dobrasdaleitura | Gosto do boi, guarnicê os zóio e zuvidos, fazer pequenas coleção. De junho a fevereiro do próximo ano, tem dezembro pelo meio e o boi é dança de situação, como diz Joaquim Cardozo, a exprimir o regozijo da noite de Natal. E tem as figura todas, variando os nome, escapando o S do plural que é caminho de cobra. Escapole, stá bem. Escrevê de todos os jeito, contribuição milionária de todos os erros que, antes da gramática, da ortografia da cartilha, vem mexmo a sintasse do pensamento. Também justifico: sou do tempo que bumba-meu-boi tinha hífen, sinônimo de panelas enormes para cozinhar (para) muitas gentes.
Do boi já fiz poema. Salve, Maranhão! Já fiz programa de rádio. Salve, oh Pindaré! Praia da Areinha. Até ganhei prêmio da Trimalca no tralalá da tribuna da música para américa latina e caribe. É na hora de tirar o pó da estante que o boi salta. Azulejo de parede foi Rosinha quem me deu. Foi ou não foi @rosinhailustra? Medo que caia da parede, encontrei caixinha do tamanho exato.
Os livro. Boi síntese, teatro brasileiro ilustrado por Poty (1963) e o Mundaréu com uma singela opereta. Os livro de literatura infantil foram ilustrado por Graça Lima (1996), Fernando Vilela (2007), Mariana Zanetti (2010), Jô Oliveira (2015) e Cris Eich (2023), depois dos texto escrito por Rogério Andrade Barbosa, Stela Barbieri, Alessandra Roscoe, Marco Haurélio e Bella Aurora que também se chama Tereza (e eu fui no lançamento num sábado, uma semana antes). Tem bernunça em canções da Ilha (2001) e livro-biombo de Sig Schaitel e Letícia Bicalho (2019). Tudo fora de ordem, mas enfileirado. Fazer das tripas, o coração. Malhado, dobrado, amarelo. Risografia de Jhonatan Raff. Veio da printa-feira.
Roda carro-céu, cavalo-marinho.
Aboio, papel.
Queria fazer postagem simples, uma foto só.
A coisa foi pegando. Reler trechos de livro.
O que fica de bom na instante, o que dispenso.
Viva Sanju! Viva Juó Bananère!
Viva Adoniran! Viva Décio Pignatari!
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5 de dezembro de 2025
6 de fevereiro de 2025
maneco caneco passou por aqui
dobrasdaleitura | Ontem, Maneco Caneco fez passear os livros de Luís Camargo aqui em casa. O personagem, completando já 45 anos, muito me faz pensar em sua permanência afetiva na memória dos leitores, ao mesmo tempo que permite ser reverenciado, citado e refeito inúmeras vezes por quem que deseje desenhá-lo ou montar novas versões com utensílios da cozinha. Como é importante um personagem ter um nome próprio!
As aventuras de Maneco Caneco Chapéu de Funil se dão nos livros Panela de arroz (1980) e Bule de café (1982). Pertencentes originalmente à serie Lagarta Pintada da Editora Ática, os três livros nos trazem ainda a alegria das histórias em lengalenga, com uma estrutura repetitiva e acumulativa que permite o encaixe de outros brinquedos falados: rimas populares, adivinhas tradicionais e outras inventadas pelo autor-ilustrador. Em 2007, a trilogia foi assumida como uma coleção e acrescida da história Folia de feijão (com ilustrações de Roberto Weigard).
Pintados a lápis de cor, os desenhos revelam a textura do papel vergê. Ora, vemos linhas pontilhadas formando figuras ou palavras; as onomatopeias andam soltas pelas páginas e há a intrusão de linguagens visuais em diferentes graus ou pedagogias do olhar. Teatro, livro encenado; balões de falas de histórias em quadrinhos; a aproximação com o cinema, através de planos sucessivos que se mostram nas aberturas de página no começo do livro Panela de Arroz.
Depois de empilhar objetos de metal e madeira, justapor cabeça, ombros, membros dos pés e das mãos, fui buscar como vestir Maneco Caneco e trazer para a brincadeira das minhas colagens o Leitão Leitor para fazê-los correr o mundo, assim mesmo de ponta cabeça a fim de mostrar que o mundo continua redondo e as Américas começam por onde melhor nos aprouver. #luiscamargo
@luiscamargo4793
#manecocanecochapéudefunil
As aventuras de Maneco Caneco Chapéu de Funil se dão nos livros Panela de arroz (1980) e Bule de café (1982). Pertencentes originalmente à serie Lagarta Pintada da Editora Ática, os três livros nos trazem ainda a alegria das histórias em lengalenga, com uma estrutura repetitiva e acumulativa que permite o encaixe de outros brinquedos falados: rimas populares, adivinhas tradicionais e outras inventadas pelo autor-ilustrador. Em 2007, a trilogia foi assumida como uma coleção e acrescida da história Folia de feijão (com ilustrações de Roberto Weigard).
