Hora de recolher os livros que aqui foram se acumulando em cima da mesa durante oito semanas... Esses títulos marcaram uma trilha de leituras compartilhadas complementares ao trabalho de textualizar histórias, prazeres, temores e outras invenções no curso Escrever para Crianças 2018.
Depois de Lobato, o que há? Foi interessante pontuar a incessante apropriação dos personagens da literatura universal até os mais contemporâneos: da comunicação narrativa de Dona Benta sobre as aventuras de Peter Pan (1930) à fome de brincar com o Lobo Mau, em tantos autores, o leitor cai dentro do livro com Alexandre Rampazo: ESTE É O LOBO (2016). A fim de desconstruir papéis ou os gêneros da literatura de tradição, o leitor passou a ser convocado a tomar decisões sobre como, onde e quando despertar uma história, e isso bem demonstra o capítulo inicial de Glaucia Lewicki: ERA MAIS UMA VEZ OUTRA VEZ (2006). Ou então Laura Rankin: POMPOM E BICUDO (1997). Ler para frente, ler para trás. Ler sob muitos ângulos, como propunha a coleção DOZE OLHOS E UMA HISTÓRIA, com Angela Carneiro, Lia Neiva e Sylvia Orthof, mais Elisabeth Teixeira, Roger Mello e Mariana Massarani nas ilustrações (1994).
Com um pé no conto e outro na fábula, um dedo apontando o universo mágico-simbólico e outro a alegoria/metáfora, vamos chegando às histórias de animais contemporâneas. Aqui é preciso também pensar na variedade de intenções: há sempre um texto atrás de novos textos, repetindo, parafraseando, questionando, parodiando, velhos modos de pensar e sentir a realidade... Como é “O lobo e o cordeiro” retomado por Millôr Fernandes: FÁBULAS FABULOSAS (1963)? E a “História de uma gata”, na tradução de Chico Buarque para OS SALTIMBANCOS (1976)? E olha ali o LIN E O OUTRO LADO DO BAMBUNZAL, de Lúcia Hiratsuka (2004).
O leitor está sempre inscrito no texto, daí a importância de ancorar bem, logo de saída, sua presença na cena da comunicação narrativa. E o escritor é o narrador? Um ou outro pega a criança pela mão para atravessar a história? Fomos aos diálogos com uma possível Clarice Lispector, em O MISTÉRIO DO COELHO PENSANTE (1967), e ao fio que não cessa de torcer a Sorte e a Preguiça, no mirabolante corre-corre de Roger Mello: MENINOS DO MANGUE (2001). E então: conto, fábula, narrativa em encaixe ou tudo ao mesmo tempo agora?
A construção do personagem de ficção passa por muitas dúvidas e descobertas: o que faz, o que deixa de fazer, o que diz, mas – principalmente – tudo o que poderá silenciar para o Outro imaginar e entender... Ora lemos um capítulo do Italo Calvino: O VISCONDE PARTIDO AO MEIO (1952), ora outro de Lygia Bojunga: FAZENDO ANA PAZ (1991) e, então, tendo construído o seu personagem, quem terá coragem para descosê-lo? Vamos espiar o desenho “derretendo” INDO NÃO SEI AONDE BUSCAR NÃO SEI O QUÊ (2000).
Indo e já não sabemos aonde... Um pouco de luz, eu peço a José de Alencar: LUCÍOLA (1861), nessa luta entre o narrador e o seu personagem. Como eles se veem? Outro José, Saramago, finge doçuras em A MAIOR FLOR DO MUNDO (2001) e, então, Angela vira Angelus Lago em A BANGUELINHA (2002). Já sabemos, não sabemos, contudo gostamos quando o narrador vem e espinafra com o leitor! E lhe dou o ultimato: O PERSONAGEM ENCALHADO (1995).
Quanto mais a teoria nos desafia, os textos vão se abrindo descomplicados, bonitos e simples. Um afeto, eis o leitor real se identificando com o personagem-leitor inscrito nas páginas de Don e Audrey Wood: MEUS PORQUINHOS (1992). E podemos escolher o verso ou a prosa nos livros ilustrados de Mary e Eliardo França... Sintagma narrativo – isto tá fácil? BANANA (1998). Ou voar ou mergulhar no paradigma que empilha possibilidades, DIA E NOITE (1980). Costurando escolhas numa infância reinventada com TANTOS CANTOS (2012).
Você pode não acreditar, mas gosto dos textos simples... nos quais é preciso assumir que talvez não seja fácil reduzir a linguagem verbal e visual à uma nobreza muito própria, dentro de um projeto gráfico enxuto, sem páginas e páginas que cansam a mão do pequeno leitor. E Eva Furnari joga com o leitor: FILÓ E MARIETA (1983), AMENDOIM (1983), livros de imagem são texto. De Luiz Gouvêa de Paula e Ciça Fittipaldi: O TUCUNARÉ (1989); uma aula de narrativa visual! De Stephen Michael King: O HOMEM QUE AMAVA CAIXAS (1995), a articulação do livro ilustrado não-brasileiro.
Então, um inesperado encontro com o texto que nos devora, Guimarães Rosa: FITA VERDE NO CABELO (conto publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, no dia 8 de fevereiro de 1964). Mas, aqui, a velha nova história vem com os desenhos de Roger Mello (1992) emoldurando devaneios e silêncio. O que é um texto? Quais os fatores de textualidade? Leonor Lopes Fávero responde. Para quê o texto literário, para quê a busca de uma descrição singular? Chklovski responde. E a nossa inspiração para todos os incursos: “De que serve um livro sem figuras nem diálogos?” Alice pergunta (1865), Lewis Carroll não responde. Claramente.
