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24 de junho de 2017

de volta ao boi

peter O sagae


Boi não é livro. Boi não é faixa de disco. Nem mesmo um vídeo, essa espécie de fotografia sonora em movimento... Boi é função, quem o confina? Festa popular, alegria, ritmo, lírica, fantasia, devoção – Boi é o brilho do sol à noite, quando incendeia, aquece e ilumina. Boi assim se escreve com letra maiúscula, não é brinquedo para crianças. É para todos. Esta é a ordem que São João mandou...

Talvez por isso, outras razões, talvez pelo bem de quem gosta de cantar vivas toadas, Marilda Castanha confesse as dificuldades de admirar o festejo, apenas por uma janela. Em uma das mais bonitas homenagens ao Boi-bumbá que a literatura infantil pôde produzir – o livro PULA, BOI! (Scipione, 2012), enfrentamos a luta entre a vida e a morte, entre o espaço e o pedaço do que foi, do que é, do que será o Boi.


Como num teatro sem chão e sem teto, o livro se abre com um proscênio de páginas brancas: bem ali, pássaros, pousados no corpo longo do mandacaru, tagarelam. Que o público saiba imediatamente: esta é a história de uma menina que adora exposições e museus, gatos, cachorros e bichos-preguiça. Mas, o principal é – esta é a história de um encontro! A personagem com chapéu, vestido quase sempre abaixo dos joelhos, óculos atentos, levando uma máquina fotográfica ou uma caderneta onde registra tudo que vê, pulou de outros livros para dentro de uma nova aventura. Pra dizer a verdade, a menina de Marilda saiu de dois livros de imagem para encontrar o Boi-bumbá em uma paisagem bem maior que qualquer museu de artes ou ciências naturais. Daí, pressentiram elas – autora e personagem – uma janela só, a linguagem visual, seria insuficiente para comunicar o Boi, seu mundo, seu universo.


Cores cantam e um galo eleva um céu sentimental, rosa. Palavras despertam a manhã. Boi-bumbá não é homem, não é carcaça de veludo bordado apenas. É um ser único, ardente, animal e humano, na tranquilidade dos afazeres diários... A primeira refeição, depois ouvir as notícias locais, e cuidar de seus pássaros, e trabalhar o roçado sob o sol quente do sertão. Vindo lá do fundo da estrada que começa no longe dos livros, entra a menina na história...


A visitante quer logo saber qual é o segredo do Boi-bumbá, mas ele a convida para conviver um tempo com sua família até o dia da festa.


A menina participa da vida daquele lugar: plantar, colher, preparar os alimentos, ir à feira – que também é dia de trabalho, porém festivo, diferente, entre a venda e a troca, os produtos da terra, o artesanato, as notícias boas e ruins que trazem as pessoas. A festa (que é preciso esperar ainda) será a continuidade desse andar para conhecer. Boi é participação, as horas em véspera. Boi é enredo de muitas encruzilhadas no caminho das histórias e da ação coletiva. E Pai Francisco e Catirina comparecem, debaixo do céu estrelado de junho. A menina descobre que Boi é a morte e é a vida que magicamente se levanta todos os dias nos ritos da natureza.

Ao fim de uma sequência descritiva, apaixonada, rememorativa, prenunciando o inverno que é a estação das chuvas para o sertanejo, Marilda Castanha desvenda o segredo que não precisava de pergunta, nem espera por resposta. O Boi é realmente muito amplo. E é promessa de estar de volta, na próxima festa, se mais um ano permitir...


Boi é confiança que o Céu há de querer.


Ora, das mãos de Marilda às asas de Josimar Fernandes de Oliveira – Jô Oliveira!, vamos ao Boi celebrado em cores na vibração de 1974, 1975, quando o artista pernambucano escreveu, ilustrou e publicou um trabalho sobre o Bumba meu Boi, pela Escola Superior de Artes Industriais... na Hungria. Como uma série de tableaux vivants, os personagens típicos da Zona da Mata retornam agora contornados pelas trovas do poeta Marco Haurélio, através do livro MATEUS, ESSE BOI É SEU (DCL, 2015).



