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26 de março de 2014

imagens de mar e ar

peter o.o sagae


Ana Maria Machado estava a contar... Um elfo que não era apenas ares e asas, mas possuía toda a curiosidade sobre as pedras preciosas que pudesse encontrar. Uma libélula contou a ele dos restos de um barco náufrago na areia: quais tesouros poderia lá encontrar?


Encontrou uma caixinha de madrepérola e coral e dentro dela... Uma sereia a cantar e a chorar a sorte como um peixe fora da água. “Por favor” a sereia sussurrou, “ponha-me de volta no mar antes que outro sol nasça.” Mas o elfo já não podia, sereias têm encantos.


“Você é a joia mais rara e preciosa que já vi, o tesouro mais brilhante que já piscou para mim, e canta a canção mais suave que já visitou meus ouvidos.” 

A frase flutua, entre ondas de páginas e luas do livro O elfo e a sereia (1982), em sua quinta edição com imagens sopradas por Elma (Global, 2010), para a epígrafe que Adriana Lisboa escolheu para A sereia e o caçador de borboletas, com ilustrações de Rui de Oliveira (Rocco, 2009).


Adriana (de Lisboa?) veio contar de uma embarcação que, há trezentos anos, deixou o porto ao norte de Portugal. Entre os tesouros que transportava, o mais valioso era a esperança de voltar à casa, às areias, aos braços das mulheres... No entanto, um boato incomodava os marinheiros com a velocidade do silêncio. Eles só conseguiriam regressar, quando dois mundos encontrassem...


Como peixe e pássaro, finas escamas e leves penas, as asas do azar, outra vez, sobrevoam as lendas inventadas pela literatura para crianças.

24 de março de 2014

deram os homens a sonhar

O.O Sagae: Ilustrações Comparadas


Os olhos de Marinho, por André Neves, no livro O capitão e a sereia (Scipione, 2007), traduzem “a vontade de sentir o corpo molhado pelos encantos aquáticos”. Ora, em grande parte das línguas neolatinas, o mar não é um substantivo masculino e somente uma canção portuguesa, com versos de Vitorino e Hélia Correia, afirma que

“por tantos homens atrair
tem la mar de ser mulher
com voz de sereia os chama
com segredinhos de dama
deles faz o que bem quer”


Os olhos de quem não sabe nadar ou voar, por Rui de Oliveira,
em A sereia e o caçador de borboletas, de Adriana Lisboa (Rocco, 2009).

2 de novembro de 2013

era uma vez outras vozes

Peter O’Sagae

Nenhum texto vem ao mundo estranhamente só. Acompanha-o,
em sua ventura, outros tantos textos em um rumoroso movimento
por trás das palavras a enfrentar. Não, por vezes, causariam mais impressão
que um cicio quase silencioso, vento, ou fazendo-se ouvir carinhosamente
como um afago parente... Transparente, o coração borda imagens e pensamentos
naquelas lembranças que não gostaria de sentir, mas quer. Sentir.
Porque precisos são os duelos da vida, obedecendo a uma causa maior...

“Era uma vez um herói e esse herói era meu pai.”
Qual vento que imita a voz de todos, dos contos maravilhosos
ao depoimento pessoal, o narrador funda-se aí juntamente
a outros narradores, distantes, a um personagem em primeira pessoa,
ao possível autor do texto, ao leitor que aceita a palavra do outro
a representar sua própria voz, advogado seu.
Que venha defendê-lo dos duelos da vida...

Rosa, minha amada irmã, Rosa Amanda Strausz
traçou com as imagens de Rui de Oliveira as linhas do grande combate e
da morte iminente de um herói sob os olhos guerreiros de seu filho.
As circunstâncias móveis do narrador, menino, revelam
a dimensão mágica e épica do pai capaz de lutar sozinho contra mil inimigos,
qual cavaleiro de pesadas armas leves na vitória dos tempos passados.
Mas outra batalha diariamente acontecia e minava as forças e formas robustas,
dentro do homem, entre exércitos invisíveis de vírus e anticorpos...

É bonito o cenário que a imaginação evoca a fim de transpor
os sentimentos aos lugares onde se tornaram verdadeiramente invencíveis.
Do quarto à sala de um pequeno apartamento, o mundo alarga-se
por encontrar janelas de compreensão sobre o sentido de viver,
de encontrar o pai e o filho no conviver e compartilhar, reviver e não se revoltar.
“Quando morremos, nosso corpo se desfaz
e se mistura aos outros elementos da vida...”


Nos minutos que não deixam de cavalgar
a favor da aventura derradeira, o conceito de imóvel diz menos respeito
aos pés e braços, à cabeça, lábios e olhos, ao corpo inerte, um dia.
Imóvel é o que não pode ser movido por coisa outra nenhuma,
nenhum outro, sentimento, ser, substância, o Amor
que não se fará diferente além do tempo, porque, a ele,
sentimento revestido de eternidade, o tempo não existe...


