Jogo de Trilhas e Textos.
O cavalinho de pau balança, um pé na psicologia, a outra ponta na sociologia do brinquedo. Crianças em casa, brincadeiras outdoor. As diferentes relações consigo e com o outro. Em nove sugestões de leitura. E possibilidades.
"Podemos olhar o brinquedo como uma ponte, um objeto de transição da subjetividade para a vida cotidiana, do mundo de dentro para o mundo de fora e vice-versa. É no brinquedo que a criança, sujeito completo de desejos e realizações, encontra luz para a elaboração de seus conflitos e de suas dúvidas. Ao brincar, a criança se mostra, revela-se com todas as suas coragens e os seus medos." Ninfa Parreiras, O BRINQUEDO NA LITERATURA INFANTIL #editorabiruta (2008) p. 41
"... o brinquedo é uma confrontação - não tanto da criança com o adulto, como deste com a criança. Não são os adultos que dão em primeiro lugar os brinquedos às crianças? E, mesmo que a criança conserve certa liberdade de aceitar ou rejeitar, muito dos antigos brinquedos (...) de certo modo terão sido impostos à criança como objeto de culto, que somente graças à sua imaginação se transformam em brinquedos." Walter Benjamin, Obras escolhidas I. MAGIA E TÉCNICA, ARTE E POLÍTICA (1928) p. 250
Com uma ponta de tristeza e desapego para torná-la em alegria e algum sentimento de eternidade. Ser criança. Detalhe da ilustração de Isabelle Arsenault para A CAIXA DE LEMBRANÇAS, de Anna Castagnoli #editorapositivo (2012) #literaturainfantil #isabellearsenault
Com boneca, boneco, badulaques, cacarecos e todas as coisas guardadas dentro mesmo do armário, closet ou guarda-roupas. Detalhe da ilustração de Andréia Vieira para BETINA QUERO-QUERO #editoradcl (2015) #literaturainfantil #andreiavieira
Com quadradinhos de papel colorido e estampado, dobrando e desdobrando flores e animais milenares em delicado silêncio. Detalhe da ilustração de Suppa para as MÃOS MÁGICAS, de Tereza Yamashita #sesispeditora (2013) #literaturainfantil #origami
Assoviando uma canção, reciclando objetos, criando heróis para transformar hábitos e ideias mundo afora. Detalhe da ilustração de Eduardo Albini no livro de imagem PEDRO PET PLÁSTICO #editoraformato (2011) #literaturainfantil #eduardoalbini
Inventando um jeito misterioso de sentir as cores do mundo quando não é possível enxergá-las todas. Detalhe da ilustração de Denise Nascimento para AS CORES NO MUNDO DE LÚCIA, de Jorge Fernando dos Santos #editorapaulus (2010) #literaturainfantil #denisenascimento
Na hora do recreio, a irreverente linha azul que escapou do caderno vai lá bater e pular corda. Detalhe da ilustração de Sílvia Amstalden para a HISTÓRIA DE UMA LINHA, de Silvana Beraldo Massera #editoraquatrocantos (2015) #literaturainfantil #silviaamstalden
Compartilhando o mesmo espaço do céu, o menino do bairro e o menino do morro. Detalhe da ilustração de Weberson Santiago, em PIPA OU PAPAGAIO, livro de imagem com roteiro de Stella Elia #devirlivraria (2013) #literaturainfantil #webersonsantiago
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14 de dezembro de 2015
Como brincam as crianças...
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
Andréia Vieira,
Biruta e Gaivota,
DCL,
Editora Positivo,
Eduardo Albini,
Ninfa Parreiras,
Paulus,
SESI-SP editora,
Silvia Amstalden,
Suppa,
Tereza Yamashita,
Weberson Santiago
18 de junho de 2015
por aí flui, por aí voltei
Quando o carteiro chegou... leituras risonhas 2
Há tanto tempo tento ler um livro para crianças de Cyro de Mattos, mas confesso: desisto a meio caminho, volto atrás, volto ao livro, persisto, insisto, volto às primeiras páginas, enrolo-me depois em outros afazeres. Um livro contava a história de um boi, outro tinha a capa verde e a palavra roda no título. Ora, bois, ora roda, têm tudo a ver comigo, e gosto também do estilo, um trabalho consistente com a linguagem, aí nenhum problema. Ou o problema, porque a voz do texto como a música guarda uma tonalidade, um ritmo. Ambos os textos não me convenciam como literatura infantil. Eram canções de velho. Para leitores velhos, como também sou.
Abro hoje O QUE EU VI POR AÍ, sim de Cyro de Mattos, com ilustrações da polonesa Marta Ignerska e o projeto gráfico de Monique Sena (Biruta, 2014), e sinto-me um pouco mais em paz. A voz do texto é igualmente mansa e soa como um convite às horas de contemplação, assim que o sol acorda, com seu olho enorme, onde o céu faz uma curva e vai empurrando as sombras, inventando leões rugindo nas ondas com suas jubas brancas... Sim, respinga, no rendilhado dessa prosa poética, um olhar de criança que, como o sol, pode se admirar no espelho que ele mesmo espalha na imensidão do mar.
