peter o'sagae e o mês de abril por aqui
As histórias de animais da literatura para crianças, sem dúvida alguma, descendem das mais antigas fábulas que foram perpetuadas pela voz de diferentes narradores e pelos registros em pedra, argila, pergaminho que intentavam transportar importantes valores morais por terras e povos do Oriente ao Ocidente. Remontando às civilizações egípcia e indiana, as fábulas migraram de uma cultura a outra através da memória de sábios anônimos, ou da figura lendária de Esopo que teria vivido entre os gregos, por volta do VII a.C. Suas pequenas histórias espirituosas foram transcritas para o latim, principalmente por Fedro, no início da Era Cristã — e muitas outras adaptações surgiram até meados do III d.C., atravessando depois séculos e séculos de sombra e proibições, chegando, sob as luzes do XVII, à pena poética de Jean de La Fontaine. Mas seria interessante lembrar – e encaixar entre esses nomes — um poeta espanhol, pouco comentado entre nós outros, chamado Samaniego que igualmente versificou as fábulas em sua língua, além de um certo Manuel Mendes da Vidigueira...
Ora, a essa corrente ou tradição esópica, é preciso juntar narrativas de tribos aborígenes, indígenas e africanas para compreender que o combate aos vícios e o exercício das virtudes impõem um gesto verbal que não conhece fronteiras, porque é Necessidade maior a busca da justiça entre os homens.
São inúmeros os lançamentos de seletas de fábulas, parábolas e apólogos. Porém, desde que comecei a lecionar literatura infantil, praticamente não consigo abrir mão de alguns livros e devo indicá-los a quem deseja um sincero palpite sobre o que não pode faltar em sua biblioteca de estudos ou para compartilhar com as crianças: Fábulas de La Fontaine, por Ferreira Gullar, com versos elegantes e gravuras de Gustave Doré (Editora Revan, 1997); Fábulas de Esopo, compiladas por Ash Russel e Bernard Higton, com a tradução cuidadosa de Heloisa Jahn e um compêndio de variados ilustradores (Companhia das Letrinhas, 2000) e, claro, o volume das Fábulas por Monteiro Lobato, animadamente comentadas pelos personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo (1922).
E vou lembrando, partidário, Emília batendo o pé: ainda que não servissem para grande coisa, as fábulas têm a vantagem de serem curtinhas... Portanto, transmitidas por textos breves e ágeis que privilegiam a inteligência do leitor! Também vale aqui uma recomendação de Dona Benta, tirada após a moral da história da águia e da coruja — Essa fábula se aplica a muita coisa, minha filha. Aplica-se a tudo que é produto nosso. Os escritores acham ótimas todas as coisas que escrevem, por piores que sejam. Quando o pintor pinta um quadro, para ele o quadro é sempre bonitinho. Tudo quanto nós fazemos é “filho de coruja”.
Dobras da Leitura recebeu
Alarcão ilustrou, convencionalmente, o livro Fábulas: histórias de Esopo e La Fontaine para o nosso tempo, compilação em prosa de Paulo Coelho (Benvirá/Saraiva, 2011), primeiro livro que o mago do mercado editorial dirige às crianças e aos jovens. Ao contrário do astrônomo da fábula, o escritor sabe, com douta simplicidade em seu texto, que não adiantaria contemplar as maravilhas do céu, sem capacidade para perceber as armadilhas da terra!
Em outro livro, taludo, em capa dura, os admiráveis olhos e o bom humor dos personagens do ilustrador tcheco Adolf Born acompanham 46 fábulas reunidas sob o título O melhor de La Fontaine, com tradução e adaptação de Nílson José Machado (Escrituras, 2012). As velhas fábulas aqui vão se alongando e, entre dísticos e sextilhas, predomina a modalidade da narrativa em trovas.
INFELIZMENTE, quando não terminam com exclamações, reticências ou dois pontos, certas estrofes foram arrematadas por um inadvertido ponto final, de tanto em tanto, comprometendo a fluência do texto, pois conduziu à separação as unidades sintáticas que deveriam compor o enjambement entre versos de estrofes distintas. É o que acontece em “Tributo enviado pelos animais a Alexandre” ou "O asno vestido com a pele do leão”. Problemas de revisão que pontuou ora demais, ora de menos. Assim, quando era desejável uma vírgula – ou um pequeno travessão, em meio a numerosas fábulas, nenhum traço dá aos leitores indicações de pausa e entonação que melhor promoveriam a compreensão do texto.
