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9 de junho de 2018

dobras da leitura em curso, 3

Escrever para Crianças 2018


Você pode não acreditar, mas gosto dos textos simples... nos quais é preciso assumir que talvez não seja fácil reduzir a linguagem verbal e visual à uma nobreza muito própria, dentro de um projeto gráfico enxuto, sem páginas e páginas que cansam a mão do pequeno leitor. E Eva Furnari joga com o leitor: FILÓ E MARIETA (1983), AMENDOIM (1983), livros de imagem são texto. De Luiz Gouvêa de Paula e Ciça Fittipaldi: O TUCUNARÉ (1989); uma aula de narrativa visual! De Stephen Michael King: O HOMEM QUE AMAVA CAIXAS (1995), a articulação do livro ilustrado não-brasileiro.


Então, um inesperado encontro com o texto que nos devora, Guimarães Rosa: FITA VERDE NO CABELO (conto publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, no dia 8 de fevereiro de 1964). Mas, aqui, a velha nova história vem com os desenhos de Roger Mello (1992) emoldurando devaneios e silêncio. O que é um texto? Quais os fatores de textualidade? Leonor Lopes Fávero responde. Para quê o texto literário, para quê a busca de uma descrição singular? Chklovski responde. E a nossa inspiração para todos os incursos: “De que serve um livro sem figuras nem diálogos?” Alice pergunta (1865), Lewis Carroll não responde. Claramente.


E um finalmente para ir em frente... As travessuras de Suzy Lee são lembradas em A TRILOGIA DA MARGEM (2012). Escrever, desenhar é arremeter-se à página. O livro para crianças e jovens pede ou não pede ilustrações? Os caminhos (não os conselhos) são muitos, mergulho, desapego, renascimento, como A EXTRADIORNÁRIA JORNADA DE EDWARD TULANE, de Kate DiCamillo (2007).

16 de janeiro de 2018

de volta ao buraco


Com uma pergunta – Para onde vamos? Regina Zilberman descerra o último capítulo de COMO E POR QUE LER A LITERATURA INFANTIL BRASILEIRA (2005) e produz um ânimo de tristeza e insatisfação, ao verificarmos que nem os escritores, nem a crítica talvez possam responder por onde os livros devem caminhar, quando é preciso considerar as dificuldades de criação dos autores que nada mais têm a nos contar... afinal, todas as histórias já foram algum dia recitadas ou escritas! Como construir um personagem sempre presente igual àqueles advindos com a tradição e a repetição de suas tramas? como encontrar um conflito instigante? como dar voz à solução do enredo e da própria redação? Enfim, como libertar a inventividade da mente para o papel?

Partindo de algumas obras dos anos 1980, 90, a professora da UFRGS faz entrar em cena o autor-personagem, evocando o emblemático UM HOMEM NO SOTÃO, retratado por Ricardo Azevedo (1982, reformulado em 2001). Narra-se aí, em terceira pessoa, a desventura de um autor de contos para crianças. Em seu processo, obsessivo, circular, ele esbraveja consigo mesmo. “Chega de inventar histórias que, mesmo sem ler, todos já sabem o que vai acontecer e como vão terminar. Chega de só inventar pessoas e coisas que nem existiram nem poderiam existir.” O que o escritor deseja é ocupar-se de gente de carne e osso como ele... e começa, então, pelo começo que muitos autores se esforçariam por esconder – a teimosia na falta crônica de inspiração.


Zilberman traz à luz outras narrativas que se aventuraram pela intertextualidade, quando o autor contemporâneo enfrenta o fantasma dos personagens da literatura de tradição, em especial contos de fadas, ou já tradicionais, como no caso dos habitantes do sítio de Monteiro Lobato. A intertextualidade, representada de diferentes modos pela paródia, inscreve-se em questões mais amplas de metalinguagem e, nesse aspecto, frente aos leitores, o ser de ficção que é o autor-personagem pode confundir-se com o sujeito empírico, o escritor que é “gente de carne e osso”, pois toma-lhe de empréstimo o nome, a aparência ou seu lugar.