Pintados a lápis de cor, os desenhos revelam a textura do papel vergê. Ora, vemos linhas pontilhadas formando figuras ou palavras; as onomatopeias andam soltas pelas páginas e há a intrusão de linguagens visuais em diferentes graus ou pedagogias do olhar. Teatro, livro encenado; balões de falas de histórias em quadrinhos; a aproximação com o cinema, através de planos sucessivos que se mostram nas aberturas de página no começo do livro Panela de Arroz.
Depois de empilhar objetos de metal e madeira, justapor cabeça, ombros, membros dos pés e das mãos, fui buscar como vestir Maneco Caneco e trazer para a brincadeira das minhas colagens o Leitão Leitor para fazê-los correr o mundo, assim mesmo de ponta cabeça a fim de mostrar que o mundo continua redondo e as Américas começam por onde melhor nos aprouver. #luiscamargo
@luiscamargo4793
#manecocanecochapéudefunil
29 de dezembro de 2017
que 2018 seja
“Resolvi montar uma loja
pra vender piadas por saco.
Adivinhas vendo por quilo,
e parlendas vendo por nacos.
Histórias da carochinha,
da galinha pintadinha
e do galo carijó que veste paletó
conto aos bis e em todas elas
acrescento mais um xis.
E pra quem gosta de verso
do joelho ao tornozelo,
do dedão até o pulmão,
pelo sim e pelo não,
ofereço de montão
poeminha e poemão.
Até a perereca da vizinha
que tá presa na gaiola,
sentada no penico tomando coca-cola,
vem na minha loja, sim, senhora!”
Terminando o ano, olha eu aqui limpando as caixas que coaxam, as antigas e novas leituras. O que merece ser compartilhado e deve permanecer nas estantes?
Livros que me deem bons enredos, divertimento, imagens na palavra e verbo criativo nos desenhos. Livros feitos para rir, para chorar e para chorar de tanto rir contra o cinza e a chatice que aí andam. Que a virada de página não corrompa o ritmo, nem o design afrouxe nosso interesse. Livros que contenham tramas fabulosas com um jeito heroico ou ingênuo, quando o personagem se revela maior que o leitor e venha surpreendê-lo.
Um exemplo, a deliciosa leitura que traz este livro, completando 20 anos – QUE NEM ELAS QUE NEM, uma parlenda de Cecy Fernandes de Assis e ilustrações de Anaraquel (Formato, 1998). Remédio para quando a gente não tem o que dizer e apenas deseja ouvir um texto bem bolado!
24 de junho de 2017
de volta ao boi
peter O sagae
Boi não é livro. Boi não é faixa de disco. Nem mesmo um vídeo, essa espécie de fotografia sonora em movimento... Boi é função, quem o confina? Festa popular, alegria, ritmo, lírica, fantasia, devoção – Boi é o brilho do sol à noite, quando incendeia, aquece e ilumina. Boi assim se escreve com letra maiúscula, não é brinquedo para crianças. É para todos. Esta é a ordem que São João mandou...
Talvez por isso, outras razões, talvez pelo bem de quem gosta de cantar vivas toadas, Marilda Castanha confesse as dificuldades de admirar o festejo, apenas por uma janela. Em uma das mais bonitas homenagens ao Boi-bumbá que a literatura infantil pôde produzir – o livro PULA, BOI! (Scipione, 2012), enfrentamos a luta entre a vida e a morte, entre o espaço e o pedaço do que foi, do que é, do que será o Boi.
Como num teatro sem chão e sem teto, o livro se abre com um proscênio de páginas brancas: bem ali, pássaros, pousados no corpo longo do mandacaru, tagarelam. Que o público saiba imediatamente: esta é a história de uma menina que adora exposições e museus, gatos, cachorros e bichos-preguiça. Mas, o principal é – esta é a história de um encontro! A personagem com chapéu, vestido quase sempre abaixo dos joelhos, óculos atentos, levando uma máquina fotográfica ou uma caderneta onde registra tudo que vê, pulou de outros livros para dentro de uma nova aventura. Pra dizer a verdade, a menina de Marilda saiu de dois livros de imagem para encontrar o Boi-bumbá em uma paisagem bem maior que qualquer museu de artes ou ciências naturais. Daí, pressentiram elas – autora e personagem – uma janela só, a linguagem visual, seria insuficiente para comunicar o Boi, seu mundo, seu universo.
Cores cantam e um galo eleva um céu sentimental, rosa. Palavras despertam a manhã. Boi-bumbá não é homem, não é carcaça de veludo bordado apenas. É um ser único, ardente, animal e humano, na tranquilidade dos afazeres diários... A primeira refeição, depois ouvir as notícias locais, e cuidar de seus pássaros, e trabalhar o roçado sob o sol quente do sertão. Vindo lá do fundo da estrada que começa no longe dos livros, entra a menina na história...
A visitante quer logo saber qual é o segredo do Boi-bumbá, mas ele a convida para conviver um tempo com sua família até o dia da festa.
A menina participa da vida daquele lugar: plantar, colher, preparar os alimentos, ir à feira – que também é dia de trabalho, porém festivo, diferente, entre a venda e a troca, os produtos da terra, o artesanato, as notícias boas e ruins que trazem as pessoas. A festa (que é preciso esperar ainda) será a continuidade desse andar para conhecer. Boi é participação, as horas em véspera. Boi é enredo de muitas encruzilhadas no caminho das histórias e da ação coletiva. E Pai Francisco e Catirina comparecem, debaixo do céu estrelado de junho. A menina descobre que Boi é a morte e é a vida que magicamente se levanta todos os dias nos ritos da natureza.
