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5 de março de 2016

saudade que a gente tem

Peter O.o SagAe




Saudade do cheiro do mar deve de ser infinito no peito de um peixe-boi, como a saudade que a gente tem das gentes queridas. Pois, um dia, dentro do tanque rodeado por crianças, o olhar de Xica capturou a imagem tranquila de Maria e a vida veio com surpreendimentos na história da menina e sua avó: uma tartaruga em cima do capô do fusca amarelo, uma preguiça ágil na sombra das árvores, um laço de fita roubado na tarde de domingo... Coisas com sabor de bala de coco e alfenim adoçam os sentimentos no livro XICA, de Rosinha #editorapeiropolis (2011) #literaturainfantil


Escreve a autora na apresentação ao livro...
Xica está na minha vida desde sempre. Visitá-la era um passeio corriqueiro na minha infância. Os sentimentos que guardo desses encontros são de profundo carinho e amizade [...] O convite da Fundação Mamíferos Aquáticos para escrever e ilustrar esse livro me trouxe imensa alegria e o grande privilégio de compartilhar com as crianças de hoje meu encantamento por esse doce animal, que marcou o imaginário de toda uma geração.”
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26 de novembro de 2014

olhe o céu encarneirado

Peter O'Sagae, hoje


No cenário dos livros para crianças, quando muito se pensa e discute a respeito de ilustração, textos ilustrados e narrativas visuais (conceitos que se esbarram um tanto, sem contornos), acabamos nos esquecendo de que a imagem não é algo externo aos variados processos criativos e que ela – A IMAGEM – é um elemento constituinte da linguagem literária, independente do código e das relações entre os signos sonoros, visuais e verbais. Repenso e brevemente apresento a questão pois existe um sem-número de autores que reclama a originalidade de suas obras, acreditando estarem eles desobrigados da intertextualidade.

Ora, a Natureza recortada pela linguagem popular costuma oferecer ótimas imagens literárias para a criação de poesia, narrativas e ilustração. Acaso hoje, limpando as estantes, encontrei ovelhas e carneiros nos lençóis de nuvens brancas e cinzentas, criando massas redondas como flocos de algodão, com suas próprias sombras para o olhar mais imaginoso, ainda que esses rebanhos de água sejam cientificamente chamados altos-cúmulos. Então, trouxe para a mesa três livros que se nutrem da mesma imagem, porém motivando narrativas bem diferentes quanto à mensagem que reside ao fundo. O exemplo é didático.


Ana Maria Machado começa a história de Beto, o carneiro (1977) exatamente com um sentimento de insatisfação, o desejo de liberdade do personagem. Cansado de uma vida de carneirices, Bebeto foge do cercado e sobe uma montanha calma e, apenas com um pensamento, resolve virar nuvem. E vira. No entanto, ele se apercebe que as nuvens respondem à vontade dos ventos, como qualquer rebanho às ordens do pastor. Bebeto, então, vira espuma das ondas do mar, na terceira vez em que o tema é apresentado aos leitores.

Originalmente lançado com o título Carneirinho, carneirão, o texto pertence a uma categoria de histórias mais conformadoras, fazendo com que Bebeto abandone suas fantasias, compreendendo quanto a liberdade está em aceitar e obedecer sua própria natureza. O encontro com a ovelha Memélia torna ambíguo o final do percurso narrativo, com a introdução de outros temas e valores que não ousam ir além de limites previamente estabelecidos, ao mesmo tempo que marca o não-lugar de todo artista, nem livre, nem preso às convenções, em seu destino itinerante.


A prosa de Ana Maria Machado já contou com ilustrações de Alberto Llinares (1977), Fernando Nunes (1993), como vemos nas fotografias, e mais recentemente Jean-Claude R. Alphen (Salamandra, 2010).


Comparando textos, Sylvia Orthof com sua Maria-vai-com-as-outras (Ática, 1982) busca demonstrar os perigos de seguir o rebanho de olhos fechados, sem qualquer lampejo de consciência. Liberdade é pensamento. No livro de imagem Branca, criado por Rosinha (Paulinas, 2004), a imagem literária, condensada na ilustração de uma ovelha que deseja ser nuvem, conduz o leitor a um importante enigma. No dizer de Angela Lago: “A história da ovelha Branca não nos ajuda a dormir, mas a acordar. Um belo livro que nos deixa, crianças e adultos, um pouco mais altos: sabedores que a vida – e a morte – é tudo sonho.”