Na literatura portuguesa, é flagrante que assim faz certo Saramago, pouco modesto, em A MAIOR FLOR DO MUNDO, de José Saramago (2001). Lembre-se: o narrador não é o autor empírico, mas é um personagem que, neste mise-en-scène, se desdobra em culpas e desculpas por não possuir doçuras, nem palavras ou talhe para contar histórias às crianças!

Na literatura infantil brasileira, o jogo com os personagens de uma história bem conhecida dentro de uma nova aventura aparece desde o movimento modernista. Já o questionamento sobre as figuras do narrador e do autor-personagem talvez venha de um influxo estruturalista nos estudos literários universitários, pela década de 1970. Essa regressão toda é necessária quando tomo uma publicação como ALICE NO TELHADO, de Nelson Cruz (Edições SM, 2010) e repenso os impasses dos últimos 40 anos, ou mais, na produção destinada a pequenos e jovens leitores.


Ainda que trabalhando como escritor e como ilustrador, Ricardo Azevedo caraminholou a saída dos personagens da cabeça ou da imaginação do autor e, assim, muitos outros igualmente fizeram. Por sua vez, em seu duplo ficcional, Nelson Cruz escreve que
“Certa vez, tarde da noite, quis escrever uma história. Sobre a mesa, várias folhas de papel desafiavam minha intenção. Pela janela aberta entravam os sons dos grilos nas sombras das árvores. O pensamento perambulou por alguns temas e nenhuma ideia me veio à mente. Cansado de tentar escrever, apanhei um pincel e desenhei um círculo no meio de uma folha. E fiquei ali, imaginando se, a partir daquele desenho despretensioso, uma história poderia ter início. Mas nada.”
O que se pode adivinhar é que, em meio ao entorpecimento do cricrilar madrugada afora, o Nelson-personagem ouvirá vozes e não será um sussurro, mas o espichado grito chamando COEEEELHOOOO! Do círculo, vicioso círculo, sairão o Coelho Branco, a menina Alice de cabelos escuros, o pequeno Chapeleiro, o rei, a rainha gorda e três soldados, em uma lengalenga sucessiva que traz os personagens do país das maravilhas correndo em cima de papéis na mesa do escritor-ilustrador. Eles estacam, todos, no limite... de uma ilustração ou de um telhado à borda de uma imensa favela no morro.


Nelson Cruz já havia trabalhado com tamanho contraste entre as realidades das pessoas de ficção e das pessoas de carne e osso, em 2004, com O CASO DO SACI, fazendo dialogar o mano velho Zé Preto, um Gepeto às avessas, com a obra de Carlo Collodi. De seus projetos intertextuais, permanece oportuno para a leitura OS HERDEIROS DO LOBO, tour de force empreendida em 2009, entre narrativa, ritmo, imagens literárias, pintura e os contos da tradição popular.


No livro de 2010, ALICE NO TELHADO, os desenhos revelam um mundo coberto de ocre e pobreza pouco afeito à fantasia, uma favela de parabólicas e tiroteios onde nem os personagens mais cativantes ou absurdos da literatura para crianças ousam entrar. Ali, a infância é outra – e este recado, um tanto pessimista (leitor! insista) nos faz refletir... A saída para Alice é voltar ao buraco traçado pelo pincel do autor, um buraco de onde nem deveria ter saído? Talvez.





31 de maio de 2010

alice, boneca e brincadeiras de eich

por Peter O”Sagae


Lewis Carroll
reconto: Silvana Salerno
 

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS
ilustrado por Cris Eich
DCL, 2010

ISBN 9788536808611
72p.


