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3 de julho de 2020
fábula urbana
☆ A RESPOSTA escapuliu assim, num refluxo, automática. Uma resposta-padrão, como se fosse aquele o pedido mais natural do mundo. Livro???, refletiu um segundo depois o homem de terno. Teria o menino pedido um livro, em vez de um trocado, uma moeda, um real? Mesmo que houvesse o menino pronunciado um coerente «Tio, me paga um lanche que eu tô com fome», ainda assim alguma coisa estaria fora do lugar.
☆ A COMEÇAR pelo diálogo em si. Como haveriam de contracenar neste mesmo cenário — shopping centre de luxo, quase dez da noite — personagens tão opostos quanto este, o homem de terno, e aquele outro, o menino pobre que pedia livro, dinheiro, comida ou qualquer coisa que fosse? Era pois um diálogo inexistente, concluiu o homem de terno. ☆☆
Início de FÁBULA URBANA, história de José Rezende Jr. @joserezendejr com ilustrações de Rogério Coelho @rogeriocoelhoilustrador @edicoesdejaneiro (2014) pp. 5-8 #FiqueBem #AbreAspas2020
30 de agosto de 2015
eu sonho
peter o'sagae
Um velho com guarda-chuva e gaivotas numa ilha deserta.
Um velho com guarda-chuva, gaivotas e inventos numa ilha deserta. Um velho com guarda-chuva, gaivotas, inventos e uma casa numa ilha deserta. Um velho com guarda-chuva, gaivotas, inventos e uma casa cheia de tralhas e histórias numa ilha deserta, talvez não tão deserta assim, num ponto distante do oceano... Como vou para lá? Com um mapa sem estradas, com um piscar de olhos, com a memória ou com um livro de imagem? Pois agora, último domingo de agosto, viajo com O BARCO DOS SONHOS, de Rogério Coelho (Positivo, 2015).
Primeiramente, um pressuposto teórico. Um livro de imagem é um texto visual com uma possibilidade de se multiplicar em dobras, viagens, leituras, acréscimos, interpretações, reticências... cheios e vazios, vazados e significados, preenchimentos. E como o mar tem vagas, foi voga a partir da década de 1980 as ideias e a distinção de Denise Escarpit a respeito da leitura enumerativa e a leitura de construção. O leitor e a leitura se reconhecem e, abraçados, caminham juntamente a partir da percepção e da investigação de elementos isolados de um texto, passando, por exemplo, a recuperarem cooperativamente os nexos lógicos-causais, até o estabelecimento de elos inferenciais mais sutis, memórias e aprendizagens outras que pertencem ao tecido vivido pela criança e pelo adulto que, enfim, se mesclam ao ato de ler entre o que está aparente (matéria sensível) e o que lhe é ausente (inteligível), mas presentes. Em outras palavras, frente a um texto verbal, livro ilustrado ou texto visual, gradativamente, eu-leitor me constituo ao construir a história narrada e, simultaneamente, reconstruindo a viagem posta.
Por isso, é tão fácil resumir um livro de imagem. Por isso também, é pessoal (e intransferível) a leitura mais ampla que um livro de imagem possa desdobrar. Por isso ainda, diria que a leitura é uma aventura perigosa. O leitor pode jamais retornar...
Dentro da casa da ilha distante que Rogério Coelho mostra, um velho dorme em um quarto atulhado de coisas. O sol da manhã vara a veneziana fechada e no parapeito, no lado de dentro da janela, uma inesperada gaivota vejo dormindo. A ave acorda. O velho acorda. O velho tem aspecto de histórias como se fosse Dom Quixote ou Santos-Dumont, não sei se são seus olhos, ou são seus óculos. Algo é. Figura magra, elegante, cabelos brancos, bigodes, casaco e chapéu entre uma gaiola sem pássaro e um ventilador desligado. Depois de pronto, ele abre a porta... e ali está o mundo na borda da ilha entre voos e ventos.