A partir da mesma imagem, diferentes textos revelam camadas do discurso eufórico, crítico ou emancipatório, marcando a posição dos autores frente às crianças. Leia outros comentários sobre os livros de Sylvia Orthof e Rosinha, abaixo, na sequência.

no rebanho do céu

Dobras da Leitura 55, maio de 2008


Na ponta da pedra, a ovelha — e assim começamos a ler Branca, o livro de imagem de Rosinha (Paulinas, 2004). O lugar deve ser alto, muito alto, tamanha a concentração da personagem: os olhinhos quase envesgando para baixo. Será que ela pretende pular? Por quê?

Os leitores devem estar lembrados daquela outra ovelha que se chamava Maria e se meteu numa enrascada, no tempo em que não seguia o que queria o seu pé... Porém aqui os caminhos são outros, logo veremos.


A interna da capa e a primeira página são ambas magenta. De um lado, nuvens; do outro, Branca aconchegada em cima da dedicatória do livro. As volutas de nuvem e o emaranhado de lã alinhavam a comparação — ovelhas se parecem com nuvens na terra, nuvens são ovelhas no rebanho do céu. Cabe ao leitor predizer a história, o desejo de Branca voar!

 Pois bem: virando a página, vemos pássaros que atravessam a folha de rosto — e continuam voando, vão passando por Branca sozinha no chão... Descobrimos, nesta pequena fábula visual, como a consecutividade vai sendo construída por aparentes saltos no fio da narrativa e no modo como ler as páginas.


Quase sempre, a paisagem é uma só. O tempo é um ou dois, três, vários, encapsulados pela imagem apresentada em página dupla. Rosinha brinca com a ilusão de movimento pela repetição da figura da personagem: em suas tentativas de voar, muita vezes, podemos ver Branca lançando-se para o alto à esquerda das páginas abertas e... bem à direita, a ovelha estatelada no chão! Assim, o trajeto do olhar deve coincidir, recuperar e completar o rastro invisível que Branca desenhou pelo ar. Três efeitos do tempo – ritmo, velocidade e duração – dependem do jogo entre o desenho e apreensão sensorial da criança.


Rosinha passa a preencher a paisagem com muitas figuras de Branca, representando as emoções da ovelha e tirando proveito, ora do humor, ora da desolação de cada cena. E veremos a danada tentando de tudo para voar, voando por um instante... contudo, nem é preciso completar as imagens ou dizer que ela, muitas vezes, vai voltar ao chão.

Branca é uma história de persistência —
e existe uma poesia sugerida no ar...
O leitor há de encontrar novamente a cena da capa. A ovelha, na ponta da pedra. O que acontecerá depois, seria magia, sonho ou realidade?


29 de outubro de 2013

portos de consolação

Peter O’Sagae


O diálogo da criança com a morte tornou-se um dos temas mais requisitados na produção dos últimos anos. Obviamente, por um viés distinto de algumas tradições e estratégias literárias que jamais exilaram a morte das narrativas. É assim que – a despeito da morte que regenera o mundo nos antigos mitos, a morte simbólica ou punitiva do males morais nos contos populares, a morte em série e despersonalizada nas novelas policialescas, a morte afetiva e filosófica das novelas, a morte ricamente dolorosa porque estruturadora da personalidade nas obras clássicas –, agora, nos livros, a morte, por vezes, é acolhida e amealhada pelo discurso da autoajuda na ficção para crianças, o que revela muito mais a inquietação do escritor e seu leitor adultos.

Sabemos que as coisas que fazem o coração transbordar não possuem traduções objetivas em palavras ou imagens. Mas exatamente aí, na impossibilidade de comunicar determinadas experiências, a literatura tem o seu propósito de evocar sentimentos e trazer para perto de nós o que é singelamente singular... De modo contrário, as explicações necessitam abstrair de múltiplas vivências um caráter geral, generalíssimo e compreensível a todos. Desconfiamos. Uma resposta – ou concepção de morte – não estará inteiramente nos livros, senão nas pessoas que a possuem previamente por alguma intuição, ou esperança, e vêm buscar nesta ou naquela literatura mais poética, científica, psicológica, espiritualista, religiosa ou pedagógica, seus portos de consolação.


Alguns títulos que Dobras da Leitura recebeu...


A MENINA, A VACA E O AVÔ, de Luís Pimentel com ilustrações de Rosinha (Positivo, 2011), transmite, ao final da história, uma visão finita da existência. Tudo nasce, vive a infância e a vida adulta, e naturalmente tudo acaba. Sem a companhia do avô, a menina vê a vaca crescendo, de bezerra a novilha, vê a vaca envelhecendo. E um rio, seguindo o próprio curso, vê a moça vendo a vaca seguir ao encontro do avô. Explica o narrador que “os dois estão guardados bem próximos um do outro, num pedaço de terra que se espalha entre o pasto e o rio.”