Porque as comparações são inevitáveis, torna-se perigosa e estranha a responsabilidade de ilustrar um clássico literário. Como revelar uma imagem que os olhos ainda não tenham visto? Desafio maior quando se trata de protagonizar traços e cores a partir de Alice no país das maravilhas! Não são poucas as re-edições ilustradas — e o subterrâneo do texto bem guarda diferenças e desentendimentos entre o escritor e John Tenniel, o primeiro a re-desenhar Alice a partir dos croquis de Carroll... Porém, tão próximos seus 150 anos, Alice já não é mais a mesma obra, nem a mesma criança! E como, a uma narrativa, acrescenta-se alguma fortuna crítica, o texto galopando sua própria metalinguagem, às imagens é possível conceber um intercurso de outras imagens. Vejamos sem demora: o que agora se acha na aquarela de Cris Eich?


O livro traz uma dúzia de pranchas coloridas, além da ilustração na capa e vinhetas que não se repetem ao longo do reconto de Silvana Salerno, que tornou o texto mais brevinho e sem rabos, ou histórias, para o leitor puxar.


Contrariamente, Eich criou um curioso olhar para trás: a ilustração olhando o próprio rabo — ou rastro! Um caminho em caracol, como bem mostra, num desses felizes acasos da leitura, o ratinho aí em cima.

E Alice não é senão uma boneca de retalhos, uma Emília de referências visuais, ou Ofélia, num mergulho de cores (e informações) saturadas. Os cabelos: tiras de uma velha saia azul. As mangas de seu vestido, quem sabe de qual pelica, roxa e rosa? De gatos a garatujas, o tronco de uma árvore se contorce tão felinamente que esconde quem ali se esconde — código que corporifica numa só forma correspondências: cabeça: sorriso: lua.

A ilustração de Cris Eich coloca à nossa frente o caráter mais indicativo da linguagem visual e aponta não uma representação, mas sua própria maneira de apresentar-se. Imagem. E (talvez) poucas coisas mais seriam tão agradáveis a Lewis Carroll que tramou, num livro de figuras e muitos diálogos, uma rede de hipertextualidade — divertidamente.


21 de maio de 2010

insone com(o) alice

por Peter O’Sagae

Longos cílios e lágrimas se confundem num traço líquido; escuro é o contorno dos lábios frágeis e nervosos — e as olheiras da loura Alice são belas e lilases, nas surpreendentes ilustrações de Camille Rose Garcia. Sem dúvida, um visual gótico e algo subversivo (que) rejuvenesce Alice e faz igualmente reviver o clima expresso pelo título original da obra de Lewis Carroll, conforme o manuscrito de 1862 — ‘Alice in underground’, Alice no submundo, em um lugar clandestino, secreto, pessoal e oculto que se tornaria o país das maravilhas na primeira edição impressa.

E a forma e a força das imagens de Camille Rose Garcia enterram, de vez, ou desterram as representações edulcoradas de Alice, como uma crítica às convenções de beleza, corroendo os símbolos da puerilidade que, diferentes vezes, nos vestem os olhos. A artista degenera os signos mais usuais à qualidade de índice, descobrindo-os, num quê de nostalgia, nas cores que o tempo ou o próprio sonho esmaeceu.

Tal como a personagem parece enxergar a paisagem subterrânea e seus incomuns moradores, o leitor aí se depara com uma figuração constantemente insone.


Lewis Carroll
trad. Tatiana Belinky
 

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS
ilustrado por Camille Rose Garcia
Saraiva, 2010

ISBN 9788502095311
160p.


Numa caprichosa edição, o livro imita um volume que tem envelhecido, pouco a pouco, mas ainda resiste, com o papel que se deixa oxidar e vem amarelando desde a borda das páginas. Ao texto integral, nenhuma gota, mancha, nada atinge — e chega-nos em uma tradução enxuta de Tatiana Belinky.

17 de abril de 2010

oqu'éque ali se esconde

por Peter O'Sagae


Lewis Carroll
trad. Sebastião Uchoa Leite
AVENTURAS DE ALICE
no país das maravilhas,
ATRAVÉS DO ESPELHO
e o que Alice encontrou lá
Summus, 1977

ISBN 9788532300447
21 x 14 cm 280p.