E um finalmente para ir em frente... As travessuras de Suzy Lee são lembradas em A TRILOGIA DA MARGEM (2012). Escrever, desenhar é arremeter-se à página. O livro para crianças e jovens pede ou não pede ilustrações? Os caminhos (não os conselhos) são muitos, mergulho, desapego, renascimento, como A EXTRADIORNÁRIA JORNADA DE EDWARD TULANE, de Kate DiCamillo (2007).
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9 de junho de 2018
dobras da leitura em curso
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
Alexandre Rampazo,
angela-lago,
Ciça Fittipaldi,
Clarice Lispector,
Eva Furnari,
Glaucia Lewicki,
José Saramago,
Lewis Carroll,
Lúcia Hiratsuka,
Lygia Bojunga,
Mary França,
RHJ Editora,
Roger Mello,
Suzy Lee
13 de abril de 2018
O chão é o mapa de tudo
Peter O'Sagae
Um livro sempre começa em outro livro, ponte para a vida e para os sonhos semeados na vida de um autor. Isso posso dizer do universo poético visual de Lúcia Hiratsuka, refazendo seus passos de um desenho para uma confissão, de uma palavra breve a uma novela, dos antigos ideogramas às suas próprias ilustrações, das antigas lendas à própria voz, enfim, de um conjunto de gestos familiares de sua infância à constante reelaboração de um quintal, sob o signo do imaginário...
Aí já não se tem mais a vida, mas a sugestão sobre ela.
O livro CHÃO DE PEIXES (Pequena Zahar, 2018), tão longamente esperado e conhecido em forma de esboços e rascunhos por diversos amigos de Lúcia Hiratsuka, possui uma gestação de muitas estações, paradas e volteios. Podemos anunciar que virá a ser o primeiro livro de poesia da autora, porém desconfio que isso não seja verdade.
Abro o livro, ao acaso, para encontrar um haicai. Em outras páginas, a estrutura rígida da tradição poética japonesa se desfaz no acento lento de uma voz que arrasta, que sabe, um graveto pelo quintal de outras combinações de som e imagens. Lúcia sempre quis contar histórias com seus traços e não escapou à fabula: eis, então, um apólogo sobre a exuberância, a cor, a forma, a simplicidade, numa predileção por vários domingos, entre a abóbora e a berinjela.
Mas onde tudo isso começa? Qual o mapa de seus livros?
Mudemos o tom: em outubro de 1997, Lúcia havia terminado de ilustrar o livro Batiyan, vem brincar! do casal Marilda e Guilherme del Campo.
O desenho era ainda bem suportado pelo contorno contínuo, a aquarela que descia sobre o papel em meio a tinta acrílica e pontos opacos de guache. Mas era, na biografia na quarta capa, que Lúcia Hiratsuka começava a traduzir afetivamente suas vivências:
A descoberta dos ideogramas e da própria imaginação se apresenta em contraste e complementariedade, acerca dos valores ancestrais japoneses e de sua necessária atualização a um modo brasileiro de ser. Aos filhos e netos de orientais, isto é muito claro: o rosto, a língua, o código, um lugar no passado que não nos pertenceu. Para superar a ambivalência, Lúcia Kyoko, como a personagem de Os livros de Sayuri (2008), requer para si outro modo de reconhecer-se:
Sim, o quintal, na obra de Madame Hiratsuka (como brincam os amigos), é um lugar de transposições simbólicas. Entre a casa e as estradas do mundo, o quintal se define como um lugar onde se deseja permanecer e, simultaneamente, que se deve atravessar. Em muitos livros da autora, podemos encontrar sua fixação aos meios móveis: desde a travessia de uma menina, ao modo de Chapeuzinho Vermelho, na narrativa visual Um rio de muitas cores (1999), o outro barco que afetuosamente balança a memória da avó materna Orie (2014), os bisavós barqueiros, caminhos líquidos que alcançam novas paisagens e cidades; por terra, roda, linha de ferro e asfalto: a bicicleta de O guardião da bola (2015), o fusca de A visita (2011), Na janela do trem (2013), O caminhão (2017), este último com a dedicatória: para aqueles que carregam o cheiro da terra e as cores de longe.
Os caminhos todos já estavam desenhados, numa distração numa corrida de caracóis ou no parentesco sem fim das formigas... Sabe o segredo de Drummond? No meio do caminho tinha uma pedra, uma montanha! E ela teve de subir, subir muito alto. Em seguida, descer e descer... O objeto da percepção transfigura-se em um objeto da imaginação.
Assim, as páginas de CHÃO DE PEIXES são quadros de outra memória. Cada abertura apresenta um fotograma em palavras e sumi-ê, o desenho gestual que não admite retoques, expresso tradicionalmente com tinta negra. Nas pinceladas de Lúcia Hiratsuka, no entanto, adaptou-se e absorveu cores. São vinte composições, ou registros, terminando com uma outra sorte de amadurecimento: metalinguagem.
Imagens
Pinturas feitas de instantes,
de chuvas e luas,
entardeceres e noites escuras,
de toques e flores
na memória.
//.
/.
.//
P. S. Com CHÃO DE PEIXES, Lúcia Hiratsuka é a vencedora do Prêmio Sylvia Orthof 2018, concedido pela Biblioteca Nacional à Literatura Infantil (13 de nov. 2018).
