Mostrando postagens com marcador Ziraldo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ziraldo. Mostrar todas as postagens

1 de julho de 2020

chapeuzinho amarelo



☆ MESMO QUANDO está sozinha,
inventa uma brincadeira.
E transforma em companheiro
cada que ela tinha:
o raio virou orrái,
barata virou tabará,
a bruxa virou xabru
e o diabo é bodiá.

FIM ☆

Versos finais de CHAPEUZINHO AMARELO, de Chico Buarque (1979) com ilustrações e projeto gráfico de Donatella Berlendis que, com grande economia no uso de traços e cores, desenhos e formas metonímicas, resultaram em imagens mais imaginativas. A obra foi considerada “Altamente Recomendável” pela FNLIJ e recebeu ilustrações de Ziraldo em 1997, na reedição pela Editora José Olympio, com um imaginário de consumo fácil. #FiqueBem #AbreAspas2020

 

18 de junho de 2015

por aí flui, por aí voltei

Quando o carteiro chegou... leituras risonhas 2


Há tanto tempo tento ler um livro para crianças de Cyro de Mattos, mas confesso: desisto a meio caminho, volto atrás, volto ao livro, persisto, insisto, volto às primeiras páginas, enrolo-me depois em outros afazeres. Um livro contava a história de um boi, outro tinha a capa verde e a palavra roda no título. Ora, bois, ora roda, têm tudo a ver comigo, e gosto também do estilo, um trabalho consistente com a linguagem, aí nenhum problema. Ou o problema, porque a voz do texto como a música guarda uma tonalidade, um ritmo. Ambos os textos não me convenciam como literatura infantil. Eram canções de velho. Para leitores velhos, como também sou.

Abro hoje O QUE EU VI POR AÍ, sim de Cyro de Mattos, com ilustrações da polonesa Marta Ignerska e o projeto gráfico de Monique Sena (Biruta, 2014), e sinto-me um pouco mais em paz. A voz do texto é igualmente mansa e soa como um convite às horas de contemplação, assim que o sol acorda, com seu olho enorme, onde o céu faz uma curva e vai empurrando as sombras, inventando leões rugindo nas ondas com suas jubas brancas... Sim, respinga, no rendilhado dessa prosa poética, um olhar de criança que, como o sol, pode se admirar no espelho que ele mesmo espalha na imensidão do mar.

Sim, a descrição do amanhecer não é um objeto novo na estante de meus livros. Nem a apreciação das nuvens que rolam acima, transformando-se. Mas existe, no entanto, uma necessidade de aprender a observar a natureza de uma maneira descompromissada, sem o agito do cotidiano. E talvez a lição comece durante a infância, ou no amanhecer de um dia.


Cyro de Mattos passeia do horizonte à mata, à chuva da tarde, às figuras da noite. Formas e formigas enfileiram-se em seu texto que soa, enfim, como uma oração que exalta a vida, incansável, de flores e insetos, cores e aves, água e pedras em uma correnteza de imagens. Olhar as belezas do mundo faz lembrar outros textos, como O MENINO MAIS BONITO DO MUNDO, de Ziraldo (1983). Porém aqui a narrativa mítica cede lugar às cenas engraçadas, quando o olhar contemplativo de menino assume a proposição de imagens imaginadas e lembranças: um jogador anão no meio do campo fazendo um gol no goleiro grandão, uma velhinha (que não assobia) mas chupa cana com um dente só, palhaços, presepadas, uma macaca (que não é caixeira de uma venda) mas faz toda a família dormir...


Desde a capa do livro, já se anunciava a posição de expectador de um grande cinema. O que há de diferente é a sugestão da criança narrar e também editar seu próprio filme, após a aprendizagem das coisas simples, leves e engraçadas. Tudo isso explica as ilustrações de Ignerska, as figuras de muitos braços e olhos que povoam as páginas do livro, sempre em movimento. Apenas o projeto gráfico poderia ser mais suave, claro e aberto à intervenção dos leitores. Os mais novos, não eu. Sempre em movimento.

* * *


P.S. Também Manuel Filho possui um livro com título bastante parecido:  
O que vi por aí: andanças e descobertas de um escritor pelo Brasil, il. Marcello Araujo (Arvoredo, 2013) para jovens leitores, que eu vi por aí, dia 1º de julho. Foto: Patrícia Machado/Facebook.

21 de outubro de 2013

canto para uma cor só

Peter O’Sagae


No mesmo ano em que chegava para todos a imagem crispada do primeiro homem a pisar na lua, partia para lá uma cor sem par, nem pátria. Uma cor chamada Flicts, diferente e extravagante, sem a força do Vermelho, a luz do Amarelo ou a paz do Azul, uma cor que ninguém quer na caixa dos lápis de cor, nas brincadeiras da primavera, após a chuva, nas bandeiras... Aflito, triste e feio, tão só, mas cheio de it, Flicts desiste da realidade que o repele e vai subindo, sumindo, subindo, sumindo... até que a lua tornou-se toda flicts!

Lançado em 1969, o livro de Ziraldo recebeu comentários de Carlos Drummond de Andrade a Nelly Novaes Coelho que, a despeito da colorida beleza gráfica, não viu o endereçamento da obra para crianças, mas um texto de simplicidade enigmática para jovens e adultos. Uma alegoria, talvez, presa ao contexto de uma época: o narrador diz tudo o que Flicts não é, e parece-se muito com alguém que se viu e partiu num rabo de foguete, isto é, com todas as dificuldades para cumprir algo a que estava programado ou prometido.


