Peter O.ô Sagae
Era uma vez uma casa... Assim começa o premiado livro de Carolina Moreyra e Odilon Moraes. Uma casa onde toda a família poderia viver feliz... no entanto um dia se afogou e tornou-se vazia. Os olhos da mãe encheram-se de peixes. Os pés do pai levaram-no embora. O tempo passa, evidentemente que passa, como as páginas de um livro, e o menino descobre como é sentir-se em casa e caminhar. Entre duas casas. LÁ E AQUI #pequenazahar (2015)
Contar uma história ou uma experiência é escolher um ponto de vista – e o ponto de vista do menino para relatar a separação dos pais é a estratégia do discurso que empresta leveza a esse texto, jogando palavra e imagem entre metáforas, metonímias e momentos de silêncio. Inicialmente, temos o tempo do “era uma vez” permitindo que a casa e a extensão do jardim (com sapos, lago cheio de peixes, flores, dois cachorros e uma árvore habitada por passarinhos) revelem, por fora, o otimismo da vida lá dentro.
É este deslocamento do lugar do narrador que se torna índice do deslocamento que o personagem vivenciar no mundo narrado... No momento em que o conflito se instala, a realidade é invadida por uma percepção quase mágica: é a chuva que não cessa, o afogamento, o fim do jardim, a fuga de todos os animais. Os peixinhos que viviam no lago, conta o narrador, foram morar nos olhos da mãe... mas onde se fixam os olhos do menino? De onde vinha tamanha chuva?
A velha casa já não basta, necessita ser abandonada. Será preciso que o tempo passe e novas páginas surjam pelo caminho para escrever uma nova história. A narração verbal é uma confissão em pequenas frases, quase soltas, quase nada, apenas o essencial. Para cada leitor preencher os vazios.
A verdade é que a casa do mãe e a casa da mãe são equidistantes em conforto e afetos também. Quando se está aqui em uma casa, sempre haverá outra. Lá.
O livro LÁ E AQUI foi extremamente celebrado neste ano, recebendo o Prêmio FNLIJ – O Melhor para Criança 2016, indicado entre os 30 Melhores Livros da Revista Crescer e selecionado para o acervo de literatura infantil brasileira da Internationale Jugendbibliothek – IJB (Munique/Alemanha), através da lista THE WHITE RAVENS, publicada em outubro. Por fim, conquistou o 2o lugar da categoria Livro Infantil do 58o Prêmio Jabuti, concedido pela CBL.
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25 de novembro de 2016
17 de dezembro de 2015
Medo do Lobo? Não seja bobo...
Peter On Instagram
Notícias sempre chegam de outras paragens e de outros contos. A prima de mamãe tinha 7 filhos e só por muita sorte escaparam do Lobo. Mesmo morando na vila, Mamãe Cabra anda assustada, tudo pode acontecer a Lilo, Laila e Lulu... Uma história sobre antigos juízos e mudanças de hábito, com o chapéu e a echarpe vermelha de Aristide Bruant. MAMÃE TEM MEDO, de Beatrice Masini, il. Alireza Goldouzian, trad. Márcia Leite #editorapulodogato (2015)
Acorda o Lobo e lá vai ele, pé na estrada. Encontra um ratinho. "O senhor quer me comer?! Eu?! Mas eu sou magrinho!" - e com uma conversa fiada vão escapando também o porco-espinho, o sapo, o jabuti e hmmm, o touro! No final do caminho e ainda mais faminto, ele encontra a casa da vovó e o portão aberto... A FOME DO LOBO se sacia com bondade. Texto de Cláudia Maria de Vasconcelos, il. Odilon Moraes #editorailuminuras (2015) #literaturainfantil
Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com o Lobo, mas correram com ele para o hospital onde foi atendido por uma ovelha branquinha e gentil que se derramou sobre o paciente em demasiadas atenções. O que era pura artimanha de lobo fingindo-se bonzinho, tomando remédio e até infecção sem reclamar, logo se transformou em uma insuspeitada paixão. O MAL DO LOBO MAU, de Cláudio Fragata, il. Luiz Maia #editorapositivo (2009) #literaturainfantil
Notícias sempre chegam de outras paragens e de outros contos. A prima de mamãe tinha 7 filhos e só por muita sorte escaparam do Lobo. Mesmo morando na vila, Mamãe Cabra anda assustada, tudo pode acontecer a Lilo, Laila e Lulu... Uma história sobre antigos juízos e mudanças de hábito, com o chapéu e a echarpe vermelha de Aristide Bruant. MAMÃE TEM MEDO, de Beatrice Masini, il. Alireza Goldouzian, trad. Márcia Leite #editorapulodogato (2015)
Acorda o Lobo e lá vai ele, pé na estrada. Encontra um ratinho. "O senhor quer me comer?! Eu?! Mas eu sou magrinho!" - e com uma conversa fiada vão escapando também o porco-espinho, o sapo, o jabuti e hmmm, o touro! No final do caminho e ainda mais faminto, ele encontra a casa da vovó e o portão aberto... A FOME DO LOBO se sacia com bondade. Texto de Cláudia Maria de Vasconcelos, il. Odilon Moraes #editorailuminuras (2015) #literaturainfantil
Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com o Lobo, mas correram com ele para o hospital onde foi atendido por uma ovelha branquinha e gentil que se derramou sobre o paciente em demasiadas atenções. O que era pura artimanha de lobo fingindo-se bonzinho, tomando remédio e até infecção sem reclamar, logo se transformou em uma insuspeitada paixão. O MAL DO LOBO MAU, de Cláudio Fragata, il. Luiz Maia #editorapositivo (2009) #literaturainfantil
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Pulo do Gato
8 de dezembro de 2015
Ler e ouvir Alice Vieira.
Peter O. Sagae*
Portas fechadas, corredores sem cores e as sombras a esconder os olhos de uma presença invisível e misteriosa. Talvez viesse a ser a própria Alminha-da-Senhora, ou a Outra-Pessoa de quem ninguém ousa falar. O silêncio retumba mais que outro ruído qualquer — e invade a infância de Marta. Seria preciso a ela permanecer imóvel como uma boneca de porcelana posta à exibição para as visitas posto que os seus passos pequenos, por mais leves que fossem, despertam sempre a casa e as crises de Flávia que-todos-diziam-ser-sua-mãe. Fato. A menina se convenceu de que houve uma troca, a acontecer coisas de mau destino que fez Flávia correr ao hospital como quem busca remédios para a dor de cabeça e, de lá, no entanto, retornaria com uma criança nos braços. Flávia jamais dizia seu nome, jamais saía de casa, nem durante as férias.