Primeiro livro de poesia da autora, este chão é um exemplo de persistência na criação literária: palavras e imagens vieram amadurecendo brandamente, cuidando igualmente ao longo dos anos do tempo de recepção do leitor. Este é o chão do seu quintal, extenso chão de sonhos, sons ouvidos ao longe, dias em festa em suas memórias afetivas... Enfim, o quintal hoje é para todos nós!!!
Cf. www.bn.gov.br/…/premio…/premio-literario-biblioteca-nacional
Um livro sempre começa em outro livro, ponte para a vida e para os sonhos semeados na vida de um autor. Isso posso dizer do universo poético visual de Lúcia Hiratsuka, refazendo seus passos de um desenho para uma confissão, de uma palavra breve a uma novela, dos antigos ideogramas às suas próprias ilustrações, das antigas lendas à própria voz, enfim, de um conjunto de gestos familiares de sua infância à constante reelaboração de um quintal, sob o signo do imaginário...
Aí já não se tem mais a vida, mas a sugestão sobre ela.
O livro CHÃO DE PEIXES (Pequena Zahar, 2018), tão longamente esperado e conhecido em forma de esboços e rascunhos por diversos amigos de Lúcia Hiratsuka, possui uma gestação de muitas estações, paradas e volteios. Podemos anunciar que virá a ser o primeiro livro de poesia da autora, porém desconfio que isso não seja verdade.
extenso chão verde
ouço um mugido ao longe
eterno domingo
Abro o livro, ao acaso, para encontrar um haicai. Em outras páginas, a estrutura rígida da tradição poética japonesa se desfaz no acento lento de uma voz que arrasta, que sabe, um graveto pelo quintal de outras combinações de som e imagens. Lúcia sempre quis contar histórias com seus traços e não escapou à fabula: eis, então, um apólogo sobre a exuberância, a cor, a forma, a simplicidade, numa predileção por vários domingos, entre a abóbora e a berinjela.
Mas onde tudo isso começa? Qual o mapa de seus livros?
Mudemos o tom: em outubro de 1997, Lúcia havia terminado de ilustrar o livro Batiyan, vem brincar! do casal Marilda e Guilherme del Campo.
O desenho era ainda bem suportado pelo contorno contínuo, a aquarela que descia sobre o papel em meio a tinta acrílica e pontos opacos de guache. Mas era, na biografia na quarta capa, que Lúcia Hiratsuka começava a traduzir afetivamente suas vivências:
“Meus avós chegaram ao Brasil 70 anos atrás e se instalaram próximo à cidade de Duartina, interior de São Paulo. Nessa região chamada ASAHI, que significa sol da manhã, plantaram café, caqui, laranjas e criaram bicho da seda.Acredito que aí estejam as primeiras sementes, pista e peixe, germinando no chão. E talvez nem pudesse ser de outra maneira: o primeiro poema do velho/novo livro intitula-se “Quintal” fazendo referência a um tempo mágico, lendário e pessoal, à lua e ao coelho que lá habita fritando bolinhos. Contudo a tradição oriental cede a um imaginário diferente. No lugar de bolinhos de arroz, o eu-lírico de Lúcia aguardaria bolinhos de chuva!!!
“Eu também nasci e morei lá até os 9 anos. Meu Dityan me ensinava a ler e escrever em japonês e minha Batiyan me ensinava a fazer origamis e contava as lendas do Japão que ela ouviu da Batiyan dela.
“Naquela região ainda não havia luz e quando começava a escurecer, nossas brincadeiras prediletas eram contar estrelas e caçar vagalumes. A minha Batiyan, hoje com 96 anos, ainda vive e fica feliz em ver meus trabalhos, pois ela sempre se lembra do primeiro peixinho que desenhou para mim no chão do terreiro e que me despertou para o desenho.”
A descoberta dos ideogramas e da própria imaginação se apresenta em contraste e complementariedade, acerca dos valores ancestrais japoneses e de sua necessária atualização a um modo brasileiro de ser. Aos filhos e netos de orientais, isto é muito claro: o rosto, a língua, o código, um lugar no passado que não nos pertenceu. Para superar a ambivalência, Lúcia Kyoko, como a personagem de Os livros de Sayuri (2008), requer para si outro modo de reconhecer-se:
“Vou rabiscando no chão do quintal. Uso uma vareta, faço riscos bem grandes, lembrando o que ensinou o professor. Cada jeito de fazer os traços. De cima para baixo, da esquerda para a direita. Traço reto, traço em curva, traço que parece um pingo de chuva. Um bom jeito de estudar, assim, no chão, pena ter que apagar depois. Gosto de olhar para a minha letra. Torta, mas minha [...] Já sabia escrever: casa, pássaro, peixe, manhã, caminho, capim. Depois apagava e riscava de novo.” (pp. 59-60)A escrita-desenho revolve não apenas o chão de terra batida. Traz silêncios que falam e “mais rabiscos e rabiscos mil”, persistência em possuir o inefável da criação singela, efêmera, de pouca de extensão. Mas... como não ver que o quintal vira mar?
Sim, o quintal, na obra de Madame Hiratsuka (como brincam os amigos), é um lugar de transposições simbólicas. Entre a casa e as estradas do mundo, o quintal se define como um lugar onde se deseja permanecer e, simultaneamente, que se deve atravessar. Em muitos livros da autora, podemos encontrar sua fixação aos meios móveis: desde a travessia de uma menina, ao modo de Chapeuzinho Vermelho, na narrativa visual Um rio de muitas cores (1999), o outro barco que afetuosamente balança a memória da avó materna Orie (2014), os bisavós barqueiros, caminhos líquidos que alcançam novas paisagens e cidades; por terra, roda, linha de ferro e asfalto: a bicicleta de O guardião da bola (2015), o fusca de A visita (2011), Na janela do trem (2013), O caminhão (2017), este último com a dedicatória: para aqueles que carregam o cheiro da terra e as cores de longe.