Em outras leituras, já tentamos ser convencidos a respeito da paráfrase sobre Andersen e o Patinho Feio, tão triste e sofredor quanto Flicts. Contudo, no final, uma contradição frente ao conto do escritor dinamarquês: se o patinho ascende e voa, ao descobrir sua verdadeira natureza de cisne, com a afirmação da convivência entre iguais, Flicts vai subindo e sumindo rumo ao isolamento fantástico sobre si mesmo, à negação da convivência entre iguais... Ora, esta não é, não seria uma mensagem oportuna ou muito otimista para o público infantil, com uma imagem valorativa tão voltada para si mesmo, centrada e centralizadora, que a velha (e boa) pedagogia esforça-se por modificar. O simbolismo da lua é muito bonito e mágico, em diversas culturas, tanto representa o inatingível, quanto o admirável – e o satélite lá no alto, sozinho e insondável para o comum das pessoas. Mas... Oh, lua no golfão de cismas e solipsismo!


No entanto, ‘inda ontem, um detalhe necessário do texto novamente se apresentou: Flicts transforma-se em flicts, de personagem a uma coisa ou qualidade, ao duplo it que nos é permitido reconhecer nos exercícios de leitura. E, se queremos Andersen, ao modo das comparações imperfeitas, a Andersen havemos de recorrer mais uma vez:

“..., com olhar triste, ela fitou o príncipe, e depois atirou-se do navio ao mar, sentindo como seu corpo se desfazia em espuma. 

“O sol ergueu-se sobre o mar. Seus raios quentes caíram sobre a espuma. A pequena sereia não sentia a morte. Viu o sol claro, e, a voar por cima dela, centenas de formosas e diáfanas criaturas. Através delas, a sereia viu as velas brancas do barco e as rubras nuvens do céu. As vozes daquelas criaturas soavam como lindas melodias, mas nenhum olho humano podia ver quem cantava. Sem asas, eram tão leves que esvoaçavam no espaço. A pequena sereia percebeu então que seu corpo era como o delas, a elevar-se cada vez mais da espuma. 

“– Para onde vou? – perguntou ela.”


P.S.1 Sim, a postagem anterior me inspira a retomar o tema da postura solipsista dentro da produção literária para crianças; deveríamos diferenciar os estados de solidão dolorosa, contemplativa ou voluntária que alguns personagens sofrem como acossamento ou acabam por impor a si mesmos como busca de beleza ou desprendimento dos motivos de sua aflição.

P.S.2 A lua e as demais cores de Ziraldo reverberam na ilustração de André Neves: a capa é flicts, mas levo o olhar atento para o guarda-chuva. São as recorrências que permitem reconhecer as imagens ou representações, umas nas outras, como emblemas ou estigmas da literatura para crianças.

P.S.3 A tradução de “A pequena sereia” por Guttorm Hanssen, com a revisão estilística de Herberto Sales, do livro Contos de Andersen (Paz e Terra, 1978).

26 de junho de 2009

na inspiração dos primeiros tempos



Um olho que é sol ilumina e simultaneamente reflete tudo aquilo que olha: a capa do livro de Ziraldo, O MENINO MAIS BONITO DO MUNDO (Melhoramentos, 1983), evolve leituras dentro de nós a fim de buscarmos histórias na beira dos tempos primeiros... Entre os mitos gregos, Hélio, o Sol, filho de Hipérion, que contempla do alto, era também conhecido como aquele que tudo vê — o verdadeiro olho do mundo, testemunha de todos os feitos humanos singulares dos mais prosaicos ao mais heroicos atos. Talvez a evocação soe algo distante da narrativa contida neste livro, talvez... “Era uma vez uma noite que não acabava mais. E era uma vez um menino que ainda dormia quando a manhã finalmente nasceu.”

Em uma cantilena cheia de poesia, Ziraldo confia ao leitor sua maneira de contar a gênese do olhar, tão logo fora concluída a Criação do Mundo. O menino desperta e olha o mundo, pela primeira vez, com grande admiração: as árvores e as flores, o mar roncando e as montanhas dividindo o horizonte, a natureza diurna e as estrelas do céu. Ao mesmo tempo, tudo observa o menino e repete: — Como você é bonito! Passando os anos e tornando-se homem, este menino continua o primeiro de todos, ouvindo a grata alegria que o mundo revela em vê-lo como o mais bonito. Porque é o primeiro, o homem termina por sentir-se fatalmente só... Porém, em outra manhã, seus olhos encontram e contemplam outra forma de beleza, a primeira mulher, e vê, ao lado dela, o começo de uma nova história.


O projeto gráfico da obra divide o livro em duas seções que buscam assinalar o olhar do menino e o olhar do adulto. Inicialmente, as páginas realizam um zoom out sobre uma paisagem desenhada por Apoena Horta Medina, com 9 anos à época de feitura do livro. Na segunda parte do livro, surgem três óleos sobre tela de Sami Mattar que representam o sol recortado pelos galhos das árvores (a mesma paisagem descoberta anteriormente), um entardecer com as cores do outono e a aparição da mulher.


Para aprendermos a olhar o livro ilustrado de literatura para crianças, O MENINO MAIS BONITO DO MUNDO traz, na última virada de página, um jogo de complementaridade entre a palavra e a imagem. Talvez fossem dispensáveis as linhas finais, pois a significação se completa e expande-se inteiramente com a ilustração que funde a memória de duas narrativas — a Gênese bíblica e a cosmogonia pagã — na visão de Eva-Vênus.



Arte de Samir Mattar para O menino mais bonito do mundo, de Ziraldo.


* Revisto em 03/01/2018.