25 de novembro de 2016

sempre em casa

Peter O.ô Sagae


Era uma vez uma casa... Assim começa o premiado livro de Carolina Moreyra e Odilon Moraes. Uma casa onde toda a família poderia viver feliz... no entanto um dia se afogou e tornou-se vazia. Os olhos da mãe encheram-se de peixes. Os pés do pai levaram-no embora. O tempo passa, evidentemente que passa, como as páginas de um livro, e o menino descobre como é sentir-se em casa e caminhar. Entre duas casas. LÁ E AQUI #pequenazahar (2015)


Contar uma história ou uma experiência é escolher um ponto de vista – e o ponto de vista do menino para relatar a separação dos pais é a estratégia do discurso que empresta leveza a esse texto, jogando palavra e imagem entre metáforas, metonímias e momentos de silêncio. Inicialmente, temos o tempo do “era uma vez” permitindo que a casa e a extensão do jardim (com sapos, lago cheio de peixes, flores, dois cachorros e uma árvore habitada por passarinhos) revelem, por fora, o otimismo da vida lá dentro.

É este deslocamento do lugar do narrador que se torna índice do deslocamento que o personagem vivenciar no mundo narrado... No momento em que o conflito se instala, a realidade é invadida por uma percepção quase mágica: é a chuva que não cessa, o afogamento, o fim do jardim, a fuga de todos os animais. Os peixinhos que viviam no lago, conta o narrador, foram morar nos olhos da mãe... mas onde se fixam os olhos do menino? De onde vinha tamanha chuva?


A velha casa já não basta, necessita ser abandonada. Será preciso que o tempo passe e novas páginas surjam pelo caminho para escrever uma nova história. A narração verbal é uma confissão em pequenas frases, quase soltas, quase nada, apenas o essencial. Para cada leitor preencher os vazios.

A verdade é que a casa do mãe e a casa da mãe são equidistantes em conforto e afetos também. Quando se está aqui em uma casa, sempre haverá outra. Lá.


O livro LÁ E AQUI foi extremamente celebrado neste ano, recebendo o Prêmio FNLIJ – O Melhor para Criança 2016, indicado entre os 30 Melhores Livros da Revista Crescer e selecionado para o acervo de literatura infantil brasileira da Internationale Jugendbibliothek – IJB (Munique/Alemanha), através da lista THE WHITE RAVENS, publicada em outubro. Por fim, conquistou o 2o lugar da categoria Livro Infantil do 58o Prêmio Jabuti, concedido pela CBL.


30 de setembro de 2016

sair pra luta, com doçura

peter O.ô sagae


Há tempos um sambista ensinou que é preciso mudar a conduta, sair pra luta, quando se quer se aprumar... Paula Browne desperta no maior alto-astral para contar O DESFILE DA ZEBRA – e ela, que parece ter nascido vestida, não perde tempo e faz a lista de todas as tarefas para nada sair fora do riscado! Buscar flores, arrumar e espalhar perfume de lavanda pela casa, passar as roupas com cuidado... Logo chegam a girafa, o jacaré, o alce e o elefante. Qual deles será o mais elegante? #editorarocco (2012) #literaturainfantil #paulabrowne


Herdeira das histórias rimadas, a autora carioca bola e rebola versos com a zebra que não se prende a um padrão único ou repetido das suas listras. Nem da vida! E resolve fazer um desfile, brincando com o preto e o branco num balanço legal com bolas, bolinhas, xadrez, caracóis e outras estampas para agitar o dia a dia. Porém, nem tudo é folia na vida da artista!


A lista dos afazeres que a zebra faz quando começa o dia, também assinala a progressão do tempo da narrativa conforme as tarefas vão sendo vencidas e riscadas. Esse expediente alerta o pequeno leitor para a necessidade de organizar-se internamente, pensando, e diariamente, fazendo...

É preciso dividir as horas para trabalhar,


tirar um momento para o relax e preparar-se 


para curtir os amigos!

26 de setembro de 2016

enquanto está de boca aberta

peter O.ô sagae


Enquanto está de boca aberta é óbvio que... O LOBO NÃO MORDE! E você que é um leitor espertalhão nem precisa abrir o livro para saber o final da história. Porém, o que aprontam esses porquinhos ainda não estava escrito! Nem ilustrado! É preciso ver sem demora o que fazem esses três com um pobre lobo... diante do respeitável público de pequenos leitores. #emilygravett (2011) #editoracaramelo (2013) trad. Mila Dezan #literaturainfantil


Nas páginas-de-guarda, já começa a narrativa! A autora britânica Emily Gravet trabalhou por bons dois anos neste livro e o resultado inequívoco está na precisão e no frescor de cada movimento e das reações dos personagens.



A capacidade expressiva de cada porquinho vai percorrendo uma variada gama de sentimentos, como alegria, júbilo, despreocupação, orgulho, gabarolices... É notável que os três, unidos na brincadeira de capturar o lobo e colocá-lo no picadeiro debaixo do estalo do chicote, logo entram em uma competição entre si – o que se costuma chamar de “rivalidade fraternal”.

Talvez seja esse o ingrediente que faz a narrativa caminhar num clima de tensão crescente... Os porquinhos, afinal, vão inflando o próprio ego e ficando cada vez mais ousados nos números que desejam impor ao lobo selvagem!




Este é um livro ilustrado encenado, isto é, os personagens são desenhados sempre inteiros e passeiam pela página branca. Também eles falam livremente, como atores em um palco. Não é preciso qualquer cenário, um bom figurino e uma boa quantidade de objetos permitem a ação acontecer...


A estrutura narrativa é a lengalenga. Primeiro, o irmão mais velho faz o lobo se equilibrar em um banquinho. Depois, a irmã enfeita o lobo com um laço imenso. Por fim, o terceiro deseja montá-lo como um cavalo, pois O LOBO NÃO MORDE! É o título que serve de bordão e lá vão os três, trocando de posição e forçando a barra até que... confiantes demais, afirmam: podemos inclusive por a cabeça entre seus dentes afiados, porque lobo não... MORDE???



P.S. As ilustrações nessa postagem foram retiradas de variadas fontes, a partir da edição original publicada por Macmillan Children's Book, do Reino Unido (2011).
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