Sim, a descrição do amanhecer não é um objeto novo na estante de meus livros. Nem a apreciação das nuvens que rolam acima, transformando-se. Mas existe, no entanto, uma necessidade de aprender a observar a natureza de uma maneira descompromissada, sem o agito do cotidiano. E talvez a lição comece durante a infância, ou no amanhecer de um dia.
Cyro de Mattos passeia do horizonte à mata, à chuva da tarde, às figuras da noite. Formas e formigas enfileiram-se em seu texto que soa, enfim, como uma oração que exalta a vida, incansável, de flores e insetos, cores e aves, água e pedras em uma correnteza de imagens. Olhar as belezas do mundo faz lembrar outros textos, como O MENINO MAIS BONITO DO MUNDO, de Ziraldo (1983). Porém aqui a narrativa mítica cede lugar às cenas engraçadas, quando o olhar contemplativo de menino assume a proposição de imagens imaginadas e lembranças: um jogador anão no meio do campo fazendo um gol no goleiro grandão, uma velhinha (que não assobia) mas chupa cana com um dente só, palhaços, presepadas, uma macaca (que não é caixeira de uma venda) mas faz toda a família dormir...
Desde a capa do livro, já se anunciava a posição de expectador de um grande cinema. O que há de diferente é a sugestão da criança narrar e também editar seu próprio filme, após a aprendizagem das coisas simples, leves e engraçadas. Tudo isso explica as ilustrações de Ignerska, as figuras de muitos braços e olhos que povoam as páginas do livro, sempre em movimento. Apenas o projeto gráfico poderia ser mais suave, claro e aberto à intervenção dos leitores. Os mais novos, não eu. Sempre em movimento.
P.S. Também Manuel Filho possui um livro com título bastante parecido:
O que vi por aí: andanças e descobertas de um escritor pelo Brasil, il. Marcello Araujo (Arvoredo, 2013) para jovens leitores, que eu vi por aí, dia 1º de julho. Foto: Patrícia Machado/Facebook.
Há tanto tempo tento ler um livro para crianças de Cyro de Mattos, mas confesso: desisto a meio caminho, volto atrás, volto ao livro, persisto, insisto, volto às primeiras páginas, enrolo-me depois em outros afazeres. Um livro contava a história de um boi, outro tinha a capa verde e a palavra roda no título. Ora, bois, ora roda, têm tudo a ver comigo, e gosto também do estilo, um trabalho consistente com a linguagem, aí nenhum problema. Ou o problema, porque a voz do texto como a música guarda uma tonalidade, um ritmo. Ambos os textos não me convenciam como literatura infantil. Eram canções de velho. Para leitores velhos, como também sou.
Abro hoje O QUE EU VI POR AÍ, sim de Cyro de Mattos, com ilustrações da polonesa Marta Ignerska e o projeto gráfico de Monique Sena (Biruta, 2014), e sinto-me um pouco mais em paz. A voz do texto é igualmente mansa e soa como um convite às horas de contemplação, assim que o sol acorda, com seu olho enorme, onde o céu faz uma curva e vai empurrando as sombras, inventando leões rugindo nas ondas com suas jubas brancas... Sim, respinga, no rendilhado dessa prosa poética, um olhar de criança que, como o sol, pode se admirar no espelho que ele mesmo espalha na imensidão do mar.
Sim, a descrição do amanhecer não é um objeto novo na estante de meus livros. Nem a apreciação das nuvens que rolam acima, transformando-se. Mas existe, no entanto, uma necessidade de aprender a observar a natureza de uma maneira descompromissada, sem o agito do cotidiano. E talvez a lição comece durante a infância, ou no amanhecer de um dia.
Cyro de Mattos passeia do horizonte à mata, à chuva da tarde, às figuras da noite. Formas e formigas enfileiram-se em seu texto que soa, enfim, como uma oração que exalta a vida, incansável, de flores e insetos, cores e aves, água e pedras em uma correnteza de imagens. Olhar as belezas do mundo faz lembrar outros textos, como O MENINO MAIS BONITO DO MUNDO, de Ziraldo (1983). Porém aqui a narrativa mítica cede lugar às cenas engraçadas, quando o olhar contemplativo de menino assume a proposição de imagens imaginadas e lembranças: um jogador anão no meio do campo fazendo um gol no goleiro grandão, uma velhinha (que não assobia) mas chupa cana com um dente só, palhaços, presepadas, uma macaca (que não é caixeira de uma venda) mas faz toda a família dormir...
Desde a capa do livro, já se anunciava a posição de expectador de um grande cinema. O que há de diferente é a sugestão da criança narrar e também editar seu próprio filme, após a aprendizagem das coisas simples, leves e engraçadas. Tudo isso explica as ilustrações de Ignerska, as figuras de muitos braços e olhos que povoam as páginas do livro, sempre em movimento. Apenas o projeto gráfico poderia ser mais suave, claro e aberto à intervenção dos leitores. Os mais novos, não eu. Sempre em movimento.
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P.S. Também Manuel Filho possui um livro com título bastante parecido:
O que vi por aí: andanças e descobertas de um escritor pelo Brasil, il. Marcello Araujo (Arvoredo, 2013) para jovens leitores, que eu vi por aí, dia 1º de julho. Foto: Patrícia Machado/Facebook.