A MENINA E O SOL, de Constança Lucas e Júlio Gonçalves Dias (Formato, 2011), reforça a ideia de um segundo céu para os mortos, lugar que não se vê como as estrelas ofuscadas à luz do sol. Nesse outro céu, está a avó da menina – e ainda que muito insista em querer espiá-la, se iria conseguir subindo nos ombros do pai, no telhado, procurando de binóculos ou lanterna, de olhos bem abertos... As respostas da mãe são sempre curtas e negativas; há um súbito desvio na conversa com o convite da mulher para irem tomar sorvete: o que logo se compreende é a dificuldade do adulto em lidar com a saudade.


AGRIDOCE NOSTALGIA, de Tatiana Belinky e Elisabeth Teixeira (Paulinas, 2011), apresenta um depoimento organizado em versos. Quando era pequena e caía, não havia motivos para chorar porque o pai cuidava dos machucados – que feriam tão por fora – com sorriso e proteção. Era um tempo de desconhecer dor que viesse do medo de estar , completamente ... Até o dia funesto, como ela diz, e o chão desapareceu sob seus pés! Jorrou o pranto sentido e, então, ela ouviu: “Venha cá que eu te levanto!” Era a voz do pai acudindo-a, qual acalanto, da desolação.


TATI É ESPECIAL, de Jean-Claude R. Alphen (Scipione, 2011), busca pela mensagem transcendente das estrelas que já se apagaram... “embora continuemos a ver sua luz”. Entre o discurso científico e a metáfora, Juca questiona como os seres e as coisas também podem morrer e desaparecer, deixando de si, um brilho especial. Tão importantes são as pessoas – e Tati – e sua conclusão é que ninguém deixa de existir de verdade, mas vira estrela no céu, sempre triste e maravilhoso para ser observado, despertando lembranças de quem partiu.


RECADO DA CHUVA, de Célia Cris Silva e Rogério Coelho (Vida e Consciência, 2011), faz contraponto entre a cinzenta paisagem fora de casa e o acolhimento doméstico que aquece a companhia de mãe e filha, brincadeiras, abraços, chá, bolinho de chuva, olhar para dentro do coração e perceber o mundo que, ali dentro, se pensa e sente. A filha cresce, sai de casa; num dia futuro de chuva, a morte da mãe será compreendida como uma viagem, longa, sem volta, que, no entanto, recomenda lembranças e sentimentos alegres dos dias bem vividos.


SEMPRE PERTO, de Stéphane Servant e Aurélia Fronty, com tradução de Adilson Miguel (Scipione, 2011), é uma tessitura poética, ao som da imagem parampá-pam-pam de um tambor estampado com um coração rubro, na primeira página, e cuja narração se deixa tocar por uma linguagem direta e subjetiva que desdobra a primeira pessoa: “Naquela manhã, soprou um vento muito forte, soprou tão forte... que levou mamãe.” E a sinestesia da memória faz da cidade um labirinto por onde o menino reencontra os gestos maternos que o vento espalhou, mas não levaria jamais embora o abraço apertado que a mãe vem lhe dar. Em seus sonhos.

17 de outubro de 2013

o personagem e as personagens encalhadas

Peter O’Sagae


Em 1995, Angela Lago apresentava O PERSONAGEM ENCALHADO para crianças e adultos exigentes. Nesta obra contendo apenas vinte e quatro páginas escritas e rabiscadas, como um rascunho, uma estranha figura esguia, com a aparência de gênio ou outra espécie curiosa, emerge da dobra central do livro – e busca dali escapar. Quando pensa ter êxito na fuga, ele nota, decepcionado, o pé preso no grampo da encadernação... E, irremediavelmente preso, o personagem encalhado sucumbe na montoeira de palavras manuscritas por algum autor invisível.

Ora, brincando com as categorias da construção literária e o uso do suporte material, sempre em uma atitude de metalinguagem, a autora Angela Lago estabelece uma cena a respeito da desventura do texto. Já não existe mais uma história a ser contada, daí que o personagem encalhou. O tempo e o espaço são tão só espaço gráfico e um tempo-movimento que advém da mão de cada leitor para virar a página – ou, indiscretamente, bisbilhoteiro e estacionado, colocar-se à leitura do rascunho em letras miúdas e cinzas ao fundo. O texto lá escondido e à mostra como cenário, é repetido por quarenta e duas vezes como variações de um exercício de escrita. Existe pois um jogo deliberado, intencional, complexo à luz de algumas teorias. Há quem aí possa apostar em desconstrução. No entanto, jamais abandonando a comunicação com a criança e o senso lúdico e o humor e a cooperação dos leitores.