Um canto: histórias se inventam no contraponto às vezes, aristotélico, apostólico, por que não, nas mensagens que transformam O HERÓI IMÓVEL (Rovelle, 2011). Os textos sempre vêm e se veem, a cada leitor, na discreta escuta da trajetória palavra e imagem.

6 de setembro de 2013

o esboço do pensamento

setembro na mesa 1


É a palavra sobre a imagem no livro ilustrado para crianças que encontramos em TRAÇO E PROSA, entrevistas com ilustradores de livros infantojuvenis por Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu (Cosac Naify, 2012), recontando uma história íntima da literatura infantil brasileira sob a perspectiva que mais atende ao interesse de leitores entre adultos e crianças: a ilustração, em primeira pessoa, em primeiro plano, nas conversas registradas dentro dos ateliês de doze grandes nomes.

Eliardo França, Rui de Oliveira, Eva Furnari, Alcy Linares, Ricardo Azevedo, Helena Alexandrino, Nelson Cruz, Marilda Castanha, Graça Lima, Mariana Massarani, Roger Mello e Angela Lago delineiam a ambição do livro ilustrado como uma linguagem única em nosso cenário editorial, abrindo os bastidores de seus sonhos e todo o esforço criativo para estabelecer laços de comunicação e afetos com os leitores. “Para o preparo das entrevistas”, afirmam os organizadores, “consultamos a bibliografia existente sobre o assunto. Apesar de escassa, achamos alguns temas comuns nessas fontes, o que nos levou a dividir em três os tipos de abordagem que seriam de grande ajuda para nosso projeto. Elas foram denominadas por nós de histórico-sociológica, pedagógica e formalista. Essa classificação, mesmo não sendo completa, demonstrou-se suficientemente abrangente e útil para o propósito de definir as perguntas para as entrevistas.” Dentre os muitos desafios de recorte e método, os autores necessitaram eleger a geografia editorialmente demarcada por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e o curso da década de 1970 aos dias atuais, no generoso diálogo com quatro representantes de cada estado.


Em quase 250 páginas de espontaneidade, riso fácil, segredos, formação profissional, vidas envolvidas com livros e imagens, TRAÇO E PROSA oferece um panorama compreensivo a respeito da dinâmica de processos artísticos que, muitas vezes, ultrapassa o depoimento personalíssimo e vai esboçando ordens mais gerais da produção contemporânea. Um exemplo instigante que lá encontramos é o tema da autoria em três diferentes articulações – quando um autor escreve, depois outro ilustra; a parceria entre escritor e ilustrador; e, por fim, escritor-ilustrador como um só criador –, que implicam nas relações convencionais, contratuais e contextuais da leitura que se transportam para dentro livro ilustrado para crianças. Ora, se o conjunto das entrevistas não responde por uma formulação teórica única, positivamente enseja ser o objeto de análise e reflexão junto a muitos pesquisadores de editoração, teoria literária, pedagogia ou crítica genética, interessados em rever o estatuto da literatura infantil brasileira, no reconhecer a transformação da leitura entre palavras e imagens, redesenhando o conceito sobre o que é livro ilustrado para crianças.

14 de outubro de 2010

com a palavra, o ilustrador


Livro organizado por Ieda de Oliveira, O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil: com a palavra, o ilustrador (DCL, 2008) é uma coletânea de artigos e depoimentos; graficamente caprichado, 216 páginas em couché brilhante e reproduções em cores, índice remissivo e orelha assinada por Nelly Novaes Coelho, assinalando, “nesta fabulosa, caótica, progressista e alienadora era da imagem”, uma irrevogável funcionalidade pedagógica da ilustração: “A palavra cria o texto, o qual serve de fonte para a criação da imagem, cuja tarefa é dialogar e expandir os sentidos do texto de modo a provocar, no leitor-aprendiz (a criança e o adolescente), o ‘olhar de descoberta’ que fará dele um leitor criativo.” É a imagem uma estratégia para materializar e mostrar os caminhos da interpretação?


Ponto alto, a simplicidade com que nos ensinam Odilon Moraes, o projeto gráfico do livro para crianças, e Ciça Fittipaldi, a narratividade da imagem. Eis um bom começo para a leitura dos artigos. Ambos apontam quais os vínculos que se produzem de um a outro código, num jogo incessante de construção e decifração: “Os temas estão colocados, em princípio, pela linguagem literária: uma história dá origem a uma imagem”, afirma Ciça, “a imagem, por sua vez, dá origem a uma história que, por sua vez, apresenta-se por meio de uma nova imagem, esta permitindo uma outra história e mais outra, alternativa que logo se transforma em outras imagens...” (2008: 103)

Os demais capítulos vêm nos trazendo ora informações mais técnicas, ora horizontes que sugerem novas pesquisas — um histórico da ilustração fechado ao século XIX, com Rui de Oliveira, as diferentes técnicas, com Renato Alarcão, e o uso das cores, com Cristina Biazetto; a relação palavra e imagem, por Marcelo Ribeiro, questões a respeito do pensamento, da leitura de imagens e do livro de imagens, por Marilda Castanha... São sete artigos, enfim.


