28 de junho de 2017

O que há de criança em Machado de Assis?

Uma fábula, uma lengalenga do Bruxo de Cosme Velho.


CÍRCULO VICIOSO
Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela...
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?

(Machado de Assis, 1878) 

Soneto publicado na Revista Brasileira, junho de 1879,
e no livro OCIDENTAIS, lançado em 1880.


[aqui] uma bonita página com retratos e caricaturas
[aqui] grafia e aspectos notacionais estabelecidos
[aqui] reprodução do manuscrito, acervo APESP

24 de junho de 2017

de volta ao boi

peter O sagae


Boi não é livro. Boi não é faixa de disco. Nem mesmo um vídeo, essa espécie de fotografia sonora em movimento... Boi é função, quem o confina? Festa popular, alegria, ritmo, lírica, fantasia, devoção – Boi é o brilho do sol à noite, quando incendeia, aquece e ilumina. Boi assim se escreve com letra maiúscula, não é brinquedo para crianças. É para todos. Esta é a ordem que São João mandou...

Talvez por isso, outras razões, talvez pelo bem de quem gosta de cantar vivas toadas, Marilda Castanha confesse as dificuldades de admirar o festejo, apenas por uma janela. Em uma das mais bonitas homenagens ao Boi-bumbá que a literatura infantil pôde produzir – o livro PULA, BOI! (Scipione, 2012), enfrentamos a luta entre a vida e a morte, entre o espaço e o pedaço do que foi, do que é, do que será o Boi.


Como num teatro sem chão e sem teto, o livro se abre com um proscênio de páginas brancas: bem ali, pássaros, pousados no corpo longo do mandacaru, tagarelam. Que o público saiba imediatamente: esta é a história de uma menina que adora exposições e museus, gatos, cachorros e bichos-preguiça. Mas, o principal é – esta é a história de um encontro! A personagem com chapéu, vestido quase sempre abaixo dos joelhos, óculos atentos, levando uma máquina fotográfica ou uma caderneta onde registra tudo que vê, pulou de outros livros para dentro de uma nova aventura. Pra dizer a verdade, a menina de Marilda saiu de dois livros de imagem para encontrar o Boi-bumbá em uma paisagem bem maior que qualquer museu de artes ou ciências naturais. Daí, pressentiram elas – autora e personagem – uma janela só, a linguagem visual, seria insuficiente para comunicar o Boi, seu mundo, seu universo.


Cores cantam e um galo eleva um céu sentimental, rosa. Palavras despertam a manhã. Boi-bumbá não é homem, não é carcaça de veludo bordado apenas. É um ser único, ardente, animal e humano, na tranquilidade dos afazeres diários... A primeira refeição, depois ouvir as notícias locais, e cuidar de seus pássaros, e trabalhar o roçado sob o sol quente do sertão. Vindo lá do fundo da estrada que começa no longe dos livros, entra a menina na história...


A visitante quer logo saber qual é o segredo do Boi-bumbá, mas ele a convida para conviver um tempo com sua família até o dia da festa.


A menina participa da vida daquele lugar: plantar, colher, preparar os alimentos, ir à feira – que também é dia de trabalho, porém festivo, diferente, entre a venda e a troca, os produtos da terra, o artesanato, as notícias boas e ruins que trazem as pessoas. A festa (que é preciso esperar ainda) será a continuidade desse andar para conhecer. Boi é participação, as horas em véspera. Boi é enredo de muitas encruzilhadas no caminho das histórias e da ação coletiva. E Pai Francisco e Catirina comparecem, debaixo do céu estrelado de junho. A menina descobre que Boi é a morte e é a vida que magicamente se levanta todos os dias nos ritos da natureza.

Ao fim de uma sequência descritiva, apaixonada, rememorativa, prenunciando o inverno que é a estação das chuvas para o sertanejo, Marilda Castanha desvenda o segredo que não precisava de pergunta, nem espera por resposta. O Boi é realmente muito amplo. E é promessa de estar de volta, na próxima festa, se mais um ano permitir...


