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13 de junho de 2017

encantamentos de Elias

peter O sagae


No ano passado, ao visitar o Instituto Cultural Elias José, durante a VI semana literária promovida na cidade de Guaxupé MG em homenagem ao escritor, Silvinha me perguntou qual livro de Elias eu gostaria de levar como presente. Respondi apressado: CANTOS DE ENCANTAMENTO, que me atraía pela capa com desenhos tão cheios de detalhes com traços delicados de Mariângela Haddad (Formato, 1996, 12.ed. 2012) e pela proposta de releituras sobre os mitos brasileiros. Eu sempre via e ouvia, saltando pelas sacolas dos programas de formação de professores, de escola em escola, o poema “Os sonhos do Saci” que abre a antologia, com seu jeito bem mais risonho, bem mais moleque, e durante muitos anos ficava a imaginar quais e como seriam os outros perfis retratados com o carisma de Elias José.


É fácil dizer que a gente se encanta apenas com as criaturas que conhece bem, mas preferimos algumas surpresas, como o Cavalo-Fantasma com seu galopar onomatopaico “em triste trotre trote trote”, em três patas apenas, asas e vulto, cabeça nenhuma, pelas ruas de pedra de um lugarejo qualquer, ou o papa-menino chamado Chibamba que dança nas folhas de bananeira fazendo chiado e tambor, com o peso do próprio corpo e dos próprios pés. Mas há também no livro a Cobra-Caninana que voa “mais veloz que passarinho” envolvida nas dobras de muitos ritmos – frevo, xaxado, calango – que o poeta fez coincidir os mitos com outros aspectos da cultura popular.

Inspirado em textos lendários e informativos, Elias José apresenta com leveza o que os estudiosos poderiam reconhecer como poesia didática, cuja tradição remonta a busca e a transmissão da verdade entre os filósofos, tal a intenção de Parmênides. Porém, com o poeta das crianças, o resultado é bem diverso – e divertido, ao combinar muitas vozes em uma leitura-ciranda dos mitos populares brasileiros, como aparece na segunda estrofe do longo poema dedicado ao Curupira:
“Quem já viu o Curupira
cai sempre em contradição:
uns falam que ele é gigante,
outros, que é um curumim
e outros, que é um anão.
Uns falam que ele se mostra,
outros dizem que se esconde
bem dentro do breu da noite.”
Mesmo sabendo tanto (ou parecendo que sabe tanto), o poeta como tonto, pelos passos às avessas do Curupira elétrico que solta mil choques e luzes, o poeta termina seus versos com reticências e dúvidas... A resposta para esse procedimento, abertura para quem lê, está no prefácio que Elias José escreveu. “Livro pronto e em suas mãos, caro leitor, fica o convite para você ler, vibrar e brincar de modificar os poemas. Como os mitos, quero que os meus poemas sejam de todos nós. Cante, corte, acrescente, misture, mude o ritmo e o rumo.”

O preciosismo está nesse cuidado. Sabedor que as histórias folclóricas admitem muitas verdades, Elias José descreve, a sua maneira, a alma quente do Negrinho do Pastoreio agasalhando os meninos desamparados no frio das ruas e dos viadutos nas grandes cidades; Pedro Malasartes a espantar verdadeiramente os males do mundo, convivendo com gente que só faz artes, como os poetas.


O livro é dividido em ENCANTAMENTOS DA TERRA, incluindo ainda poemas sobre o brilho das Cavalhadas; a guerra-dança dos Caiapós, cujo entrecho dramático encerra o rapto da bugrinha bonita por um homem branco; o bate-pé querido do Cateretê ao som da viola, finalizando com a “Oração de São Longuinho” e um causo “À moda caipira” – talvez esses três últimos mais próximos das manifestações ao sul de Minas Gerais, norte do estado de São Paulo, até alcançar as tradições litorâneas, donde desconfio o caminho beira-rio, beira-mar, na direção dos ENCANTAMENTOS DAS ÁGUAS.