Deixemos a riqueza dos detalhes da ilustração, para seguir um fio de história. Ao longe, ele descobre uma mensagem dentro de uma garrafa que se agita e se agiganta nas ondas do mar através da sua luneta. Como sabemos, a mensagem de algum náufrago. Ou não. Era apenas uma folha de papel em branco, onde ele desenhará um antigo galeão, o barco dos sonhos de qualquer menino. Trabalho concluído, o velho arremessa de volta a garrafa para o mar, para um destino desconhecido. Anoitece na ilha.
Para onde eu-leitor vai na próxima virada de página? Segundo pressuposto da viagem: atenção ao tempo-espaço, à nova cor dominante, à geometria do cenário, ao clima atmosférico, aos prédios, aos telhados, às antenas de televisão debaixo da chuva fria, à quantidade de janelas, à única casa da vizinhança, ao personagem que na soleira da porta encontra uma carta, ao próprio requadro branco...
O jogo da narrativa não é apenas encontrá-la no emaranhado de códigos e linguagens, mas decifrar o sentido do discurso entre figuras e ações. Uma história, pensamos, caminha sempre para frente. Porém, a montagem às vezes nos engana.
É fácil acreditar que o desenho do velho alcançou o menino – mas o que pensar se a narração adiante nos levou para trás? Ah, pobre cronotopo bem comportado! Como na poesia, os valores do tempo e do espaço podem ser repropostos em novos vetores. Desse modo, o tempo se espacializa e é, então, fragmentado; o espaço é trabalhado como matéria elástica e começa a sofrer uma deformação, uma curva talvez.
É difícil acreditar?
Eu acho que esse velho tem um pouco de Einstein, ou Fernando Pessoa.
Um velho com guarda-chuva e gaivotas numa ilha deserta.
Um velho com guarda-chuva, gaivotas e inventos numa ilha deserta. Um velho com guarda-chuva, gaivotas, inventos e uma casa numa ilha deserta. Um velho com guarda-chuva, gaivotas, inventos e uma casa cheia de tralhas e histórias numa ilha deserta, talvez não tão deserta assim, num ponto distante do oceano... Como vou para lá? Com um mapa sem estradas, com um piscar de olhos, com a memória ou com um livro de imagem? Pois agora, último domingo de agosto, viajo com O BARCO DOS SONHOS, de Rogério Coelho (Positivo, 2015).
Primeiramente, um pressuposto teórico. Um livro de imagem é um texto visual com uma possibilidade de se multiplicar em dobras, viagens, leituras, acréscimos, interpretações, reticências... cheios e vazios, vazados e significados, preenchimentos. E como o mar tem vagas, foi voga a partir da década de 1980 as ideias e a distinção de Denise Escarpit a respeito da leitura enumerativa e a leitura de construção. O leitor e a leitura se reconhecem e, abraçados, caminham juntamente a partir da percepção e da investigação de elementos isolados de um texto, passando, por exemplo, a recuperarem cooperativamente os nexos lógicos-causais, até o estabelecimento de elos inferenciais mais sutis, memórias e aprendizagens outras que pertencem ao tecido vivido pela criança e pelo adulto que, enfim, se mesclam ao ato de ler entre o que está aparente (matéria sensível) e o que lhe é ausente (inteligível), mas presentes. Em outras palavras, frente a um texto verbal, livro ilustrado ou texto visual, gradativamente, eu-leitor me constituo ao construir a história narrada e, simultaneamente, reconstruindo a viagem posta.
Por isso, é tão fácil resumir um livro de imagem. Por isso também, é pessoal (e intransferível) a leitura mais ampla que um livro de imagem possa desdobrar. Por isso ainda, diria que a leitura é uma aventura perigosa. O leitor pode jamais retornar...