12 de janeiro de 2015
André, outra vez
Dobras da Leitura recebeu
Reencontro André morando agora em São Paulo, mas ele deverá estar passando suas férias pelo interior de Minas Gerais, onde nasceu. Isso porque é janeiro. Se ele, que é hiper-urbano e rural, não perde um feriado qualquer para se meter no sítio dos parentes, imagine se não iria correndo para lá durante esse verão, buscando histórias para recontar...
Quer descobrir que graça há em ficar esperando assombração abrir a porteira, em dias de chuva, ouvindo o tamborilar das gotas no teto e o galinheiro despencar lá fora? Acompanhe, então, as viagens de André nas páginas de Histórias mal-assombradas do CAMINHO VELHO DE SÃO PAULO, com bolinhos de chuva para comer em uma tarde durante a Quaresma, e através das Histórias mal-assombradas de PORTUGAL E ESPANHA, na companhia de três tias excêntricas no feriado dos Finados – quarto e quinto volumes da série de Adriano Messias, com ilustrações de Alexandre Teles (Biruta, 2008 e 2010).
Leia também as resenhas para os volumes iniciais da série:
* Histórias mal-assombradas em volta do fogão de lenha (2004)
* Histórias mal-assombradas do tempo da escravidão (2005)
* Histórias mal-assombradas de um espírito da floresta (2006)
Reencontro André morando agora em São Paulo, mas ele deverá estar passando suas férias pelo interior de Minas Gerais, onde nasceu. Isso porque é janeiro. Se ele, que é hiper-urbano e rural, não perde um feriado qualquer para se meter no sítio dos parentes, imagine se não iria correndo para lá durante esse verão, buscando histórias para recontar...
Quer descobrir que graça há em ficar esperando assombração abrir a porteira, em dias de chuva, ouvindo o tamborilar das gotas no teto e o galinheiro despencar lá fora? Acompanhe, então, as viagens de André nas páginas de Histórias mal-assombradas do CAMINHO VELHO DE SÃO PAULO, com bolinhos de chuva para comer em uma tarde durante a Quaresma, e através das Histórias mal-assombradas de PORTUGAL E ESPANHA, na companhia de três tias excêntricas no feriado dos Finados – quarto e quinto volumes da série de Adriano Messias, com ilustrações de Alexandre Teles (Biruta, 2008 e 2010).
Leia também as resenhas para os volumes iniciais da série:
* Histórias mal-assombradas em volta do fogão de lenha (2004)
* Histórias mal-assombradas do tempo da escravidão (2005)
* Histórias mal-assombradas de um espírito da floresta (2006)
25 de setembro de 2014
ouvindo conversa alheia
Peter o.O'Sagae
É interessante observar como, na criação de textos para crianças, uma mesma cena pode gerar ou promover narrativas completamente diversas. Ou não?
Eva Furnari conta:
A sátira dá o tom. As personagens de Eva Furnari são cômicas e a ilustração contribui para completar e ampliar o efeito da mensagem – em suas banquetas de assento baixo, pés paralelos, pernas cruzadas, mãos no joelho ou no colo, braços fechados, mãos segurando a cabeça, o pescoço torto, um ouvido espichado, o nariz virado de lado, os olhos procurando alguma coisa, o silêncio, um fio de cabelo fora do lugar etc. Existe, na cena, um equilíbrio incômodo: seis personagens em busca de um assunto, debaixo de uma árvore de galhos simétricos, debaixo de seis passarinhos sentados... O que eles contam? Uma piada?
Pois o livro COCO DE PASSARINHO (Companhia das Letrinhas, 1999, Moderna, 2013) pertence ao gênero das anedotas.
Entre o ridículo e o desânimo, a crítica de Hermes Bernadi Jr. é contrabalanceada por uma ilustração sem figuras definidas, ou definitivas. A árvore voa da tinta para o papel, mostrando-se aos poucos. Hermes lançou mão dos pincéis e do movimento rápido para sugerir uma árvore que página a página vai ganhando seu colorido: sapatos ou flores? O texto de PÉ DE SAPATO (Biruta, 2011) conta-se como uma sugestão de lenda.
É interessante observar como, na criação de textos para crianças, uma mesma cena pode gerar ou promover narrativas completamente diversas. Ou não?
Eva Furnari conta:
Era uma vez uma cidade bem pequena. Tinha seis habitantes. Todo fim de tarde eles iam para a praça conversar. Sentavam-se sempre no mesmo lugar e diziam as mesmas coisas:E conta Hermes Bernardi Jr...
— Puxa, que calor!
— Calor horrível!
— Como vão os negócios?
— Vão mal.
— O ano que vem vai ser pior.
— Vai.
Morria a árvore no centro do vilarejo. De pés descalços, os habitantes do lugar desfrutavam do conforto de suas casas. Nunca pisavam do lado de fora. Temiam machucar os pés. Todos os dias, as janelas das casas se abriam.
— Vai chover.
— Acho que vai.
— Vai nevar.
— Talvez.
— Mãe, posso passear?
— Vem aí uma tempestade.
— Se vem!
— Até outro dia!
— Até!
A sátira dá o tom. As personagens de Eva Furnari são cômicas e a ilustração contribui para completar e ampliar o efeito da mensagem – em suas banquetas de assento baixo, pés paralelos, pernas cruzadas, mãos no joelho ou no colo, braços fechados, mãos segurando a cabeça, o pescoço torto, um ouvido espichado, o nariz virado de lado, os olhos procurando alguma coisa, o silêncio, um fio de cabelo fora do lugar etc. Existe, na cena, um equilíbrio incômodo: seis personagens em busca de um assunto, debaixo de uma árvore de galhos simétricos, debaixo de seis passarinhos sentados... O que eles contam? Uma piada?