Ao fim de uma sequência descritiva, apaixonada, rememorativa, prenunciando o inverno que é a estação das chuvas para o sertanejo, Marilda Castanha desvenda o segredo que não precisava de pergunta, nem espera por resposta. O Boi é realmente muito amplo. E é promessa de estar de volta, na próxima festa, se mais um ano permitir...
Boi é confiança que o Céu há de querer.
Ora, das mãos de Marilda às asas de Josimar Fernandes de Oliveira – Jô Oliveira!, vamos ao Boi celebrado em cores na vibração de 1974, 1975, quando o artista pernambucano escreveu, ilustrou e publicou um trabalho sobre o Bumba meu Boi, pela Escola Superior de Artes Industriais... na Hungria. Como uma série de tableaux vivants, os personagens típicos da Zona da Mata retornam agora contornados pelas trovas do poeta Marco Haurélio, através do livro MATEUS, ESSE BOI É SEU (DCL, 2015).
Aqui se resgata um fragmento do Boi, o entrecho cômico-dramático, em uma das muitas variantes; conta-se da paixão de Mateus por Catarina e da prova de amor que a caprichosa morena lhe exige: arrancar o coração de Mangangá, o boizinho mais belo e estimado do Coronel, aos cuidados do jovem vaqueiro. Nem Santo Antônio parece ajudar a alguém ter juízo!
E a carreira tem lugar, incluindo diversas figuras do folguedo dançado por ocasião do ciclo natalino, por vezes até o Carnaval, na companhia do Cavalo-Marinho, representando o chefe da polícia que leva Mateus para mofar na prisão, os soldados, o Curumim, os Caboclinhos que defendem o vaqueiro... e está armada a confusão, a luta entre os brincantes.
A narração é bastante resumida, ágil para os pequenos leitores, deixando as entrelinhas para a memória dos mais velhos que alhures já conheceram o desígnio do Boi, em encenar o encontro de três culturas.
Eu quero ver quem vai à rua, eu quero ver acontecer!
Boi é outra brincadeira nas mãos de André Neves a inventar o TOMBOLO DO LOMBO (Paulinas, 2016), a partir de duas tradições populares.
O que se mostra desde o título é o bem-conhecido brinquedo cantado do tangolomango que vem emprestar a fórmula repetitiva da lengalenga a fim de nos ensinar a contar ao contrário, como que subtraindo a cada vez um elemento da sequência numérica. Quase sempre, há uma família, ou uma casa com nove pessoas, uma velha com nove filhas, e elas vão misteriosamente desaparecendo até sobrar apenas um – para contar a história. Ou nenhum! Todos conhecem a parlenda. Mas, aqui, no lombo do boi, vão nove músicos com seus instrumentos.
Preenchendo a estrutura da brincadeira, estão os personagens encontradiços em algumas das variantes do Bumba-meu-boi, a exemplo do Coronel com o tamborim, a Índia que não sabe tocar trompete, o Padre batendo o sino, o vaqueiro Bastião levantando a cuíca, o Jaraguá parará parapá, sem faltar, no cortejo de "Mestre" André Neves, as figuras centrais do folguedo. O mote principal é descobrir quem deles quis comer um pedaço da língua do boi...
O divertido do tombolo não é apenas ver, um a um, os brincantes tombarem para trás. Não, mesmo. O divertimento está em dar movimento ao Boi. Página a página, o que estava embaixo foi para cima, o que havia em cima desceu... o livro gira em nossas mãos, da esquerda para a direita, como os ponteiros do relógio ou quando se fecha a torneira, como se dependesse apenas do leitor derrubar os personagens para fora do lombo do boi.
Esta função participante do livro, digamos, cria uma imagem cinética – uma coreografia para as mãos. Seria o pequeno leitor o décimo brincante, aquele que se esconde, a tripa vivente dentro da carcaça do boi?
Além de bailar explicitamente com o suporte material, encontramos um importante emblema da cultura nordestina nas reinações de André Neves – a chuva, a renovação, o nordeste que renasce para viver o Boi outra vez.
Lá vai, lá vai, lá vai...
Rasteirinhas pelo chão!
Borboletas no Inverno, é meu boi,
Andorinhas no Verão.
Boi não é livro. Boi não é faixa de disco. Nem mesmo um vídeo, essa espécie de fotografia sonora em movimento... Boi é função, quem o confina? Festa popular, alegria, ritmo, lírica, fantasia, devoção – Boi é o brilho do sol à noite, quando incendeia, aquece e ilumina. Boi assim se escreve com letra maiúscula, não é brinquedo para crianças. É para todos. Esta é a ordem que São João mandou...
Talvez por isso, outras razões, talvez pelo bem de quem gosta de cantar vivas toadas, Marilda Castanha confesse as dificuldades de admirar o festejo, apenas por uma janela. Em uma das mais bonitas homenagens ao Boi-bumbá que a literatura infantil pôde produzir – o livro PULA, BOI! (Scipione, 2012), enfrentamos a luta entre a vida e a morte, entre o espaço e o pedaço do que foi, do que é, do que será o Boi.