Nalgum lugar lique Alice no país das maravilhas “é o mais estranho e fascinante livro para crianças jamais escrito”. Fiquei estoupeirado! Que grandefeito do livro, se jamais escrito, qual o leitor apto a comentá-lo? O susto esvaiu-se ligeiro, por sorte, ao lembrar-me de que realmente alguém pudera escrever o livro e mais alguns outros, Lewis Carroll! Manuscritas e ilustradas originalmente pelo próprio autor, as páginas de Alice's Adventures under Ground foram presenteadas à menina Alice da família Liddell, anos antes de sua primeira publicação em 1865. Assim temos ou podemos ter em mãos um livro certamente comentável e recomendável, o que talvez fosse o mesmo que dizer um livro altamente comestível. Pois: o que valeria um livro sem doçura ou doses de loucura?

Contudo, o elemento estranho e fascinante que ali se esconde tem outra qualidade para alguns leitores; não todos, é verdade. Há boatos espalhados nas caixas da teoria de que os livros de Alice vieram afastando-se do telescópio da criança, abaixo do microscópio do leitor adulto. E o qüiproquó da história: “só assim é, se lhe é assado”. E bem sabemos que um ovo só se parece com um espeto, quando e somente quando, a crítica quer. E muitas vezes ela consegue! Brejeiramente ou não, impondo a toda obra um regime de leitura que bem poderia ser chamada de ‘decodificação mecanicista’, em que o menor indício logo é senha para algo a ser (dês)prendido e revelado... Sabe comé uma corrida de comitê: um grupo de comentaristas molhados num círculo vicioso traçado no chão. A forma exata não tem importância, explicou o Dodô. Também não é preciso contar: um, dois, três e já! Todos começam a correr quando querem. E param quando querem, de modo que é nada fácil saber quando a leitura termina. À qual conclusão se quer secar?

Do lago dos livros de Alice, ora, foram pescadas já diversas interpretações alegóricas. Com um anzol social, chegam à tona botinas biográficas, extratextos históricos e histéricos, sem comprovação necessária. As obras de Carroll também emergem, quase sempre, com uma fisgada psicanalítica. É muito aquilo que se puxa. O perigo: “tudo pode ser suposto, quando se parte do princípio do sentido oculto das representações”, escreve Sebastião Uchoa Leite, no estudo introdutório que antecede sua tradução. “É realmente medonha”, murmurou Alice, “a mania que essas criaturas têm de discutir. É de enlouquecer qualquer um!”


Outros críticos, conscientes da armadilha que é o estudo da intencionalidade de uma obra, esboçam uma aproximação com o trabalho de L.C. através do que o próprio texto tem a oferecer em sua superfície. Porque menos enlouquecidas do que uma Lebre de Março, são as criativas apropriações de certas referências e estruturas lingüísticas — e a conseqüente desapropriação de seus sentidos originais. Atenção para um conjunto de expressões populares e idiomáticas inglesas, das nursery rhymes e outras cantigas tradicionais, dos poemas encontrados nas velhas cartilhas e de célebres escritores da época vitoriana. Ao ritmo da intertextualidade, impõe-se um jogo que abriga e obriga as palavras à transformação. Creia: instaurando novas proposições, o efeito de velhas palavras só poderia ser cosmético! Surgindo do caos, uma palavra desdobra-se tríplice entre suas qualidades materiais (sonoras e gráficas) e seu poder de invoca-ação imagética.

oqu'éque ali se esconde (parte 2)

A densidade plástica da palavra, em metamorfoses sonoras, é artesanal e sorrateiramente trabalhada pelas paronomásias (nossos vulgares trocadilhos), consideradas até mesmo “indignas de um estilo escorreito” (Pignatari, 1974: 108). A semelhança fônica e/ou mórfica talvez seja o espinho da fala ou aspecto mais difícil de manter entre as rosas e os rasos de uma língua à outra. Mas, sem falhas em sua formação acadêmica, a velha Falsa Tartaruga é quem mais parece entender do riscado: teve lá suas aulas de Belas Tretas e Estrilo, além de Estudos Histéricos dos fatos antigos e modernos, etc.