Aqui se resgata um fragmento do Boi, o entrecho cômico-dramático, em uma das muitas variantes; conta-se da paixão de Mateus por Catarina e da prova de amor que a caprichosa morena lhe exige: arrancar o coração de Mangangá, o boizinho mais belo e estimado do Coronel, aos cuidados do jovem vaqueiro. Nem Santo Antônio parece ajudar a alguém ter juízo!


E a carreira tem lugar, incluindo diversas figuras do folguedo dançado por ocasião do ciclo natalino, por vezes até o Carnaval, na companhia do Cavalo-Marinho, representando o chefe da polícia que leva Mateus para mofar na prisão, os soldados, o Curumim, os Caboclinhos que defendem o vaqueiro... e está armada a confusão, a luta entre os brincantes.


A narração é bastante resumida, ágil para os pequenos leitores, deixando as entrelinhas para a memória dos mais velhos que alhures já conheceram o desígnio do Boi, em encenar o encontro de três culturas.


Eu quero ver quem vai à rua, eu quero ver acontecer! 


Boi é outra brincadeira nas mãos de André Neves a inventar o TOMBOLO DO LOMBO (Paulinas, 2016), a partir de duas tradições populares.

O que se mostra desde o título é o bem-conhecido brinquedo cantado do tangolomango que vem emprestar a fórmula repetitiva da lengalenga a fim de nos ensinar a contar ao contrário, como que subtraindo a cada vez um elemento da sequência numérica. Quase sempre, há uma família, ou uma casa com nove pessoas, uma velha com nove filhas, e elas vão misteriosamente desaparecendo até sobrar apenas um – para contar a história. Ou nenhum! Todos conhecem a parlenda. Mas, aqui, no lombo do boi, vão nove músicos com seus instrumentos.


Preenchendo a estrutura da brincadeira, estão os personagens encontradiços em algumas das variantes do Bumba-meu-boi, a exemplo do Coronel com o tamborim, a Índia que não sabe tocar trompete, o Padre batendo o sino, o vaqueiro Bastião levantando a cuíca, o Jaraguá parará parapá, sem faltar, no cortejo de "Mestre" André Neves, as figuras centrais do folguedo. O mote principal é descobrir quem deles quis comer um pedaço da língua do boi...

O divertido do tombolo não é apenas ver, um a um, os brincantes tombarem para trás. Não, mesmo. O divertimento está em dar movimento ao Boi. Página a página, o que estava embaixo foi para cima, o que havia em cima desceu... o livro gira em nossas mãos, da esquerda para a direita, como os ponteiros do relógio ou quando se fecha a torneira, como se dependesse apenas do leitor derrubar os personagens para fora do lombo do boi.


Esta função participante do livro, digamos, cria uma imagem cinética – uma coreografia para as mãos. Seria o pequeno leitor o décimo brincante, aquele que se esconde, a tripa vivente dentro da carcaça do boi?

Além de bailar explicitamente com o suporte material, encontramos um importante emblema da cultura nordestina nas reinações de André Neves – a chuva, a renovação, o nordeste que renasce para viver o Boi outra vez.


Lá vai, lá vai, lá vai...
Rasteirinhas pelo chão!
Borboletas no Inverno, é meu boi,
Andorinhas no Verão.

27 de março de 2013

você acredita em histórias sem palavras?

Três livros de imagem brasileiros, por Peter O. Sagae


Entre diferentes tipos de livro de imagem, muitos são os títulos a nos trazer uma narrativa sucessiva – segmentando, através de várias páginas, um evento que poderia ser facilmente descrito em uma única frase, com pouquíssimas orações coordenadas ou meramente justapostas.