Como num teatro sem chão e sem teto, o livro se abre com um proscênio de páginas brancas: bem ali, pássaros, pousados no corpo longo do mandacaru, tagarelam. Que o público saiba imediatamente: esta é a história de uma menina que adora exposições e museus, gatos, cachorros e bichos-preguiça. Mas, o principal é – esta é a história de um encontro! A personagem com chapéu, vestido quase sempre abaixo dos joelhos, óculos atentos, levando uma máquina fotográfica ou uma caderneta onde registra tudo que vê, pulou de outros livros para dentro de uma nova aventura. Pra dizer a verdade, a menina de Marilda saiu de dois livros de imagem para encontrar o Boi-bumbá em uma paisagem bem maior que qualquer museu de artes ou ciências naturais. Daí, pressentiram elas – autora e personagem – uma janela só, a linguagem visual, seria insuficiente para comunicar o Boi, seu mundo, seu universo.
Cores cantam e um galo eleva um céu sentimental, rosa. Palavras despertam a manhã. Boi-bumbá não é homem, não é carcaça de veludo bordado apenas. É um ser único, ardente, animal e humano, na tranquilidade dos afazeres diários... A primeira refeição, depois ouvir as notícias locais, e cuidar de seus pássaros, e trabalhar o roçado sob o sol quente do sertão. Vindo lá do fundo da estrada que começa no longe dos livros, entra a menina na história...
A visitante quer logo saber qual é o segredo do Boi-bumbá, mas ele a convida para conviver um tempo com sua família até o dia da festa.
A menina participa da vida daquele lugar: plantar, colher, preparar os alimentos, ir à feira – que também é dia de trabalho, porém festivo, diferente, entre a venda e a troca, os produtos da terra, o artesanato, as notícias boas e ruins que trazem as pessoas. A festa (que é preciso esperar ainda) será a continuidade desse andar para conhecer. Boi é participação, as horas em véspera. Boi é enredo de muitas encruzilhadas no caminho das histórias e da ação coletiva. E Pai Francisco e Catirina comparecem, debaixo do céu estrelado de junho. A menina descobre que Boi é a morte e é a vida que magicamente se levanta todos os dias nos ritos da natureza.
Ao fim de uma sequência descritiva, apaixonada, rememorativa, prenunciando o inverno que é a estação das chuvas para o sertanejo, Marilda Castanha desvenda o segredo que não precisava de pergunta, nem espera por resposta. O Boi é realmente muito amplo. E é promessa de estar de volta, na próxima festa, se mais um ano permitir...
Boi é confiança que o Céu há de querer.
Ora, das mãos de Marilda às asas de Josimar Fernandes de Oliveira – Jô Oliveira!, vamos ao Boi celebrado em cores na vibração de 1974, 1975, quando o artista pernambucano escreveu, ilustrou e publicou um trabalho sobre o Bumba meu Boi, pela Escola Superior de Artes Industriais... na Hungria. Como uma série de tableaux vivants, os personagens típicos da Zona da Mata retornam agora contornados pelas trovas do poeta Marco Haurélio, através do livro MATEUS, ESSE BOI É SEU (DCL, 2015).
Aqui se resgata um fragmento do Boi, o entrecho cômico-dramático, em uma das muitas variantes; conta-se da paixão de Mateus por Catarina e da prova de amor que a caprichosa morena lhe exige: arrancar o coração de Mangangá, o boizinho mais belo e estimado do Coronel, aos cuidados do jovem vaqueiro. Nem Santo Antônio parece ajudar a alguém ter juízo!
E a carreira tem lugar, incluindo diversas figuras do folguedo dançado por ocasião do ciclo natalino, por vezes até o Carnaval, na companhia do Cavalo-Marinho, representando o chefe da polícia que leva Mateus para mofar na prisão, os soldados, o Curumim, os Caboclinhos que defendem o vaqueiro... e está armada a confusão, a luta entre os brincantes.
A narração é bastante resumida, ágil para os pequenos leitores, deixando as entrelinhas para a memória dos mais velhos que alhures já conheceram o desígnio do Boi, em encenar o encontro de três culturas.
Eu quero ver quem vai à rua, eu quero ver acontecer!
Boi é outra brincadeira nas mãos de André Neves a inventar o TOMBOLO DO LOMBO (Paulinas, 2016), a partir de duas tradições populares.
O que se mostra desde o título é o bem-conhecido brinquedo cantado do tangolomango que vem emprestar a fórmula repetitiva da lengalenga a fim de nos ensinar a contar ao contrário, como que subtraindo a cada vez um elemento da sequência numérica. Quase sempre, há uma família, ou uma casa com nove pessoas, uma velha com nove filhas, e elas vão misteriosamente desaparecendo até sobrar apenas um – para contar a história. Ou nenhum! Todos conhecem a parlenda. Mas, aqui, no lombo do boi, vão nove músicos com seus instrumentos.