Pois o livro COCO DE PASSARINHO (Companhia das Letrinhas, 1999, Moderna, 2013) pertence ao gênero das anedotas.
Entre o ridículo e o desânimo, a crítica de Hermes Bernadi Jr. é contrabalanceada por uma ilustração sem figuras definidas, ou definitivas. A árvore voa da tinta para o papel, mostrando-se aos poucos. Hermes lançou mão dos pincéis e do movimento rápido para sugerir uma árvore que página a página vai ganhando seu colorido: sapatos ou flores? O texto de PÉ DE SAPATO (Biruta, 2011) conta-se como uma sugestão de lenda.
* Conheça a história na [postagem anterior]...
23 de setembro de 2014
das árvores textuais
Peter O'Sagae
Diferentes histórias para crianças lançam suas raízes sobre os gêneros da literatura oral, na forma de apropriação ou estilização dos velhos esquemas textuais. Sentemos à sombra das palavras e das alegorias, por favor...
KAMAZU é o reconto de uma lenda angolana, com texto e ilustrações de Carla Caruso (Mundo Mirim, 2012). Órfão e escravo entre os negros de sua terra, após ter sido empenhado como pagamento por um tio, Kamazu sonha e muito trabalha para libertar-se. Ao final do dia, descansa protegido por um baobá, árvore robusta de imensa força simbólica: longevidade, paciência, permanência... Então, veio, uma noite, uma voz que o levaria à visão de um rio. Porém, Kamazu não deu a devida importância à mensagem da natureza que sempre penetra o sonho dos homens. A voz voltou para acordá-lo e, então, o fez caminhar para o curso de seu próprio destino: conhecer os segredos das plantas para curar a dor dos animais e dos homens, libertando o próximo para libertar a si.
Nesta apropriação de uma narrativa tradicional, Carla Caruso deu um nome ao herói e acrescentou outros elementos da cultura mágica africana, como as sombras que se movem alimentando os bosques de mistério e uma verde pedra calubungo, espécie de pedra filosofal que potencializa as propriedades medicinais das ervas combinadas.
SABELÁONDE é um livro ilustrado de Cristiana Valentini e Philip Giordano, com tradução de Maria Amália Camargo (Caramelo, 2012). Trata-se de um apólogo a respeito do amadurecimento interior: enquanto muitas sementes esperam a passagem do vento para caírem no mundo, e virarem árvores, e começarem a falar, sabeláonde, sabeláquando, uma semente pequenina preferiu agarrar-se à copa de uma cerejeira no alto de uma montanha deserta, ou melhor, quase deserta. Lá permaneciam a árvore e sua semente, recebendo abrigo e agasalho contra a chuva, o sol ardido, as ventanias frias, por mais um dia, um dia, um dia... A sementinha no entanto não aprendia a falar. Confiante e contente, apenas sorria a todas as perguntas que a árvore perguntava, até que um pássaro roubou a companhia entre ambas em uma manhã de outono. Seria o fim, ou o começo de uma nova estação, em outra montanha, não muito distante, sabeláonde, do outro lado da campina?
No diálogo com o passado fabular, o apólogo moderno ainda se concentra em temas do cotidiano, humanizando uma aprendizagem. Contudo, a figura do ouvinte tradicional, preocupado em defender-se dos interesses e das imposturas sociais, passa a reviver uma relação mais íntima, familiar e existencial.
PÉ DE SAPATO, com texto e ilustrações de Hermes Bernadi Jr. (Biruta, 2011), traz uma alegoria ou uma história de muitas histórias. Enquanto uma árvore morria, bem no centro de um vilarejo, os habitantes recusavam-se a sair do conforto de suas casas. Eles viviam descalços, verdadeiramente presos, com medo de machucar os pés. Por isso, bem pouco conversavam na hora que um e outro abria ou fechava a janela. Um sapateiro chegou ao lugar, sem que ninguém lhe desse atenção, tão bem pareciam viver as pessoas descalças dentro de casa... Mas o sapateiro fez tamancos bordados, chinelas de seda e fitas, sapatos de couro, botas pintadas, sapatilhas e sandálias de várias feitios que se acumulavam sob a árvore, depois em seus galhos ao modo de flores coloridas – e, como os pássaros da ilustração, Hermes conta que os olhos viriam espiar e pousar sobre os sapatos através da fresta das janelas.
O clima pertence à natureza dos contos mágicos, com vocação para a lenda: uma menina se achega da árvore e escolhe calçar o primeiro par de sapatos! Ela é uma espécie de Cinderela abrindo caminho para as pessoas daquele lugar, inventando histórias e voando por outras estradas porque os pés jamais viverão nus, dentro de casa, outra vez.
Diferentes histórias para crianças lançam suas raízes sobre os gêneros da literatura oral, na forma de apropriação ou estilização dos velhos esquemas textuais. Sentemos à sombra das palavras e das alegorias, por favor...