Os caminhos todos já estavam desenhados, numa distração numa corrida de caracóis ou no parentesco sem fim das formigas... Sabe o segredo de Drummond? No meio do caminho tinha uma pedra, uma montanha! E ela teve de subir, subir muito alto. Em seguida, descer e descer... O objeto da percepção transfigura-se em um objeto da imaginação.
Assim, as páginas de CHÃO DE PEIXES são quadros de outra memória. Cada abertura apresenta um fotograma em palavras e sumi-ê, o desenho gestual que não admite retoques, expresso tradicionalmente com tinta negra. Nas pinceladas de Lúcia Hiratsuka, no entanto, adaptou-se e absorveu cores. São vinte composições, ou registros, terminando com uma outra sorte de amadurecimento: metalinguagem.
Imagens
Pinturas feitas de instantes,
de chuvas e luas,
entardeceres e noites escuras,
de toques e flores
na memória.
//.
/.
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P. S. Com CHÃO DE PEIXES, Lúcia Hiratsuka é a vencedora do Prêmio Sylvia Orthof 2018, concedido pela Biblioteca Nacional à Literatura Infantil (13 de nov. 2018).
Primeiro livro de poesia da autora, este chão é um exemplo de persistência na criação literária: palavras e imagens vieram amadurecendo brandamente, cuidando igualmente ao longo dos anos do tempo de recepção do leitor. Este é o chão do seu quintal, extenso chão de sonhos, sons ouvidos ao longe, dias em festa em suas memórias afetivas... Enfim, o quintal hoje é para todos nós!!!
Cf. www.bn.gov.br/…/premio…/premio-literario-biblioteca-nacional
13 de abril de 2016
muitos os cantos pra passear
Peter O.o Sagae
H. J. Koellreutter certa vez comparou o trabalho da composição musical ao trabalho das rendeiras de bilro: é o som que se trama, linha que se leva de um lado para o outro até aparecer o desenho sobre o tecido do silêncio. Pois lembro agora dessa imagem e não sei bem por quê... Talvez seja a simplicidade com que se pode fazer um livro.
Lúcia Hiratsuka atravessa os seus silêncios com palavras, desenhos e ruídos para revelar o espírito familiar, as brincadeiras, a máquina de costura da mãe, o tamanco das meninas, um trem que se inventa no quintal... São muitos os cantos pra passear, por onde passa um fio de brisa também passa alegria, memória e afeto.
Para leitores pequeninos, sim. E para quem viveu outros TANTOS CANTOS na infância. #editoradcl (2012) #literaturainfantil #luciahiratsuka capa, projeto gráfico e fotos adicionais: www.deborabarbieri.com.br
H. J. Koellreutter certa vez comparou o trabalho da composição musical ao trabalho das rendeiras de bilro: é o som que se trama, linha que se leva de um lado para o outro até aparecer o desenho sobre o tecido do silêncio. Pois lembro agora dessa imagem e não sei bem por quê... Talvez seja a simplicidade com que se pode fazer um livro.
Lúcia Hiratsuka atravessa os seus silêncios com palavras, desenhos e ruídos para revelar o espírito familiar, as brincadeiras, a máquina de costura da mãe, o tamanco das meninas, um trem que se inventa no quintal... São muitos os cantos pra passear, por onde passa um fio de brisa também passa alegria, memória e afeto.
Para leitores pequeninos, sim. E para quem viveu outros TANTOS CANTOS na infância. #editoradcl (2012) #literaturainfantil #luciahiratsuka capa, projeto gráfico e fotos adicionais: www.deborabarbieri.com.br
29 de novembro de 2015
Domingo eu vou.
Peter On Instagram
Domingo eu vou de carona com seu ABÍLIO BASÍLIO E SEU FUSQUETA, mais a costureira, um ator, uma tia carregando melancia, os trigêmeos, artistas de circo, a mulher-gorila... E olha que ninguém fica a pé, nesta história que Maria Amália Camargo escreveu e Silvana Rando ilustrou! #editoraabacatte (2011) #literaturainfantil #lengalenga #mariaamaliacamargo #silvanarando
Domingo eu vou NA JANELA DO TREM até o Mato Grosso visitar os primos, ver pássaros, pessoas e paisagens que passam, em uma viagem com Lúcia Hiratsuka. Pelos olhos do menino, sempre novos pensamentos. Pergunto pra vovó se estamos chegando. Ela responde que logo, logo. E o longe vai ficando perto... #editoracortez (2013) #literaturainfantil #luciahiratsuka
Domingo eu vou navegar do rio ao mar, com o VAPORZINHO de Enéas Guerra. O balanço da marola embala meu repouso e, quietinho, vou sonhando sob a luz do luar! Durante o dia, vou ligeiro, barriguinha quente, fumaça no céu... Está é uma viagem cheia de sensações, ritmos e sabores do velho vapor de Cachoeira. Informativo afetivo #solislunaeditora (2009) #literaturainfantil #eneasguerra
Domingo eu vou até O AEROCLUBE, porque ler é voar, como ensinava o pai, enquanto Alaor vivia de olhos pregados no céu e na coleção de figurinhas com aviões do mundo inteiro -- e o mundo inteiro do menino se transforma quando o filho do prefeito traz um avião de dois lugares para a pequena cidade... #editorapositivo (2014) #literaturainfantojuvenil #walthermoreirasantos ilustração #mateusrios
Domingo eu vou fazer A GRANDE VIAGEM em uma nave, quando todos estiverem dormindo. Escaparei pela janela do quarto, tocando as nuvens com as mãos e as terras distantes com meus pés... Um sonho proposto por Anna Castagnoli, com chapéu coco e imagens surrealistas de Gabriel Pacheco #oqo #editorapositivo (2012) #annacastagnoli #gabrielpacheco trad. Maurício S. Dias
Domingo eu vou A TODA VELOCIDADE com o imagiário de Marie-Laure Cruschi que trata, de maneira bastante livre, da performance de animais, veículos, objetos, fenômenos naturais ou astronômicos dos mais diversos. Para ver e comparar. Razões matemáticas, grandezas e medidas curiosas... #edicoessm (2015) #imagier #livroinformativo #cruschiform