Boi é confiança que o Céu há de querer.


Ora, das mãos de Marilda às asas de Josimar Fernandes de Oliveira – Jô Oliveira!, vamos ao Boi celebrado em cores na vibração de 1974, 1975, quando o artista pernambucano escreveu, ilustrou e publicou um trabalho sobre o Bumba meu Boi, pela Escola Superior de Artes Industriais... na Hungria. Como uma série de tableaux vivants, os personagens típicos da Zona da Mata retornam agora contornados pelas trovas do poeta Marco Haurélio, através do livro MATEUS, ESSE BOI É SEU (DCL, 2015).



Aqui se resgata um fragmento do Boi, o entrecho cômico-dramático, em uma das muitas variantes; conta-se da paixão de Mateus por Catarina e da prova de amor que a caprichosa morena lhe exige: arrancar o coração de Mangangá, o boizinho mais belo e estimado do Coronel, aos cuidados do jovem vaqueiro. Nem Santo Antônio parece ajudar a alguém ter juízo!


E a carreira tem lugar, incluindo diversas figuras do folguedo dançado por ocasião do ciclo natalino, por vezes até o Carnaval, na companhia do Cavalo-Marinho, representando o chefe da polícia que leva Mateus para mofar na prisão, os soldados, o Curumim, os Caboclinhos que defendem o vaqueiro... e está armada a confusão, a luta entre os brincantes.


A narração é bastante resumida, ágil para os pequenos leitores, deixando as entrelinhas para a memória dos mais velhos que alhures já conheceram o desígnio do Boi, em encenar o encontro de três culturas.


Eu quero ver quem vai à rua, eu quero ver acontecer! 


Boi é outra brincadeira nas mãos de André Neves a inventar o TOMBOLO DO LOMBO (Paulinas, 2016), a partir de duas tradições populares.

O que se mostra desde o título é o bem-conhecido brinquedo cantado do tangolomango que vem emprestar a fórmula repetitiva da lengalenga a fim de nos ensinar a contar ao contrário, como que subtraindo a cada vez um elemento da sequência numérica. Quase sempre, há uma família, ou uma casa com nove pessoas, uma velha com nove filhas, e elas vão misteriosamente desaparecendo até sobrar apenas um – para contar a história. Ou nenhum! Todos conhecem a parlenda. Mas, aqui, no lombo do boi, vão nove músicos com seus instrumentos.


Preenchendo a estrutura da brincadeira, estão os personagens encontradiços em algumas das variantes do Bumba-meu-boi, a exemplo do Coronel com o tamborim, a Índia que não sabe tocar trompete, o Padre batendo o sino, o vaqueiro Bastião levantando a cuíca, o Jaraguá parará parapá, sem faltar, no cortejo de "Mestre" André Neves, as figuras centrais do folguedo. O mote principal é descobrir quem deles quis comer um pedaço da língua do boi...

O divertido do tombolo não é apenas ver, um a um, os brincantes tombarem para trás. Não, mesmo. O divertimento está em dar movimento ao Boi. Página a página, o que estava embaixo foi para cima, o que havia em cima desceu... o livro gira em nossas mãos, da esquerda para a direita, como os ponteiros do relógio ou quando se fecha a torneira, como se dependesse apenas do leitor derrubar os personagens para fora do lombo do boi.


Esta função participante do livro, digamos, cria uma imagem cinética – uma coreografia para as mãos. Seria o pequeno leitor o décimo brincante, aquele que se esconde, a tripa vivente dentro da carcaça do boi?

Além de bailar explicitamente com o suporte material, encontramos um importante emblema da cultura nordestina nas reinações de André Neves – a chuva, a renovação, o nordeste que renasce para viver o Boi outra vez.


Lá vai, lá vai, lá vai...
Rasteirinhas pelo chão!
Borboletas no Inverno, é meu boi,
Andorinhas no Verão.