KAMAZU é o reconto de uma lenda angolana, com texto e ilustrações de Carla Caruso (Mundo Mirim, 2012). Órfão e escravo entre os negros de sua terra, após ter sido empenhado como pagamento por um tio, Kamazu sonha e muito trabalha para libertar-se. Ao final do dia, descansa protegido por um baobá, árvore robusta de imensa força simbólica: longevidade, paciência, permanência... Então, veio, uma noite, uma voz que o levaria à visão de um rio. Porém, Kamazu não deu a devida importância à mensagem da natureza que sempre penetra o sonho dos homens. A voz voltou para acordá-lo e, então, o fez caminhar para o curso de seu próprio destino: conhecer os segredos das plantas para curar a dor dos animais e dos homens, libertando o próximo para libertar a si.
Nesta apropriação de uma narrativa tradicional, Carla Caruso deu um nome ao herói e acrescentou outros elementos da cultura mágica africana, como as sombras que se movem alimentando os bosques de mistério e uma verde pedra calubungo, espécie de pedra filosofal que potencializa as propriedades medicinais das ervas combinadas.
SABELÁONDE é um livro ilustrado de Cristiana Valentini e Philip Giordano, com tradução de Maria Amália Camargo (Caramelo, 2012). Trata-se de um apólogo a respeito do amadurecimento interior: enquanto muitas sementes esperam a passagem do vento para caírem no mundo, e virarem árvores, e começarem a falar, sabeláonde, sabeláquando, uma semente pequenina preferiu agarrar-se à copa de uma cerejeira no alto de uma montanha deserta, ou melhor, quase deserta. Lá permaneciam a árvore e sua semente, recebendo abrigo e agasalho contra a chuva, o sol ardido, as ventanias frias, por mais um dia, um dia, um dia... A sementinha no entanto não aprendia a falar. Confiante e contente, apenas sorria a todas as perguntas que a árvore perguntava, até que um pássaro roubou a companhia entre ambas em uma manhã de outono. Seria o fim, ou o começo de uma nova estação, em outra montanha, não muito distante, sabeláonde, do outro lado da campina?
No diálogo com o passado fabular, o apólogo moderno ainda se concentra em temas do cotidiano, humanizando uma aprendizagem. Contudo, a figura do ouvinte tradicional, preocupado em defender-se dos interesses e das imposturas sociais, passa a reviver uma relação mais íntima, familiar e existencial.
PÉ DE SAPATO, com texto e ilustrações de Hermes Bernadi Jr. (Biruta, 2011), traz uma alegoria ou uma história de muitas histórias. Enquanto uma árvore morria, bem no centro de um vilarejo, os habitantes recusavam-se a sair do conforto de suas casas. Eles viviam descalços, verdadeiramente presos, com medo de machucar os pés. Por isso, bem pouco conversavam na hora que um e outro abria ou fechava a janela. Um sapateiro chegou ao lugar, sem que ninguém lhe desse atenção, tão bem pareciam viver as pessoas descalças dentro de casa... Mas o sapateiro fez tamancos bordados, chinelas de seda e fitas, sapatos de couro, botas pintadas, sapatilhas e sandálias de várias feitios que se acumulavam sob a árvore, depois em seus galhos ao modo de flores coloridas – e, como os pássaros da ilustração, Hermes conta que os olhos viriam espiar e pousar sobre os sapatos através da fresta das janelas.
O clima pertence à natureza dos contos mágicos, com vocação para a lenda: uma menina se achega da árvore e escolhe calçar o primeiro par de sapatos! Ela é uma espécie de Cinderela abrindo caminho para as pessoas daquele lugar, inventando histórias e voando por outras estradas porque os pés jamais viverão nus, dentro de casa, outra vez.
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
Apólogos,
Biruta e Gaivota,
Carla Caruso,
Ed. Mundo Mirim,
Editora Caramelo,
Hermes Bernardi Jr.,
Maria Amália Camargo,
Mitos e Lendas,
Vozes que levam à África
19 de setembro de 2014
verde para ver todas as cores
Peter O.o'Sagae
“Quem espera”, diz Christina Dias, “logo vê que a cor que arromba a visão não é o verde. É o vermelho.” Pois era vermelho o fruto que se destina a chama a atenção do Uirapuru – não era, porém, macio ou maduro como qualquer pássaro poderia supor, tinha uma casca de pedra!
Uirapuru cantou e convocou para o alto o Bicho-pau que chamou o Rei e a Rainha Cupim que foram buscar o Tamanduá de Colete que, enfim, conseguiu, com o próprio peso, derrubar o fruto redondo e duro. Mas a bola como pedra não se partiu... O MISTÉRIO DA BOLA CASTANHO-AVERMELHADA, com ilustrações de Aline Abreu (Frase e Efeito, 2009, Jujuba, 2010) é uma narrativa em lengalenga inventada por Christina Dias, ao sabor dos contos acumulativos tradicionais, com um fraseado bonito e elegante para o pequeno leitor habituar-se com o colorido da linguagem literária.
Os animais da floresta vão se reunindo para abrir e descobrir quê fruto é esse. Pouco pode a Preguiça, também pode pouco quem tem quatro pés, Paca, Tatu-galinha, Anta ou Quati. Nem a suçuarana de pelagem vermelha que não teme confusão. Nem Jacaré-açu, Boto ou Pirarucu. Fruto redondo e duro! Bichos do ar, da terra e da água nada conseguem e o fruto castanho-vermelho vai rolando pela floresta, enrolando o leitor pelo emaranhado de traços e rastros da fauna brasileira até as mãos de uma menina Kaiapó. Ela pega do facão e, num golpe só... estará resolvido o mistério!