No original em inglês, o exemplo mais-que-perfeito parece mesmo ser a correspondência sonora entre as palavras [tail] e [tale], de modo anatomicamente ajuizado como o conto do rato torna-se seu próprio rabo. Como calda escorrendo pela página, o poema-cauda alonga-se diante do olhar do leitor, expectador da superfície branda do livro, ao mesmo tempo em que se configura o longo conto ante à percepção da ouvinte Alice. Ocorre um “isomorfismo olho/ouvido” (Pignatari, 1974: 82), ou seja, uma dupla paronomásia de plasticidade sonora e visual. Na versão original manuscrita, o escritor inglês teve caprichos de ir retorcendo o vasto rabo — e o último verso obriga o leitor a virogirar o livro. Alguém aí já considerou as imagens cinéticas do livro de literatura para crianças e não-crianças? Nas edições impressas cuidadosas, o gracejo se apresenta sinuosamente em linhas e tamanhos tipográficos que vão, pouco a pouco, diminuindo até o fim. Mas por que não é assim que está em certos livros editados por aí?

Seja lá como for, outra mania que Lewis Carroll não esconde, ao lidar com a plástica da palavra, é o uso do portmanteaux, ou palavras-valise. Como diria o Dodô, a melhor maneira de explicar isso é mostrá-lo. Na tradução de Uchoa Leite, a professora da Falsa Tartaruga era uma verdadeira Torturuga. “Mas por que Torturuga, se ela era uma tartaruga?”, perguntou Alice. “Nós a chamávamos de Torturuga porque aprender com ela era uma tortura”, respondeu irritada a Falsa Tartaruga. “Na verdade você é bem obtusa, hein?” (1977: 108). Na recriação de Nicolau Sevcenko, tratava-se de uma Tetrarruga “porque, sendo uma tartaruga velha, tinha quatro rugas no pescoço, é lógico” (1988: 91).


Na segunda história, Através do espelho e o que Alice encontrou lá, escrita em 1871, Lewis Carrol inclui um poema chamado “Jaguadarte” (tradução de Augusto de Campos). Entre outras coisas, Alice encontra o poema e, intrigada, contempla suas linhas como se escritas em uma língua que não se conhece. Isso porque as letras, palavras e frases que estampam o texto estão todas invertidas – plasticamente espelhadas – e é esta mesma visão que o leitor tem. Até que lhe ocorre uma idéia luminosa: como se trata de um livro do mundo dentro do Espelho, colocando-o diante de outro espelho, as palavras retomam a ordem habitual. Então, poderá ler:

Era briluz. As lesmolisas touvas
Roldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvas
E os momirratos davam grilvos.


Ora, são dois níveis de distorção: primeiramente, ótica e, então, sonoramente porta-mantimentosa. A cena parece ser facilmente bucólica para decifrar as palavras intrincadas... Persistindo a dúvida, favor consultar o muito habilidoso Humpty Dumpty ;-) é o ovo quem ajuda Alice a sacar-rolhas do signo-ficante de cada palavra. Ele realmente se parece com um espeto desperto.

oqu'éque ali se esconde (parte 3)


Além das coisas que Alice viu, em suas dulcaloucas aventurosas, as imagens que Alice fatalmente não viu (ou que invoca sobre si mesma) são as mais surpreendentes. Que outra personagem poderia dizer: “Só queria saber o que aconteceu comigo. Quando eu lia contos de fadas, pensava que essas coisas jamais aconteciam, e cá estou eu metida numa dessas histórias! Deve haver algum livro escrito sobre mim, deve haver!” A menina sabe que não deve, nem poderia, se confundir com as personagens de narrativas tradicionais, pois jamais as vira transformando-se tanto quanto ela. Muito tímida sentiu-se ainda mais Alice, sua própria (auto-)imagem ali se diminuindo, face à temida pergunta da Lagarta: Quem é você? “Eu... eu... nem eu mesmo sei, senhora, nesse momento...” Tempos depois, passando para o outro lado do espelho, a dúvida e o medo: “E agora, quem sou eu? Eu quero me lembrar, se puder.” Qual imagem sem passado, ela precisa lembrar-se quem era, a qualquer instante, para não esquecer quem não foi. O que é que Alice esconde?
Igualmente ambígua, tudo e nada, afirmação e negação, ilusão e palavra deceptiva, signo e anti-signo, a anti-personagem assemelha-se a boneca que a criança destrói na ânsia de descobrir o "dentro" ou o "avesso", e experimenta a decepção de se defrontar com o vazio do "dentro", verdadeira gargalhada irônica que aponta com o dedo o sonho louco do "fora", enganosa vestimenta de um nada. (Segolin, 1978: 102)
“Estou decidida a me lembrar.”
“É inútil”, responderá a ela Tweedledum páginas adiante. Parte de um sonho, parte de uma imagem de um sonho — à beira do esquecimento. “Você sabe muito bem que você não é real.”

