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9 de junho de 2018

dobras da leitura em curso

Hora de recolher os livros que aqui foram se acumulando em cima da mesa durante oito semanas... Esses títulos marcaram uma trilha de leituras compartilhadas complementares ao trabalho de textualizar histórias, prazeres, temores e outras invenções no curso Escrever para Crianças 2018.


Depois de Lobato, o que há? Foi interessante pontuar a incessante apropriação dos personagens da literatura universal até os mais contemporâneos: da comunicação narrativa de Dona Benta sobre as aventuras de Peter Pan (1930) à fome de brincar com o Lobo Mau, em tantos autores, o leitor cai dentro do livro com Alexandre Rampazo: ESTE É O LOBO (2016). A fim de desconstruir papéis ou os gêneros da literatura de tradição, o leitor passou a ser convocado a tomar decisões sobre como, onde e quando despertar uma história, e isso bem demonstra o capítulo inicial de Glaucia Lewicki: ERA MAIS UMA VEZ OUTRA VEZ (2006). Ou então Laura Rankin: POMPOM E BICUDO (1997). Ler para frente, ler para trás. Ler sob muitos ângulos, como propunha a coleção DOZE OLHOS E UMA HISTÓRIA, com Angela Carneiro, Lia Neiva e Sylvia Orthof, mais Elisabeth Teixeira, Roger Mello e Mariana Massarani nas ilustrações (1994).


Com um pé no conto e outro na fábula, um dedo apontando o universo mágico-simbólico e outro a alegoria/metáfora, vamos chegando às histórias de animais contemporâneas. Aqui é preciso também pensar na variedade de intenções: há sempre um texto atrás de novos textos, repetindo, parafraseando, questionando, parodiando, velhos modos de pensar e sentir a realidade... Como é “O lobo e o cordeiro” retomado por Millôr Fernandes: FÁBULAS FABULOSAS (1963)? E a “História de uma gata”, na tradução de Chico Buarque para OS SALTIMBANCOS (1976)? E olha ali o LIN E O OUTRO LADO DO BAMBUNZAL, de Lúcia Hiratsuka (2004).


O leitor está sempre inscrito no texto, daí a importância de ancorar bem, logo de saída, sua presença na cena da comunicação narrativa. E o escritor é o narrador? Um ou outro pega a criança pela mão para atravessar a história? Fomos aos diálogos com uma possível Clarice Lispector, em O MISTÉRIO DO COELHO PENSANTE (1967), e ao fio que não cessa de torcer a Sorte e a Preguiça, no mirabolante corre-corre de Roger Mello: MENINOS DO MANGUE (2001). E então: conto, fábula, narrativa em encaixe ou tudo ao mesmo tempo agora?


A construção do personagem de ficção passa por muitas dúvidas e descobertas: o que faz, o que deixa de fazer, o que diz, mas – principalmente – tudo o que poderá silenciar para o Outro imaginar e entender... Ora lemos um capítulo do Italo Calvino: O VISCONDE PARTIDO AO MEIO (1952), ora outro de Lygia Bojunga: FAZENDO ANA PAZ (1991) e, então, tendo construído o seu personagem, quem terá coragem para descosê-lo? Vamos espiar o desenho “derretendo” INDO NÃO SEI AONDE BUSCAR NÃO SEI O QUÊ (2000).


Indo e já não sabemos aonde... Um pouco de luz, eu peço a José de Alencar: LUCÍOLA (1861), nessa luta entre o narrador e o seu personagem. Como eles se veem? Outro José, Saramago, finge doçuras em A MAIOR FLOR DO MUNDO (2001) e, então, Angela vira Angelus Lago em A BANGUELINHA (2002). Já sabemos, não sabemos, contudo gostamos quando o narrador vem e espinafra com o leitor! E lhe dou o ultimato: O PERSONAGEM ENCALHADO (1995).


Quanto mais a teoria nos desafia, os textos vão se abrindo descomplicados, bonitos e simples. Um afeto, eis o leitor real se identificando com o personagem-leitor inscrito nas páginas de Don e Audrey Wood: MEUS PORQUINHOS (1992). E podemos escolher o verso ou a prosa nos livros ilustrados de Mary e Eliardo França... Sintagma narrativo – isto tá fácil? BANANA (1998). Ou voar ou mergulhar no paradigma que empilha possibilidades, DIA E NOITE (1980). Costurando escolhas numa infância reinventada com TANTOS CANTOS (2012).