Em um texto que reflui tempos e nomes, Alice Vieira orquestra sombras e personagens com acordes distintos, humanamente possíveis, belos e densos, na pauta de sua escrita. O fraseado é todo melódico e até mesmo as palavras mais estranhas ou expressões desconhecidas acomodam-se dóceis e ingenuamente bem humoradas. É neste embalo que lentamente o prisma de emoções adquire movimento e refratando vai um espectro de luzes sobre os moradores, uns vivos e outros ausentes, da casa. Variados enredos ressoam iluminados pela maestria da autora e articulados pela narração de Marta, em diálogo muito próximo com alguém que não se vê (“Sabes como era Leonor: às vezes as palavras saíam-lhe da boca e, quando ia por elas, já elas estavam ditas.”) — e o leitor bem poderá sentir-se tentado a ocupar o incômodo lugar de ouvinte igualmente observado pelos olhos vigilantes de Ana Marta.
* Extraído de Dobras da Leitura n. 50, nov. 2007. O Vitrina Mundi: Portugal. Alice Vieira. OS OLHOS DE ANA MARTA, capa: Yili Rojas (Edições SM, 2005).
Ler e ouvir Alice Vieira. “Quando estou triste, gosto de ter flores perto de mim. Mas não é preciso que tenham perfume ou que sejam daquelas de caules muito altos, que dormem na vitrine das floras. Só preciso que estejam perto de mim. Que eu olhe para elas e sinta que estou tão acompanhada como se elas fossem pessoas.” Pois família é uma sintonia delicada, releio hoje ROSA, MINHA IRMÃ ROSA (1979) #editorapositivo (2014) #alicevieira #odilonmoraes
Ler e ouvir Alice Vieira, mais o verso de Adriana Calcanhoto e o rumor de Gil Vicente por uma estrada que são as muitas casas de Branca. “De repente caíam em cima de mim todas as lembranças daquele dia na Feira – ontem? há uma semana? há um ano? sonhei? –, eu a perguntar porque a minha mãe não respondia... e toda a gente a dizer coisas sem sentido.” MEIA HORA PARA MUDAR A MINHA VIDA #editorapeiropolis (2014) #alicevieira #annacunha
Portas fechadas, corredores sem cores e as sombras a esconder os olhos de uma presença invisível e misteriosa. Talvez viesse a ser a própria Alminha-da-Senhora, ou a Outra-Pessoa de quem ninguém ousa falar. O silêncio retumba mais que outro ruído qualquer — e invade a infância de Marta. Seria preciso a ela permanecer imóvel como uma boneca de porcelana posta à exibição para as visitas posto que os seus passos pequenos, por mais leves que fossem, despertam sempre a casa e as crises de Flávia que-todos-diziam-ser-sua-mãe. Fato. A menina se convenceu de que houve uma troca, a acontecer coisas de mau destino que fez Flávia correr ao hospital como quem busca remédios para a dor de cabeça e, de lá, no entanto, retornaria com uma criança nos braços. Flávia jamais dizia seu nome, jamais saía de casa, nem durante as férias.
« Leonor costumava dizer que eu tinha nascido em berço de ouro, ao mesmo tempo que enchia a minha cabeça de pavores com a Alminha-da-Senhora querendo sair das paredes assim que anoitecia. Lembro-me de ter passado muito dias a espreitar pelo buraco da fechadura dos quartos fechados para ver se descobria, nalgum deles, o tal berço de ouro. Mas o ângulo da visão era fraco, e sempre o mesmo. Acabei por desistir. De resto, de que me serviria um berço de ouro? De certeza não iria poder brincar com ele, como acontecia com as bonecas de porcelana que o pai me dava no Natal e no dia dos meus anos. »Envolta por uma atmosfera de segredos e histórias, iniciadas muito antes de seu nascimento, Marta refugia-se nas cantigas e nas aventuras do Príncipe Graciano pelas sete partidas do mundo tiradas pela velha e calorosa Leonor. Havia um tempo em que diligências cortavam planícies pelos corredores da casa e seu pai não era Martim, mas Touro Sentado, em conversações sobre alianças e emboscadas com o Coiote Vermelho. Leonor contava o passado quando sentia saudades ou quando se zangava com Flávia...
Em um texto que reflui tempos e nomes, Alice Vieira orquestra sombras e personagens com acordes distintos, humanamente possíveis, belos e densos, na pauta de sua escrita. O fraseado é todo melódico e até mesmo as palavras mais estranhas ou expressões desconhecidas acomodam-se dóceis e ingenuamente bem humoradas. É neste embalo que lentamente o prisma de emoções adquire movimento e refratando vai um espectro de luzes sobre os moradores, uns vivos e outros ausentes, da casa. Variados enredos ressoam iluminados pela maestria da autora e articulados pela narração de Marta, em diálogo muito próximo com alguém que não se vê (“Sabes como era Leonor: às vezes as palavras saíam-lhe da boca e, quando ia por elas, já elas estavam ditas.”) — e o leitor bem poderá sentir-se tentado a ocupar o incômodo lugar de ouvinte igualmente observado pelos olhos vigilantes de Ana Marta.
* Extraído de Dobras da Leitura n. 50, nov. 2007. O Vitrina Mundi: Portugal. Alice Vieira. OS OLHOS DE ANA MARTA, capa: Yili Rojas (Edições SM, 2005).
Ler e ouvir Alice Vieira. “Quando estou triste, gosto de ter flores perto de mim. Mas não é preciso que tenham perfume ou que sejam daquelas de caules muito altos, que dormem na vitrine das floras. Só preciso que estejam perto de mim. Que eu olhe para elas e sinta que estou tão acompanhada como se elas fossem pessoas.” Pois família é uma sintonia delicada, releio hoje ROSA, MINHA IRMÃ ROSA (1979) #editorapositivo (2014) #alicevieira #odilonmoraes
Ler e ouvir Alice Vieira, mais o verso de Adriana Calcanhoto e o rumor de Gil Vicente por uma estrada que são as muitas casas de Branca. “De repente caíam em cima de mim todas as lembranças daquele dia na Feira – ontem? há uma semana? há um ano? sonhei? –, eu a perguntar porque a minha mãe não respondia... e toda a gente a dizer coisas sem sentido.” MEIA HORA PARA MUDAR A MINHA VIDA #editorapeiropolis (2014) #alicevieira #annacunha
1 de dezembro de 2015
Dia Odilon.
