26 de abril de 2017

no papel que embala o opúsculo

Peter O.ô Sagae



Por ocasião do Indie Book Day, trazido pela primeira vez ao Brasil no 18 de março deste ano, iniciei uma série de registros, no Instagram, com o que tenho encontrado de material criativo e potencialmente literário em algumas das feiras de livros e impressos em São Paulo entre produtores e artistas independentes. Agora retomo andanças e leituras com mais fotos e comentários, desdobrando o olhar, a partir do mesmo ponto: um opúsculo embalado por uma leve capa quase transparente como papel-arroz.

A LUA NÃO PODE SER ROUBADA é um tradicional conto zen, um curioso miniconto que se oferece aos leitores em poucas linhas na forma de enigma, ou seja, deixa a cada pessoa a tarefa de buscar uma interpretação particular. Já estas marcas – brevidade e adivinhação moral – aproximam o zen e a infância, o que bem justificaria a escolha de Baga Defente ao ter produzido uma adaptação e as ilustrações para a parábola que remonta ao século XIX. O personagem principal é o excêntrico monge Ryōkan Taigu, poeta-filósofo, eremita, calígrafo e, claro, mestre do zen budismo, que viveu entre 1758-1831.

Assim, nunca é demais desconfiar que as histórias de Ryōkan foram realmente inventadas ainda mais recentemente, com a difusão das práticas zen de meditação no Ocidente, tomando por inspiração os poemas em haikai compostos pelo mestre, testemunhando sua afeição pelas coisas belas e inefáveis da natureza. A base para o conto-enigma A LUA NÃO PODE SER ROUBADA estariam nestes versos:
nusutto ni
torinokosareshi
mado no tsuki
que ouso traduzir rapidamente – o ladrão a esqueceu de levar: lua na janela.


Em novembro de 2013, o artista residente em um sítio em Botucatu publicou A LUA NÃO PODE SER ROUBADA a convite da revista YoYo e deixou também para os internautas a reprodução integral da narrativa no site Nada.Art [espiem]. O autor preserva as ideias de uma vida simples, desapego material e também de generosidade com a natureza de cada um: que o ladrão ainda se ocupe com aquilo que sabe fazer em sua própria existência...

Nos desenhos, Baga Defente introduz gracejos gráficos que bem favorecem a apreensão rápida da narrativa: são os pontos de interrogação escapando da cabeça do gatuno e a roupa listrada, tão típica de presidiários e foragidos da lei nas histórias em quadrinhos e no cinema mudo; no entanto, pertencem a códigos bem estabelecidos no mundo ocidental desde a nossa Idade Média. Com humor e atualidade, o monge quase-nu aparece com pernas palitos dentro de uma confortável cueca azul... Com elástico!



Este é o primeiro experimento do autor para o público infantil, correndo por territórios narrativos e transpondo suas fronteiras – de veículo para a filosofia zen-budista aos links de informações imprecisas da internet, dos processos de escolha pela história à adaptação ilustrada, das páginas de uma revista de conteúdos variados ao formato de opúsculo, isto é, um pequeno livro impresso de poucas páginas. Nele se verificam também novas alterações na narrativa verbal, a necessidade de recortar as ilustrações e realocar a mancha gráfica no formato diferente e um pouco restrito do tamanho A5. Mesmo assim, Baga Defente vai mantendo a essência da comunicação tradicional e traz pequenos cuidados, como a costura em linha em vez de grampos para prender as folhas e a capa transparente em um papel mais fino, onde é impressa a lua que não pode ser roubada...

Ao abrirmos a primeira dobra, o sorriso amarelo do luar é transposto de sobre a cabana para longe: é o tempo apresentado em uma imagem não mais gráfica, mas imagem cinética que pede a mão do leitor para acontecer.