Você pode não acreditar, mas gosto dos textos simples... nos quais é preciso assumir que talvez não seja fácil reduzir a linguagem verbal e visual à uma nobreza muito própria, dentro de um projeto gráfico enxuto, sem páginas e páginas que cansam a mão do pequeno leitor. E Eva Furnari joga com o leitor: FILÓ E MARIETA (1983), AMENDOIM (1983), livros de imagem são texto. De Luiz Gouvêa de Paula e Ciça Fittipaldi: O TUCUNARÉ (1989); uma aula de narrativa visual! De Stephen Michael King: O HOMEM QUE AMAVA CAIXAS (1995), a articulação do livro ilustrado não-brasileiro.


Então, um inesperado encontro com o texto que nos devora, Guimarães Rosa: FITA VERDE NO CABELO (conto publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, no dia 8 de fevereiro de 1964). Mas, aqui, a velha nova história vem com os desenhos de Roger Mello (1992) emoldurando devaneios e silêncio. O que é um texto? Quais os fatores de textualidade? Leonor Lopes Fávero responde. Para quê o texto literário, para quê a busca de uma descrição singular? Chklovski responde. E a nossa inspiração para todos os incursos: “De que serve um livro sem figuras nem diálogos?” Alice pergunta (1865), Lewis Carroll não responde. Claramente.


E um finalmente para ir em frente... As travessuras de Suzy Lee são lembradas em A TRILOGIA DA MARGEM (2012). Escrever, desenhar é arremeter-se à página. O livro para crianças e jovens pede ou não pede ilustrações? Os caminhos (não os conselhos) são muitos, mergulho, desapego, renascimento, como A EXTRADIORNÁRIA JORNADA DE EDWARD TULANE, de Kate DiCamillo (2007).

16 de dezembro de 2015

Um pouco selvagem.

Peter On Instagram


Quase certo que as crianças sintam ter vindo de um lugar distante, ninguém se lembra exatamente, talvez uma floresta onde se aprendeu a falar com os corvos, a comer como um pequeno urso esfomeado e a rolar tal qual uma raposa na toca... Emily Hughes permite pensar quanto os adultos são animais estranhos, brincando com o conceito de SELVAGEM que pouco tem frequentado a literatura infantil brasileira. Ops! #pequenazahar (2015) #literaturainfantil #emilyhughes


É preciso olhar. O colecionador é quem vive preso às figuras do velho álbum de animais exóticos que cobiça, é quem vive. Preso ao grave reflexo de si em frente ao orgulhoso espelho. É preciso. Caçar e contar histórias, favorecer-se delas. Uma hora parte o homem, entretanto desperta o tigre da fotografia. O olhar que caça atravessa as sombras e as molduras do território livre da imagem, em seu enigma SELVAGEM #editoraglobal (2010) #livrodeimagem #rogermello


Literalmente, ONDE ESTÃO AS COISAS SELVAGENS. Não se faz aí uma pergunta, mas a afirmativa lembrança de que uma viva alegria existe dentro de nós. Vontade divina, instinto para ser grande... Talvez sob o domínio da imagem e uma imaginação pouco livre, as línguas neolatinas usaram compreender que as coisas remotas são *monstros*, talvez esquecidas do sentido puro do maravilhoso. Vamos deixar o rumor da festa começar. #mauricesendak (1963)

27 de janeiro de 2015

'tá chovendo na roseira?

peter ô.ô sagae


Bate luz e um pouco de vento na árvore em frente à minha janela e me distraio. Estico o braço até a estante. Na letra R, encontro Rosa Branca no cercado e um jardineiro que a vigia. Bem de perto. E já sei o que está por vir. Uma narrativa rápida e poética em sua dupla estrutura: a montagem linear como uma parlenda enumerativa, sobre uma estrutura circular que a voz do narrador esconde, revela ao meio do texto, bem ao meio.


A história começa em um dia que o jardineiro amanheceu gripado de tanto que andou descalço tentando encontrar os sapatos que um gato... escondeu! O gato veio com o irmão mais moço do jardineiro que... era casado com Dalva que... tinha um tio na família que... morreu de desgosto, por conta de uma carta de amor que... nunca chegou porque caiu da sacola do carteiro, quando ele se abaixou para pegar um anel do chão. O anel de latão que a costureira atirou pela janela, recusando-se a casar com seu noivo de bigode ridículo...

E assim vai, anda a roda e tanta coisa mais. A estratégia da lengalenga é tão bela e tão velha que nem mesmo Drummond escapou de fazer uso para a sua ‘Quadrilha’ (1930), inspirando, por sua vez, textos e mais textos como a lírica de ‘Espinho na Roseira / Drumonda’, de André Abujamra (1995).