Domingo eu vou de carona com seu ABÍLIO BASÍLIO E SEU FUSQUETA, mais a costureira, um ator, uma tia carregando melancia, os trigêmeos, artistas de circo, a mulher-gorila... E olha que ninguém fica a pé, nesta história que Maria Amália Camargo escreveu e Silvana Rando ilustrou! #editoraabacatte (2011) #literaturainfantil #lengalenga #mariaamaliacamargo #silvanarando
Domingo eu vou NA JANELA DO TREM até o Mato Grosso visitar os primos, ver pássaros, pessoas e paisagens que passam, em uma viagem com Lúcia Hiratsuka. Pelos olhos do menino, sempre novos pensamentos. Pergunto pra vovó se estamos chegando. Ela responde que logo, logo. E o longe vai ficando perto... #editoracortez (2013) #literaturainfantil #luciahiratsuka
Domingo eu vou navegar do rio ao mar, com o VAPORZINHO de Enéas Guerra. O balanço da marola embala meu repouso e, quietinho, vou sonhando sob a luz do luar! Durante o dia, vou ligeiro, barriguinha quente, fumaça no céu... Está é uma viagem cheia de sensações, ritmos e sabores do velho vapor de Cachoeira. Informativo afetivo #solislunaeditora (2009) #literaturainfantil #eneasguerra
Domingo eu vou até O AEROCLUBE, porque ler é voar, como ensinava o pai, enquanto Alaor vivia de olhos pregados no céu e na coleção de figurinhas com aviões do mundo inteiro -- e o mundo inteiro do menino se transforma quando o filho do prefeito traz um avião de dois lugares para a pequena cidade... #editorapositivo (2014) #literaturainfantojuvenil #walthermoreirasantos ilustração #mateusrios
Domingo eu vou fazer A GRANDE VIAGEM em uma nave, quando todos estiverem dormindo. Escaparei pela janela do quarto, tocando as nuvens com as mãos e as terras distantes com meus pés... Um sonho proposto por Anna Castagnoli, com chapéu coco e imagens surrealistas de Gabriel Pacheco #oqo #editorapositivo (2012) #annacastagnoli #gabrielpacheco trad. Maurício S. Dias
Domingo eu vou A TODA VELOCIDADE com o imagiário de Marie-Laure Cruschi que trata, de maneira bastante livre, da performance de animais, veículos, objetos, fenômenos naturais ou astronômicos dos mais diversos. Para ver e comparar. Razões matemáticas, grandezas e medidas curiosas... #edicoessm (2015) #imagier #livroinformativo #cruschiform
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
Abaccate,
Cortez Editora,
Edições SM,
Editora Positivo,
Enéas Guerra,
Gabriel Pacheco,
Lúcia Hiratsuka,
Maria Amália Camargo,
Mateus Rios,
Silvana Rando,
Solisluna Editora,
Walther Moreira dos Santos
26 de novembro de 2015
Tarde com pássaros.
Peter On Instagram
A coruja sabia como juntar tintas para tingir tecidos e... por que não as próprias penas? As cores dos pássaros, de Lúcia Hiratsuka (2015) Verde, turquesa, rosa e celeste vão surgindo em meio às delicadas e precisas pinceladas de sumiê, colorindo as penas do pavão, o bico do melro, até o corvo caprichoso... #editorarovelle #literaturainfantil #fabula
Tarde com pássaros. Todos aprenderam rapidamente a pescar, subir na árvore, cantar e voar. Ele não... Isso eu posso fazer, de Satoe Tone (2015) O trabalho da ilustradora japonesa é todo um algodão-doce. Sua fábula revela como alguns nascem para criar raízes, compartilhando alegria e beleza. #edicoessm #literaturainfantil #fabula #satoetone trad. Adilson Miguel
Tarde com pássaros. Os corvos precisam de asas bem grandes para voar, porém esta não é... A sorte de Pipo. "Já que todo mundo me chama de pinguim, só me resta tornar-me um", pensa o corvinho. Uma história que nos lembra como mergulhar na vida é tão belo e necessário quanto voar. Texto e ilustrações de Matze Doebelle (2013) #editorapeiropolis #literaturainfantil #fabula trad. Hedi Gnädinger
A coruja sabia como juntar tintas para tingir tecidos e... por que não as próprias penas? As cores dos pássaros, de Lúcia Hiratsuka (2015) Verde, turquesa, rosa e celeste vão surgindo em meio às delicadas e precisas pinceladas de sumiê, colorindo as penas do pavão, o bico do melro, até o corvo caprichoso... #editorarovelle #literaturainfantil #fabula
Tarde com pássaros. Todos aprenderam rapidamente a pescar, subir na árvore, cantar e voar. Ele não... Isso eu posso fazer, de Satoe Tone (2015) O trabalho da ilustradora japonesa é todo um algodão-doce. Sua fábula revela como alguns nascem para criar raízes, compartilhando alegria e beleza. #edicoessm #literaturainfantil #fabula #satoetone trad. Adilson Miguel
Tarde com pássaros. Os corvos precisam de asas bem grandes para voar, porém esta não é... A sorte de Pipo. "Já que todo mundo me chama de pinguim, só me resta tornar-me um", pensa o corvinho. Uma história que nos lembra como mergulhar na vida é tão belo e necessário quanto voar. Texto e ilustrações de Matze Doebelle (2013) #editorapeiropolis #literaturainfantil #fabula trad. Hedi Gnädinger
21 de agosto de 2014
ninguém apressa o rio
Peter O'Sagae
Quem vê o escuro peneirado de estrelas e ouve os grilos brilhando no capim? Com imagens sensíveis – transmitidas através do desenho e da palavra –, Lúcia Hiratsuka vem tocar a percepção do leitor para as distâncias que unem a terra ao céu, o perto e um horizonte desconhecido, o presente às lembranças. E é assim que as primeiras páginas do livro ilustrado Orie (Pequena Zahar, 2014) mostram o vento a passar, preenchendo a madrugada, uma garça voando em direção ao leste, uma pequenina borboleta branca no alvorecer dos passos de uma menina. Ela é Orie.