Peter On Instagram
Outra pedra fez o menino tropeçar na felicidade -uma tartaruga - tão bonita quanto uma lua esverdeada no golfão dos ares. Daí, o correto batismo: Lua. Mas, por quanto tempo durariam as pedras, o inalcansável satélite, a solidão e a saudade? O encanto do livro PEDRO E LUA está na confirmação de que o essencial permanece invisível aos nossos olhos. #cosacnaify (2004) #literaturainfantil #odilonmoraes saiba [+] dobras da leitura: diante de nossos olhos
O sonho da poesia é tornar-se pintura através da multiplicidade de sons e acentos, enquanto, através da melodia, o tempo conquista materialidade espacial. Ler poesia é fazer durar. Quem duvida? ISMÁLIA, reflexo da existência, ou a loucura das palavras no voo-mergulho para o papel, é um livro debruçado sobre si mesmo, canto, desvario, dobras entre o céu e o mar. #cosacnaify (2006) #alphonsusguimaraens #odilonmoraes
Um abraço, um passeio: pai e filho no clima festivo das bandeirinhas nas ruas todas vestindo verde e amarelo. Uma loja -- O PRESENTE, a camisa da seleção brasileira. O sorriso. A vida e suas derrotas... Uma crônica vertida em livro de imagem para falar da amizade que fica e consola, de amadurecimento, novas vitórias. E, claro, de futebol. #cosacnaify (2010) #livrodeimagem #cronica #odilonmoraes saiba [+] dobras da leitura: a vida joga bola
Outra pedra fez o menino tropeçar na felicidade -uma tartaruga - tão bonita quanto uma lua esverdeada no golfão dos ares. Daí, o correto batismo: Lua. Mas, por quanto tempo durariam as pedras, o inalcansável satélite, a solidão e a saudade? O encanto do livro PEDRO E LUA está na confirmação de que o essencial permanece invisível aos nossos olhos. #cosacnaify (2004) #literaturainfantil #odilonmoraes saiba [+] dobras da leitura: diante de nossos olhos
O sonho da poesia é tornar-se pintura através da multiplicidade de sons e acentos, enquanto, através da melodia, o tempo conquista materialidade espacial. Ler poesia é fazer durar. Quem duvida? ISMÁLIA, reflexo da existência, ou a loucura das palavras no voo-mergulho para o papel, é um livro debruçado sobre si mesmo, canto, desvario, dobras entre o céu e o mar. #cosacnaify (2006) #alphonsusguimaraens #odilonmoraes
Um abraço, um passeio: pai e filho no clima festivo das bandeirinhas nas ruas todas vestindo verde e amarelo. Uma loja -- O PRESENTE, a camisa da seleção brasileira. O sorriso. A vida e suas derrotas... Uma crônica vertida em livro de imagem para falar da amizade que fica e consola, de amadurecimento, novas vitórias. E, claro, de futebol. #cosacnaify (2010) #livrodeimagem #cronica #odilonmoraes saiba [+] dobras da leitura: a vida joga bola
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Odilon Moraes,
Poesia
28 de agosto de 2014
diante de nossos olhos
Dobras da Leitura 45, mai. 2007
Gosto dos antigos filmes de Georges Méliès.
Suas imagens caprichosas piscam em minha retina e
sobrepõem-se à figura de Pedro, a cabeça desprendendo-se leve para o alto. Cabeça de lua. Na página em preto e branco, nanquim vertido sobre o croqui, nada se parece pedra, nem peso parece possuir... Todo leitor sabe como
é doce deixar-se iludir pelas palavras. No entanto, uma imagem poderia mentir diante de nossos olhos?
Não sei... A primeira dupla-página do livro de Odilon Moraes: Pedro e Lua (Cosac Naify, 2004) é, pois, essa surpresa e interrogação. Para os leitores mais experientes, a obra pode ser tomada como uma sincera homenagem a Manuel Bandeira, Raimundo Correia e Carlos Drummond de Andrade, apenas para chamar atenção aos nomes de uns poucos poetas e autores de “Satélite”, “Plenilúnio” e “No meio do caminho”, respectivamente.
Pois no meio do caminho de Pedro tinha um livro, onde lera que a lua era
uma grande pedra flutuando no céu. Então, o menino todo se encantara! Encontrou, encoberta por algumas palavras, uma afinidade mágica, admirável e mítica, que o faria sonhar e seguir adiante... A cada noite, Pedro ia juntando as pedrinhas que ele mesmo cismou e concordou consigo terem caído do alto
e, com essa alma mais lá que aqui embaixo, foi subindo uma montanha e asilou todas as pedras para ficarem mais próximas de casa, a lua... O esforço rumo ao aparente inútil é, realmente, sempre belo.
E, no meio do destino de Pedro, outra pedra o fez tropeçar na felicidade
– uma tartaruga – tão bonita quanto uma lua esverdeada no golfão dos ares. Daí, o correto batismo: Lua.
Esta é uma história de amizade verdadeira. Mas, por quanto tempo, durariam
as pedras, o inalcançável satélite, a solidão e a saudade? Eis o outro encanto do livro, a descoberta e a afirmação que o essencial permanece invisível aos nossos olhos.
Gosto dos antigos filmes de Georges Méliès.
Suas imagens caprichosas piscam em minha retina e
sobrepõem-se à figura de Pedro, a cabeça desprendendo-se leve para o alto. Cabeça de lua. Na página em preto e branco, nanquim vertido sobre o croqui, nada se parece pedra, nem peso parece possuir... Todo leitor sabe como
é doce deixar-se iludir pelas palavras. No entanto, uma imagem poderia mentir diante de nossos olhos?
Não sei... A primeira dupla-página do livro de Odilon Moraes: Pedro e Lua (Cosac Naify, 2004) é, pois, essa surpresa e interrogação. Para os leitores mais experientes, a obra pode ser tomada como uma sincera homenagem a Manuel Bandeira, Raimundo Correia e Carlos Drummond de Andrade, apenas para chamar atenção aos nomes de uns poucos poetas e autores de “Satélite”, “Plenilúnio” e “No meio do caminho”, respectivamente.
Pois no meio do caminho de Pedro tinha um livro, onde lera que a lua era
uma grande pedra flutuando no céu. Então, o menino todo se encantara! Encontrou, encoberta por algumas palavras, uma afinidade mágica, admirável e mítica, que o faria sonhar e seguir adiante... A cada noite, Pedro ia juntando as pedrinhas que ele mesmo cismou e concordou consigo terem caído do alto
e, com essa alma mais lá que aqui embaixo, foi subindo uma montanha e asilou todas as pedras para ficarem mais próximas de casa, a lua... O esforço rumo ao aparente inútil é, realmente, sempre belo.