Um fato puxando o outro. E Rosa Branca fugiu do cercado? Roger Mello sabe que Todo cuidado é pouco! (Companhia das Letrinhas, 1999). Alguém sussurra que ela sumiu do mapa e, carregando consigo a rosa-dos-ventos, fez o mundo perder a direção do caminho. Cada coisa... Conversa! No meio do texto, o narrador pede – Mas espera um pouco... e a história desanda à roda: nada do que aconteceu realmente aconteceu porque Rosa Branca está dentro do cercado.


Brincando com a construção e a desconstrução do texto, o que era simples linearidade ou sucessão volta-se sobre se si e circularmente transforma a narrativa em uma experiência espacial. Tudo volta atrás... Ou seria para a frente? O jardineiro vigia Rosa Branca. Zeloso, sem desviar o rosto, bem de perto. É uma prova que a vida é mesmo assim, tá sempre no eixo, no mesmo e próprio lugar, mesmo quando parece não estar.

Mas, digo eu, espera um pouco...
E se começasse a chover?

20 de dezembro de 2013

sonho dentro de um sonho que

peter ô.ô sagae



Há uma figura de dança e movimento
no menino. Talvez daí venha a pipa. Ao céu.
Ao telegráfico sol. O amarelo, banhado o chão de sombras.
E deitada, ainda, a pipa, varetas, rabiola, cola, papel de seda.
Vermelho. Apenas um menino construindo seu brinquedo.
E o vento enrola a linha toda fora do carretel. E o Céu
verde, viu? Uma cor tão pura, feroz. Cordão, coração. A sombra
do menino pelo chão em liberdade voa. Onde tudo é
azul.

Já não posso ler e reler ordenadamente o livro de Roger Mello,
A pipa (Paulinas, 1997; Rovelle, 2013), uma vez que nele encontro
um sonho dentro de um sonho que se transforma em pesadelo – e
o efeito da leitura aí talvez contenha toda a sua mensagem, o significado que os olhos acolhem para depositá-lo compreensivelmente no coração – e, ao sangue correndo rumo aos pensamentos, o significado lento, lento, um dia desperte em ação moral. Pois assim apreendi, há muito, uma ideia de Juan de La Cruz que me parece propositalmente indicar o caminho muitas vezes silencioso e solitário de uma aprendizagem intransferível. Tal é o desígnio das artes.


Os olhos acolhem. O personagem e suas ações, um céu que é inesperadamente roxo ou laranja, inesperadamente o céu singrado de outras pipas, papagaios, arraias, pandorgas, califas, pentágonos, maranhões enormes quadriculados pretos e brancos em espaços rasantes e cortantes: a brincadeira termina. E as expectativas do menino viram um deserto extenso... No horizonte, então, desponta um balão dirigível. Imbatível!


O coração acorda. Entre planos e formas de aparência bastante espontânea, as cores propõem um jogo com figuras que fazem a história nascer do desenho – vão as cores traduzindo de um modo muito imediato as sensações ora ingênuas, ora instintivas, primeiras, primárias tão próximas às crianças. Aqui e ali não se pode esperar uma ilusão de realidade nas cores que descem do céu ao chão, porque não pertencem aos objetos do mundo: de fato e destino, as cores estão em concordância com os sentimentos. Em uma intensa explosão.


O pensamento. Um livro de imagem encena quase sempre sua própria mensagem na passagem por quadros e páginas. E, nesse mister, Roger Mello dispara a trama simples e sensível de um combate, muitos combates que se vê pelos ares e, por aí, espalham-se e se plantam pelos recantos do mundo – mas, até quando, a rivalidade?


Essa é uma pergunta por anos correndo. Este é um livro de imagem ainda bastante inédito na literatura para crianças, recentemente relançado, e sobre o qual não encontrei comentários a respeito – A pipa é, afinal, um apólogo? – algo onírico e tarsila, algo nabi e profético, a expressão visual e sentimental de um artista, entre matizes de Matisse, miríades de linhas de Miró.

E, por fim, o outro sonho. Que
vem da pipa e eleva o menino,
muitos meninos em céu marinho.
É quando, talvez a paz...

6 de setembro de 2013

o esboço do pensamento

setembro na mesa 1


É a palavra sobre a imagem no livro ilustrado para crianças que encontramos em TRAÇO E PROSA, entrevistas com ilustradores de livros infantojuvenis por Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu (Cosac Naify, 2012), recontando uma história íntima da literatura infantil brasileira sob a perspectiva que mais atende ao interesse de leitores entre adultos e crianças: a ilustração, em primeira pessoa, em primeiro plano, nas conversas registradas dentro dos ateliês de doze grandes nomes.