Nas planícies da África, contra o vento seco, crescia uma árvore maravilhosa, carregada de frutos também vermelhos, bem vermelhos, redondos como melões, suculentos como tâmaras e o aroma... Ah! o aroma das mais doces mangas. Porém, uma enorme serpente vivia enrolada ao tronco e apenas cederia passagem àquele que dissesse o nome da árvore.
O Elefante, a Girafa, a Zebra, o Macaco e a Tartaruga andavam famintos – mas, você sabe, a fome dá coragem, garra, velocidade e persistência. Um a um, eles vão consultar o Rei dos Animais que muito longe morava a fim de descobrirem o nome da árvore e do fruto cobiçado.
BOJABI, A ÁRVORE MÁGICA, de Dianne Hofmeyr e Piet Grobler, tradução de Carolina Maluf (Biruta, 2012), é outra narrativa em lengalenga. O perigo não estava no caminho a ser desenrolado debaixo do sol, que é rei de calor, nem na força do monarca da floresta africana que é o Leão... A Zebra tropeçou na língua e disse: Bongani! O Macaco coçou a cabeça: Munjani? O Elefante, justo ele: Umfani! Quem haveria de guardar consigo e lembrar-se do nome da árvore mágica, a Tartaruga ou a Girafa? Pois saiba, o perigo à conservação da vida sempre é perder a memória!
“Quem espera”, diz Christina Dias, “logo vê que a cor que arromba a visão não é o verde. É o vermelho.” Pois era vermelho o fruto que se destina a chama a atenção do Uirapuru – não era, porém, macio ou maduro como qualquer pássaro poderia supor, tinha uma casca de pedra!
Uirapuru cantou e convocou para o alto o Bicho-pau que chamou o Rei e a Rainha Cupim que foram buscar o Tamanduá de Colete que, enfim, conseguiu, com o próprio peso, derrubar o fruto redondo e duro. Mas a bola como pedra não se partiu... O MISTÉRIO DA BOLA CASTANHO-AVERMELHADA, com ilustrações de Aline Abreu (Frase e Efeito, 2009, Jujuba, 2010) é uma narrativa em lengalenga inventada por Christina Dias, ao sabor dos contos acumulativos tradicionais, com um fraseado bonito e elegante para o pequeno leitor habituar-se com o colorido da linguagem literária.
Os animais da floresta vão se reunindo para abrir e descobrir quê fruto é esse. Pouco pode a Preguiça, também pode pouco quem tem quatro pés, Paca, Tatu-galinha, Anta ou Quati. Nem a suçuarana de pelagem vermelha que não teme confusão. Nem Jacaré-açu, Boto ou Pirarucu. Fruto redondo e duro! Bichos do ar, da terra e da água nada conseguem e o fruto castanho-vermelho vai rolando pela floresta, enrolando o leitor pelo emaranhado de traços e rastros da fauna brasileira até as mãos de uma menina Kaiapó. Ela pega do facão e, num golpe só... estará resolvido o mistério!
Nas planícies da África, contra o vento seco, crescia uma árvore maravilhosa, carregada de frutos também vermelhos, bem vermelhos, redondos como melões, suculentos como tâmaras e o aroma... Ah! o aroma das mais doces mangas. Porém, uma enorme serpente vivia enrolada ao tronco e apenas cederia passagem àquele que dissesse o nome da árvore.
O Elefante, a Girafa, a Zebra, o Macaco e a Tartaruga andavam famintos – mas, você sabe, a fome dá coragem, garra, velocidade e persistência. Um a um, eles vão consultar o Rei dos Animais que muito longe morava a fim de descobrirem o nome da árvore e do fruto cobiçado.
BOJABI, A ÁRVORE MÁGICA, de Dianne Hofmeyr e Piet Grobler, tradução de Carolina Maluf (Biruta, 2012), é outra narrativa em lengalenga. O perigo não estava no caminho a ser desenrolado debaixo do sol, que é rei de calor, nem na força do monarca da floresta africana que é o Leão... A Zebra tropeçou na língua e disse: Bongani! O Macaco coçou a cabeça: Munjani? O Elefante, justo ele: Umfani! Quem haveria de guardar consigo e lembrar-se do nome da árvore mágica, a Tartaruga ou a Girafa? Pois saiba, o perigo à conservação da vida sempre é perder a memória!
17 de setembro de 2014
não importa onde
Peter O'Sagae
Já não importa onde você esteja, quando possui um sonho, uma imaginação aberta para as demais pessoas, porque sonhar fechadamente é sinal de timidez e egoísmo. Mente fechada, fachada sobre a qual o tempo pousa e seca, não oxigena, não transforma o que permanece secretamente guardado no peito, na alma, na correnteza do sangue. Sonhar exige coragem. É, eu penso hoje assim. Amanhã desejo mudar. E também gostaria de ler poucos livros. Talvez você não compreenda isto, nada me fadiga tanto que um livro ser igual aos livros do dia anterior.
