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19 de fevereiro de 2021

um livro pra gente morar

domingo eu tava lendo, enfim, UM LIVRO PRA GENTE MORAR, antologia de poemas selecionados por Silvia Oberg, com ilustrações de Daniel Cabral (Positivo, 2018) cujo título vai um pouco além da metáfora da literatura como um abrigo intelectual... já não temos aqui uma aventura por lugares distantes, nem apenas a voz de um poeta só a nos entreter: reunindo uma dúzia de nomes em quatorze poemas, Silvia aí inventou uma vizinhança e as possibilidades de espiar, sentir e refletir os espaços dentro e fora das casas, os usos diários e a intimidade de nós-moradores, na companhia de Alexandre Azevedo, Elias José, Eloí Elisabet Bocheco, Fernando Paixão, Ferreira Gullar, Henriqueta Lisboa, José Paulo Paes, Leminski, Ricardo Azevedo, Roseana Murray, Sérgio Capparelli e Sylvia Orthof. Em tempos de permanecermos em casa mais um pouquinho e confiar que construímos algo bom a partir de nossos lugares.

#dobrasdapoesia

28 de dezembro de 2013

o futuro mora em um sonho

peter ô.ô sagae, descansando os olhos e... a imaginação


Aprendi ouvindo o escritor Bartolomeu Campos de Queirós que a vida não se divide em realidade e fantasia, pois a fantasia faz parte da realidade no signo uno da vida. E esse pensamento despertou junto a mim com a leitura do livro de imagem O BALÃO, de Daniel Cabral (Positivo, 2013), uma narrativa simples de ações sucessivas, muito simples, sem segredos, sem mistérios, apenas uma coleção de sonhos e sentimentos guardados a céu aberto.


À primeira página, um vento arrasta, levanta e empurra algumas folhas do chão, e vai enrolando e passando pelos pés das pessoas. A manhã azul, azul com nuvens, e vem lá o vendedor de balões coloridos com balões amarrados ao porta-bagagem de sua velha bicicleta. “Mamãe comprou o mais bonito para mim e voltamos para casa.” Tudo parece mais belo numa cidade de presépio, casas simples, telhados de duas águas, telhas de barro, antenas de braços abertos, gato dormindo à janela, pássaros plantados entre as flores mais simples.


Todos os brinquedos no quarto do menino despertam à entrada do balão mais belo do mundo, o balão que traz um pedaço de ar e céu dentro de si. Um balão que faz correr o menino entre as roupas brancas do varal, e faz voar seus cabelos e adivinhar outras vidas. Os lençóis estendidos: transformam-se em velas de caravelas para navegar, o sol é um desenho de círculo e riscos amarelos, e o balão é o mais belo balão para levar o menino a terras importantes. Que os bons ventos soprem! Pássaros e piratas, corrida de centopeia, girafa numérica: é preciso, afinal, calcular a altura que o menino tem e o ponto máximo a alcançar. Nas suas aventuras, incêndios, leões, carro de bombeiros, montanhas com cachecóis de nuvens, um cavalinho-de-pau vira alazão, o ursinho que vira gigante, um dinossauro que ruge, urra e até escoiceia, mas tem braços curtos demais para nos pegar. Quanto tempo se passou? Cinco semanas, cinco horas, cinco minutos em um balão. Era uma vez e não era domingo, manhã de férias, manhã de infância – mas, no meio do caminho...


Tinha uma pedra, um tropicão, tinha o fim do caminho
e o balão mais belo do mundo solta a mão do menino
e vai embora


de carona com o vento, porque é feito de céu e ar, e já aprendeu tantas histórias, e talvez tenha mesmo chegado o momento de encontrar o próprio futuro, é isso que os homens chamam destino, e quem vai saber, quem vai contar o segredo do balão que entrou pelo brilho distante nos olhos do menino. Um sorriso, simples assim é a descoberta da resignação. O vento da manhã também foi embora e o astronauta sem astronave que é todo o coração do menino põe os pés no chão. E ele caminha, rápido, ligeiro, corre, voa nos pequeninos passos largos da novidade que tem para contar à mãe, tão boa a mão da mãe segurando o menino sob o céu de ouro que se estende, cinema, noite, céu já púrpura e marinho e o balão vermelho, mais acima, no móbile das estrelas...


Simples assim a leitura, uma dobra de amizade e sonhos.
Feliz Ano Novo!

20 de agosto de 2010

mais histórias à vista


A relação palavra&imagem subsiste em qualquer gênero da literatura para crianças — e está aí AMORA, com roteiro de Sonia Junqueira e ilustrações de Flávio Fargas (Positivo, 2009). Além da atribuição unívoca do nome ao personagem estampado na capa, medalhinha no pescoço com a letra A, outro elemento para-textual que é a dedicatória alerta o leitor para o fato de Amora ser uma cadelinha vira-lata. Sapeca e atrevida, ela tem sempre na boca um irresistível pedaço de pano, a barra da calça, o cabo da tomada elétrica, um cinto, uma mochila, um etc. e tal de coisas que pode morder e puxar adiante. E não adianta dar bronca, nem levar Amora para passear na coleira... Essa apresentação da personagem vai até a metade do livro! A narrativa mesmo começa na página 14, quando, um dia, Amora encontra e tira da boca do bueiro uma boneca de pano. Flávio Fargas utilizou alguns sinais gráficos de movimento e molduras da HQ para caracterizar as repetidas ações e mise-en-scène da Amora pretinha.

Elementos da linguagem dos quadrinhos também se fazem presentes na proposição de Rogério Coelho, O GATO E A ÁRVORE (Positivo, 2009), um livro de imagem que mostra a amizade entre um gato e um corvo cantante. Eles plantam e cuidam de uma árvore, por muitos dias, por muito tempo, até surgir alta e frondosa... A narrativa visual cede lugar ao caráter descritivo das imagens sobre o crescimento da árvore e as mudanças climáticas. [+]

É o desejo de ouvir mais de perto o pássaro cantar que movimenta o livro de imagem narrativo ARAPUCA, de Daniel Cabral (Positivo, 2009). Em uma remissão ao velho conto de Andersen, o autor transforma o filho de um catador de papel no imperador de seu próprio quarto, enfeitando suas paredes com tudo o que encontra e lhe agrada entre revistas, cartazes e papelões descartados pela sociedade.


Ilustração extraída de [danielgcabral.blogspot.com]