E, no meio do destino de Pedro, outra pedra o fez tropeçar na felicidade
– uma tartaruga – tão bonita quanto uma lua esverdeada no golfão dos ares. Daí, o correto batismo: Lua.
Esta é uma história de amizade verdadeira. Mas, por quanto tempo, durariam
as pedras, o inalcançável satélite, a solidão e a saudade? Eis o outro encanto do livro, a descoberta e a afirmação que o essencial permanece invisível aos nossos olhos.
Peter O'Sagae
6 de setembro de 2013
o esboço do pensamento
setembro na mesa 1
É a palavra sobre a imagem no livro ilustrado para crianças que encontramos em TRAÇO E PROSA, entrevistas com ilustradores de livros infantojuvenis por Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu (Cosac Naify, 2012), recontando uma história íntima da literatura infantil brasileira sob a perspectiva que mais atende ao interesse de leitores entre adultos e crianças: a ilustração, em primeira pessoa, em primeiro plano, nas conversas registradas dentro dos ateliês de doze grandes nomes.
Eliardo França, Rui de Oliveira, Eva Furnari, Alcy Linares, Ricardo Azevedo, Helena Alexandrino, Nelson Cruz, Marilda Castanha, Graça Lima, Mariana Massarani, Roger Mello e Angela Lago delineiam a ambição do livro ilustrado como uma linguagem única em nosso cenário editorial, abrindo os bastidores de seus sonhos e todo o esforço criativo para estabelecer laços de comunicação e afetos com os leitores. “Para o preparo das entrevistas”, afirmam os organizadores, “consultamos a bibliografia existente sobre o assunto. Apesar de escassa, achamos alguns temas comuns nessas fontes, o que nos levou a dividir em três os tipos de abordagem que seriam de grande ajuda para nosso projeto. Elas foram denominadas por nós de histórico-sociológica, pedagógica e formalista. Essa classificação, mesmo não sendo completa, demonstrou-se suficientemente abrangente e útil para o propósito de definir as perguntas para as entrevistas.” Dentre os muitos desafios de recorte e método, os autores necessitaram eleger a geografia editorialmente demarcada por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e o curso da década de 1970 aos dias atuais, no generoso diálogo com quatro representantes de cada estado.
Em quase 250 páginas de espontaneidade, riso fácil, segredos, formação profissional, vidas envolvidas com livros e imagens, TRAÇO E PROSA oferece um panorama compreensivo a respeito da dinâmica de processos artísticos que, muitas vezes, ultrapassa o depoimento personalíssimo e vai esboçando ordens mais gerais da produção contemporânea. Um exemplo instigante que lá encontramos é o tema da autoria em três diferentes articulações – quando um autor escreve, depois outro ilustra; a parceria entre escritor e ilustrador; e, por fim, escritor-ilustrador como um só criador –, que implicam nas relações convencionais, contratuais e contextuais da leitura que se transportam para dentro livro ilustrado para crianças. Ora, se o conjunto das entrevistas não responde por uma formulação teórica única, positivamente enseja ser o objeto de análise e reflexão junto a muitos pesquisadores de editoração, teoria literária, pedagogia ou crítica genética, interessados em rever o estatuto da literatura infantil brasileira, no reconhecer a transformação da leitura entre palavras e imagens, redesenhando o conceito sobre o que é livro ilustrado para crianças.
É a palavra sobre a imagem no livro ilustrado para crianças que encontramos em TRAÇO E PROSA, entrevistas com ilustradores de livros infantojuvenis por Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu (Cosac Naify, 2012), recontando uma história íntima da literatura infantil brasileira sob a perspectiva que mais atende ao interesse de leitores entre adultos e crianças: a ilustração, em primeira pessoa, em primeiro plano, nas conversas registradas dentro dos ateliês de doze grandes nomes.
Eliardo França, Rui de Oliveira, Eva Furnari, Alcy Linares, Ricardo Azevedo, Helena Alexandrino, Nelson Cruz, Marilda Castanha, Graça Lima, Mariana Massarani, Roger Mello e Angela Lago delineiam a ambição do livro ilustrado como uma linguagem única em nosso cenário editorial, abrindo os bastidores de seus sonhos e todo o esforço criativo para estabelecer laços de comunicação e afetos com os leitores. “Para o preparo das entrevistas”, afirmam os organizadores, “consultamos a bibliografia existente sobre o assunto. Apesar de escassa, achamos alguns temas comuns nessas fontes, o que nos levou a dividir em três os tipos de abordagem que seriam de grande ajuda para nosso projeto. Elas foram denominadas por nós de histórico-sociológica, pedagógica e formalista. Essa classificação, mesmo não sendo completa, demonstrou-se suficientemente abrangente e útil para o propósito de definir as perguntas para as entrevistas.” Dentre os muitos desafios de recorte e método, os autores necessitaram eleger a geografia editorialmente demarcada por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e o curso da década de 1970 aos dias atuais, no generoso diálogo com quatro representantes de cada estado.
Em quase 250 páginas de espontaneidade, riso fácil, segredos, formação profissional, vidas envolvidas com livros e imagens, TRAÇO E PROSA oferece um panorama compreensivo a respeito da dinâmica de processos artísticos que, muitas vezes, ultrapassa o depoimento personalíssimo e vai esboçando ordens mais gerais da produção contemporânea. Um exemplo instigante que lá encontramos é o tema da autoria em três diferentes articulações – quando um autor escreve, depois outro ilustra; a parceria entre escritor e ilustrador; e, por fim, escritor-ilustrador como um só criador –, que implicam nas relações convencionais, contratuais e contextuais da leitura que se transportam para dentro livro ilustrado para crianças. Ora, se o conjunto das entrevistas não responde por uma formulação teórica única, positivamente enseja ser o objeto de análise e reflexão junto a muitos pesquisadores de editoração, teoria literária, pedagogia ou crítica genética, interessados em rever o estatuto da literatura infantil brasileira, no reconhecer a transformação da leitura entre palavras e imagens, redesenhando o conceito sobre o que é livro ilustrado para crianças.
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24 de outubro de 2011
a vida joga bola
peter o'sagae
Livro-imagem ou livro de imagem narrativo, o que importa é a história que se inicia com um abraço e um passeio: pai e filho, no clima festivo das bandeirinhas enfeitando a cidade, as ruas todas vestindo verde e amarelo. Uma loja no caminho de ambos – e o presente, talvez insuspeitado, uma camisa oficial da seleção brasileira. O sorriso. Assim é a vida, nem precisa esperar para vestir a camisa 10 ;-) é uma festa só, uma expectativa, as ruas, a reunião com os amigos, a televisão, todos juntos, pra frente é que se joga, Brasil, um país campeão. Mas :(
... um braço suspenso no ar, um grito que não saiu do peito com bravura, um vazio, o presente desejado por tantos, sessenta milhões em ação, e que não veio...