Preenchendo a estrutura da brincadeira, estão os personagens encontradiços em algumas das variantes do Bumba-meu-boi, a exemplo do Coronel com o tamborim, a Índia que não sabe tocar trompete, o Padre batendo o sino, o vaqueiro Bastião levantando a cuíca, o Jaraguá parará parapá, sem faltar, no cortejo de "Mestre" André Neves, as figuras centrais do folguedo. O mote principal é descobrir quem deles quis comer um pedaço da língua do boi...
O divertido do tombolo não é apenas ver, um a um, os brincantes tombarem para trás. Não, mesmo. O divertimento está em dar movimento ao Boi. Página a página, o que estava embaixo foi para cima, o que havia em cima desceu... o livro gira em nossas mãos, da esquerda para a direita, como os ponteiros do relógio ou quando se fecha a torneira, como se dependesse apenas do leitor derrubar os personagens para fora do lombo do boi.
Esta função participante do livro, digamos, cria uma imagem cinética – uma coreografia para as mãos. Seria o pequeno leitor o décimo brincante, aquele que se esconde, a tripa vivente dentro da carcaça do boi?
Além de bailar explicitamente com o suporte material, encontramos um importante emblema da cultura nordestina nas reinações de André Neves – a chuva, a renovação, o nordeste que renasce para viver o Boi outra vez.
Lá vai, lá vai, lá vai...
Rasteirinhas pelo chão!
Borboletas no Inverno, é meu boi,
Andorinhas no Verão.
15 de junho de 2017
um pouco de junho e outros meses
peter O sagae
João chegou!
Trouxe com ele uma vontade de falar.
Trouxe um pouco de junho e outros meses.
João não é só um menino, são dois.
Talvez mais, em outros meninos chamados João.
É hora de apresentar UMA NOITE PARA JOÃO e outros poemas, com as delicadas ilustrações de Sandra Jávera (Paulinas, 2017).
Os poemas foram escritos entre junho e julho de 2015. Não eram intencionalmente poemas para crianças, quando dei início a uma homenagem aos três padroeiros das festas juninas, buscando evocar a missão de cada um deles – A caminho de Antônio, Entre os sonhos de João e Até o coração de Pedro. Meu gosto pelos temas do bumba-meu-boi me faria incluir São Marçal, louvado, em torno das fogueiras do Maranhão, no dia 30 de junho.
No entanto, o poema para João, ao retratar os sonhos do menino em um diálogo sem palavras com sua mãe, antes mesmo do nascimento, conduzia-me a novas imaginações... O que aconteceu, quando João deixou a noite do ventre? Como viveria João com seus segredos, ouvindo o vento ou o avô inventando uma desajeitada parlenda com nomes de inseto? Encontrava assim o fio condutor para um livro para crianças – puxei nomes e símbolos de lendas medievais, juntei vozes que atravessam o medo e a magia das noites.
Não sei bem como, apareceram duas figuras à minha frente, conversando como se estivessem em um arraial ou na porteira de um livro:
No poema IV – “Canção do tempo”, uma porção de pontos espalham-se ao pé da página como sementes e poeira cósmica. Caminhos tracejados vão unindo pontos e estrelas, formam as raízes e o tronco de uma árvore. O menino parece que paira sobre um espaço infinito. Apenas um João, os galhos, as folhas e as bagas douradas da alfarroba têm cores encorpadas.
Índice de sonhos, dinâmico, o azul ressurge em diferentes tons – nas asas de um inseto, nas paredes do quarto do moderno João, na manta pontilhada de branco e no travesseiro, nos círculos concêntricos que envolvem o menino – o que, afinal, representam?
O azul ainda domina as bandeirinhas...
Em nossas conversas, Sandra Jávera escreveu: “Encantei-me com os quadros do Volpi. Eu já gostava de suas pinturas, e saber da relação com a Festa Junina me deixou ainda mais interessada. Penso que pode ser bonito uma dupla central cheia de cor e mais abstrata.” Ao fim de seis poemas sobre João, comparecem outros meninos. A segunda parte do livro começa em uma noite cinza...
No poema VIII – “Felicidade tem sete filhos”, o Sol é um gigante devorador de um olho só, enquanto a Lua personifica o bem possível, derramando sua cor de luz e leite. No poema IX, o vento vem e desenrola um tapete no alto de oito colinas, alinhava pétalas de rosa e dentes-de-leão e, por fim, costura sua história com a agulha do tempo – porém, talvez nada disso exista, ou existe, sonho de um menino enquanto brinca, Pedro que não é São Pedro.
Em meio a cores e traços delicados, o vocabulário visual de Sandra Jávera revela agradáveis surpresas. Certos detalhes se mostravam desde os esboços, como três pedras que formam a letra M no poema X – “Trás as histórias de Marçal”, enquanto o menino alimentava algumas aves. Na ilustração final, a ideia de generosidade se traduziu em um gesto entre suas mãos e as mãos de um macaquinho marrom. Todos os personagens de UMA NOITE PARA JOÃO e outros poemas foram vestidos com simplicidade, vivendo fora do registro histórico, porém bem próximos de nós. Viajamos por outros meses que talvez nem existam no calendário.