Em 2000, Elisa Lucinda trouxe à literatura infantil A MENINA TRANSPARENTE, com ilustrações de Graça Lima, versos de métrica bastante prosaica e rimas de quando em quando. Essa menina não é uma personagem, mas uma personificação. Nas asas da adivinha e da metáfora, disfarçada de todas as coisas, a menina esparge pistas sobre si e o seu modo de existir – “Uns me pegam pra criar em livro,/ Outros me botam num vestido lindo”, “Tem gente que diz que eu/ Nasço dentro da pessoa,/ E faço ela olhar diferente”. Voando, livre, a voz lírica anima um corpo imaginário de sentimentos e passagens por lugares diversos, do papel à palestra, da música ao mar, do ar às plantas, das estrelas à esperança. Sim, a menina transparente é a Poesia.


Ora, Dobras da Leitura tem recebido livros* que já não podem ser compreendidos, nem criticados rumo a um ou outro projeto de literatura para crianças. Passando do feitio dos textos aos efeitos sobre a recepção, muitos trabalhos denunciam a si mesmos pelo afastamento voluntário do mundo que nos rodeia e que poderiam representar em suas páginas. No entanto, neles também não encontrei rastros de metalinguagem, som e sentido, imagens e enigmas entre o verbal e a ilustração. A falta de coerência não deve ser levada à conta de negar a construção ficcional estabelecida pela tradição das histórias, mas uma fraqueza insuperável para o leitor – em suas várias idades.

Revendo os estruturais de uma narrativa, tempo e espaço indeterminados têm produzido a anulação de cenários onde os personagens pudessem se movimentar e transformarem-se. A ilustração igualmente comparecerá vazia de sintaxe e significados, na página com fundo uniforme ou com texturas assumindo a tarefa de ambientar desenhos sem contiguidade de ação. Sem esse compasso antes/depois, causa e consequência, nenhuma história se desenrola. As personagens estão encalhadas.



Por um excesso de laboratório com a linguagem, as personagens perderam-se em algo que não é representação, nem poesia; algo que não pode ser lido fora de uma descrição de emoções e episódios particulares, de acentos ligeiros, dor que fingida ou honestamente não dói, alegria que não anima. Mas talvez essas estratégias venham responder a um exercício íntimo de conhecimento e ninguém aqui poderia vir censurar a iniciativa do invento... A deficiência da crítica é muitas vezes enfrentar silenciosamente esse moinho de solipsismo que pretende nos ensinar que o único ser existente é uma personagem dona do próprio nariz, autorreferente e autossuficiente, dispensando a companhia do leitor, qualquer leitor.


* Nas fotografias, por ordem de publicação: DESLEMBRAR, de Luciano Pontes e Rosinha (Larousse, 2009), A MENINA QUE FALAVA BORDADO, de Blandina Franco e José Carlos Lollo (Amarilys, 2010), MENINA-MENINA, PRINCESA DE LAMA..., de Rosana Villela e Giselle Vargas (Paulinas, 2011), O MUNDO DE UMA MENINA DE SONHOS, de Renata Wirthmann e M. Monteiro (Cepe, 2011), e CARMELA CARAMELO, de Cristiane Rogerio e André Neves (Cortez, 2012).

12 de julho de 2011

cordel é poesia do sertão

peter o'sagae


Uma caixa com três livros, cada qual com uma história e um folheto. De cordel — é assim a coleção PALAVRA RIMADA COM IMAGEM, de Rosinha Campos (Projeto, 2010) que recontou e ilustrou três aventuras escritas e celebradas há mais de um século por Leandro Gomes de Barros (1865-1918), considerado o primeiro escritor de literatura de cordel e um dos maiores poetas populares.


Introduzindo os leitores no universo das narrativas rimadas do grande cordelista paraibano — radicado no criativo estado de Pernambuco, o único cujo nome tem dez letras, sem nenhuma repetir! —, Rosinha acabou optando por uma adaptação resumida em prosa e destacar os principais momentos de cada história com suas ilustrações, gravadas em madeira com a colaboração de Meca Moreno e Davi Teixeira. Ao final dos três livros, todo o texto em sextilhas de Leandro Gomes de Barros surge encartado:


A HISTÓRIA DE JUVENAL E O DRAGÃO inicia-se numa situação de apuro, numa região onde era comum o sacrifício de moças bonitas... E eis que chega a vez da princesa, tal como aconteceu a Andrômeda, remontando motivos bem conhecidos desde os mitos da antiguidade e sua apropriação pelo imaginário medievo. Desta maneira, Juvenal é um misto de Perseu e São Jorge. Mas, depois da façanha de matar e arrancar os dentes do dragão, o jovem sente que precisa correr mundo para provar sua valentia — e vai. Está aberta a brecha para a desgraça: um cocheiro se faz passar pelo herói e toma a mão da filha do rei. A doce jovem reza muito e Juvenal, longe, longe, tem a visão dos acontecimentos num sonho, voltando para por um fim à farsa...