Dentro da casa da ilha distante que Rogério Coelho mostra, um velho dorme em um quarto atulhado de coisas. O sol da manhã vara a veneziana fechada e no parapeito, no lado de dentro da janela, uma inesperada gaivota vejo dormindo. A ave acorda. O velho acorda. O velho tem aspecto de histórias como se fosse Dom Quixote ou Santos-Dumont, não sei se são seus olhos, ou são seus óculos. Algo é. Figura magra, elegante, cabelos brancos, bigodes, casaco e chapéu entre uma gaiola sem pássaro e um ventilador desligado. Depois de pronto, ele abre a porta... e ali está o mundo na borda da ilha entre voos e ventos.
Deixemos a riqueza dos detalhes da ilustração, para seguir um fio de história. Ao longe, ele descobre uma mensagem dentro de uma garrafa que se agita e se agiganta nas ondas do mar através da sua luneta. Como sabemos, a mensagem de algum náufrago. Ou não. Era apenas uma folha de papel em branco, onde ele desenhará um antigo galeão, o barco dos sonhos de qualquer menino. Trabalho concluído, o velho arremessa de volta a garrafa para o mar, para um destino desconhecido. Anoitece na ilha.
Para onde eu-leitor vai na próxima virada de página? Segundo pressuposto da viagem: atenção ao tempo-espaço, à nova cor dominante, à geometria do cenário, ao clima atmosférico, aos prédios, aos telhados, às antenas de televisão debaixo da chuva fria, à quantidade de janelas, à única casa da vizinhança, ao personagem que na soleira da porta encontra uma carta, ao próprio requadro branco...
O jogo da narrativa não é apenas encontrá-la no emaranhado de códigos e linguagens, mas decifrar o sentido do discurso entre figuras e ações. Uma história, pensamos, caminha sempre para frente. Porém, a montagem às vezes nos engana.
É fácil acreditar que o desenho do velho alcançou o menino – mas o que pensar se a narração adiante nos levou para trás? Ah, pobre cronotopo bem comportado! Como na poesia, os valores do tempo e do espaço podem ser repropostos em novos vetores. Desse modo, o tempo se espacializa e é, então, fragmentado; o espaço é trabalhado como matéria elástica e começa a sofrer uma deformação, uma curva talvez.
É difícil acreditar?
Eu acho que esse velho tem um pouco de Einstein, ou Fernando Pessoa.
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ver quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou [...]
16 de dezembro de 2013
ali onde se esconde a citação
peter ô.ô sagae
Às vezes, sinto que preciso estudar mais antes de escrever sobre alguns livros... Qual a fronteira entre o conceito (que temos) da intertextualidade e a liberdade (que queremos) da metalinguagem? Rogério Coelho tem brincado com uma série de referências literárias e visuais em seus livros de imagem de narração sucessiva que integram a série Descobertas: Lúcio e Alice (Ahom Educação, 2011), numa viagem ao interior dos livros e outros livros.
Enquanto penso, me desdobro na memória afetiva sobre os livros de imagem brasileiros que já admitem a citação a textos canônicos e originais. Não trazendo aspas para dar um destaque, os recursos da imagem podem ser mais ou menos implícitos, ou explícitos demais. Como será o resultado da leitura nas mãos da criança?
P.S.4 P.O’S. encontrou-se com dois títulos parados na esquina de sua casa, segundo a declaração de algumas testemunhas, sem saber qual deles abraçar... “Textualidades do livro de imagem e criação verbal” é o primeiro. Já o segundo, com vírgula ou dois pontos: “Textualidades, a árvore dos livros de imagem”.
Qual deles?
Às vezes, sinto que preciso estudar mais antes de escrever sobre alguns livros... Qual a fronteira entre o conceito (que temos) da intertextualidade e a liberdade (que queremos) da metalinguagem? Rogério Coelho tem brincado com uma série de referências literárias e visuais em seus livros de imagem de narração sucessiva que integram a série Descobertas: Lúcio e Alice (Ahom Educação, 2011), numa viagem ao interior dos livros e outros livros.
Enquanto penso, me desdobro na memória afetiva sobre os livros de imagem brasileiros que já admitem a citação a textos canônicos e originais. Não trazendo aspas para dar um destaque, os recursos da imagem podem ser mais ou menos implícitos, ou explícitos demais. Como será o resultado da leitura nas mãos da criança?