Por exemplo: uma bola de borracha cai do cesto carregado por um índio, passa diante dos olhos de um menino e vai descendo a ladeira estreita, atraindo a atenção das pessoas, principalmente dos moleques que a querem alcançar.

A narração, assim tirada, soa bastante mecânica a nossos ouvidos até que...  

Até que a bola salta à testa de um negro escravizado e é desviada a outro que amortece sua velocidade no peito, que lança a bola a outro, que a leva adiante 
a mais outro: a descrição desses movimentos rompe a primeira sequência narrativa, mas não demora muito para a bola tornar a rolar pelas ruas com adultos e crianças atrás.


Como a estrutura de um livro de imagem permite ações simultâneas, outros personagens podem integrar a sequência de páginas: surge, pois, um homem louro montado em um cavalo baio no contra-fluxo da turba agitada. O animal se assusta, empina a montaria mas, logo, alguém aparece para controlar a bola nos pés. É nesse jogo de ação e descrição que a narrativa visual vai sendo construída. A bola retoma a descida pelas ruas e já o cavaleiro segue atrás do grupo, até um largo de chão mais plano. O que se vê, então, é uma multidão de movimentos tão típicos de um jogo de bola sob o olhar sorridente do homem sobre o cavalo. A emoção e o esforço para obter o controle da bola são bastante expressivos nos desenhos de Jô Oliveira, no livro OS DONOS DA BOLA (Escala Educacional, 2010). De fato, quem inventou os primeiros dribles também inventou um jogo. No entanto, os homens da guarda põem um término na alegria geral, restando no largo apenas o cavaleiro e a bola de borracha...

A narrativa que vinha reduzida à lógica consecutiva de ações atrás de ações, passa a exigir um pouco mais de interpretação sobre as consequências do que virá a acontecer: o homem louro apeia de seu cavalo, observa, aperta, carrega a bola – para onde? Ele embarca em um navio e aparece, dentro da cabine, explicando os movimentos do jogo que viu anonimamente inventado. A última página do livro revela a imagem, atravessando as ondas, de um navio com uma bandeira inglesa.

Ficam as perguntas para o leitor: quem são os donos da bola, quem são os donos do jogo de futebol? Obrigando as relações palavra&imagem ao didatismo verbal, a quarta capa informa que a história aconteceu no antigo Morro do Castelo, no centro do Rio de Janeiro, ponto importante da fundação da cidade. No entanto, nenhum texto esclarece se é História ou fato imaginado toda essa brincadeira com a bola entre os pés de meninos e homens escravos, ante a admiração do estrangeiro inglês... Tudo isso realmente se passou na Corte de D. João VI?


Integrando a mesma coleção, A BUSCA DO CAVALEIRO, de Fernando Vilela (2009), revela ser outra narrativa sucessiva: um cavaleiro medieval, com sua lança, enfrenta um dragão E, montando a fera, com sua espada, enfrenta uma gigantesca cobra amazônica E, montando o monstro, arremete contra um palácio árabe, onde enfrenta muitos soldados E, descendo e subindo escadas, encontra sua princesa E, finalmente, escapa às costas de um pássaro enorme que ganha distância, desaparecendo no céu. Ora, tempos atrás, pensei ver não exatamente uma narrativa, nesta sequência de imagens, mas uma espécie de rapsódia visual – certo fragmento ou composição livre, utilizando processos imagéticos e efeitos variados.


Com bastante humor, Renato Moriconi nos presenteia com o livro E A MOSCA FOI PRO ESPAÇO (2011) que narra, de forma sucessiva igualmente, os apuros dessa pequena e pegajosa viajante por alguns lugares da cidade de São Paulo – sim, uma das primeira imagens em página dupla descreve o coração da metrópole com as inconfundíveis referências ao ondulado Edifício Copan, o Terraço Itália, o MASP e o Minhocão, as antenas da Avenida Paulista, entre outros prédios, helicópteros, coberturas e parabólicas.