A HISTÓRIA DA GARÇA ENCANTADA tem também enredamento de conto e principia com as graças de uma ave que se transforma em uma bela jovem, elemento bastante comum nas narrativas orientais. O herói aqui chama-se Gelmires e ele precisa guardar segredo dos fatos particulares e cheios de magia — mas o moço, língua nos dentes, revela tudo para um amigo e lá se vai desaparecendo a princesa que lhe valia a vida! Daí é um corre de lá pra cá, por entre reinos, sortilégios, estradas e ameaças, uma confusão de amor e morte, Gelmires contra Valdemar, feiticeiros de cada lado da história... Mais transformações e metamorfoses: pois seria tudo um sonho no carnaval da natureza?


A PRINCESA DO REINO DA PEDRA FINA, por fim, conta a história peralta do mais moço de três irmãos que só queria ver as pernas das moças de pernas finas ;-) É José que o pai expulsa de casa, mas quis a sorte lhe acompanhar: no rio, encontra um brilhante que vende para o rei por uma verdadeira fortuna. Contudo, o rei tem um barbeiro que é um diabo encarnado e esta aventura sai aos moldes das primeiras, com muitas estripulias, pelo reino das laranjeiras que é como o Jardim das Hespérides, caminho cheio de delícias, maravilhas e perigos.


Como podemos conferir nessa sequência, a imagem gravada na madeira não é transposta para o papel como uma xilogravura tradicional. Rosinha optou ilustrar os livros com as matrizes em madeira! Palavra rimada com imagem, numa caixinha de bom parecer: que outros artistas saberiam fazer?

7 de agosto de 2009

Carinho também é uma forma de obediência



Elias José 
AS HORROROSAS MARAVILHOSAS
l. Rosinha, bordados de Iane Costa
DCL, 2009

ISBN 9788536802435
20,6 x 27,5 cm 40p.


Haveria ela de casar, um dia, tanto que rezava e pedia para Santo Antonio. Contudo, parecia mesmo que o santinho propositalmente deixava para atender seus pedidos depois. Por isso, a moça chorava. E chorava... E a mãe resolveu ajudar. Ajudou? Pôs olho no mundo, procurando moço bonito e trabalhador, encontrou Tonico, dono da loja do lugarejo e pôs-se, então, a prosear com o escolhido para genro. Porém, saiba já, mãe que fala demais atrai pra filha muitos ais... E deu no que deu: a mulher alardeou que não havia quem bordasse tão perfeito e tão rapidamente como sua filha — e isso chamou a atenção do rapaz que ofereceu para ela o melhor linho e meadas de cor variada. Mas, a moça!

A moça não sabia nada. Tentou, bem que tentou. Furou os dedos inutilmente. Mal aprendeu a enfiar a linha na agulha e a dar um nó. Deu pontos grandes, desajeitados, e acabou sujando o linho com tanta lágrima. Correu, enfim, para pedir ajudar a três velhinhas horrorosas, bordadeiras maravilhosas...

Elias José empresta seu jeito de minerar histórias a um velho conto da tradição européia que aqui chegou nalguma caravela portuguesa, tendo sido também compilado nas coletâneas feitas por Teófilo Braga e Consiglieri Pedroso. Classificado como um conto de exemplo, pelo folclorista Câmara Cascudo, esta é a mesma história das três fiandeiras que ajudam uma mocinha em troca de um favor: um convite para o casamento que irá ser celebrado proximamente e ser recebida como tias da noiva. O que parece apenas uma prova ingênua acaba transformando a sorte da jovem, pela magia do reconhecimento do favor prestado e pelo fervor de uma obediência carinhosa.

Nas ilustrações, obediente à temática, Rosinha Campos divide o traço de seus desenhos com retalhos de linho colorido e os bordados de Iane Costa. O livro transforma-se quase todo numa toalha de cenas e florzinhas emoldurando o texto com delicadeza.

Desenrolando diferentes histórias



Linho: a viúva deseja o melhor para a filha bordar, na perspectiva de Rosinha para o reconto de Elias José, As Horrorosas Maravilhosas (2009) [saiba+]. Seda tecida por Lúcia Hiratsuka em duas versões de O Passáro do Poente (1993 e 2007).

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