* * *
P.S.4 P.O’S. encontrou-se com dois títulos parados na esquina de sua casa, segundo a declaração de algumas testemunhas, sem saber qual deles abraçar... “Textualidades do livro de imagem e criação verbal” é o primeiro. Já o segundo, com vírgula ou dois pontos: “Textualidades, a árvore dos livros de imagem”.
Qual deles?
29 de outubro de 2013
portos de consolação
Peter O’Sagae
O diálogo da criança com a morte tornou-se um dos temas mais requisitados na produção dos últimos anos. Obviamente, por um viés distinto de algumas tradições e estratégias literárias que jamais exilaram a morte das narrativas. É assim que – a despeito da morte que regenera o mundo nos antigos mitos, a morte simbólica ou punitiva do males morais nos contos populares, a morte em série e despersonalizada nas novelas policialescas, a morte afetiva e filosófica das novelas, a morte ricamente dolorosa porque estruturadora da personalidade nas obras clássicas –, agora, nos livros, a morte, por vezes, é acolhida e amealhada pelo discurso da autoajuda na ficção para crianças, o que revela muito mais a inquietação do escritor e seu leitor adultos.
Sabemos que as coisas que fazem o coração transbordar não possuem traduções objetivas em palavras ou imagens. Mas exatamente aí, na impossibilidade de comunicar determinadas experiências, a literatura tem o seu propósito de evocar sentimentos e trazer para perto de nós o que é singelamente singular... De modo contrário, as explicações necessitam abstrair de múltiplas vivências um caráter geral, generalíssimo e compreensível a todos. Desconfiamos. Uma resposta – ou concepção de morte – não estará inteiramente nos livros, senão nas pessoas que a possuem previamente por alguma intuição, ou esperança, e vêm buscar nesta ou naquela literatura mais poética, científica, psicológica, espiritualista, religiosa ou pedagógica, seus portos de consolação.
Alguns títulos que Dobras da Leitura recebeu...
A MENINA, A VACA E O AVÔ, de Luís Pimentel com ilustrações de Rosinha (Positivo, 2011), transmite, ao final da história, uma visão finita da existência. Tudo nasce, vive a infância e a vida adulta, e naturalmente tudo acaba. Sem a companhia do avô, a menina vê a vaca crescendo, de bezerra a novilha, vê a vaca envelhecendo. E um rio, seguindo o próprio curso, vê a moça vendo a vaca seguir ao encontro do avô. Explica o narrador que “os dois estão guardados bem próximos um do outro, num pedaço de terra que se espalha entre o pasto e o rio.”
AGRIDOCE NOSTALGIA, de Tatiana Belinky e Elisabeth Teixeira (Paulinas, 2011), apresenta um depoimento organizado em versos. Quando era pequena e caía, não havia motivos para chorar porque o pai cuidava dos machucados – que feriam tão por fora – com sorriso e proteção. Era um tempo de desconhecer dor que viesse do medo de estar só, completamente só... Até o dia funesto, como ela diz, e o chão desapareceu sob seus pés! Jorrou o pranto sentido e, então, ela ouviu: “Venha cá que eu te levanto!” Era a voz do pai acudindo-a, qual acalanto, da desolação.
RECADO DA CHUVA, de Célia Cris Silva e Rogério Coelho (Vida e Consciência, 2011), faz contraponto entre a cinzenta paisagem fora de casa e o acolhimento doméstico que aquece a companhia de mãe e filha, brincadeiras, abraços, chá, bolinho de chuva, olhar para dentro do coração e perceber o mundo que, ali dentro, se pensa e sente. A filha cresce, sai de casa; num dia futuro de chuva, a morte da mãe será compreendida como uma viagem, longa, sem volta, que, no entanto, recomenda lembranças e sentimentos alegres dos dias bem vividos.
