3 de julho de 2020



☆ A RESPOSTA escapuliu assim, num refluxo, automática. Uma resposta-padrão, como se fosse aquele o pedido mais natural do mundo. Livro???, refletiu um segundo depois o homem de terno. Teria o menino pedido um livro, em vez de um trocado, uma moeda, um real? Mesmo que houvesse o menino pronunciado um coerente «Tio, me paga um lanche que eu tô com fome», ainda assim alguma coisa estaria fora do lugar.

☆ A COMEÇAR pelo diálogo em si. Como haveriam de contracenar neste mesmo cenário — shopping centre de luxo, quase dez da noite — personagens tão opostos quanto este, o homem de terno, e aquele outro, o menino pobre que pedia livro, dinheiro, comida ou qualquer coisa que fosse? Era pois um diálogo inexistente, concluiu o homem de terno. ☆☆

Início de FÁBULA URBANA, história de José Rezende Jr. @joserezendejr com ilustrações de Rogério Coelho @rogeriocoelhoilustrador @edicoesdejaneiro (2014) pp. 5-8 #FiqueBem #AbreAspas2020

o pintor



☆ AÍ ELE PENSOU: «Vermelho eu tenho, ora!» E cortou seu dedo na mesma hora. E o vermelho pingou na sua tela: era uma lágrima apenas, uma pérola de sangue, mas logo tingiu a tela inteira, vermelha como fogueira de primavera, vermelha feito uma bandeira, como um milhão de rosas. ☆

Uma bonita mágica: palavra, imagem, hipébole, no livro O PINTOR, de Gianni Rodari (1980), com ilustrações de Valeria Petroni e tradução de Roberta Barni, publicado por pp. 28-35. #FiqueBem #AbreAspas2020

joaninha à janela



☆ A JOANINHA, às vezes, tem dessas coisas. Perde-se em labirintos que não têm fim, cavalga nuvens cor de sopro, cor de vento, roça o fundo do mar com uma estrela de papel na mão, fala às flores e chama-as por nomes rendilhados que ninguém conhece, dispõe objectos em cima de uma mesa e ensina-os a representar peças de teatro, caprichosas peças de teatro que ela tece com todos os cordelinhos da imaginação...

— É uma menina extravagante — dizem as pessoas sisudas.
— É uma menina sózinha — dizem as pessoas sensatas. — Que há-de ela fazer senão entreter-se assim, com fantasias e histórias sem pés nem cabeça? ☆

Trecho do conto que dá título a este livro de António Torrado: JOANINHA À JANELA e outras histórias (1980), publicado por Livros Horizonte, com algumas poucas ilustrações de Soares Rocha, pp. 24-25 #FiqueBem #AbreAspas2020
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