Pois, acordo toda manhã buscando temas de inspiração. E escrevo, quando os encontro... “Era uma vez um rei. E o rei se chamava Alexandre.” Seus olhos estão sonolentos, olhando ainda uma página que já passou... Um pássaro à esquerda, página que é rápida passagem para o pequeno e grande leitor. O pássaro, no entanto, tem o corpo vermelho e chamará nossa atenção por trás das grades de metal delicado, feito Alexandre sentado entre as colunas de mármore. O trono é vermelho, um par de asas. E isso é uma me-tá-fo-ra...
E fora do castelo, terras e terras, mares e mares, Anna Cunha pintou uma paisagem verde para o texto de Alaíde Lisboa: O AVIÃO DE ALEXANDRE (Peirópolis, 2013). Em uma linguagem simples e pausada, que as palavras se repetem sem repetir ideias, a história narra o desejo do menino rei abarcar,
num só lance, o vasto olhar sobre os domínios do mundo. Como muito ainda teríamos de aprender, antes que Santos Dumont pudesse inventar o avião, será um barco que Alexandre arremessará para o alto no rastro de duas águias... Sem limites para o sonho, o menino pensava, inspirava-se e pesquisava as oportunidades tão próximas de si. Sonhar o futuro é uma bela aprendizagem para o leitor.
E o vislumbre pode unir pessoas – tal é o argumento do austríaco Heinz Jansich, a bordo de O AVIÃO DOS SONHOS, registrando o diálogo de dois meninos sentados no banco de uma praça. Enquanto esperam os pais, seus olhos encontram um superjato cruzando o céu, um trem, um barco a vela, piratas, caubóis, índios, uma lesma com propulsão ultra-veloz, uma baleia voando como nuvem cheia de tempestade... Samuel e seu amigo alimentam a imaginação um do outro, é isso o que importa e aí está toda a cena da brincadeira. Com tradução de Elisa Zanetti, as ilustrações do dinamarquês Søren Jessen fundem os dois espaços: o banco da praça e o abraço da fantasia (Biruta, 2012).
Talvez o maior o sonho da linguagem seja vestir um poema. E aí podemos crer que tudo durma – cegonha, enguias, e vislumbre um futuro – fogo, aleluia, cavalinhos-marinhos – e, por fim, agite-se – tapete, coruja, rio, arranha-céu... Um dos maiores livros em minha estante, 40 por 28 centímetros, bem lembra o jornal que todo dia Oswald de Andrade abriria no Esplanada hotel: uma janela. É um livro, um livro cujo título é um convite para pensar...
O TAMANHO DO MEU SONHO, do escritor Przemyslaw Wechterowicz e da ilustradora Marta Ignerska, premiados autores poloneses, conta com uma recriação sugestiva de Bronislawa Altman Mello (Biruta, 2010).
Na língua original, Wielkie marzenia significa apenas “grandes sonhos”, e a obra poderia ser vista e lida como uma galeria exibindo o grande sonho de diferentes animais e objetos habitualmente inanimados. Mas temos aqui um pouco mais. No título em português, uma presença que diz “meu sonho” e comigo vem conversar, e vejo-me a pensar também qual o tamanho do meu sonho. Pois a tradutora personificou cada coisa, cada criatura. E o que era quase uma legenda, um verso rápido com gosto de trava-língua, virou uma pequena sequência narrativa. Se não era possível traduzir todos os sons, a escolha foi manter uma insólita visão sobre o mundo.
Jetka:
jeszcze jeden dzien zycia.
Aleluia (ou efemérida):
mais um dia de vida.
A aleluia reclama:
nessa minha vida tão curtinha, eu tinha
de viver mais um dia de muita alegria.
Piec:
chociaz na godzinke
zamienié sie w chmurę.
O forno:
uma hora, porém,
me transformo em nuvem.
O forno pede gritando:
eu queria ser uma nuvenzinha
nem que fosse por uma horinha.
* Acima, o texto original em polonês, seguido de uma tradução +/- literária/literal e as soluções narrativas de Bronislawa Altman Mello, respectivamente.
Já não importa onde você esteja, quando possui um sonho, uma imaginação aberta para as demais pessoas, porque sonhar fechadamente é sinal de timidez e egoísmo. Mente fechada, fachada sobre a qual o tempo pousa e seca, não oxigena, não transforma o que permanece secretamente guardado no peito, na alma, na correnteza do sangue. Sonhar exige coragem. É, eu penso hoje assim. Amanhã desejo mudar. E também gostaria de ler poucos livros. Talvez você não compreenda isto, nada me fadiga tanto que um livro ser igual aos livros do dia anterior.
Pois, acordo toda manhã buscando temas de inspiração. E escrevo, quando os encontro... “Era uma vez um rei. E o rei se chamava Alexandre.” Seus olhos estão sonolentos, olhando ainda uma página que já passou... Um pássaro à esquerda, página que é rápida passagem para o pequeno e grande leitor. O pássaro, no entanto, tem o corpo vermelho e chamará nossa atenção por trás das grades de metal delicado, feito Alexandre sentado entre as colunas de mármore. O trono é vermelho, um par de asas. E isso é uma me-tá-fo-ra...
