peter o'sagae*
Quando decidiram abrir as tumbas da família Medici, em 1857, em meio aos sepulcros da Capela dos Príncipes, na rica cidade de Florença, ninguém certamente esperava encontrar o corpo intacto de uma bela jovem. O ar imóvel preencheu-se com uma deliciosa fragrância, o chamado ‘perfume dos santos’ e, aos pés da moça, outro corpo diminuto e branco dormia: um arminho. No entanto, em um rápido piscar de olhos, essa mágica visão transformou-se inteira em pó...
Este é somente o prólogo de um delicado romance a respeito de Bianca, filha do amor ilegítimo do grão-duque Cósimo I e uma aldeã. Com extrema acuidade para combinar História e fantasia, o estilo da crônica e do diário pessoal, poemas e adágios de inspiração popular, o escritor galego Xosé Neira cria o retrato vivo de uma personagem que poderia passar praticamente despercebida no rol dos grandes feitos renascentistas do século XVI, permanecendo para sempre no silêncio das antigas pinturas expostas na Sala della Tribuna da Galeria della Uffizi.
Contudo, a Literatura quis dar outro destino a essa jovem.
O enredo conta que, após a morte de sua mãe, Bianca passou a conviver mais proximamente com a figura distante do pai, a frivolidade austera de sua madrasta, irmãos e amas com quem aprendeu a relacionar-se e descobrir seu próprio enigma. Por que ela nutria tamanha afeição pelas coisas macias e selvagens, enfrentando, com os olhos corajosos que não se inibem, a fraqueza de caráter e ambições humanas, sem jamais desistir de sua própria liberdade? Em meio às intrigas familiares e às raras oportunidades de gestos generosos, a doce Bianca encontra conforto nos símbolos revelados pelo pintor da corte, mestre Bronzino, nas histórias que escapam na voz das amas, nos festejos de Carnaval...
Revelando um mundo de convenções e contraordens, beleza e lógica, coragem e vilanias, O arminho dorme, de Xosé A. Neira Cruz com tradução de Nilma Lacerda (Edições SM, 2009), foi considerado uma dos dez melhores livros juvenis do mundo pelo Banco do Livro da Venezuela, em 2006, conquistou o prêmio Raíña Lupa e integra honrosamente a lista White Ravens, mantida pela Biblioteca de Munique.
* Para a Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil 2009, produzida pela BIJ Monteiro Lobato de SP.
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15 de março de 2012
14 de junho de 2009
Quando a aurora torna-se gris

Nilma Lacerda
il. Rui de Oliveira
Pena de ganso
DCL, 2005
ISBN 9788536800530
144p.
Estefânia viajou a Portugal para vender as terrinhas que recebera de herança. Fora grávida e voltava com a filha nos braços. A pequena Aurora nasceu no mar, sob a desconfiança de que não veria a luz do outro dia. Daí veio-lhe o nome numa tentativa de contrariar a própria sorte... E triunfará sobre o primeiro desafio que a vida lhe impunha, não sem seqüelas. Pena de ganso, de Nilma Lacerda, principia por contar a vida da menina Aurora, desde quando se habituou a entender-se como gente, silenciosamente observando os irmãos Péricles e Augusto irem para a escola, voltando depois e completando horas de lição sobre os cadernos e os livros. Mas, para Aurora a vida era toda dentro de casa, só quintal e cozinha, ajudando a mãe nos trabalhos de cuidar das galinhas, recolher os ovos, vender dúzias, regar couves e dálias, descascar batatas para o almoço e o jantar. O pai era um homem batalhador e, um dia, os filhos homens seriam doutores. No quintal, Estevão cantava orgulhoso e bicava forte, Moleque sarneava uma companhia fiel... E era assim completa, simples e ordenada a vida daquela família.
Por ser menina, Aurora não podia ir à escola como os irmãos: era a regra. Mas a prima Isolina ia. É que os tios não tinham outros filhos com quem se preocupar. E o primo Gastão, que tem doze anos, por que não vai? Pois seu pai tem a fábrica e ele precisa ajudar. Mas, e ela mesma: por que não poderia ir também? Porque tinha os deveres domésticos e aqueles ataques pavorosos, um ponto escuro no olho apagando o mundo, a língua enrolando, poderia sufocar... Era preciso ser assim, era preciso viver ao pé da mãe.