Fiquemos próximos de a raposa de Ferreira Gullar
que, esperta, percebeu, por nós, uma coisa curiosa:
— O rastro dos que entram é coisa certa,
enquanto o dos que saem é duvidosa.
E concluiu, embora sem ter prova:
— Quem bem pesar as coisas, lá não vai.
Sabe-se como se entra nessa cova,
mas não se sabe bem como sai.
Mostrando postagens com marcador Renato Alarcão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Renato Alarcão. Mostrar todas as postagens
3 de abril de 2013
No tempo em que os bichos falavam...
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
Adolf Born,
Brasiliense,
Companhia das Letrinhas,
Escrituras e Girafinha,
Fábulas,
Gustave Doré,
Monteiro Lobato,
Paulo Coelho,
Renato Alarcão,
Saraiva
14 de outubro de 2010
com a palavra, o ilustrador

Livro organizado por Ieda de Oliveira, O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra, o ilustrador (DCL, 2008) é uma coletânea de artigos e depoimentos; graficamente caprichado, 216 páginas em couché brilhante e reproduções em cores, índice remissivo e orelha assinada por Nelly Novaes Coelho, assinalando, “nesta fabulosa, caótica, progressista e alienadora era da imagem”, uma irrevogável funcionalidade pedagógica da ilustração: “A palavra cria o texto, o qual serve de fonte para a criação da imagem, cuja tarefa é dialogar e expandir os sentidos do texto de modo a provocar, no leitor-aprendiz (a criança e o adolescente), o ‘olhar de descoberta’ que fará dele um leitor criativo.” É a imagem uma estratégia para materializar e mostrar os caminhos da interpretação?

Ponto alto, a simplicidade com que nos ensinam Odilon Moraes, o projeto gráfico do livro para crianças, e Ciça Fittipaldi, a narratividade da imagem. Eis um bom começo para a leitura dos artigos. Ambos apontam quais os vínculos que se produzem de um a outro código, num jogo incessante de construção e decifração: “Os temas estão colocados, em princípio, pela linguagem literária: uma história dá origem a uma imagem”, afirma Ciça, “a imagem, por sua vez, dá origem a uma história que, por sua vez, apresenta-se por meio de uma nova imagem, esta permitindo uma outra história e mais outra, alternativa que logo se transforma em outras imagens...” (2008: 103)
Os demais capítulos vêm nos trazendo ora informações mais técnicas, ora horizontes que sugerem novas pesquisas — um histórico da ilustração fechado ao século XIX, com Rui de Oliveira, as diferentes técnicas, com Renato Alarcão, e o uso das cores, com Cristina Biazetto; a relação palavra e imagem, por Marcelo Ribeiro, questões a respeito do pensamento, da leitura de imagens e do livro de imagens, por Marilda Castanha... São sete artigos, enfim.
E depois: as visadas pessoais sobre a ilustração e o livro ilustrado, no fazer e pensar de Ana Raquel, Ana Terra, André Neves, Angela Lago, Márcia Széliga, Maurício Veneza, Nelson Cruz, Regina Yolanda, Ricardo Azevedo, Rosinha Campos, Thais Linhares e três ilustradores portugueses: Gémeo Luís, João Vaz de Carvalho e Teresa Lima.
Nas fotos: capa, contracapa e dobras do livro organizado por Ieda de Oliveira: dupla página com Edvard Munch intertextualizado por Marilda Castanha, uma ilustração com recortes em papel craft de Gémeo Luís e a abertura do artigo de Renato Alarcão.
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
Ciça Fittipaldi,
Cristina Biazetto,
DCL,
Ieda de Oliveira,
Marcelo Ribeiro,
Marilda Castanha,
Nelly Novaes Coelho,
Odilon Moraes,
Renato Alarcão,
Rui de Oliveira,
Vitrine de Estudos
Assinar:
Postagens (Atom)