O livro vai terminando com uma sequência narrativa em três poemas, com o Menino Jesus, ele mesmo!, brincando no barro com água de chuva e riacho, numa manhã de sábado, para amolar e espantar José, seu pai... Querem saber?
No site da editora, você pode baixar um trecho do livro. Espero que gostem!
João chegou!
Trouxe com ele uma vontade de falar.
Trouxe um pouco de junho e outros meses.
João não é só um menino, são dois.
Talvez mais, em outros meninos chamados João.
É hora de apresentar UMA NOITE PARA JOÃO e outros poemas, com as delicadas ilustrações de Sandra Jávera (Paulinas, 2017).
Os poemas foram escritos entre junho e julho de 2015. Não eram intencionalmente poemas para crianças, quando dei início a uma homenagem aos três padroeiros das festas juninas, buscando evocar a missão de cada um deles – A caminho de Antônio, Entre os sonhos de João e Até o coração de Pedro. Meu gosto pelos temas do bumba-meu-boi me faria incluir São Marçal, louvado, em torno das fogueiras do Maranhão, no dia 30 de junho.
No entanto, o poema para João, ao retratar os sonhos do menino em um diálogo sem palavras com sua mãe, antes mesmo do nascimento, conduzia-me a novas imaginações... O que aconteceu, quando João deixou a noite do ventre? Como viveria João com seus segredos, ouvindo o vento ou o avô inventando uma desajeitada parlenda com nomes de inseto? Encontrava assim o fio condutor para um livro para crianças – puxei nomes e símbolos de lendas medievais, juntei vozes que atravessam o medo e a magia das noites.
Não sei bem como, apareceram duas figuras à minha frente, conversando como se estivessem em um arraial ou na porteira de um livro:
Vô, quem éSandra Jávera desenhou este João e o avô como se fossem caminhar para o fundo da página, o menino apontando o estandarte. No alto, o pequeno João Batista aparece de olhos fechados e também assim o carneirinho em seus braços. Ambos dormem. Ou fazem de conta... Virando a página, adentramos outro tempo e lugar. Isabel aquece o corpo grávido perto de uma fogueira. Na abertura seguinte, a mulher segura o filho no colo, enquanto uma fumaça branca, distante, aberta em bandeira, sobe ao pano de um céu lilás. As estrelas de Sandra são pontos e flores. O chão é outro tecido, azul.
aquele menino
com o carneiro
na mão?
Aquele é João.
Ele também?
Também, João.
No poema IV – “Canção do tempo”, uma porção de pontos espalham-se ao pé da página como sementes e poeira cósmica. Caminhos tracejados vão unindo pontos e estrelas, formam as raízes e o tronco de uma árvore. O menino parece que paira sobre um espaço infinito. Apenas um João, os galhos, as folhas e as bagas douradas da alfarroba têm cores encorpadas.
Índice de sonhos, dinâmico, o azul ressurge em diferentes tons – nas asas de um inseto, nas paredes do quarto do moderno João, na manta pontilhada de branco e no travesseiro, nos círculos concêntricos que envolvem o menino – o que, afinal, representam?
O azul ainda domina as bandeirinhas...
Em nossas conversas, Sandra Jávera escreveu: “Encantei-me com os quadros do Volpi. Eu já gostava de suas pinturas, e saber da relação com a Festa Junina me deixou ainda mais interessada. Penso que pode ser bonito uma dupla central cheia de cor e mais abstrata.” Ao fim de seis poemas sobre João, comparecem outros meninos. A segunda parte do livro começa em uma noite cinza...
No poema VIII – “Felicidade tem sete filhos”, o Sol é um gigante devorador de um olho só, enquanto a Lua personifica o bem possível, derramando sua cor de luz e leite. No poema IX, o vento vem e desenrola um tapete no alto de oito colinas, alinhava pétalas de rosa e dentes-de-leão e, por fim, costura sua história com a agulha do tempo – porém, talvez nada disso exista, ou existe, sonho de um menino enquanto brinca, Pedro que não é São Pedro.
Em meio a cores e traços delicados, o vocabulário visual de Sandra Jávera revela agradáveis surpresas. Certos detalhes se mostravam desde os esboços, como três pedras que formam a letra M no poema X – “Trás as histórias de Marçal”, enquanto o menino alimentava algumas aves. Na ilustração final, a ideia de generosidade se traduziu em um gesto entre suas mãos e as mãos de um macaquinho marrom. Todos os personagens de UMA NOITE PARA JOÃO e outros poemas foram vestidos com simplicidade, vivendo fora do registro histórico, porém bem próximos de nós. Viajamos por outros meses que talvez nem existam no calendário.
O livro vai terminando com uma sequência narrativa em três poemas, com o Menino Jesus, ele mesmo!, brincando no barro com água de chuva e riacho, numa manhã de sábado, para amolar e espantar José, seu pai... Querem saber?
No site da editora, você pode baixar um trecho do livro. Espero que gostem!