E depois: as visadas pessoais sobre a ilustração e o livro ilustrado, no fazer e pensar de Ana Raquel, Ana Terra, André Neves, Angela Lago, Márcia Széliga, Maurício Veneza, Nelson Cruz, Regina Yolanda, Ricardo Azevedo, Rosinha Campos, Thais Linhares e três ilustradores portugueses: Gémeo Luís, João Vaz de Carvalho e Teresa Lima.

Nas fotos: capa, contracapa e dobras do livro organizado por Ieda de Oliveira: dupla página com Edvard Munch intertextualizado por Marilda Castanha, uma ilustração com recortes em papel craft de Gémeo Luís e a abertura do artigo de Renato Alarcão.

5 de maio de 2010

Para venda, compra e troca...

Dez anos de estrada e areia


"Num Saara que não tem fim, o camelo de pêlo dourado e o camelô que caminha do lado, passo e peso compensavam, carga de mil badulaques..." Gloria Kirinus, no livro O camelo e o camelô, com ilustrações de Rui de Oliveria (Paulinas, 1997).

"E seu dono era um comerciante saudita que atravessava desertos carregando mercadorias [...] Olemac era obrigado a levar tantos penduricalhos que parecia um camelô das arábias." Fernando Vilela, em Olemac e Melô (Companhia das Letrinhas, 2007).

14 de junho de 2009

Quando a aurora torna-se gris


Nilma Lacerda
il. Rui de Oliveira
Pena de ganso 

DCL, 2005

ISBN 9788536800530
144p.


Estefânia viajou a Portugal para vender as terrinhas que recebera de herança. Fora grávida e voltava com a filha nos braços. A pequena Aurora nasceu no mar, sob a desconfiança de que não veria a luz do outro dia. Daí veio-lhe o nome numa tentativa de contrariar a própria sorte... E triunfará sobre o primeiro desafio que a vida lhe impunha, não sem seqüelas. Pena de ganso, de Nilma Lacerda, principia por contar a vida da menina Aurora, desde quando se habituou a entender-se como gente, silenciosamente observando os irmãos Péricles e Augusto irem para a escola, voltando depois e completando horas de lição sobre os cadernos e os livros. Mas, para Aurora a vida era toda dentro de casa, só quintal e cozinha, ajudando a mãe nos trabalhos de cuidar das galinhas, recolher os ovos, vender dúzias, regar couves e dálias, descascar batatas para o almoço e o jantar. O pai era um homem batalhador e, um dia, os filhos homens seriam doutores. No quintal, Estevão cantava orgulhoso e bicava forte, Moleque sarneava uma companhia fiel... E era assim completa, simples e ordenada a vida daquela família.

Por ser menina, Aurora não podia ir à escola como os irmãos: era a regra. Mas a prima Isolina ia. É que os tios não tinham outros filhos com quem se preocupar. E o primo Gastão, que tem doze anos, por que não vai? Pois seu pai tem a fábrica e ele precisa ajudar. Mas, e ela mesma: por que não poderia ir também? Porque tinha os deveres domésticos e aqueles ataques pavorosos, um ponto escuro no olho apagando o mundo, a língua enrolando, poderia sufocar... Era preciso ser assim, era preciso viver ao pé da mãe.

A duras penas, ela há de escrever Eu sou Aurora — num desejo só, forte feito tudo, a movimentar o delicado romance de Nilma Lacerda que resgata, com extrema emoção, o plural das casas, dos costumes e das tramas familiares em uma época em que criança não partilhava as conversas entre adultos, em fins da década de 1920, no Rio de Janeiro. A textualidade transborda vozes e o enredo é então perpassado por diversos planos, como bem soa e sói acontecer à literatura inventiva: refluem e cruzam-se a memória particular de cada personagem junto à memória histórica sobre a resistência da escrita — a leitura, a caligrafia, o pensamento escapando-refugiando-se do dedo ao papel, ao bordado, também à tela digital...

A linha do tempo é assim uma sobreposição, um novelo de coincidências e sonhos. E, entre esses fios, a narradora habilmente projeta-se na escrita literária, ultrapassando as barreiras da ilusão e do afastamento com a matéria que narra. Evidentemente, não é Aurora quem poderia narrar-se, nem mesmo a velha Casemira, nem Nilma: o que aqui se lançou é a cerda de um mistério, pena de ganso ao branco do papel, como nova cor, "carinho de vida no canto escuro da alma".

Os antigos consideravam a pertinência como uma qualidade de semelhança — e esta relação, quem dirá, alquímica entre o texto e a ilustração, é plena: Rui de Oliveira utilizou lápis litográfico, grafite e crayon para representar a aspereza da qual emergem os sonhos de Aurora. Muitas imagens são desdobradas em trípticos ou mais páginas, dramaticamente revelando cenas.

Nenhum episódio vem sobrar à leitura, somente uma esperança: por Aurora e nossa própria necessidade de querer continuar, querer mais: capítulos que uma carência íntima pede — e só podemos intuir.

Ilustração extraída de www.ruideoliveira.com.br
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