16 de abril de 2010

o filme, no livro

Imagine um gato saltando das dobras de um livro...



Dobras da Leitura recebeu...
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS: guia visual do filme de Tim Burton,
por Jo Casey e Laura Gilbert, trad. Ana Luisa Martins (Caramelo, 2010).

enigmas para alice

por Peter O’Sagae


Raymond Smullyan
trad. Vera Ribeiro
il. Greer Fitting
ALICE NO PAÍS DOS ENIGMAS
Jorge Zahar Editor, 2000

ISBN 9788571105508
192p.


Para quem sente saudades do país das maravilhas, Raymond Smullyan faz um convite e tanto, com boas doses de desafio e divertimento. Publicado na comemoração dos 150 anos de nascimento de Lewis Carroll, em 1982, o livro Alice no país dos enigmas foi convincentemente escrito ao gosto carrolliano: os personagens agem e falam como nas obras originais, envolvendo Alice e o leitor em problemas de natureza puramente lógica, através de doze capítulos com muitos trocadilhos e despistes metalingüísticos, por vezes, mágicos e metafísicos...

Imagine um dia fresco de verão: o Rei pede à Rainha de Copas para preparar algumas tortas saborosas. Mas, como fazer as tortas, se a geléia (que é a melhor parte!) foi roubada? Quem roubou? Os suspeitos são a Lebre de Março, o Chapeleiro Louco e o Leirão. Todos três imediatamente vão a julgamento: quem roubou a geléia, ora essa, fora a Lebre de Março, o Chapeleiro Louco ou o Leirão. Como descobrir o culpado? (Essa e as outras soluções dos 88 enigmas estão no final do livro.) Por fim, encontram a geléia — mas descobre-se que também roubaram a farinha, o açúcar, o sal, a assadeira, o livro de receitas, a manteiga, os ovos... E a pimenta!!! Outros personagens são levados à corte, cada suspeito faz sua declaração e assim começam as confusões no país das maravilhas.

Depois, Alice passeia com a Duquesa que lhe abraça e finca o queixo pontudo no ombro da menina, segredando: metade das criaturas daqui são loucas! Resta descobrir quem... E vai se passando a mesma coisa com o Grifo, a Falsa Tartaruga e o Rei: é preciso sempre adivinhar, descobrir, decifrar — como promete a quarta de capa — problemas lógicos matemáticos, adivinhações deliciosas, charadas mirabolantes, enigmas diabólicos, desafios tentadores. E mesmo que você não tenha talento ou paciência, o que vale nessa leitura é também avançar páginas e alcançar a segunda parte do livro: A Lógica do Espelho.

Alice é, então, posta à prova pela Rainha Vermelha e a Rainha Branca, em uma verdadeira aula de malabarismos matemágicos. Isso mesmo: matemágicos, pois o que importa não são os números, mas exatamente o abracadabra de cada palavra na enunciação do problema. “Você sempre deve contar tudo, porque tudo conta.” A menina também encontra os gêmeos fofuchos Tweedledee e Tweedledum. Porem, sem o nome bordado em seus colarinhos, como já acontecera no outro livro. Então, quem é quem? É bom lembrar que nem tudo o que é parecido é, fatalmente, similar!

