Mostrando postagens com marcador Marisa Lajolo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marisa Lajolo. Mostrar todas as postagens

21 de outubro de 2014

de onde parte a voz dos escritores?

O’ABRE ASPAS entre ontem e hoje


“Quando a concepção de desenvolvimento do Brasil foi condicionada à aceleração do projeto de industrialização, a literatura infantil viu-se envolvida mais diretamente, a ponto de confundir-se com a meta proposta: textos foram escritos segundo o modelo da produção em série, e o escritor foi reduzido à situação de operário, fabricando, disciplinadamente, o objeto segundo as exigências do mercado.

“Essas exigências não eram necessariamente as do consumidor final – o pequeno leitor –, e sim das instâncias que se colocavam como mediadoras entre o livro e a leitura: a família, a escola, o Estado, enfim, o mundo adulto, nas suas diferentes esferas, desde a mais privada à mais pública. Por sua vez, elas se mostravam harmônicas e integradas, o que lhes permitiu forjar uma imagem de si e do país que figura ainda como uma página importante no capítulo da história das ideologias no Brasil [...]

 “É obliquamente que certos valores afloram: o pedagogismo, resultando na supremacia da personagem mais velha e das entidades através da qual ela se expressa, quais seja, a escola e a família; e o elitismo burguês. O mundo adulto representado coincide com a situação dos grupos economicamente privilegiados, isto é, os que podem sustentar férias no campo, excursões à floresta virgem, comprar terras no interior e animais de raça, etc.”

(Marisa Lajolo e Regina Zilberman)
Literatura infantil brasileira: história & histórias, 1984
do capítulo “Entre dois brasis”, pp.119-120.

*
*
*

3 de setembro de 2010

as 3 cores da teoria

flashes & notas da Vitrine Express


Para começar a pintar a paisagem da literatura para crianças e jovens, as cores básicas: conhecer a história da literatura e da produção editorial; as práticas sociais de leitura nos circuitos de recepção e valoração dos textos; não temer as tensões palavra&imagem, nem o caminho da obra em seus leitores.

De vermelho, vivo com a Literatura infantil brasileira: história e histórias, de Marisa Lajolo e Regina Zilberman (Ática, 1984). Cadê a continuação de nossa história? Azul é Zohar Shavit, na Poética da literatura para crianças (Editorial Caminho, 2003): estudo que trata de questões, processos históricos e estruturas textuais, o que nos leva a compreender que a literatura para crianças não é um gênero, pois já configura um sistema literário (ainda que estratificado: ambivalente, em função de seus leitores "grandes e pequenos") imerso em um sistema literário canonizado. Amarelo, post-it: "a literatura infantil também é um campo que abarca quase todos os gêneros literários". Ideias para grifar no livro de Peter Hunt: Crítica, teoria e literatura infantil (Cosac Naify, 2010: 27). Que outros matizes sejam conquistados com misturas e acidentes na paleta.


7 de maio de 2010

Uma bailarina para José de Alencar

por Marisa Lajolo


Socorro Acioli
A bailarina fantasma
Biruta, 2009

ISBN 9788578480400
Fotografias: Imagem Brasil
Projeto gráfico: Rex Design
14 x 21 cm 184p.


A bailarina fantasma, de Socorro Acioli (2009) é um primor de livro, para todas as idades, sem contra-indicação. Como em todo bom romance, na história de Anabela verdade e imaginação, ficção e história entretecem-se com tanta sutileza, que o leitor quase não fica sabendo onde começa uma e onde termina a outra. Bailarina? Fantasma? Quem é quem? Será que perdi alguma coisa... ?

A história protagonizada por uma menina órfã de mãe (a Anabela) atravessa várias épocas, tendo como eixo a construção e a restauração do belíssimo Theatro José de Alencar, em Fortaleza. Nesta vertente do livro, o trabalho cuidadoso de pesquisa histórica, reconstrói o tempo em que a estrutura metálica de edifícios públicos brasileiros vinha da Europa, em navios que levavam meses até chegar ao destino e que, junto com as ferragens, traziam os profissionais capazes de transformar as ferragens em edifícios. No caso, o profissional era Joseph MacFarlane, também personagem da história.

A história da construção do teatro — como em todo romance que se preza — entrelaça-se a uma historia de amor que depois se desdobra em outra história de amor... O enredo que começa nos primeiros anos do século XX, se espicha, cruza o tempo e invade a vida de Anabela, menina de hoje, filha de Marcelo, responsável pela restauração do teatro.

A partir de um diário encontrado no porão do teatro durante as obras de restauração, vêm para dentro do livro outras personagens, entre elas, a bailarina fantasma do título. É entre a voz de vários destes personagens que a história vai ganhando detalhes. Muito sábio e bem orquestrado, o artifício dos muitos narradores acrescenta à história variedade de falas e de perspectivas. Como num quebra cabeças, o leitor vai acompanhando, de vários pontos de vista — que, no entanto, deixam sempre uma pontinha de mistério no que narram —, o conjunto de acontecimentos pelos quais um caderninho que chega às mãos de Anabela mergulha a menina numa aventura de resgate do passado e restauração de identidades.

A figura da mãe morta é uma presença constante na vida de Anabela, trazida para o livro em passagens escritas com a pungente leveza que a orfandade sugere. Para onde vão os mortos, pergunta-se de diferentes maneiras Anabela. E o leitor, com ela, faz eco à pergunta. E talvez às respostas (provisórias) que a menina alinhava. Além de amor, a história tem também suspense: baús antigos, cadernos, cartas escondidas constroem o suspense e são portal do presente para o passado.

Num momento em que o sobrenatural está na moda — ao menos como tema literário — este novo livro de Socorro Acioli é uma bem vinda renovação do assunto. Ao fazer sua bailarina fantasma assombrar uma história verdadeira (a construção e restauração do Theatro José de Alencar), a autora, ao mesmo tempo em que se mantém fiel ao perfil cearense de sua obra, abre uma brecha para fecundar o histórico com o místico e, ao mesmo tempo, ancorar o misticismo numa história tão sólida como a estrutura de ferro de um edifício que até hoje se marca pela sua beleza arquitetônica. Esta estrutura de ferro, por sua vez, perde seu gigantismo, ao ser cruzada e recruzada pelas frágeis figuras de leves bailarinas. Muito bonito!

A história de Giselle — personagem tema e título do balé do mesmo nome — é, de certa maneira, re-escrita pela história de Socorro que, de passagem, menciona a história da moça apaixonada que, mesmo depois de morta, salva da morte seu bem amado. Clara e Giselle, Gabriel e Albrecht bem podem ser duplos nas histórias. Será que são? Os leitores que confiram...



Se o enredo do livro é, assim, cheios de arabescos que, como num balé bem orquestrado, unem história e imaginação, o livro que lhes serve de suporte tem um projeto gráfico que está à altura da sofisticação do projeto literário. Os arabescos na capa elegante reproduzem-se nas páginas duplas que introduzem cada capítulo, cuja primeira linha, em grandes letras lilases , destacam-se na página. O procedimento repete-se ao final de cada um dos 21 capítulos do livro, por sua vez agrupados, como nos textos dramáticos, em três atos, numa formatação bem adequada a uma história que tem um teatro talvez mais do que como mero cenário — como personagem.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Seguidores