O presente, de Odilon Moraes (Cosac Naify, 2010), talvez seja a mais extensa narrativa visual, publicada entre nós, neste gênero de livros para crianças e jovens. São, ao todo, 32 shots distribuídos diferentemente entre a capa, requadros e páginas-duplas que vão compondo três grandes sequências narrativas. Assim, à medida que as páginas avançam, cada unidade mostra-se bem delineada por sentimentos de surpresa e felicidade; depois, uma expectativa radiante e frustração; finalmente, a alegria imensa e ingênua do menino, sacudindo a poeira, dando a volta por cima, pois a história termina com um presente de maior significação para ele. Igualmente para nós.
Odilon Moraes faz livro de imagem narrativo em ritmo de crônica para falar da amizade que fica e consola, de amadurecimento, de vitória. E, claro, de futebol.
Livro-imagem ou livro de imagem narrativo, o que importa é a história que se inicia com um abraço e um passeio: pai e filho, no clima festivo das bandeirinhas enfeitando a cidade, as ruas todas vestindo verde e amarelo. Uma loja no caminho de ambos – e o presente, talvez insuspeitado, uma camisa oficial da seleção brasileira. O sorriso. Assim é a vida, nem precisa esperar para vestir a camisa 10 ;-) é uma festa só, uma expectativa, as ruas, a reunião com os amigos, a televisão, todos juntos, pra frente é que se joga, Brasil, um país campeão. Mas :(
... um braço suspenso no ar, um grito que não saiu do peito com bravura, um vazio, o presente desejado por tantos, sessenta milhões em ação, e que não veio...
O presente, de Odilon Moraes (Cosac Naify, 2010), talvez seja a mais extensa narrativa visual, publicada entre nós, neste gênero de livros para crianças e jovens. São, ao todo, 32 shots distribuídos diferentemente entre a capa, requadros e páginas-duplas que vão compondo três grandes sequências narrativas. Assim, à medida que as páginas avançam, cada unidade mostra-se bem delineada por sentimentos de surpresa e felicidade; depois, uma expectativa radiante e frustração; finalmente, a alegria imensa e ingênua do menino, sacudindo a poeira, dando a volta por cima, pois a história termina com um presente de maior significação para ele. Igualmente para nós.
Odilon Moraes faz livro de imagem narrativo em ritmo de crônica para falar da amizade que fica e consola, de amadurecimento, de vitória. E, claro, de futebol.
14 de outubro de 2010
com a palavra, o ilustrador

Livro organizado por Ieda de Oliveira, O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra, o ilustrador (DCL, 2008) é uma coletânea de artigos e depoimentos; graficamente caprichado, 216 páginas em couché brilhante e reproduções em cores, índice remissivo e orelha assinada por Nelly Novaes Coelho, assinalando, “nesta fabulosa, caótica, progressista e alienadora era da imagem”, uma irrevogável funcionalidade pedagógica da ilustração: “A palavra cria o texto, o qual serve de fonte para a criação da imagem, cuja tarefa é dialogar e expandir os sentidos do texto de modo a provocar, no leitor-aprendiz (a criança e o adolescente), o ‘olhar de descoberta’ que fará dele um leitor criativo.” É a imagem uma estratégia para materializar e mostrar os caminhos da interpretação?

Ponto alto, a simplicidade com que nos ensinam Odilon Moraes, o projeto gráfico do livro para crianças, e Ciça Fittipaldi, a narratividade da imagem. Eis um bom começo para a leitura dos artigos. Ambos apontam quais os vínculos que se produzem de um a outro código, num jogo incessante de construção e decifração: “Os temas estão colocados, em princípio, pela linguagem literária: uma história dá origem a uma imagem”, afirma Ciça, “a imagem, por sua vez, dá origem a uma história que, por sua vez, apresenta-se por meio de uma nova imagem, esta permitindo uma outra história e mais outra, alternativa que logo se transforma em outras imagens...” (2008: 103)
Os demais capítulos vêm nos trazendo ora informações mais técnicas, ora horizontes que sugerem novas pesquisas — um histórico da ilustração fechado ao século XIX, com Rui de Oliveira, as diferentes técnicas, com Renato Alarcão, e o uso das cores, com Cristina Biazetto; a relação palavra e imagem, por Marcelo Ribeiro, questões a respeito do pensamento, da leitura de imagens e do livro de imagens, por Marilda Castanha... São sete artigos, enfim.
E depois: as visadas pessoais sobre a ilustração e o livro ilustrado, no fazer e pensar de Ana Raquel, Ana Terra, André Neves, Angela Lago, Márcia Széliga, Maurício Veneza, Nelson Cruz, Regina Yolanda, Ricardo Azevedo, Rosinha Campos, Thais Linhares e três ilustradores portugueses: Gémeo Luís, João Vaz de Carvalho e Teresa Lima.
Nas fotos: capa, contracapa e dobras do livro organizado por Ieda de Oliveira: dupla página com Edvard Munch intertextualizado por Marilda Castanha, uma ilustração com recortes em papel craft de Gémeo Luís e a abertura do artigo de Renato Alarcão.
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Ciça Fittipaldi,
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Renato Alarcão,
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8 de agosto de 2010
debaixo de um guarda-silêncio
por Peter O’Sagae
Quando meu pai morreu, a minha vida parou. Eu não sabia ainda qual e quanto sentimento estava represado, que nome dar ao que sentia e como diminuir as lágrimas que se derramavam igualmente além desta existência. 2008 foi um ano em que se anteciparam à minha vontade um amigo-adulto que tive na infância chamado Agamenon, o poeta Elias José e meu pai. Eu estava sensível e não sabia.
Porque raramente temos a educação dos pensamentos rumo às verdadeiras questões da vida e sofremos quando uma mudança inevitável se interpõe em nosso caminho. Inevitável, pensamos nós, porque somos pequenos frente a toda forma de silêncio. Contudo, exite um silêncio que deveríamos saber significativamente belo, porque nos transforma. Se não temos mais aqueles instantes de ver e abraçar as pessoas amadas, é porque talvez elas tenham vindo morar em nosso próprio íntimo, sem nos acordarmos por qual estrada vieram.