Na beira do rio, um barco balança e espera a família, acolhe cestos e fardos, tudo ali parece acomodado. A água dança com os peixes, com o remo que corta o caminho para a viagem acontecer. Então, a cidade chega com suas cores e tanta gente... Orie não sabe por quê é mais demorado voltar para casa! O barco nem parece um berço, o chão é duro. O remo de bambu vai e vem, recorta a água, mas – ninguém apressa o rio...
Lúcia Hiratsuka narrou, com frases curtas (o verbo caminhando sempre no presente do indicativo) e ilustrações singelas (traços sempre muito indiciais com o grafite correndo no sofisticado e rústico papel craft), um tempo de descobertas para a menina Orie, como a primeira viagem de barco para a cidade. É, pois, um tempo que não se apagou da memória e passou da experiência da avó da autora para o imaginário da artista, como uma presença revivida ou uma duração mágica das coisas que jamais terminam.
Pelas antigas paisagens do Japão, sons, cores e sensações despertam em um mundo apto a refazer-se a cada dia. E a narrativa balança serenamente como um pêndulo: o barco vai, o barco vem, o olhar através, as surpresas também...
A vida segue sua viagem e o leitor haverá de encontrar Orie, alguns anos depois, apressando os pés até o rio. Todavia, pai e mãe já partem com o irmão mais novo no colo. O remo toca Orie, os sentimentos a balançam. É um tempo para renovar os afetos, um tempo próprio: eternamente Orie...
Quem vê o escuro peneirado de estrelas e ouve os grilos brilhando no capim? Com imagens sensíveis – transmitidas através do desenho e da palavra –, Lúcia Hiratsuka vem tocar a percepção do leitor para as distâncias que unem a terra ao céu, o perto e um horizonte desconhecido, o presente às lembranças. E é assim que as primeiras páginas do livro ilustrado Orie (Pequena Zahar, 2014) mostram o vento a passar, preenchendo a madrugada, uma garça voando em direção ao leste, uma pequenina borboleta branca no alvorecer dos passos de uma menina. Ela é Orie.
Na beira do rio, um barco balança e espera a família, acolhe cestos e fardos, tudo ali parece acomodado. A água dança com os peixes, com o remo que corta o caminho para a viagem acontecer. Então, a cidade chega com suas cores e tanta gente... Orie não sabe por quê é mais demorado voltar para casa! O barco nem parece um berço, o chão é duro. O remo de bambu vai e vem, recorta a água, mas – ninguém apressa o rio...
Lúcia Hiratsuka narrou, com frases curtas (o verbo caminhando sempre no presente do indicativo) e ilustrações singelas (traços sempre muito indiciais com o grafite correndo no sofisticado e rústico papel craft), um tempo de descobertas para a menina Orie, como a primeira viagem de barco para a cidade. É, pois, um tempo que não se apagou da memória e passou da experiência da avó da autora para o imaginário da artista, como uma presença revivida ou uma duração mágica das coisas que jamais terminam.
Pelas antigas paisagens do Japão, sons, cores e sensações despertam em um mundo apto a refazer-se a cada dia. E a narrativa balança serenamente como um pêndulo: o barco vai, o barco vem, o olhar através, as surpresas também...
A vida segue sua viagem e o leitor haverá de encontrar Orie, alguns anos depois, apressando os pés até o rio. Todavia, pai e mãe já partem com o irmão mais novo no colo. O remo toca Orie, os sentimentos a balançam. É um tempo para renovar os afetos, um tempo próprio: eternamente Orie...
20 de março de 2014
“Tomara no céu esse tempo volte.”
O’ABRE ASPAS para Adélia Prado
O narrador de Adélia Prado diz que lembrança não faz fila. O narrador de Adélia é Carmela Letícia, mas tão poucas vezes ela fazia conta que tinha nome duplo. Carmela gostava do cheiro de banana madura e ponta fresca de lápis que a escola tinha. Numa visão de doçuras sobre os livros que as meninas liam, em 1942, 1945...