Eliardo França, Rui de Oliveira, Eva Furnari, Alcy Linares, Ricardo Azevedo, Helena Alexandrino, Nelson Cruz, Marilda Castanha, Graça Lima, Mariana Massarani, Roger Mello e Angela Lago delineiam a ambição do livro ilustrado como uma linguagem única em nosso cenário editorial, abrindo os bastidores de seus sonhos e todo o esforço criativo para estabelecer laços de comunicação e afetos com os leitores. “Para o preparo das entrevistas”, afirmam os organizadores, “consultamos a bibliografia existente sobre o assunto. Apesar de escassa, achamos alguns temas comuns nessas fontes, o que nos levou a dividir em três os tipos de abordagem que seriam de grande ajuda para nosso projeto. Elas foram denominadas por nós de histórico-sociológica, pedagógica e formalista. Essa classificação, mesmo não sendo completa, demonstrou-se suficientemente abrangente e útil para o propósito de definir as perguntas para as entrevistas.” Dentre os muitos desafios de recorte e método, os autores necessitaram eleger a geografia editorialmente demarcada por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e o curso da década de 1970 aos dias atuais, no generoso diálogo com quatro representantes de cada estado.


Em quase 250 páginas de espontaneidade, riso fácil, segredos, formação profissional, vidas envolvidas com livros e imagens, TRAÇO E PROSA oferece um panorama compreensivo a respeito da dinâmica de processos artísticos que, muitas vezes, ultrapassa o depoimento personalíssimo e vai esboçando ordens mais gerais da produção contemporânea. Um exemplo instigante que lá encontramos é o tema da autoria em três diferentes articulações – quando um autor escreve, depois outro ilustra; a parceria entre escritor e ilustrador; e, por fim, escritor-ilustrador como um só criador –, que implicam nas relações convencionais, contratuais e contextuais da leitura que se transportam para dentro livro ilustrado para crianças. Ora, se o conjunto das entrevistas não responde por uma formulação teórica única, positivamente enseja ser o objeto de análise e reflexão junto a muitos pesquisadores de editoração, teoria literária, pedagogia ou crítica genética, interessados em rever o estatuto da literatura infantil brasileira, no reconhecer a transformação da leitura entre palavras e imagens, redesenhando o conceito sobre o que é livro ilustrado para crianças.

7 de junho de 2011

poesia, pesadelo e pescaria

peter o...


Amarrando o leitor às sugestões palavra & imagem, JOÃO POR UM FIO, de Roger Mello (Companhia das Letrinhas, 2005), é um livro como poucos. A figura esquemática [ora silhueta preta, ora sombra branca] representa um menino [todo menino] que se lança a aventuras que só o devaneio conhece, entre a vigília e o sonho, brincando com uma colcha de mil linhas, minuciosos desenhos e vazados em constante transformação [mágica]. Não há, por todo livro, duas páginas em que o tecido se repete.


O olhar do leitor encontra [conforto e fantasia] nas composições da colcha que pertence a João. Agora ele está no interior de um útero de renda e se — um beijo na testa ainda beija — ouvimos no verso a ternura de boa-noite que fica depois da despedida de mãe [ou um pai, talvez pescador] que lhe conta histórias, lá/aqui onde tudo é vago... Onde é que se esconde a noite? Dentro ou fora da colcha, abaixo ou acima, muito acima? Onde paira a lua que pousa crescente na mão de João? O útero é então montanha... A colcha mágica é tudo.

Entre rosáceas e estrelas de todo o traçado, o olhar de quem lê esbarra [enfeitiçado] com figuras e fundos em oposição, sobreposições, indícios que fogem à uma apreensão única breve. É preciso demorar-se, é preciso devanear. [Roger Mello exige câmara lenta, uma outra órbita] Onde se esconde a noite, é uma pergunta recorrente de sonho e pesadelo. A colcha de João assume uma inusitada perspectiva: uma catedral imersa num oceano de linhas, como soa sonhos sombrios La cathédrale engloutie, de Debussy. Existe mar na cama?


Espiando uma página e outra, tempo depois. Lacunas se completam apenas com novas lacunas — espaços não preenchidos. Como um jogo, livro-jogo o livro todo, leituras móveis, leitor pescado na armadilha de uma montagem por fusões. É triplamente 1.1.2 diagrama coreográfico, 1.2.2 interpolação de planos e 1.3.2 ordem distributiva, na sintaxe espacial palavra e imagem.

Caiu na rede, é sonho. Ou sereia.

peter peter guarda...


