27 de fevereiro de 2019

OS OSSINHOS CROCANTES*

ABC de Edward Gorey, trad. Peter O Sagae



A para Amy que caiu da escada
B para Basílio que os ursos levaram
C para Clarinha que tão cedo se foi
D para Desmond do trenó empurrado
E para Ernesto que engasgou com um pêssego
F para Fanny sugada e seca pela sanguessuga
G para George sob o tapete sem ar
H para Hector que um bandido enforcou
I para Ida que se afogou no lago
J para James que bebeu água sanitária
K para Kate esquartejada a machado
L para Leo que umas tachinhas engoliu
M para Maud pelo mar arrastada
N para Neville que de tédio morreu
O para Olívia atravessada pelo agulhão
P para Prudência pisoteada num bar
Q para Quentin que afundou no atoleiro
R para Rhoda consumida num incêndio
S para Susan que pereceu de soluços
T para Tito que voou em mil pedaços
U para Una que escorregou num bueiro
V para Victor triturado debaixo do trem
W para Winnie encravada no gelo
X para Xerxes devorado por ratazões
Y para Yorick com a cabeça partida
Z para Zilá que tomou muito gin

//.
Fim?
.//



* Edward Gorey nasceu em 22 de fevereiro de 1925, mas teve gente comemorando dia 25 e nós ainda no 27. Isso não importa. Parabéns atrasados ao querido defunto, cantando 26 ossinhos do seu ABC publicado em 1963. O livro foi descrito como uma "rebelião sarcástica contra uma infância que é ensolarada, idílica e instrutiva". O humor mórbido do livro vem em parte das formas comuns em que as crianças morrem ... Longe de ilustrar os tormentos dramáticos ou fantásticos da infância, esses cenários zombam das paranoias banais que vêm como parte da paternidade. O tom é, por isso mesmo, levemente satírico e divertido, sem deixar de ser moralmente admonitório: nunca deixe as crianças a sós! E lembre-se: tenha muito cuidado ao voltar da escola, se você não cantou o hino corretamente.

Nenhuma editora brasileira tem publicado o livro entre nós. O que não impede que empreendamos uma tradução livre. As imagens abaixo são encontradiças na internet e mostram como Edward Gorey explorava a ilustração, sem cores, na qualidade de livro encenado.

1 de dezembro de 2018

Adivinha quem vem para jantar?


. . . andava tão entretido, desde o último domingo, curtindo as postagens de amigos e colegas da literatura infantil e juvenil que conquistaram o Selo Cátedra 10, e acabou me passando despercebido que meu nome também participava desta premiação!

O livro OS CONVIDADOS DA SENHORA OLGA, originalmente “Adivinha quem vem para jantar?”, escrito e ilustrado por Eva Montanari, foi traduzido no final de 2014 para a Editora Jujuba e lançado apenas neste 2018.


Este é o terceiro livro da autora italiana que pude trabalhar e o resultado me deixa bastante contente, em ajudar a trazer seu universo de referências para o pequeno leitor brasileiro, incluindo Cosme Chuvasco de Rondó, o barão nas árvores, do italianíssimo Ítalo Calvino na companhia de outros personagens fantásticos da literatura universal. E, claro, aquele amor à leitura como um prato bom preparado lentamente sobre o fogão...


Vamos ler um trechinho?

Era velha, a senhora Olga, e vivia só no alto da colina. Era cega, a senhora Olga, mas sabia muitíssimo bem onde guardava a concha e o mexedor, a noz-moscada e o manjericão, o fermento e o açúcar de confeiteiro, porque cozinhar era a sua paixão.

A senhora Olga não desgrudava do fogão o dia inteiro. Em sua casa, não havia relógios, mas ela sabia perfeitamente quando era hora de jantar, pois tinha ótimos ouvidos, os ouvidos mais delicados da cidade.

Encostada atrás da porta, a senhora Olga podia ouvir seus convidados pulando, correndo, tropeçando, subindo, caminhando desde o sopé da montanha, e assim ela sabia exatamente quando era hora para começar a cozinhar o macarrão.

Sempre a senhora Olga tinha um convidado diferente e, cada convidado, um jeito especial de andar.


Quer saber da lista dos vencedores do Selo Cátedra 10?
Clique: bllij.catedra.puc-rio.br/index.php/selos/selo-2018
Uma ótima lista para presentear no Natal!

29 de novembro de 2018

correr todos os riscos


Era uma vez...
— Um rei! — logo dirão meus pequenos leitores.
Não, crianças, vocês erraram.

Era uma vez um pedaço de madeira. Não era uma madeira de luxo, mas um simples pedaço de lenha, daqueles que no inverno colocam-se nas estufas e nas lareiras para acender o fogo e para aquecer os aposentos.

Não sei o que aconteceu, mas o fato é que um belo dia esse pedaço de madeira foi parar na oficina de um velho marceneiro, cujo nome era mestre Antônio, mas que todos chamavam de mestre Cereja, por causa da ponta de seu nariz, sempre brilhante e vermelha como uma cereja madura.

*
De AS AVENTURAS DE PINÓQUIO, versão integral do texto clássico do escritor italiano Carlo Collodi, com tradução e ilustrações de Gabriela Rinaldi (Iluminuras, 2002) p. 11. Escreve Silvia Oberg, nas orelhas do livro:

"Muito diferente dos super-heróis de hoje, Pinóquio não tem poderes especiais — não pode voar, não enfrenta os inimigos com força descomunal, não tem inteligência privilegiada. Pinóquio é apenas um boneco de pau feito por mãos humildes, vivendo entre pessoas pobres, enfrentando a vida e, algumas vezes, se dando bem mal. Mas Pinóquio tem um coisa que o faz especial: teima em seguir seus desejos e para isto vai correr todos os riscos."

"Em um outro livro que escreveu para crianças, chamado Histórias alegres, Collodi conta suas lembranças de infância e convida seus leitores a adivinharem quem era o aluno mais preguiçoso, mais agitado e impertinente da escola. E revela seu segredo: não era ninguém mais a não ser ele mesmo! Assim, compreendemos um pouco a força do boneco Pinóquio por ele criado: Collodi era um Pinóquio de carne e osso..."

"Este boneco de pau desafia as convenções e os valores estabelecidos, porém o grande desafio que enfrentará será o de realizar o seu desejo de crescer, de não ser mais apenas um boneco de madeira, mas transformar-se num menino de verdade, transformar-se em gente. Este desafio parece não ser só o de Pinóquio, mas o de todos nós. Talvez, por isto, sua história continue sendo lida, relida, contada e amada por crianças e adultos, resistindo ao tempo e alimentando nossa busca por humanização..."



Carlo Collodi, pseudônimo de Carlo Lorenzini (29/11/1826 - 26/10/1890).
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