13 de junho de 2017
encantamentos de Elias
peter O sagae
No ano passado, ao visitar o Instituto Cultural Elias José, durante a VI semana literária promovida na cidade de Guaxupé MG em homenagem ao escritor, Silvinha me perguntou qual livro de Elias eu gostaria de levar como presente. Respondi apressado: CANTOS DE ENCANTAMENTO, que me atraía pela capa com desenhos tão cheios de detalhes com traços delicados de Mariângela Haddad (Formato, 1996, 12.ed. 2012) e pela proposta de releituras sobre os mitos brasileiros. Eu sempre via e ouvia, saltando pelas sacolas dos programas de formação de professores, de escola em escola, o poema “Os sonhos do Saci” que abre a antologia, com seu jeito bem mais risonho, bem mais moleque, e durante muitos anos ficava a imaginar quais e como seriam os outros perfis retratados com o carisma de Elias José.
É fácil dizer que a gente se encanta apenas com as criaturas que conhece bem, mas preferimos algumas surpresas, como o Cavalo-Fantasma com seu galopar onomatopaico “em triste trotre trote trote”, em três patas apenas, asas e vulto, cabeça nenhuma, pelas ruas de pedra de um lugarejo qualquer, ou o papa-menino chamado Chibamba que dança nas folhas de bananeira fazendo chiado e tambor, com o peso do próprio corpo e dos próprios pés. Mas há também no livro a Cobra-Caninana que voa “mais veloz que passarinho” envolvida nas dobras de muitos ritmos – frevo, xaxado, calango – que o poeta fez coincidir os mitos com outros aspectos da cultura popular.
Inspirado em textos lendários e informativos, Elias José apresenta com leveza o que os estudiosos poderiam reconhecer como poesia didática, cuja tradição remonta a busca e a transmissão da verdade entre os filósofos, tal a intenção de Parmênides. Porém, com o poeta das crianças, o resultado é bem diverso – e divertido, ao combinar muitas vozes em uma leitura-ciranda dos mitos populares brasileiros, como aparece na segunda estrofe do longo poema dedicado ao Curupira:
O preciosismo está nesse cuidado. Sabedor que as histórias folclóricas admitem muitas verdades, Elias José descreve, a sua maneira, a alma quente do Negrinho do Pastoreio agasalhando os meninos desamparados no frio das ruas e dos viadutos nas grandes cidades; Pedro Malasartes a espantar verdadeiramente os males do mundo, convivendo com gente que só faz artes, como os poetas.
O livro é dividido em ENCANTAMENTOS DA TERRA, incluindo ainda poemas sobre o brilho das Cavalhadas; a guerra-dança dos Caiapós, cujo entrecho dramático encerra o rapto da bugrinha bonita por um homem branco; o bate-pé querido do Cateretê ao som da viola, finalizando com a “Oração de São Longuinho” e um causo “À moda caipira” – talvez esses três últimos mais próximos das manifestações ao sul de Minas Gerais, norte do estado de São Paulo, até alcançar as tradições litorâneas, donde desconfio o caminho beira-rio, beira-mar, na direção dos ENCANTAMENTOS DAS ÁGUAS.
Na segunda parte, vem a Iara de mansinho, vem no feitiço da repetição das palavras, na hora do sol se pôr, vem Iara para levar um noivo embora... E vêm moradores sobrenaturais do Velho Chico, como o Cavalo do Rio e o Cachorrinho d’Água. Em “O Pescador Encantado”, a voz de eu-lírico-Elias se faz voz de pescador em dedo de prosa com os leitores.
Livro-ciranda, como expressou o autor, CANTOS DE ENCANTAMENTO recebeu o selo "Altamente Recomendável" FNLIJ 1996, o Prêmio de Incentivo no Concurso NOMA para Ilustradores, no Japão, em 1996, e o Prêmio Adolfo Aizen, da União Brasileira dos Escritores, para Melhor Livro Infantojuvenil em 1997, além de ter sido selecionado pela Fundação Luís Eduardo Magalhães, pelo Salão Capixaba - ES e pelo Programa Fome de Livro, da Fundação Biblioteca Nacional.
No ano passado, ao visitar o Instituto Cultural Elias José, durante a VI semana literária promovida na cidade de Guaxupé MG em homenagem ao escritor, Silvinha me perguntou qual livro de Elias eu gostaria de levar como presente. Respondi apressado: CANTOS DE ENCANTAMENTO, que me atraía pela capa com desenhos tão cheios de detalhes com traços delicados de Mariângela Haddad (Formato, 1996, 12.ed. 2012) e pela proposta de releituras sobre os mitos brasileiros. Eu sempre via e ouvia, saltando pelas sacolas dos programas de formação de professores, de escola em escola, o poema “Os sonhos do Saci” que abre a antologia, com seu jeito bem mais risonho, bem mais moleque, e durante muitos anos ficava a imaginar quais e como seriam os outros perfis retratados com o carisma de Elias José.
É fácil dizer que a gente se encanta apenas com as criaturas que conhece bem, mas preferimos algumas surpresas, como o Cavalo-Fantasma com seu galopar onomatopaico “em triste trotre trote trote”, em três patas apenas, asas e vulto, cabeça nenhuma, pelas ruas de pedra de um lugarejo qualquer, ou o papa-menino chamado Chibamba que dança nas folhas de bananeira fazendo chiado e tambor, com o peso do próprio corpo e dos próprios pés. Mas há também no livro a Cobra-Caninana que voa “mais veloz que passarinho” envolvida nas dobras de muitos ritmos – frevo, xaxado, calango – que o poeta fez coincidir os mitos com outros aspectos da cultura popular.