Na segunda parte, vem a Iara de mansinho, vem no feitiço da repetição das palavras, na hora do sol se pôr, vem Iara para levar um noivo embora... E vêm moradores sobrenaturais do Velho Chico, como o Cavalo do Rio e o Cachorrinho d’Água. Em “O Pescador Encantado”, a voz de eu-lírico-Elias se faz voz de pescador em dedo de prosa com os leitores.
“Nas noites de sexta-feira,
eu não pesco, não.
Pode até dar lua cheia,
que eu não pesco, não.
Pode a morena pedir,
que eu não pesco, não,
podem me dar um milhão,
que eu não pesco, não.”
O rio é um lugar realmente cheio de interdição para a pescaria em dias santos e na Quaresma; seus seres encantados são uma profusão da mestiçagem brasileira. Entre caboclos e caiçaras, mais todos os mulatos, surge também “O Barba-Ruiva da Lagoa Paranaguá” que foi menino e criado nas águas foi, cresceu, virou moço que jamais envelhecia para namorar as lavadeiras. Rememorando a Semana Santa, neste mito encontradiço no interior do Piauí, Elias José vai cantando outros festejos da nossa religiosidade. Para a passagem de ano, o poeta louva e reza
“Nossa mãe, Iemanjá,
ajude pretos e brancos
– todos são filhos de Deus –
a acharem um só caminho
que os leve à liberdade.”
Lembrando, no poema final, que
“A Senhora Aparecida
apareceu nas águas
do Paraíba
e veio abençoar
nossa gente tão sofrida.”
E canta Elias encantos das lendas à própria crença nas forças superiores, unindo-nos em laços de humildade perante as bênçãos divinas numa ciranda. Também as ilustrações de Mariângela Haddad ensinam e inspiram o olhar, com suas figuras e suas molduras em torno, em torneio, no sentido de elegância no desenho de folhas, pássaros, peixes, casas, tramas, cenas, bandeiras, diálogos, repetições e iluminuras de um jeito diferente, desenho feito à mão, aquarela e nanquim de bico fino, de um jeito brasileiro.


Livro-ciranda, como expressou o autor, CANTOS DE ENCANTAMENTO recebeu o selo "Altamente Recomendável" FNLIJ 1996, o Prêmio de Incentivo no Concurso NOMA para Ilustradores, no Japão, em 1996, e o Prêmio Adolfo Aizen, da União Brasileira dos Escritores, para Melhor Livro Infantojuvenil em 1997, além de ter sido selecionado pela Fundação Luís Eduardo Magalhães, pelo Salão Capixaba - ES e pelo Programa Fome de Livro, da Fundação Biblioteca Nacional.


6 de agosto de 2015

a narração sucessiva e um tipo de lógica verbal nos livros de imagem

peter o'sagae


Existe uma pedagogia do pensamento e dos afetos nos livros de imagem?

É muito extensa a produção de livros de imagem. Conforme o olhar teórico, podemos considerá-los em uma variedade que se inicia com os imagiários ou coleções de figuras com que se ensina o nome de objetos, das cores, das formas – e, bem parece, os franceses foram mestres em fazer-ensinar também os verbos e as locuções adverbiais, as preposições e outras classes de palavras gramaticais... Ora, livros de imagem têm sido tradicionalmente confundidos com álbuns de figurinhas – e por que não seriam agora postos mais próximos dos livros ou cadernos de colorir?

Contudo, os livros de imagem que mais chamam a atenção dos interessados em literatura são ou deveriam ser aqueles que, unidos à palavra, resultam na construção de um texto narrativo ou poético. Palavra que está no título, palavra que germina da imagem, palavra que se abre na mente que lê. E gosto da ideia de uma palavra intransferível que não precisasse sofrer o concurso de vir alinhada em uma frase, pois aponta (ou brilha) em várias direções (ou dimensões).


Ao comentar literatura e livros de imagem, diversas vezes tenho privilegiado as três modalidades da arte narrativa: a narração espacial, a narração sucessiva e a narração causal. A primeira categoria mais próxima dos caracteres visuais e poéticos, enquanto a terceira se entrelaça com fios e acontecimentos subordinados uns aos outros, constituindo uma trama. No entanto, é a narração sucessiva que nos dá exemplos mais numerosos – como a coleção Histórias do Coração, com roteiro de Sonia Junqueira e os desenhos coloridos muito fluidos de Mariângela Haddad (Autêntica, 2008-2013).