As páginas de guarda sempre podem revelar surpresas para quem gosta de ver e ler significados ali escondidos, quando a mão do ilustrador vai além da mera decoração. Às vezes, fatos curiosos se anunciam... Roger Mello ilustrou e guardou o cordel de Zélia Gattai, Jonas e a sereia (Record, 2000). Tem pente, tem espelho na rede. E tem remo. Página de guarda rima também: João por um fio, todo livro verso e desenho de Roger Mello (Companhia das Letrinhas, 2005).


Na tese Imagens e enigmas na literatura para crianças (USP, 2008), escrevi... “Entre a capa e o corpo do livro, as folhas de guarda vêm mostrar que nem tudo o que cai na rede é peixe: entre chumbadas, um emaranhado de linhas brancas que teceu o artesão-ilustrador, num jogo onde parece não existir figura nem fundo, o que se vê está por baixo ou acima da tarrafa: duas libélulas que apelidam as crianças ora helicópteros, ora lava-bundas; certo crustáceo marinho, talvez Ceratoserolis meridionalis; um pote de vidro com três bolinhas dentro e mais outro com o que sobrou de uma concha em espiral; um caminhão certamente brinquedo, e cinco peixes. Aqui, diferente de outros livros, somente o tema vai se revelando por estranhas associações — e o peixe de papelão que pode atravessar de parte a parte o suporte material.”

23 de fevereiro de 2010

Lugares de onde se espia o mundo


O que é que há aí para ver?

Contrastes e semelhanças entre uma página do livro O peixe e o pássaro, de Bartolomeu Campos de Queirós com fotografias de Haroldo Carneiro (Formato, 1974), e a capa de Meninos do mangue, de Roger Mello (Companhia das Letrinhas, 2001).

21 de julho de 2009

...uma flor é uma flor, e...


Roger Mello
A flor do lado de lá
Global, 1999

ISBN 9788526006201
20 x 20 cm 36p.


Tem gente que já conhece o animal que aí está, na capa, mas tem gente que ainda não — por isso, me isento de contar o bicho que é. De fato, o divertimento deste livro é descobrir a sua identidade, caro leitor! Pois Roger Mello criou um personagem ambivalente, com traços e cores de cartum, exagerando algumas características, deixando encobertas outras, que, às vezes, torna-se quase impossível descobrir onde estão os olhos ou as orelhas. Dá para ver que tem pêlos ou patas com grandes unhas? Pode ser um mamífero, então? Que seja...
Na hora de colocá-lo “em ação”, o autor vai deixando mais evidente como são suas patas ou onde está a boca.

Na seqüência das páginas, a influência do desenho animado é uma marca muito forte; e a imagem consegue congelar as posições mais engraçadas e mais escancaradas do estranho animal. Seu humor também oscila de alto e baixo, entre o estado mais alegre, espantado, esperançoso, derrotado e, novamente, entusiasmado, surpreso, sonhador e verdadeiramente sem forças... Por duas vezes, o pequeno personagem parece perceber a presença do leitor — no início, com ares de irrevogável tédio, como quem pergunta: “O que é que ’tá olhando, nunca viu?” e já no fim de sua desventurada história, como que pego no meio do movimento, de repente, virado numa estátua, mas aí já são muitas possibilidades de interpretação: Gulp! Hein? Que foi?

Os enquadramentos da página não estão fixos. A cada nova cena, o olho-câmera de Roger se aproxima e afasta-se do personagem, ao mesmo tempo em que vai cruzando três pontos de vista: (1) um plano que permite ver tanto o animal, quanto a flor de pétalas vermelhas e brancas; (2) um plano em perspectiva, quando o expectador vê somente o cálice verde da planta e a borda da ilha do pequeno mamífero pouco mais distante; e (3) um contra-plano que inverte este último. Como o personagem, não pára quieto, estica para cá, pula, deita e rola no chão, talvez seja mais fácil detectar as três relações espaciais pela presença da água que encobre a base de ambas as ilhotas, apenas de uma ou de outra.

Toda página sempre traz uma surpresa, mas surpresa maior acontece quando o campo de visão é aberto para o leitor e somente o leitor compreende a situação tragicômica em que o pobre animal se meteu... Mas (como sempre), isso não é tudo. O final é ainda mais terrivelmente engraçado para quem descobre que esse personagem só podia ser um-... Ops!

Ambivalente nos traços, ambíguo nos sentidos que constrói com ironia, A flor do lado de lá é um jogo com o próprio suporte material: nas viradas de página, a flor permanece sempre do lado oposto ao pequeno e incurável animal. Mas isso, já estava estampado na capa:


Só não vale ler a quarta-capa,
antes de abrir o livro, ok?

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