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15 de abril de 2016

dentro de um dicionário

Peter On Instragram


Nunca fui grande admirador de fábulas, só algumas (as ainda possíveis de ler uma segunda vez...) Aqui vai um apólogo que acontece dentro de um dicionário. As palavras não aguentavam mais ser mal usadas, e a Verdade e a Mentira se unem para desfazer os mal-entendidos e os malefícios entre as pessoas, e vão bulir com o jogo de figuras sem escrúpulos que alteram o sentido da realidade em uma frase, um slogan, uma manchete, uma moral falaciosa, um pensamento turvo para enganar as pessoas de boa-fé. A REVOLTA DAS PALAVRAS, de José Paulo Paes com desenhos de Angela Lago #companhiadasletrinhas (1999) #literaturainfantil #josepaulopaes #angelalago


Prêmio Jabuti 2000 de Melhor Livro Infanto-Juvenil

16 de abril de 2013

era cigarra, era formiga

peter o.o sagae


Nunca pude saber se as formigas têm dentes para sorrir pois, mesmo banguelas, o fato não as impediria de cair na risada contra a cigarra, tal como fabulou Esopo a respeito da colheita dos preguiçosos, num belo e distante dia de inverno...


Roberto Piumini transformou a velha fábula, curtinha, em uma lengalenga: pousada no alto de um galho, a cigarra azucrina um ratinho, uma abelha e, por fim, uma formiga fatigada que puxa um pesado grão de trigo. Ora, o frescor verde das folhas de verão desaparece, tudo seca e a cigarra vai ao chão. Zanzando por todos os lados, ela não mais estridula, mas treme com fome e com frio... Ao fim do percurso narrativo, encontram-se A cigarra e a formiga, com imagens de Nicoletta Costa e a tradução de Daniela Bunn (Positivo, 2010), no formigueiro.

A primeira suplica, a outra explica: “Para trazer aqui dois ou três grãos, duas ou três de nós trabalharam dois ou três dias.” Educadíssima a formiga. Porém, o coro de vozes não muda um til ou uma vírgula da lição, enquanto a cigarra se aproxima da porta: cantou, agora dance!


No entanto, dizem... que, ao escolher a história da cigarra e da formiga para encabeçar e abrir o volume de suas Fábulas Escolhidas, em 1668, La Fontaine não escondia a intenção de encenar o drama dos artistas – que cantam, pintam, escrevem – e enviar um recado político e polido ao rei e à sociedade frívola da época. A estratégia do escritor francês foi deixar os versos sem o arremate de uma moralidade explícita, permitindo que o final permanecesse em aberto para os leitores tomarem um ou outro partido. Na estante de livros, o busto de La Fontaine parece sorrir e piscar para nós, embora a verdade seja como sofrer mordedura de formiga: ainda nos coça...

Muitos escritores e poetas posicionaram-se em defesa da cigarra – o que é bastante óbvio, modificando principalmente o desfecho da narrativa com ampliações, remendos, arremedos, com a moral esópica às avessas, como as duas versões de Monteiro Lobato (1922), a narrativa rimada de Braguinha (nos anos de 1960) ou o poema de José Paulo Paes, breve sempre e bastante sensível, no livro Poemas para brincar, com ilustrações de Luiz Maia (Ática, 1989).

SEM BARRA

Enquanto a formiga
Carrega a comida
Para o formigueiro, 
A cigarra canta,
Canta o dia inteiro. 

A formiga é só trabalho. 
A cigarra é só cantiga. 

Mas sem a cantiga
Da cigarra 
Que distrai da fadiga,
Seria uma barra
O trabalho da formiga!



Por fim, Alessandra Pontes Roscoe também escreve, leva e traz A outra história da cigarra e da formiga, com ilustrações de Adilson Farias (Mundo Mirim, 2010), introduzindo um bem-te-vi para resolver o bate-boca ao pé do formigueiro. O texto possui uma divisão formal como se escrito em versos, deixando prevalecer, contudo, a feição da prosa em ordem direta:

A formiga, arrependida, 
percebeu que estava sendo metida, 
até mesmo um pouco exibida, 
achando que só o seu trabalho 
era importante na vida.

19 de outubro de 2010

e quem assoviou, voou... ?

tirando o pó da estante com peter o'sagae

Sei por ouvir contar o que um passarinho cantou: essa é a estratégia de duas obras da literatura infantil brasileira, em dois tempos tuitadamente diferentes.

Ao som do mar e à luz da reaberutra política do país, Ana Maria Machado fez canto e contracanto num reino-maravilha, onde o rei não enxergava os reais problemas da terra, perdido em meio a exuberâncias da natureza e a crença de viver num paraíso... Passarinho me contou (Nova Fronteira, 1983), agora com ilustrações de Lúcia Brandão (Global, 2009), faz chegar àquele reino um João e Maria retirantes que muito viram e muito tinham o que contar ao rei dos problemas da gente! Espinhos arranhando, panela e barriga vazia, peixes morrendo de sede, patrão mandando embora, e grande fome, fome e fome... Ora, o que um passarinho contou é coisa com que ninguém quer se comprometer — ou dizer quem contou... Será, então, fofoca?

Xô, xô, passarinho, voa e me leva embora, para uma década mais lúdica, para os poemas de José Paulo Paes: Um passarinho me contou, ilustrado por Kiko Farkas (Ática, 1996), ponte para outro tipo de identificação, para quem não quer apenas ouvir, mas tudo, na palavra, ver, rever e divertir-se: “eu vi um nó cego / andando de bengala / e vi uma andorinha / arrumando a mala”.

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