E Humpty Dumpty está de volta, sentado no mesmo lugar do mesmíssimo muro com suas tiradas peculiares. Deliciosamente, paradoxos ele oferece a Alice — ou seja, perguntas que não têm resposta, mas que dão muito que pensar. De repente, a descoberta mais sábia e bela: que não é necessário ter e darmos respostas para tudo, mas enovelar o pensamento para despertá-las em nós ;-) Humpty Dumpty é um dos argumentadores mais argutos que conheço, diz o Rei Vermelho, é capaz de convencer praticamente qualquer um de praticamente qualquer coisa, quando se dispõe a fazê-lo!

Por fim, as aventuras de Alice enredam-se no grande enigma da filosofia moderna e na teoria dos ‘mundos possíveis’, retomando atentamente a passagem do livro de Carroll em que o Rei Vermelho dorme e sonha. Sonha com uma menina chamada Alice e, caso acorde, Alice deixaria de existir, puff!, feito a chama de uma vela. Agora, ficamos sabendo que o Rei Vermelho também encontrou Alice dormindo... e, sonhando com ele, de tal modo que, acordando, era o rei que era uma vez feito vela!

E, você já sonhou que você é um sonho? Como diz Smullyan, “Este livro, tal como as Aventuras de Alice no país das maravilhas e Através do espelho, é realmente para leitores de todas as idades. Não quero dizer com isso que todo ele seja para qualquer idade, mas que, tomando uma idade qualquer, parte dele é para essa idade.”


ENIGMA 62
« — Se um carrilhão leva trinta segundos para bater seis horas, quanto tempo leva para bater doze?
— Ora, sessenta segundos, é claro! — exclamou Alice. Oh, não! — percebeu, de repente. Está errado! Espere um minutinho, eu lhe darei a resposta certa!
— Tarde demais, tarde demais! — exclamou a Rainha Vermelha, triunfante. Uma vez que tenha dito uma coisa, você nunca pode se desdizer!
Qual é a resposta certa? »


Diálogos com Alice

Dobras da Leitura recebeu...
[textos condensados a partir do catálogo e do press-release]



A VERDADEIRA HISTORIA DE ALICE, de Rita Taborda il. Thais Beltrame (Girafinha, 2008). Esta Alice bem que tentou falar a língua difícil dos adultos. Mas aquilo não fazia muito sentido. Pediam-lhe que não se pendurasse nos braços da cadeira. E cadeira tem braços? Diziam-lhe que não riscasse as pernas da mesa da sala. E por acaso as mesas têm lá pernas? A língua dos adultos precisava mesmo ser melhorada... Esta é a verdadeira história da pequena Alice, uma miúda que ainda não era uma pessoa grande, mas já era, isso sim, uma grande pequena pessoa.


ALICE NO PAÍS DA POESIA, de Elias José, il. Taísa Borges (Peirópolis, 2009, fora de estoque). No primeiro poema do livro, Alice é "flagrada" no momento em que descobre o mundo das palavras, enquanto vivia no país das maravilhas. Esse é o ponto de partida para 33 poemas repletos de encantamento: o leitor segue em companhia de Sherazade, Peter Pan e Dom Quixote, além de um séquito de fadas e feiticeiras, duendes e sereias, reis e rainhas, príncipes e princesas, pássaros e cavalos mágicos. As ilustrações de Taisa Borges se encarregam de estilizar esses sonhos de criança.



LEWIS CARROLL NA ERA VITORIANA: outras histórias de Alice, de Kátia Canton, il. Adriana Peliano (DCL, 2010). O livro resgata o contexto de criação das narrativas de Alice, na segunda metade do século XIX, revelando os costumes de época e como Lewis Carroll criou seus personagens, em um momento de paz e prosperidade na história inglesa — a Era Vitoriana. O leitor saberá quem foi a Rainha Victoria, o que ela fez em benefício ao povo inglês e como tudo isso se relaciona com as histórias de Alice e a vida do autor, cujo nome verdadeiro era Charles Dogdson. Com colagens digitais de Adriana Peliano, a obra faz parte da coleção Arte conta História.