchner, o segundo livro de imagem de Taisa Borges: João e Maria (Peirópolis, 2006) parte do Romantismo no início do XIX para refugiar-se nas cores e nas formas do Expressionismo, às vésperas da Primeira Guerra. A autora adivinha e alinhava tradições pictóricas e literárias num gesto particular de contigüidade. Entre a angústia e a pobreza, existe, pois, um mal estar social representado “nas formas quase sempre pontiagudas e nas cores, às vezes sombrias, e outras puras e quase sem nuances, criando ambientes instintivos e, em certos momentos, agressivos”, de acordo com Taisa.

Ao instinto, então. Que o leitor se deixe capturar — e, mais que compreender com a razão, sinta o efeito das cores em sua sensibilidade. Desde as paredes internas da casa, tingidas de vermelho intenso e dramático, à noite sem fim através da floresta, a trama visual evoca o estado de abandono das personagens. E João e Maria têm figuração em branco e preto, alheios às cores, de fato, às outras dores.
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