E fora do castelo, terras e terras, mares e mares, Anna Cunha pintou uma paisagem verde para o texto de Alaíde Lisboa: O AVIÃO DE ALEXANDRE (Peirópolis, 2013). Em uma linguagem simples e pausada, que as palavras se repetem sem repetir ideias, a história narra o desejo do menino rei abarcar,
num só lance, o vasto olhar sobre os domínios do mundo. Como muito ainda teríamos de aprender, antes que Santos Dumont pudesse inventar o avião, será um barco que Alexandre arremessará para o alto no rastro de duas águias... Sem limites para o sonho, o menino pensava, inspirava-se e pesquisava as oportunidades tão próximas de si. Sonhar o futuro é uma bela aprendizagem para o leitor.
E o vislumbre pode unir pessoas – tal é o argumento do austríaco Heinz Jansich, a bordo de O AVIÃO DOS SONHOS, registrando o diálogo de dois meninos sentados no banco de uma praça. Enquanto esperam os pais, seus olhos encontram um superjato cruzando o céu, um trem, um barco a vela, piratas, caubóis, índios, uma lesma com propulsão ultra-veloz, uma baleia voando como nuvem cheia de tempestade... Samuel e seu amigo alimentam a imaginação um do outro, é isso o que importa e aí está toda a cena da brincadeira. Com tradução de Elisa Zanetti, as ilustrações do dinamarquês Søren Jessen fundem os dois espaços: o banco da praça e o abraço da fantasia (Biruta, 2012).
Talvez o maior o sonho da linguagem seja vestir um poema. E aí podemos crer que tudo durma – cegonha, enguias, e vislumbre um futuro – fogo, aleluia, cavalinhos-marinhos – e, por fim, agite-se – tapete, coruja, rio, arranha-céu... Um dos maiores livros em minha estante, 40 por 28 centímetros, bem lembra o jornal que todo dia Oswald de Andrade abriria no Esplanada hotel: uma janela. É um livro, um livro cujo título é um convite para pensar...
O TAMANHO DO MEU SONHO, do escritor Przemyslaw Wechterowicz e da ilustradora Marta Ignerska, premiados autores poloneses, conta com uma recriação sugestiva de Bronislawa Altman Mello (Biruta, 2010).
Na língua original, Wielkie marzenia significa apenas “grandes sonhos”, e a obra poderia ser vista e lida como uma galeria exibindo o grande sonho de diferentes animais e objetos habitualmente inanimados. Mas temos aqui um pouco mais. No título em português, uma presença que diz “meu sonho” e comigo vem conversar, e vejo-me a pensar também qual o tamanho do meu sonho. Pois a tradutora personificou cada coisa, cada criatura. E o que era quase uma legenda, um verso rápido com gosto de trava-língua, virou uma pequena sequência narrativa. Se não era possível traduzir todos os sons, a escolha foi manter uma insólita visão sobre o mundo.
Jetka:
jeszcze jeden dzien zycia.
Aleluia (ou efemérida):
mais um dia de vida.
A aleluia reclama:
nessa minha vida tão curtinha, eu tinha
de viver mais um dia de muita alegria.
Piec:
chociaz na godzinke
zamienié sie w chmurę.
O forno:
uma hora, porém,
me transformo em nuvem.
O forno pede gritando:
eu queria ser uma nuvenzinha
nem que fosse por uma horinha.
* Acima, o texto original em polonês, seguido de uma tradução +/- literária/literal e as soluções narrativas de Bronislawa Altman Mello, respectivamente.
13 de março de 2014
deram os peixes a voar
O.O Sagae: Ilutrações Comparadas
O peixe do poeta se pescava com palavras dentro d’água, morria afogado no ar. Também ele dizia em verdade e prosa: “Um dia na vida de um peixe dá para viver muita coisa.” Não sei quando, em que rio onde, deram os peixes a voar pela imaginação que jamais adormece nas páginas dos livros ilustrados para crianças. Olhos são mesmo peixinhos. Do dentro de meninos e meninas agora escorrem os cardumes em algo de céu e calabouço. É tempo de melancolia.
Ilustração de Alicia Baladan realizada em 2011 para CÉU MENINO, do poeta italiano Alessandro Riccioni (Pulo do Gato, 2013).
Thais Beltrame para BENJAMIN, POEMA COM DESENHOS E MÚSICAS, narrativa de Biagio D’Angelo (Melhoramentos, 2011). [saiba+]
Alexandre Rampazo nas ilustrações para CAIXINHA DE GUARDAR O TEMPO, de Alessandra Roscoe (Gaivota, 2013). [saiba+]
O peixe do poeta se pescava com palavras dentro d’água, morria afogado no ar. Também ele dizia em verdade e prosa: “Um dia na vida de um peixe dá para viver muita coisa.” Não sei quando, em que rio onde, deram os peixes a voar pela imaginação que jamais adormece nas páginas dos livros ilustrados para crianças. Olhos são mesmo peixinhos. Do dentro de meninos e meninas agora escorrem os cardumes em algo de céu e calabouço. É tempo de melancolia.
Ilustração de Alicia Baladan realizada em 2011 para CÉU MENINO, do poeta italiano Alessandro Riccioni (Pulo do Gato, 2013).
Thais Beltrame para BENJAMIN, POEMA COM DESENHOS E MÚSICAS, narrativa de Biagio D’Angelo (Melhoramentos, 2011). [saiba+]
Alexandre Rampazo nas ilustrações para CAIXINHA DE GUARDAR O TEMPO, de Alessandra Roscoe (Gaivota, 2013). [saiba+]
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