A duras penas, ela há de escrever Eu sou Aurora — num desejo só, forte feito tudo, a movimentar o delicado romance de Nilma Lacerda que resgata, com extrema emoção, o plural das casas, dos costumes e das tramas familiares em uma época em que criança não partilhava as conversas entre adultos, em fins da década de 1920, no Rio de Janeiro. A textualidade transborda vozes e o enredo é então perpassado por diversos planos, como bem soa e sói acontecer à literatura inventiva: refluem e cruzam-se a memória particular de cada personagem junto à memória histórica sobre a resistência da escrita — a leitura, a caligrafia, o pensamento escapando-refugiando-se do dedo ao papel, ao bordado, também à tela digital...
A linha do tempo é assim uma sobreposição, um novelo de coincidências e sonhos. E, entre esses fios, a narradora habilmente projeta-se na escrita literária, ultrapassando as barreiras da ilusão e do afastamento com a matéria que narra. Evidentemente, não é Aurora quem poderia narrar-se, nem mesmo a velha Casemira, nem Nilma: o que aqui se lançou é a cerda de um mistério, pena de ganso ao branco do papel, como nova cor, "carinho de vida no canto escuro da alma".
Os antigos consideravam a pertinência como uma qualidade de semelhança — e esta relação, quem dirá, alquímica entre o texto e a ilustração, é plena: Rui de Oliveira utilizou lápis litográfico, grafite e crayon para representar a aspereza da qual emergem os sonhos de Aurora. Muitas imagens são desdobradas em trípticos ou mais páginas, dramaticamente revelando cenas.
Nenhum episódio vem sobrar à leitura, somente uma esperança: por Aurora e nossa própria necessidade de querer continuar, querer mais: capítulos que uma carência íntima pede — e só podemos intuir.
Ilustração extraída de www.ruideoliveira.com.br
Por ser menina, Aurora não podia ir à escola como os irmãos: era a regra. Mas a prima Isolina ia. É que os tios não tinham outros filhos com quem se preocupar. E o primo Gastão, que tem doze anos, por que não vai? Pois seu pai tem a fábrica e ele precisa ajudar. Mas, e ela mesma: por que não poderia ir também? Porque tinha os deveres domésticos e aqueles ataques pavorosos, um ponto escuro no olho apagando o mundo, a língua enrolando, poderia sufocar... Era preciso ser assim, era preciso viver ao pé da mãe.
A duras penas, ela há de escrever Eu sou Aurora — num desejo só, forte feito tudo, a movimentar o delicado romance de Nilma Lacerda que resgata, com extrema emoção, o plural das casas, dos costumes e das tramas familiares em uma época em que criança não partilhava as conversas entre adultos, em fins da década de 1920, no Rio de Janeiro. A textualidade transborda vozes e o enredo é então perpassado por diversos planos, como bem soa e sói acontecer à literatura inventiva: refluem e cruzam-se a memória particular de cada personagem junto à memória histórica sobre a resistência da escrita — a leitura, a caligrafia, o pensamento escapando-refugiando-se do dedo ao papel, ao bordado, também à tela digital...
A linha do tempo é assim uma sobreposição, um novelo de coincidências e sonhos. E, entre esses fios, a narradora habilmente projeta-se na escrita literária, ultrapassando as barreiras da ilusão e do afastamento com a matéria que narra. Evidentemente, não é Aurora quem poderia narrar-se, nem mesmo a velha Casemira, nem Nilma: o que aqui se lançou é a cerda de um mistério, pena de ganso ao branco do papel, como nova cor, "carinho de vida no canto escuro da alma".
Os antigos consideravam a pertinência como uma qualidade de semelhança — e esta relação, quem dirá, alquímica entre o texto e a ilustração, é plena: Rui de Oliveira utilizou lápis litográfico, grafite e crayon para representar a aspereza da qual emergem os sonhos de Aurora. Muitas imagens são desdobradas em trípticos ou mais páginas, dramaticamente revelando cenas.
Nenhum episódio vem sobrar à leitura, somente uma esperança: por Aurora e nossa própria necessidade de querer continuar, querer mais: capítulos que uma carência íntima pede — e só podemos intuir.
Ilustração extraída de www.ruideoliveira.com.br
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