E é um sentido novo de saudade que se revela igualmente nas páginas do livro O guarda-chuva do vovô, do casal Carolina Moreyra e Odilon Moraes (DCL, 2008). Não é como uma ausência na casa vazia, um retrato na parede parado, uma lembrança de viagem que não se repetirá. Ao contrário, existe uma saudade-saudável que traz felicidade e presença, quando abrimos o sentimento à estrada da gratidão da experiência vivida, nos fazendo achegar outra vez de nossos queridos companheiros.
No livro, debaixo de um guarda-chuva, a neta confessa: “Quando chove as janelas ficam todas fechadas, os jardins ficam molhados e não podemos brincar lá fora. Muita gente não gosta quando chove... mas eu fico feliz, porque sei que o vovô também está.” Este é o seu segredo, conforme leio no meu próprio guarda-silêncio: descobrir e reconhecer, mesmo que pareça tão difícil, a oportunidade maior que a vida nos estende: um reencontro interior e eterno.
Quando meu pai morreu, a minha vida parou. Eu não sabia ainda qual e quanto sentimento estava represado, que nome dar ao que sentia e como diminuir as lágrimas que se derramavam igualmente além desta existência. 2008 foi um ano em que se anteciparam à minha vontade um amigo-adulto que tive na infância chamado Agamenon, o poeta Elias José e meu pai. Eu estava sensível e não sabia.Porque raramente temos a educação dos pensamentos rumo às verdadeiras questões da vida e sofremos quando uma mudança inevitável se interpõe em nosso caminho. Inevitável, pensamos nós, porque somos pequenos frente a toda forma de silêncio. Contudo, exite um silêncio que deveríamos saber significativamente belo, porque nos transforma. Se não temos mais aqueles instantes de ver e abraçar as pessoas amadas, é porque talvez elas tenham vindo morar em nosso próprio íntimo, sem nos acordarmos por qual estrada vieram.
E é um sentido novo de saudade que se revela igualmente nas páginas do livro O guarda-chuva do vovô, do casal Carolina Moreyra e Odilon Moraes (DCL, 2008). Não é como uma ausência na casa vazia, um retrato na parede parado, uma lembrança de viagem que não se repetirá. Ao contrário, existe uma saudade-saudável que traz felicidade e presença, quando abrimos o sentimento à estrada da gratidão da experiência vivida, nos fazendo achegar outra vez de nossos queridos companheiros.No livro, debaixo de um guarda-chuva, a neta confessa: “Quando chove as janelas ficam todas fechadas, os jardins ficam molhados e não podemos brincar lá fora. Muita gente não gosta quando chove... mas eu fico feliz, porque sei que o vovô também está.” Este é o seu segredo, conforme leio no meu próprio guarda-silêncio: descobrir e reconhecer, mesmo que pareça tão difícil, a oportunidade maior que a vida nos estende: um reencontro interior e eterno.
Um ótimo domingo em companhia de nossos pais, com um pouco de literatura sugerida.
13 de junho de 2009
Será o Benedito?

Mário de Andrade
il. Odilon Moraes
Será o Benedito!
Cosac Naify, 2008
ISBN 9788575036778
encadernado/capa dura
21 x 28 cm 36p.
Comentar literatura é, muitas vezes, perder o texto ou só outra maneira de esquecer as sensações experimentadas durante a leitura. E justamente isso é o que eu não gostaria, pois ainda ontem chegou às minhas mãos a bonita edição que Odilon Moraes preparou a fim de acalentar a crônica de Mário de Andrade. Desejo permanecer lá, num flagrante do tempo na dobra das páginas. Desnorteado como menino que, nas admirações que a vida provoca, exclama “Será o Benedito!”, sinto-me obrigado a margear a narrativa para não comprometer a sua qualidade terna, mágica, tenra e doída que une os homens independentemente das várias idades e das épocas, se vivos ou ficcionais.
Pelas bordas assim, invento de prestar atenção à crônica brasileira que desliza entre os gêneros literários, sem lugar fixo entra a figuração do cotidiano e a ficção. Somente os suportes materiais poderiam servir-lhe de algum indicativo, como registro de um comentário no galope dos incidentes diários — Mário de Andrade foi um incansável cronista e publicou textos em jornais e revistas; Será o Benedito! se fez estampar primeiramente no “Suplemento em Rotogravura”, de O Estado de S.Paulo, no distante outubro de 1939, como homenagem ao Dia das Crianças — ou como um conto, curto e direto nas emoções que produz. Já não importa mais se a história é verídica ou não, quando compreendemos que a linguagem é o que dá de criar a narrativa, ’inda mais deslocada para um livro solo, especialmente ilustrado. Os compromissos do texto com o leitor tornam-se outros; exige recepção literária, e não a secção histórica à moda dos especialistas no assunto.
Exatamente também que a expressão “Será o Benedito!”, nas tramas do escritor, torna-se auto-referente: Benedito é o nome do menino-personagem com quem o narrador-de-Mário-de-Andrade estabelece franco e afetuoso contato — e, daí, resulta um sorriso nosso para o humor que pontua o texto. Será o Benedito? É o bendito moleque de treze anos que o narrador traz na memória, desde a primeira imagem que capturou do amigo:
“Achando graça nele, de repente o encarei fixamente, voltando-me para o lado em que ele se guardava do excesso de minha presença. Isso, Benedito estremeceu, ainda quis me olhar, ainda levou a mão à boca, na esperança talvez de esconder as palavras que lhe escapavam sem querer:
—O hôme da cidade, chi!...”
Com sua aquarela líquida de cores brilhantes, Odilon Moraes cria um homem da cidade, Mário-personagem, com a felicidade de um olhar em movimento cineMATOgráfico sobre o excesso que o cronista ocupava ante a visão do menino, ambientando assim o texto, bem mais que o reproduzindo. Toda crônica já nasce com um puro talento para ser imagem, como coisa que é instantâneo do pensamento. Crônica que vira conto, então, nem se mede.
E Odilon ilustra o livro como quem está a dirigir um filme, criando antecedentes, câmara lenta e posteridade para as imagens da narrativa. A integração palavra&imagem é marcada por distâncias, reflexos assimétricos e solidariedade. Vejamos, ponto por ponto, essas idéias.
Pelas bordas assim, invento de prestar atenção à crônica brasileira que desliza entre os gêneros literários, sem lugar fixo entra a figuração do cotidiano e a ficção. Somente os suportes materiais poderiam servir-lhe de algum indicativo, como registro de um comentário no galope dos incidentes diários — Mário de Andrade foi um incansável cronista e publicou textos em jornais e revistas; Será o Benedito! se fez estampar primeiramente no “Suplemento em Rotogravura”, de O Estado de S.Paulo, no distante outubro de 1939, como homenagem ao Dia das Crianças — ou como um conto, curto e direto nas emoções que produz. Já não importa mais se a história é verídica ou não, quando compreendemos que a linguagem é o que dá de criar a narrativa, ’inda mais deslocada para um livro solo, especialmente ilustrado. Os compromissos do texto com o leitor tornam-se outros; exige recepção literária, e não a secção histórica à moda dos especialistas no assunto.