São sete livros que trabalham rumo a uma tomada de consciência e a mudança de comportamentos. A imagem torna-se suporte para os valores que se quer transmitir às crianças, mostrando-nos como um argumento orientado para o convencimento do leitor resultará em histórias caracterizadas pela enumeração de cenas que se juntam por um expediente de coordenação verbal. Como isso funciona?


Cada página ou cena ilustra uma situação particular; o conjunto das ações acaba por explicitar um conceito maior. Pensemos na sequência de um desses livros: um grupo de crianças captura um pássaro vermelho em uma arapuca e o prendem numa gaiola para alegria de amigos e vizinhos; ato contínuo, ao caminhar pela rua, um desses meninos vai passando por uma menina que brinca atrás das grades do jardim de sua casa, uma senhora que brinca com seu gato atrás da janela gradeada, outra menina “presa” em uma cadeira de rodas, vários animais “presos” em uma vitrine, um senhor que caminha “preso” a sua bengala, mais um leão, um tigre e um macaco, todos em jaulas puxadas pelo caminhão de um circo... O tema principal mostra-se pela repetição, até que o menino que passeava, entristecido, senta-se no banco da praça – e, como o leitor deve fazer, alcança a ideia maior de liberdade – disparando de volta para soltar o pássaro vermelho.

Este é todo o enredo e também a estrutura do pensamento configurados em O MENINO E A GAIOLA que abre a primeira fase da coleção juntamente aos títulos A VELHINHA NA JANELA e O GATO E A MENINA, todos de 2008. Um texto visual regido pela linearidade do discurso verbal, em que o acúmulo de cenas busca apresentar e despertar uma verdade (ou conceito de liberdade, justiça, solidariedade, etc.) à criança, empregando e exercitando um raciocínio indutivo em sua construção. Obviamente há de ficar visível, no conjunto de histórias, uma preocupação das autoras em apresentar o mais diversificado tecido social – pessoas de várias idades e fisionomias convivendo nos espaços da cidade, casas e apartamentos, ruas e veículos, escolas e praças – com que a intencionalidade não se descose de um contexto urbano, emergente, atual...


Por sua vez, os livros lançados em 2009, ainda condicionados à sucessividade e ao ambiente cotidiano, operam com a quebra de expectativa do leitor, ou seja, lançam mão de um elemento surpresa. OS FEITIÇOS DO VIZINHO envolve uma figura retórica como a gradação, através da estranheza, da curiosidade e da bisbilhotice das pessoas na vida alheia, deflagrando o tema da narrativa: o preconceito que desemboca e desembesta na fofoca. Tal tese ou entrecho remete ao livro de Ricardo Azevedo, Tá vendo uma velhota de óculos, chinelo e vestido azul de bolinha branca, no portão daquela casa? (FTD, 1987, Companhia das Letras, 1998). Porém, o vizinho não era nenhum feiticeiro, mas... um mediador de leitura!


A MENINA E O TAMBOR é o título que melhor traduz o nome da coleção Histórias do Coração; após sucessivas tentativas para animar e alegrar as pessoas que encontra nas ruas, uma menina de tranças descobre de onde tirar toda a força e o ritmo para a vida...


Enquanto linguagem, ambos os títulos começam a utilizar mais explicitamente recursos próprios das histórias em quadrinhos, com ênfase nos balões de fala para representar visualmente o discurso citado e uma série de onomatopeias. Daí que sempre pergunto: e livro de imagem é livro sem palavras?


Por fim, A ÁRVORE DE DINHEIRO, mais O MENINO E O PEIXINHO, lançamentos de 2013, ambicionam contar histórias que revelam os desejos e a psicologia dos personagens. Os conflitos são um pouco mais imediatos ou pontuais – um menino que planta uma moeda no quintal de sua casa e outro que adota um peixinho que ninguém queria por achá-lo feio. Contudo e desnecessariamente, esses dois volumes apresentam nas últimas páginas “a história em palavras” – talvez para não deixar escapar a intencionalidade ou mensagem moral, alinhavando significados na primeira pessoa do discurso, expediente verbal que a imagem, por si só, jamais alcançaria. Vale indagar – um livro de imagem é, ou não, uma narrativa encenada diante dos olhos do leitor?



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