“O livro mais lindo que li no Grupo foi As Reinações de Narizinho, do Monteiro Lobato, que é um nome bom de falar e ninguém esquece, nem dele, nem das estórias que inventou. Ah, apareceu também por lá um livro ótimo que se chamava – que bobagem: que se chamava não, que se chama até hoje Coração. Desconfiei que ‘coração’ significava outra coisa e não era sobre coração, este que dispara quando a gente corre. Mas não sabia como perguntar sobre este problema, não achava as palavras e falei assim para Dona Nadir, professora do quarto ano: Donadir, esse coração do livro é coração, coração mesmo, ou coração outra coisa?” (Adélia Prado) CARMELA VAI À ESCOLA, 2011.
Olhai os lírios da lembrança e das imagens de Elisabeth Teixeira, Prêmio Jabuti 2012 (Melhor Ilustração) ao lado de Marilda Castanha e Lúcia Hiratsuka.
O.O ilustrações do livro [veja+aqui]
O narrador de Adélia Prado diz que lembrança não faz fila. O narrador de Adélia é Carmela Letícia, mas tão poucas vezes ela fazia conta que tinha nome duplo. Carmela gostava do cheiro de banana madura e ponta fresca de lápis que a escola tinha. Numa visão de doçuras sobre os livros que as meninas liam, em 1942, 1945...
“O livro mais lindo que li no Grupo foi As Reinações de Narizinho, do Monteiro Lobato, que é um nome bom de falar e ninguém esquece, nem dele, nem das estórias que inventou. Ah, apareceu também por lá um livro ótimo que se chamava – que bobagem: que se chamava não, que se chama até hoje Coração. Desconfiei que ‘coração’ significava outra coisa e não era sobre coração, este que dispara quando a gente corre. Mas não sabia como perguntar sobre este problema, não achava as palavras e falei assim para Dona Nadir, professora do quarto ano: Donadir, esse coração do livro é coração, coração mesmo, ou coração outra coisa?” (Adélia Prado) CARMELA VAI À ESCOLA, 2011.
Olhai os lírios da lembrança e das imagens de Elisabeth Teixeira, Prêmio Jabuti 2012 (Melhor Ilustração) ao lado de Marilda Castanha e Lúcia Hiratsuka.
O.O ilustrações do livro [veja+aqui]
25 de março de 2013
cacos de tempos passados
por Peter O.Sagae
Somente a voz da bisavó conseguia decifrar, com sentimento sem igual, um romance pintado em miniatura no fundo de um prato de porcelana. Nos olhos dóceis e ouvidos atentos da menina Cora Coralina, a história da Princesinha Lui e do jovem plebeu reinventava-se em meandros e segredos, através dos delicados desenhos em meio-relevo em azul-forte, azul-pombinho, contra o fundo claro, contra o tempo da memória que se transforma e da imaginação que faz crescer os detalhes complicados. Todavia, um dia, por artes do salta-caminhos, o último prato do aparelho de jantar com noventa e duas peças apareceu quebrado...
Foi ou não a menina “inzoneira, buliçosa e malina”? Responder isto estava fora de cogitação... Foi mesmo castigo sem defesa, como em tempos antigos se fazia – e um caco de louça, pendurado a um cordão, foi levado ao pescoço da pequena Cora.
Brincando a seu modo com palavra e imagem, o delicado texto-vida foi publicado primeiramente no livro Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, em 1965, sob o título “Estória do aparelho azul-pombinho”. Dialogando com leitores de qualquer idade, Cora Coralina ganhou duas bonitas versões ilustradas de
O prato azul-pombinho por Angela Lago (Global, 2001) e Lúcia Hiratsuka (2011), além de apresentar-se intertextualmente em outros trabalhos da literatura para crianças. *
Sônia Barros escreveu O segredo da xícara cor de nuvem, com ilustrações de Ana Terra (Moderna, 2009) — uma xícara única e delicada, cinza, azul e suave carmim, numa cor de nuvens que o tempo deu à velha porcelana, atravessa gerações: do aparelho de chá completo e branco que pertenceu a Ana, trisavó da narradora, para os guardados na cristaleira da avó Aninha e, finalmente, às mãos ansiosas e pouco seguras de Marina. A peça se desfaz em pedacinhos e lágrimas. Contudo, o incidente faz emergir as histórias a respeito das outras cinco xícaras e como se perderam ao longo do tempo. Este é o segredo de família que se compartilha, reavivando instantes e presenças do passado em cada gesto do presente. A narrativa feminina e fragmentária de Sônia Barros mantém um íntimo diálogo com a memória do prato azul-pombinho dos versos de Cora Coralina, de tal maneira que temos aí uma paráfrase bastante marcada, uma homenagem. Há, entretanto, um desvio em relação a história exemplar da doceira-poeta da Cidade de Goiás: em vez da severidade representada pelo colar de cacos no pescoço da menina, Sônia Barros inventa afetos e um outro segredo: um frasco de cola para porcelana que, anos e anos, tem sido utilizado para manter aparentemente intacta a última xícara do antigo jogo, a princesa de pele mesclada de toda a cristaleira.**
Por sua vez, Vivina de Assis Viana recolhe do fundo do córrego as tristes lembranças de uma menina, a pequena narradora, junto a seu irmão colecionando cacos de louça que brilham, na água, como vidro vivo, grandes, pequenos, arredondados, compridos, de todo jeito, coloridos ou brancos, com listras e outras estampas miúdas. Mas havia um pequeno e branco com listas cor de rosa (sic), objeto de disputa: afinal, quem o encontrou? O menino diz ter sido ele — “Mas é mentira, fui eu, e guardei lá na casinha do tanque, junto com os outros. Mas meu irmão é maior do que eu, foi lá e tirou. E guardou junto com as coisas só dele. E pôs o nome: o rei dos cacos.” Nada grave a rivalidade fraternal, principalmente quando lá estão as árvores para subir, as galinhas para correr atrás, as frutas verdes para comer e um outro dia para continuar buscando cacos no leito do rio... Se um fosse igual a outro, talvez viesse a encaixar-se no pedaço já guardado — como os textos a serem descobertos, sempre mergulhados em outros textos, tal este O rei dos cacos, originalmente ilustrado por Rubens Matuck (1977), depois Carlos Moreno (1983) e agora a terceira edição nas cores profundas de Taisa Borges (Brasiliense, 2009). ***
* O livro de Cora Coralina foi apresentado em Dobras da Leitura, Ano III N.º 9 (2002).