Exatamente também que a expressão “Será o Benedito!”, nas tramas do escritor, torna-se auto-referente: Benedito é o nome do menino-personagem com quem o narrador-de-Mário-de-Andrade estabelece franco e afetuoso contato — e, daí, resulta um sorriso nosso para o humor que pontua o texto. Será o Benedito? É o bendito moleque de treze anos que o narrador traz na memória, desde a primeira imagem que capturou do amigo:
“Achando graça nele, de repente o encarei fixamente, voltando-me para o lado em que ele se guardava do excesso de minha presença. Isso, Benedito estremeceu, ainda quis me olhar, ainda levou a mão à boca, na esperança talvez de esconder as palavras que lhe escapavam sem querer:
Com sua aquarela líquida de cores brilhantes, Odilon Moraes cria um homem da cidade, Mário-personagem, com a felicidade de um olhar em movimento cineMATOgráfico sobre o excesso que o cronista ocupava ante a visão do menino, ambientando assim o texto, bem mais que o reproduzindo. Toda crônica já nasce com um puro talento para ser imagem, como coisa que é instantâneo do pensamento. Crônica que vira conto, então, nem se mede.
E Odilon ilustra o livro como quem está a dirigir um filme, criando antecedentes, câmara lenta e posteridade para as imagens da narrativa. A integração palavra&imagem é marcada por distâncias, reflexos assimétricos e solidariedade. Vejamos, ponto por ponto, essas idéias.[continua]
Primeira cena que o leitor invade, ou que invade o leitor, está na capa, dentro de um antigo trem, o homem no escuro, o livro em suas mãos iluminado por um dia azul, a janela pendurada na paisagem, a bagagem espalhada confortavelmente. Sem que queiramos (nem adianta mais negar o que o olhar acolheu), estamos enredados na narrativa que visualmente já começou. Nas páginas de guarda, uma comprida cerca ripada é duplamente observada — tanto do ponto de vista do personagem, quando do leitor que percorre, da esquerda para direita, uma estradinha de terra que se afunda num rancho longe. Corta para — uma visão panorâmica sobre uma pequena vila, próxima da estação de trem, casas com telha de barro, janelas e portas azuis, paredes cor de branco e cor de tempo; na linha do horizonte, depois dos verdes novos em folha, a linha dos trilhos com sua maria-fumaça fumando para o céu — e virando a página,
um plano em perspectiva coloca Mário de costas para nós, retirando as malas da carroça, o cavalo parado; distante, uma sombra magra de moleque correndo serelepemente. Quando a primeira linha da crônica se inicia, um mundaréu de idéias já pertence ao universo do leitor.
Embora descritivas e informativas, à medida que encarnam e representam personagens e cenas da narrativa, e expressem uma força decorativa, as ilustrações, sem fugir dessas funções e qualidades, não redundam em dizer os mesmos significados que o código verbal ou roubar-lhe poesia e metáfora. A poesia visual é outra: seus reflexos ambicionam traçar estruturas homólogas à crônica no que ela possui de subjetividade — o ponto de vista do autor Mário de Andrade, somando-se ao ponto de vista de Odilon Moraes — ambos requerem um olhar-leitor que acompanhe os cortes e tome uma posição compreensiva da nova dinâmica. O espaço compartilhado entre Mário-personagem e o menino é, inicialmente, dominado pelas distâncias que a escolha de planos em perspectiva vem reforçar e, quase sempre, a figura do cronista ocupa realmente maior dimensão sobre o papel, não apenas porque é um homem maduro e corpudo,
mas também excesso de estranheza do moleque. A mudança de foco e a proximidade entre eles obviamente acontece no registro da crônica e na cineMATOgrafia das imagens. Mas, Odilon, antes faz um jogo de câmera, uma torção no eixo visual, sempre às costas do personagem adulto — o livro ilustrado é também evidentemente uma homenagem aos dias de criança, aos dias de Benedito.
Em duas ilustrações, homem e menino se conjuminam no diálogo inevitável e compartilham de um mesmo espaço diante do diretor de cinema e do seu leitor-espectador. O plano em perspectiva ilusoriamente desaparece, ao vermos os dois próximos. É bonita a imagem de Mário e Benedito, montados em cavalos, lado a lado, o adulto adentrando as distâncias da paisagem, até então dominadas pelo dono de trezes anos em “carreiras livres pelo campo”. Ora, o momento mais feliz da leitura foi, da poltrona onde assisto à crônica, a impossibilidade de tradução verbo-visual à moda de conclusão dessa experiência — “Em troca disso, Benedito me mostrava os dentes do seu sorriso extasiado, uns dentes escandalosos, grandes e perfeitos, onde as violentas nuvens de setembro se refletiam numa brancura sem par.”
— e, em troca disso, na dupla página (14-15), impõe-se nova distância na perspectiva: Mário é uma sombra mal definida, sentado em uma tora, junto ao descanso dos cavalos, abaixo do céu que é todo vibração de manchas — e o Benedito tão sem par, em primeiríssimo plano, que toda sua figura já não cabe mais na página, escapa em nossa direção, sorrindo para os leitores.