O diálogo da criança com a morte tornou-se um dos temas mais requisitados na produção dos últimos anos. Obviamente, por um viés distinto de algumas tradições e estratégias literárias que jamais exilaram a morte das narrativas. É assim que – a despeito da morte que regenera o mundo nos antigos mitos, a morte simbólica ou punitiva do males morais nos contos populares, a morte em série e despersonalizada nas novelas policialescas, a morte afetiva e filosófica das novelas, a morte ricamente dolorosa porque estruturadora da personalidade nas obras clássicas –, agora, nos livros, a morte, por vezes, é acolhida e amealhada pelo discurso da autoajuda na ficção para crianças, o que revela muito mais a inquietação do escritor e seu leitor adultos.
Sabemos que as coisas que fazem o coração transbordar não possuem traduções objetivas em palavras ou imagens. Mas exatamente aí, na impossibilidade de comunicar determinadas experiências, a literatura tem o seu propósito de evocar sentimentos e trazer para perto de nós o que é singelamente singular... De modo contrário, as explicações necessitam abstrair de múltiplas vivências um caráter geral, generalíssimo e compreensível a todos. Desconfiamos. Uma resposta – ou concepção de morte – não estará inteiramente nos livros, senão nas pessoas que a possuem previamente por alguma intuição, ou esperança, e vêm buscar nesta ou naquela literatura mais poética, científica, psicológica, espiritualista, religiosa ou pedagógica, seus portos de consolação.
Alguns títulos que Dobras da Leitura recebeu...
A MENINA, A VACA E O AVÔ, de Luís Pimentel com ilustrações de Rosinha (Positivo, 2011), transmite, ao final da história, uma visão finita da existência. Tudo nasce, vive a infância e a vida adulta, e naturalmente tudo acaba. Sem a companhia do avô, a menina vê a vaca crescendo, de bezerra a novilha, vê a vaca envelhecendo. E um rio, seguindo o próprio curso, vê a moça vendo a vaca seguir ao encontro do avô. Explica o narrador que “os dois estão guardados bem próximos um do outro, num pedaço de terra que se espalha entre o pasto e o rio.”
A MENINA E O SOL, de Constança Lucas e Júlio Gonçalves Dias (Formato, 2011), reforça a ideia de um segundo céu para os mortos, lugar que não se vê como as estrelas ofuscadas à luz do sol. Nesse outro céu, está a avó da menina – e ainda que muito insista em querer espiá-la, se iria conseguir subindo nos ombros do pai, no telhado, procurando de binóculos ou lanterna, de olhos bem abertos... As respostas da mãe são sempre curtas e negativas; há um súbito desvio na conversa com o convite da mulher para irem tomar sorvete: o que logo se compreende é a dificuldade do adulto em lidar com a saudade.
AGRIDOCE NOSTALGIA, de Tatiana Belinky e Elisabeth Teixeira (Paulinas, 2011), apresenta um depoimento organizado em versos. Quando era pequena e caía, não havia motivos para chorar porque o pai cuidava dos machucados – que feriam tão por fora – com sorriso e proteção. Era um tempo de desconhecer dor que viesse do medo de estar só, completamente só... Até o dia funesto, como ela diz, e o chão desapareceu sob seus pés! Jorrou o pranto sentido e, então, ela ouviu: “Venha cá que eu te levanto!” Era a voz do pai acudindo-a, qual acalanto, da desolação.
TATI É ESPECIAL, de Jean-Claude R. Alphen (Scipione, 2011), busca pela mensagem transcendente das estrelas que já se apagaram... “embora continuemos a ver sua luz”. Entre o discurso científico e a metáfora, Juca questiona como os seres e as coisas também podem morrer e desaparecer, deixando de si, um brilho especial. Tão importantes são as pessoas – e Tati – e sua conclusão é que ninguém deixa de existir de verdade, mas vira estrela no céu, sempre triste e maravilhoso para ser observado, despertando lembranças de quem partiu.