Entrando por uma janela, a mosca entra também na boca da velha que estava com a boca aberta, mas, imediatamente, é soprada para dentro de um balão vermelho. O vento vem e leva a bexiga para as mãos de um balonista em uma viagem pelas três Américas. Uma águia rouba o balão vermelho e vai pousar... no alto de um foguete em ignição! E a mosca, ainda presa, vai realmente pro espaço... Mas, o desfecho, não conto, não! O trabalho gráfico de Renato Moriconi nos reporta ao ambiente dos desenhos animados, dos intertextos literários e a irreverência de Juarez Machado, na TV ou em seu primeiro livro de imagem ;-)

19 de novembro de 2012

um abraço Brasil-Angola

Temporada de contos e recontos, 9


Jô Oliveira ilustrou A ÁRVORE DOS GINGONGOS, da escritora angolana Maria Celestina Fernandes (DCL, 2009) com os tons mais vibrantes de cobalto, violeta, magenta, os vermelhões muitos e um amarelo bastante ensolarado, para nos fazer sentir o calor e a língua portuguesa que entrelaça gentes, sabores, memórias à sombra querida de uma frondosa mangueira.


Ou, pelo menos, tal poderia ser o desejo de fazer qualquer criança estender o braço para pegar uma fruta madura e gostosa da árvore... Mas, não! Os gingongos caçulês não vão deixar.


Porque é assim: onde nascem gêmeos, vira toda a vida da casa para satisfazer as vontades dessas crianças. Que caprichosas, crescem, que danadas, mandam e determinam como as coisas devem ser! Pois, apesar dos outros sete filhos, Nga Maria e Papá Policarpo tinham grande adoração pelos mais pequeninos, uma menina chamada Eva e um menino chamado Adão, mimados e temidos pela vizinhança porque trariam azar para as pessoas, se tristes ou contrariados. É pra ter muitos cuidados, ehn!


Nascida em Lubango, Maria Celestina originalmente publicou o texto em 1993 (Portugal: Edições Margens) e dá testemunho do sincretismo que faz Angola orgulhar-se de suas tradições. A história atualiza a mitologia dos quimbundos a respeito dos gingongos ou jingongos Mpèmba e Ndèle que remotamente povoou o país. Em especial, em Luanda, onde a autora viveu grande parte de sua vida, os gêmeos são tratados com deferência, como portadores de boa sorte para as famílias, ainda que os velhos afirmem que eles possam ser potencialmente malignos, pois seus espíritos têm origens entre os antepassados ou as sereias... Ora, o nascimento duplo é uma reminiscência das antigas histórias ou real intrusão dos poderes superiores na vida cotidiana, às vezes, uma benção, d’outras, uma maldição. E a escritora revive as marcas ambíguas perante o divino, multiplicando-o com nomes bíblicos, – e fazendo surgir uma velha curandeira com amuletos, rezas, incenso, roupas de pano cru com símbolos azuis e vermelhos para Eva e Adão crescerem com paz e saúde; – e dando também às crianças o sacramento do batismo, quando receberam novos nomes, Manuel e Manuela, para homenagear, no papel, o padrinho branco.

A coesão social aí ainda advém da oralidade. Através dos pedidos, promessas e outras formas da palavra falada, os antigos mitos fazem despertar alguma razão sobre as emoções e os medos: vai um dia, os caçulês exigem a posse da mangueira do quintal e os pais, para evitar maka, birra e choro, acabam concordando. No entanto, quando as flores se transformaram em frutos... nenhum dos irmãos mais velhos, ninguém dos vizinhos, quis saber das proibições – e tempestivamente os gêmeos temperamentais adoeceram. Ah, se morrem, azar, muito azar para todos! Mas é neste ponto que uma nova acústica de consciência ilumina o respeito que os gingongos devem ter frente à própria comunidade, fazendo-os vencer o egoísmo tão infantil com que eles mesmos foram nutridos.


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