Inspirado em textos lendários e informativos, Elias José apresenta com leveza o que os estudiosos poderiam reconhecer como poesia didática, cuja tradição remonta a busca e a transmissão da verdade entre os filósofos, tal a intenção de Parmênides. Porém, com o poeta das crianças, o resultado é bem diverso – e divertido, ao combinar muitas vozes em uma leitura-ciranda dos mitos populares brasileiros, como aparece na segunda estrofe do longo poema dedicado ao Curupira:
“Quem já viu o CurupiraMesmo sabendo tanto (ou parecendo que sabe tanto), o poeta como tonto, pelos passos às avessas do Curupira elétrico que solta mil choques e luzes, o poeta termina seus versos com reticências e dúvidas... A resposta para esse procedimento, abertura para quem lê, está no prefácio que Elias José escreveu. “Livro pronto e em suas mãos, caro leitor, fica o convite para você ler, vibrar e brincar de modificar os poemas. Como os mitos, quero que os meus poemas sejam de todos nós. Cante, corte, acrescente, misture, mude o ritmo e o rumo.”
cai sempre em contradição:
uns falam que ele é gigante,
outros, que é um curumim
e outros, que é um anão.
Uns falam que ele se mostra,
outros dizem que se esconde
bem dentro do breu da noite.”
O preciosismo está nesse cuidado. Sabedor que as histórias folclóricas admitem muitas verdades, Elias José descreve, a sua maneira, a alma quente do Negrinho do Pastoreio agasalhando os meninos desamparados no frio das ruas e dos viadutos nas grandes cidades; Pedro Malasartes a espantar verdadeiramente os males do mundo, convivendo com gente que só faz artes, como os poetas.
O livro é dividido em ENCANTAMENTOS DA TERRA, incluindo ainda poemas sobre o brilho das Cavalhadas; a guerra-dança dos Caiapós, cujo entrecho dramático encerra o rapto da bugrinha bonita por um homem branco; o bate-pé querido do Cateretê ao som da viola, finalizando com a “Oração de São Longuinho” e um causo “À moda caipira” – talvez esses três últimos mais próximos das manifestações ao sul de Minas Gerais, norte do estado de São Paulo, até alcançar as tradições litorâneas, donde desconfio o caminho beira-rio, beira-mar, na direção dos ENCANTAMENTOS DAS ÁGUAS.
Na segunda parte, vem a Iara de mansinho, vem no feitiço da repetição das palavras, na hora do sol se pôr, vem Iara para levar um noivo embora... E vêm moradores sobrenaturais do Velho Chico, como o Cavalo do Rio e o Cachorrinho d’Água. Em “O Pescador Encantado”, a voz de eu-lírico-Elias se faz voz de pescador em dedo de prosa com os leitores.
“Nas noites de sexta-feira,O rio é um lugar realmente cheio de interdição para a pescaria em dias santos e na Quaresma; seus seres encantados são uma profusão da mestiçagem brasileira. Entre caboclos e caiçaras, mais todos os mulatos, surge também “O Barba-Ruiva da Lagoa Paranaguá” que foi menino e criado nas águas foi, cresceu, virou moço que jamais envelhecia para namorar as lavadeiras. Rememorando a Semana Santa, neste mito encontradiço no interior do Piauí, Elias José vai cantando outros festejos da nossa religiosidade. Para a passagem de ano, o poeta louva e reza
eu não pesco, não.
Pode até dar lua cheia,
que eu não pesco, não.
Pode a morena pedir,
que eu não pesco, não,
podem me dar um milhão,
que eu não pesco, não.”
“Nossa mãe, Iemanjá,Lembrando, no poema final, que
ajude pretos e brancos
– todos são filhos de Deus –
a acharem um só caminho
que os leve à liberdade.”
“A Senhora AparecidaE canta Elias encantos das lendas à própria crença nas forças superiores, unindo-nos em laços de humildade perante as bênçãos divinas numa ciranda. Também as ilustrações de Mariângela Haddad ensinam e inspiram o olhar, com suas figuras e suas molduras em torno, em torneio, no sentido de elegância no desenho de folhas, pássaros, peixes, casas, tramas, cenas, bandeiras, diálogos, repetições e iluminuras de um jeito diferente, desenho feito à mão, aquarela e nanquim de bico fino, de um jeito brasileiro.
apareceu nas águas
do Paraíba
e veio abençoar
nossa gente tão sofrida.”
Livro-ciranda, como expressou o autor, CANTOS DE ENCANTAMENTO recebeu o selo "Altamente Recomendável" FNLIJ 1996, o Prêmio de Incentivo no Concurso NOMA para Ilustradores, no Japão, em 1996, e o Prêmio Adolfo Aizen, da União Brasileira dos Escritores, para Melhor Livro Infantojuvenil em 1997, além de ter sido selecionado pela Fundação Luís Eduardo Magalhães, pelo Salão Capixaba - ES e pelo Programa Fome de Livro, da Fundação Biblioteca Nacional.
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