RECADO DA CHUVA, de Célia Cris Silva e Rogério Coelho (Vida e Consciência, 2011), faz contraponto entre a cinzenta paisagem fora de casa e o acolhimento doméstico que aquece a companhia de mãe e filha, brincadeiras, abraços, chá, bolinho de chuva, olhar para dentro do coração e perceber o mundo que, ali dentro, se pensa e sente. A filha cresce, sai de casa; num dia futuro de chuva, a morte da mãe será compreendida como uma viagem, longa, sem volta, que, no entanto, recomenda lembranças e sentimentos alegres dos dias bem vividos.
SEMPRE PERTO, de Stéphane Servant e Aurélia Fronty, com tradução de Adilson Miguel (Scipione, 2011), é uma tessitura poética, ao som da imagem parampá-pam-pam de um tambor estampado com um coração rubro, na primeira página, e cuja narração se deixa tocar por uma linguagem direta e subjetiva que desdobra a primeira pessoa: “Naquela manhã, soprou um vento muito forte, soprou tão forte... que levou mamãe.” E a sinestesia da memória faz da cidade um labirinto por onde o menino reencontra os gestos maternos que o vento espalhou, mas não levaria jamais embora o abraço apertado que a mãe vem lhe dar. Em seus sonhos.
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
Constança Lucas,
Editora Positivo,
Elisabeth Teixeira,
Formato Editorial,
Jean-Claude R. Alphen,
Paulinas,
Portos de Consolação,
Rogério Coelho,
Rosinha,
Scipione,
Tatiana Belinky
19 de janeiro de 2011
um cara plausível impossível
por Peter O’Sagae

Qualquer moleque pode imaginar-se dois, alguém duplicado que faz e vê o que faz, ao mesmo tempo. Ser mais, ser múltiplo, ser piá ou guri, o tempo todo. Por dentro. Criar um rinoceronte debaixo da cama, conversar com Papai Noel enquanto ninguém está vendo. Napo faz dessas! A gente pode mesmo ir a outros lugares sem sair daqui. É bom saber voar, tirar os pés do chão, sentindo-se mais mágico. Qualquer um pode ver as coisas que normalmente quem vive olhando os próprios pés não enxerga. Ou não quer enxergar. É bom também quando os sentimentos vão para o alto, alto, alto. Napo é meio assim: nuvem de poesia e perguntas sobre o mundo inteiro. E respostas rápidas que ninguém sabe de onde ele tira! Napo, o menino que não existe? Existe e insiste em ser sempre um cara plausível impossível. Que é isso? Descubra, filosofando e divertindo-se a cada disparate, recordação, capítulo ou instante deste livro que é como um álbum — e Napo a sua principal figurinha. Rara.
Intencional ou curiosamente, a coleção Metamorfose estreia com três autores nascidos nos três estados da região Sul do país, com três narrativas ambientadas em três cidades de lá. De Porto Alegre, o gaúcho Luís Dill escreveu O ESTALO, com ilustrações de Rogério Coelho e apresentação de Moacyr Scliar; natural de Brusque, Santa Catarina, Paulo Venturelli é autor de O ANJO ROUCO, ilustrado por Laurent Cardon e introduzido por Nelson de Oliveira na interna de capa; por fim, coube-me a leitura e escrever a respeito da obra de Edson Bueno — NAPO, UM MENINO QUE NÃO EXISTE, com imagens de Cris Eich e descrições que me chamaram à memória o cotidiano da parentela do interior paranaense. Um álbum de recordações, instantes... ou um álbum de figurinhas?

