“Temos, pois, em O caneco de prata, um quadro desolador de uma sociedade antropofágica, à qual se ajustariam as observações Hannah Arendt: ‘Uma sociedade de consumidores não é de modo nenhum capaz de saber cuidar de um mundo e de coisas que pertencem exclusivamente ao espaço da aparição do mundo, porque sua atitude central em relação a todos os objetos, atitude de consumação, implica a ruína de tudo em que ela toca.’
“Se a História não é construída, nada há a relatar, a não ser o próprio processo caótico da destruição. Por isso, o narrador, em O caneco de prata, nada mais faz senão o registro caótico do processo de consumação. A fragmentação do enredo, alinhavado pelo tempo da disputa, é construção formal que permite, a nível estético, neste caso, a captação de instantes agônicos de uma sociedade estilhaçada por um processo de modernização desumanizante.
“Por outro lado, a recusa em constituir um discurso ‘histórico’ significa também o reconhecimento do poder da linguagem na criação da História. Tal atitude aparece com clareza no capítulo 43, quando, parodiando a tradição literária para crianças e jovens, o narrador utiliza a linguagem para criar a estória/História:
“‘E todos aqueles varões bem armados e adestrados, musculosos, calçando botinas, cantando canções de guerra, levando a bandeira vermelha com o osso e a caveira lambendo o vento, era uma coluna de guerra e de aventura, de desbravamento e de morte, e, ao atravessarem o mapa do Brasil, indo reto sobre rios e cachoeiras e montanhas e florestas e plantações e animais selvagens, lembravam as colunas épicas da humanidade...’”
#intertextualidade
O texto sedutor na literatura infantil
Edmir Perrotti (1986: 110)
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22 de novembro de 2024
21 de novembro de 2024
com jeitão de zine?
dobrasdaleitura | Com cara de contracultura e algumas poucas ilustrações com jeitão de zine, era mais divertida a literatura infantojuvenil? Considerada uma novela meio cubista-meio surrealista, O CANECO DE PRATA, de João Carlos Marinho (1986), assim começa, com um narrador-câmera, aparentemente afastado das emoções das personagens:
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#joaocarlosmarinho
P.S. Para uma amiga Obergossaura.
Beijos de Peterodactillus
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A Berenice resolveu pegar o disco voador e convidou o gordo. Subiram o morro do Jaraguá e depositaram o prato de morango em cima de uma rocha. A Berenice abriu o invólucro de chantilly e foi espalhando cuidadosamente sobre os morangos. O marciano desceu do disco. Era um sujeito azul e antes de comer perguntou se estavam servidos.2
O gordo sentou na sala de espera esperando a sua vez. Havia quadros impressionistas, dois neuróticos, um carpete e uma secretária. Um neurótico ofereceu cigarro ao gordo. Pela porta do psicanalista saiu um neurótico. A secretária falou que era vez do gordo. O gordo foi pisando pelo carpete por uma entre-sala onde não tinha ninguém a não ser mais quadros impressionistas e desembocou em uma outra sala onde achou um sujeito cinzento que lhe disse: — Deite neste divã e diga o que lhe passa pela cabeça.#ocanecodeprata
#joaocarlosmarinho
P.S. Para uma amiga Obergossaura.
Beijos de Peterodactillus
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