11 de fevereiro de 2017

admirar não é segredo

peter O sagae


Querida Angela, deixei a ponta de uma página virada para não esquecer o poema onde parei e com ânsia de colo quero recomeçar a partir daí porque imagino algum eu sob os passos das formigas e apanho com o olhar apenas umas flores do caminho que é seu mundo familiar em cada verso casa pedra instante lírios pois um escriba o escreve branco: esse mundo (ai, ardil) cheio de perfumes presídios e é você quem nos enreda em beleza em minha tarde também exausta... ou será amor O CADERNO DO JARDINEIRO #edicoessm (2016) #angelalago #poesia

E recomeço por uma página à toa


e tonto com o seu respirar maduro e honesto porque não há nada na linguagem tão fiel à essência humana, seja macho fêmea bicho água fruto, que um poema e você sabe fingir à maneira de um prefácio

ou flores que veio oferecer através da distância a ninguém – mas logo sólido se torna como a figura de um leitor velho, novo, estranho. Todo o seu livro tem uma urgência de permanecer pois logo se acabará

como cor, maciez ou perfume de um verso preso seco esquecido entre as folhas de um caderno. Aqui uma fotografia no gesto da luz e o dedo a digital o pincel que realça o visível invisível quando andamos distraídos


pelo mato pela biblioteca pelo verde pelos livros que não colhemos. Angela, palavra que brota, eis a confissão do método: feito um clique de botão. O olhar a máquina a câmera o editor de imagens e de texto a câmara oculta de seus devaneios pela literatura ilustração filosofia o existir incompleto. Às vezes, o despontar de um novo botão de flor

toma ares apressado, porém sabemos é fingimento e maestria porque nenhuma dessas flores jamais existiu ou já não existe. É o signo de uma flor, em um caderno que não é caderno, não são verdadeiras as manchas da seiva que circulava por um caule fino. Mas são deliberadamente belas, são também outras transparências.


E talvez por isso esse feitiço de horto


onde as páginas não contam passagem alguma de tempo. E vou e volto. A ponta virada desvira dente-de-leão leitura que vai se espalhando aleatoriamente saltitante. Onde eu parei ninguém se importe, nesse passo, imito repito e faço eco dos seus versos: a semente se costura.

25 de novembro de 2016

sempre em casa

Peter O.ô Sagae


Era uma vez uma casa... Assim começa o premiado livro de Carolina Moreyra e Odilon Moraes. Uma casa onde toda a família poderia viver feliz... no entanto um dia se afogou e tornou-se vazia. Os olhos da mãe encheram-se de peixes. Os pés do pai levaram-no embora. O tempo passa, evidentemente que passa, como as páginas de um livro, e o menino descobre como é sentir-se em casa e caminhar. Entre duas casas. LÁ E AQUI #pequenazahar (2015)


Contar uma história ou uma experiência é escolher um ponto de vista – e o ponto de vista do menino para relatar a separação dos pais é a estratégia do discurso que empresta leveza a esse texto, jogando palavra e imagem entre metáforas, metonímias e momentos de silêncio. Inicialmente, temos o tempo do “era uma vez” permitindo que a casa e a extensão do jardim (com sapos, lago cheio de peixes, flores, dois cachorros e uma árvore habitada por passarinhos) revelem, por fora, o otimismo da vida lá dentro.

É este deslocamento do lugar do narrador que se torna índice do deslocamento que o personagem vivenciar no mundo narrado... No momento em que o conflito se instala, a realidade é invadida por uma percepção quase mágica: é a chuva que não cessa, o afogamento, o fim do jardim, a fuga de todos os animais. Os peixinhos que viviam no lago, conta o narrador, foram morar nos olhos da mãe... mas onde se fixam os olhos do menino? De onde vinha tamanha chuva?


A velha casa já não basta, necessita ser abandonada. Será preciso que o tempo passe e novas páginas surjam pelo caminho para escrever uma nova história. A narração verbal é uma confissão em pequenas frases, quase soltas, quase nada, apenas o essencial. Para cada leitor preencher os vazios.

A verdade é que a casa do mãe e a casa da mãe são equidistantes em conforto e afetos também. Quando se está aqui em uma casa, sempre haverá outra. Lá.


O livro LÁ E AQUI foi extremamente celebrado neste ano, recebendo o Prêmio FNLIJ – O Melhor para Criança 2016, indicado entre os 30 Melhores Livros da Revista Crescer e selecionado para o acervo de literatura infantil brasileira da Internationale Jugendbibliothek – IJB (Munique/Alemanha), através da lista THE WHITE RAVENS, publicada em outubro. Por fim, conquistou o 2o lugar da categoria Livro Infantil do 58o Prêmio Jabuti, concedido pela CBL.


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