um plano em perspectiva coloca Mário de costas para nós, retirando as malas da carroça, o cavalo parado; distante, uma sombra magra de moleque correndo serelepemente. Quando a primeira linha da crônica se inicia, um mundaréu de idéias já pertence ao universo do leitor.Embora descritivas e informativas, à medida que encarnam e representam personagens e cenas da narrativa, e expressem uma força decorativa, as ilustrações, sem fugir dessas funções e qualidades, não redundam em dizer os mesmos significados que o código verbal ou roubar-lhe poesia e metáfora. A poesia visual é outra: seus reflexos ambicionam traçar estruturas homólogas à crônica no que ela possui de subjetividade — o ponto de vista do autor Mário de Andrade, somando-se ao ponto de vista de Odilon Moraes — ambos requerem um olhar-leitor que acompanhe os cortes e tome uma posição compreensiva da nova dinâmica. O espaço compartilhado entre Mário-personagem e o menino é, inicialmente, dominado pelas distâncias que a escolha de planos em perspectiva vem reforçar e, quase sempre, a figura do cronista ocupa realmente maior dimensão sobre o papel, não apenas porque é um homem maduro e corpudo,
mas também excesso de estranheza do moleque. A mudança de foco e a proximidade entre eles obviamente acontece no registro da crônica e na cineMATOgrafia das imagens. Mas, Odilon, antes faz um jogo de câmera, uma torção no eixo visual, sempre às costas do personagem adulto — o livro ilustrado é também evidentemente uma homenagem aos dias de criança, aos dias de Benedito.Em duas ilustrações, homem e menino se conjuminam no diálogo inevitável e compartilham de um mesmo espaço diante do diretor de cinema e do seu leitor-espectador. O plano em perspectiva ilusoriamente desaparece, ao vermos os dois próximos. É bonita a imagem de Mário e Benedito, montados em cavalos, lado a lado, o adulto adentrando as distâncias da paisagem, até então dominadas pelo dono de trezes anos em “carreiras livres pelo campo”. Ora, o momento mais feliz da leitura foi, da poltrona onde assisto à crônica, a impossibilidade de tradução verbo-visual à moda de conclusão dessa experiência — “Em troca disso, Benedito me mostrava os dentes do seu sorriso extasiado, uns dentes escandalosos, grandes e perfeitos, onde as violentas nuvens de setembro se refletiam numa brancura sem par.”
— e, em troca disso, na dupla página (14-15), impõe-se nova distância na perspectiva: Mário é uma sombra mal definida, sentado em uma tora, junto ao descanso dos cavalos, abaixo do céu que é todo vibração de manchas — e o Benedito tão sem par, em primeiríssimo plano, que toda sua figura já não cabe mais na página, escapa em nossa direção, sorrindo para os leitores.[continua]
Não vem ao caso aqui desvendar todas as imagens, mal chegados que estamos do meio da narrativa — que intencionalmente não contei, não poderia contar sob o risco de congelar uma idéia, quando o trabalho de Odilon Moraes ao editar as seqüências foi exatamente colocá-las, pluralmente, em movimento. É um trabalho de correlacionar leituras, porque os pontos de vistas estão descentralizados com sua variedade. Nada, além das palavras, ou nem mesmo elas e daí a majestade da crônica de Mário de Andrade, encontra-se fixo.
Algo que venho me perguntando, nos últimos anos, é se uma ilustração poderia mimetizar o movimento de câmera lenta. Esse é um efeito de sentido que talvez seja alcançado pelas contaminações palavra&imagem, a despeito de uma antiga preocupação, entre os artistas quinhentistas,
ou muito antes, em fazer da pintura, arte da representação espacial, romper seu congelamento e passar à narração, como forma de expressão do tempo. Nesse caso, compreendo que uma imagem pode verbalizar-se com a ajuda de seu leitor, reconhecendo e colhendo, na tela, os índices de que algo se sucedeu antes, em breves instantes, ou encontra-se prestes a acontecer. Com imagens em seqüência, ainda que estáticas, o efeito é mais facilmente projetado.
Muitos pintores do passado só conheciam o teatro como uma representação que tomava cor, corpo e movimento. Mesmo os impressionistas e os futuristas ambicionaram desenvoltura e velocidade no espaço pictórico e gráfico. Só mesmo a cineMATOgrafia mais contemporânea traria a dilatação do tempo, tornando-o plástico, distorcendo-o. E, na página 10, se não encontro a câmera lenta, vejo ao menos a lentidão somada à repetição de uma cena recorrente à memória do autor-personagem-narrador e procuro socorro verbal, numa página antes — “assim principiou uma camaradagem que durou meu mês de férias” — e a imagem que segue suficientemente tem manchas, personagens sem rosto, guardados numa memória visual simulada pelo ilustrador. Contudo, o que seria provável aqui, teria também alguma extensão a todo o livro — e a hipótese em mãos é frágil.
O livro ilustrado de Odilon Moraes traz outros enigmas mais palpáveis, como dois jogos de páginas abertas (6-7 e 20-21), simetricamente opostas no suporte, como pontuando o ritmo visual e, em relação à narrativa da crônica, com uma função musical, de certo, para arejar um contraponto. Revelam uns significados? E o final: tendo o leitor-ilustrador acompanhado os passos de Mário-personagem, com olhos cineMATOgráficos sempre, por fim, assume totalmente o seu ponto de vista, num jogo com a memória do outro, onisciência, reflexo poético que o suporte materializa, ou quantas categorias mais que desejarmos inventar para rever o zoom sobre uma cena antes vista ou apenas sonhada pelos afetos do escritor-narrador, do autor-personagem, do ilustrador ou do leitor (qual deles, agora, não importa). Eis a posteridade de uma imagem — para celebrar. O Benedito é!
Algo que venho me perguntando, nos últimos anos, é se uma ilustração poderia mimetizar o movimento de câmera lenta. Esse é um efeito de sentido que talvez seja alcançado pelas contaminações palavra&imagem, a despeito de uma antiga preocupação, entre os artistas quinhentistas,
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Muitos pintores do passado só conheciam o teatro como uma representação que tomava cor, corpo e movimento. Mesmo os impressionistas e os futuristas ambicionaram desenvoltura e velocidade no espaço pictórico e gráfico. Só mesmo a cineMATOgrafia mais contemporânea traria a dilatação do tempo, tornando-o plástico, distorcendo-o. E, na página 10, se não encontro a câmera lenta, vejo ao menos a lentidão somada à repetição de uma cena recorrente à memória do autor-personagem-narrador e procuro socorro verbal, numa página antes — “assim principiou uma camaradagem que durou meu mês de férias” — e a imagem que segue suficientemente tem manchas, personagens sem rosto, guardados numa memória visual simulada pelo ilustrador. Contudo, o que seria provável aqui, teria também alguma extensão a todo o livro — e a hipótese em mãos é frágil.
O livro ilustrado de Odilon Moraes traz outros enigmas mais palpáveis, como dois jogos de páginas abertas (6-7 e 20-21), simetricamente opostas no suporte, como pontuando o ritmo visual e, em relação à narrativa da crônica, com uma função musical, de certo, para arejar um contraponto. Revelam uns significados? E o final: tendo o leitor-ilustrador acompanhado os passos de Mário-personagem, com olhos cineMATOgráficos sempre, por fim, assume totalmente o seu ponto de vista, num jogo com a memória do outro, onisciência, reflexo poético que o suporte materializa, ou quantas categorias mais que desejarmos inventar para rever o zoom sobre uma cena antes vista ou apenas sonhada pelos afetos do escritor-narrador, do autor-personagem, do ilustrador ou do leitor (qual deles, agora, não importa). Eis a posteridade de uma imagem — para celebrar. O Benedito é!
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