Comentários revistos e ampliados em março de 2013 para Dobras da Leitura O’Blog.
** Resenha escrita originalmente para a Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil 2009,
da BIJ Monteiro Lobato – Secretaria de Cultura/PMSP.
*** Obrigado, May Shuravel, por lembrar e levar-me às edições anteriores!
Somente a voz da bisavó conseguia decifrar, com sentimento sem igual, um romance pintado em miniatura no fundo de um prato de porcelana. Nos olhos dóceis e ouvidos atentos da menina Cora Coralina, a história da Princesinha Lui e do jovem plebeu reinventava-se em meandros e segredos, através dos delicados desenhos em meio-relevo em azul-forte, azul-pombinho, contra o fundo claro, contra o tempo da memória que se transforma e da imaginação que faz crescer os detalhes complicados. Todavia, um dia, por artes do salta-caminhos, o último prato do aparelho de jantar com noventa e duas peças apareceu quebrado...
Foi ou não a menina “inzoneira, buliçosa e malina”? Responder isto estava fora de cogitação... Foi mesmo castigo sem defesa, como em tempos antigos se fazia – e um caco de louça, pendurado a um cordão, foi levado ao pescoço da pequena Cora.
Brincando a seu modo com palavra e imagem, o delicado texto-vida foi publicado primeiramente no livro Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, em 1965, sob o título “Estória do aparelho azul-pombinho”. Dialogando com leitores de qualquer idade, Cora Coralina ganhou duas bonitas versões ilustradas de
O prato azul-pombinho por Angela Lago (Global, 2001) e Lúcia Hiratsuka (2011), além de apresentar-se intertextualmente em outros trabalhos da literatura para crianças. *
Sônia Barros escreveu O segredo da xícara cor de nuvem, com ilustrações de Ana Terra (Moderna, 2009) — uma xícara única e delicada, cinza, azul e suave carmim, numa cor de nuvens que o tempo deu à velha porcelana, atravessa gerações: do aparelho de chá completo e branco que pertenceu a Ana, trisavó da narradora, para os guardados na cristaleira da avó Aninha e, finalmente, às mãos ansiosas e pouco seguras de Marina. A peça se desfaz em pedacinhos e lágrimas. Contudo, o incidente faz emergir as histórias a respeito das outras cinco xícaras e como se perderam ao longo do tempo. Este é o segredo de família que se compartilha, reavivando instantes e presenças do passado em cada gesto do presente. A narrativa feminina e fragmentária de Sônia Barros mantém um íntimo diálogo com a memória do prato azul-pombinho dos versos de Cora Coralina, de tal maneira que temos aí uma paráfrase bastante marcada, uma homenagem. Há, entretanto, um desvio em relação a história exemplar da doceira-poeta da Cidade de Goiás: em vez da severidade representada pelo colar de cacos no pescoço da menina, Sônia Barros inventa afetos e um outro segredo: um frasco de cola para porcelana que, anos e anos, tem sido utilizado para manter aparentemente intacta a última xícara do antigo jogo, a princesa de pele mesclada de toda a cristaleira.**
Por sua vez, Vivina de Assis Viana recolhe do fundo do córrego as tristes lembranças de uma menina, a pequena narradora, junto a seu irmão colecionando cacos de louça que brilham, na água, como vidro vivo, grandes, pequenos, arredondados, compridos, de todo jeito, coloridos ou brancos, com listras e outras estampas miúdas. Mas havia um pequeno e branco com listas cor de rosa (sic), objeto de disputa: afinal, quem o encontrou? O menino diz ter sido ele — “Mas é mentira, fui eu, e guardei lá na casinha do tanque, junto com os outros. Mas meu irmão é maior do que eu, foi lá e tirou. E guardou junto com as coisas só dele. E pôs o nome: o rei dos cacos.” Nada grave a rivalidade fraternal, principalmente quando lá estão as árvores para subir, as galinhas para correr atrás, as frutas verdes para comer e um outro dia para continuar buscando cacos no leito do rio... Se um fosse igual a outro, talvez viesse a encaixar-se no pedaço já guardado — como os textos a serem descobertos, sempre mergulhados em outros textos, tal este O rei dos cacos, originalmente ilustrado por Rubens Matuck (1977), depois Carlos Moreno (1983) e agora a terceira edição nas cores profundas de Taisa Borges (Brasiliense, 2009). ***
* O livro de Cora Coralina foi apresentado em Dobras da Leitura, Ano III N.º 9 (2002).
Comentários revistos e ampliados em março de 2013 para Dobras da Leitura O’Blog.
** Resenha escrita originalmente para a Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil 2009,
da BIJ Monteiro Lobato – Secretaria de Cultura/PMSP.
*** Obrigado, May Shuravel, por lembrar e levar-me às edições anteriores!
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
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