Outras imagens de Napo, no blog de Cris Eich [gota d’água no papel]

Qualquer moleque pode imaginar-se dois, alguém duplicado que faz e vê o que faz, ao mesmo tempo. Ser mais, ser múltiplo, ser piá ou guri, o tempo todo. Por dentro. Criar um rinoceronte debaixo da cama, conversar com Papai Noel enquanto ninguém está vendo. Napo faz dessas! A gente pode mesmo ir a outros lugares sem sair daqui. É bom saber voar, tirar os pés do chão, sentindo-se mais mágico. Qualquer um pode ver as coisas que normalmente quem vive olhando os próprios pés não enxerga. Ou não quer enxergar. É bom também quando os sentimentos vão para o alto, alto, alto. Napo é meio assim: nuvem de poesia e perguntas sobre o mundo inteiro. E respostas rápidas que ninguém sabe de onde ele tira! Napo, o menino que não existe? Existe e insiste em ser sempre um cara plausível impossível. Que é isso? Descubra, filosofando e divertindo-se a cada disparate, recordação, capítulo ou instante deste livro que é como um álbum — e Napo a sua principal figurinha. Rara.
Coleção Metamorfose
Intencional ou curiosamente, a coleção Metamorfose estreia com três autores nascidos nos três estados da região Sul do país, com três narrativas ambientadas em três cidades de lá. De Porto Alegre, o gaúcho Luís Dill escreveu O ESTALO, com ilustrações de Rogério Coelho e apresentação de Moacyr Scliar; natural de Brusque, Santa Catarina, Paulo Venturelli é autor de O ANJO ROUCO, ilustrado por Laurent Cardon e introduzido por Nelson de Oliveira na interna de capa; por fim, coube-me a leitura e escrever a respeito da obra de Edson Bueno — NAPO, UM MENINO QUE NÃO EXISTE, com imagens de Cris Eich e descrições que me chamaram à memória o cotidiano da parentela do interior paranaense. Um álbum de recordações, instantes... ou um álbum de figurinhas?

Outras imagens de Napo, no blog de Cris Eich [gota d’água no papel]
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
algumas orelhas e textos de quarta capa que fiz,
Cris Eich,
Editora Positivo,
Edson Bueno,
Laurent Cardon,
Literatura Juvenil,
Luís Dill,
Paulo Venturelli,
Rogério Coelho
20 de agosto de 2010
mais histórias à vista

A relação palavra&imagem subsiste em qualquer gênero da literatura para crianças — e está aí AMORA, com roteiro de Sonia Junqueira e ilustrações de Flávio Fargas (Positivo, 2009). Além da atribuição unívoca do nome ao personagem estampado na capa, medalhinha no pescoço com a letra A, outro elemento para-textual que é a dedicatória alerta o leitor para o fato de Amora ser uma cadelinha vira-lata. Sapeca e atrevida, ela tem sempre na boca um irresistível pedaço de pano, a barra da calça, o cabo da tomada elétrica, um cinto, uma mochila, um etc. e tal de coisas que pode morder e puxar adiante. E não adianta dar bronca, nem levar Amora para passear na coleira... Essa apresentação da personagem vai até a metade do livro! A narrativa mesmo começa na página 14, quando, um dia, Amora encontra e tira da boca do bueiro uma boneca de pano. Flávio Fargas utilizou alguns sinais gráficos de movimento e molduras da HQ para caracterizar as repetidas ações e mise-en-scène da Amora pretinha.
Elementos da linguagem dos quadrinhos também se fazem presentes na proposição de Rogério Coelho, O GATO E A ÁRVORE (Positivo, 2009), um livro de imagem que mostra a amizade entre um gato e um corvo cantante. Eles plantam e cuidam de uma árvore, por muitos dias, por muito tempo, até surgir alta e frondosa... A narrativa visual cede lugar ao caráter descritivo das imagens sobre o crescimento da árvore e as mudanças climáticas. [+]
É o desejo de ouvir mais de perto o pássaro cantar que movimenta o livro de imagem narrativo ARAPUCA, de Daniel Cabral (Positivo, 2009). Em uma remissão ao velho conto de Andersen, o autor transforma o filho de um catador de papel no imperador de seu próprio quarto, enfeitando suas paredes com tudo o que encontra e lhe agrada entre revistas, cartazes e papelões descartados pela sociedade.
Ilustração extraída de [danielgcabral.blogspot.com]
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