22 de junho de 2017

sem pressa... para encontrar

peter O sagae


Novelo sonoro, a poesia é quase sempre definida pela escrita em versos, brotando por força e forma dos estados de alma. Contudo, existe na poesia um apelo diferente afora a rima e além do ritmo verbal. Na poesia, existe uma disposição para as imagens que não se veem em qualquer lugar, no entanto passíveis de admirá-las no terreno invisível e fecundo da linguagem, no momento em que são nomeadas, isto é, tiradas de um esconderijo, da semente do cotidiano.

Vejamos um exemplo.
Dentro da mesa tem um cavalo.
Taque taque taque taque
A sala é um campo
e o relógio de parede é a lua.

Taque taque taque taque
Taque taque taque taque

O cavalo que dorme dentro da mesa
galopa pela casa
a cada noite.
Este poema pertence a um livro que não pode passar escondido de sua leitura. O que há dentro do livro também não poderá passar escondido a seus olhos, ouvidos e imaginação. ESCONDIDO, um pequeno livro da escritora chilena Maria José Ferrada, revela um horizonte que transcende os objetos imediatos e vai nos levando ao lugar onde o desígnio da poesia transforma-se em desenhos. Ou quadros, dentro de nós.


Publicado com a tradução de Carla Caruso e Fernando Vilalba, mais as ilustrações em fotomontagem de Rodrigo Marín Matamoros (ÔZé Editora, 2016), este pequeno livro abre-se amplo para abrigar a alma – ou a mente pré-lógica das crianças e adultos que não perderam tal essência e sentem-se tentados sempre a olhar as coisas como se fossem outras, em sua estrutura visual e linguística.


Os poemas de Maria José Ferrada não possuem título, ou seja, não há para eles qualquer mediação ou antecipação de sentidos. Cada primeiro verso é, pois, o convite e o caminho necessário para percorrermos. Se, dentro da imagem da mesa está escondido um cavalo, uma verdade aí se funda e projeta-se com efeito pela semelhança de suas quatro pernas – e taque taque taque o som anima seu galope na palavra. Por contingência, a sala é assertivamente um campo, lugar ilimitado, e o relógio, uma lua. Através da analogia das formas visuais, tudo o que pertence ao cavalo-universo escondido desperta...

Compassado, o trote transita igualmente entre os segundos do relógio. A onomatopeia cresce e toca dois diferentes objetos, permitindo que – cavalo e lua – dialoguem em uma única linguagem, em identidade sonora. O cavalo era um animal suposto, dentro da mesa, dormindo nas horas claras do dia. No silêncio encoberto pela noite, ele galopa, movido pela voz do relógio. Ou faz este relógio mover-se ao comando de seus cascos de madeira... Em qualquer hipótese interpretativa, o poema grávido de imagens perfaz um rodeio, um carrossel sobre as próprias ideias.


E, dentro da sopa tem um mar que não aparece nos mapas, dentro das pedras uma cordilheira adormecida e, na fumaça das chaminés, o que vive escondido? No jogo com a criança, geralmente os poemas jamais chegam destituídos de imagens. Contudo, seria preciso separar estes daqueles que apenas poluem a retina da imaginação com o excesso, o grotesco e lugares comuns. Observando o mundo com sensibilidade e afeto, Maria José Ferrada, muita perceptiva, sem pressa, permite aos leitores encontrarem a beleza de cada coisa além da coisa vista, ao investir-se de liberdade criadora.



Também a poesia se dá na combinação de duas ou mais imagens visuais. O trabalho de colagens de Rodrigo Marín é quase todo pautado numa intervenção silenciosa. O incurso acolhido à fotografia reafirma o ponto de partida dos poemas, com os objetos vistos cotidianamente na realidade – velhos conhecidos talvez nublando a visão –, conquanto o processo de montagem é o que ilumina, com simplicidade e economia, novos lugares para respirarmos.


ESCONDIDO é um pequeno livro, do tamanho de nossas mãos, e pede para ser levado embora. Amanhece. Ele e você partirão para longe, aposto, unidos.
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