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1 de abril de 2024

várias primaveras

Quero roubar 111 POEMAS PARA CRIANÇAS, que vi no @clubequindim, para minha coleção de livros de Sérgio Capparelli. A antologia, lançada em 2003, reúne textos inéditos e outros tantos retirados de títulos que foram publicados e republicados, desde a coletânea BOI DA CARA PRETA (1983) e, portanto, pode ser considerada uma comemoração. Agora vão mais de 40 anos, com certeza, e mesmo sendo outono retiro da estante as várias primaveras... Doideira de leitor-colecionador, poderia ser outro poema e também viajar através de outros livros, propondo uma comparação.

TIGRES NO QUINTAL (1989) com ilustrações de Gelson Radaelli, pela Editora Kuarup. E vou te contar uma coisa: o poema não está na quarta edição publicada pela Global, com os traços de Orlando (2008); é que já constava de POESIA VISUAL (2000) que contou com o projeto gráfico de Ana Cláudia Gruszynski. Ao longo dos anos, o poema foi adquirindo novas vizinhanças pelas páginas afora. Num rápido voo do olhar, espiamos, ao lado do Jacaré Letrado, no livro organizado por Vera Aguiar com Simone Assunção e Sissa Jacoby, il. Laura Castilhos (Projeto, 1997).

Sérgio Capparelli é poeta mineiro
ou gaúcho, nascido em Belo Horizonte?
Repórter brasileiro ou chinês?

Roubo ou não roubo o livro,
@renatanakano ? Hoje é 1 de abril.

Deu até saudade da revista Tigre Albino,
quem aí se lembra?

#sergiocapparelli
#dobrasdapoesia
#poesiavisual #poesia
🧡 #quemtemquindimtem

17 de fevereiro de 2021

o projeto da poesia

Domingo eu tava lendo POESIA FORA DA ESTANTE e lembrando o tempo bom, sem muito dinheiro (não que hoje seja diferente) e vivia economizando por meses, esperando acontecer uma feira bienal por aqui... havia ouvido Dilan Camargo falar do livro, num certo evento à tarde na biblioteca Monteiro Lobato. Era dezembro de 1995. Erguendo-se nos joelhos, com braço alto, do meio da plateia, falou ele de uma antologia corajosa feita por um grupo de pesquisadoras da PUC/RS e publicada por uma pequena editora gaúcha. Quem era aquele homem, eu ainda não sabia, que editora seria aquela que se chamava Projeto?

Encontrei o livro meses e meses depois, vindo a ser um guia e um companheiro de viagens rumo às aulas na pedagogia pelo interior catarinense. Tão logo eu voltava pra casa, POESIA FORA DA ESTANTE voltava para dentro da estante a fim de descansar, não pegar pó, nem dar oportunidade pro azar.

"A ideia deste livro surgiu da certeza de que a poesia não tem idade. Aqui vamos encontrar os mais variados poemas, muitos deles não escritos diretamente para crianças. Afinal, a poesia de gente grande pode passar pelo crivo dos pequenos leitores. Versos que mimetizam os sentimentos humanos, através de arranjos de sons, ritmos e imagens, podem mobilizar as crianças, que reconhecem a própria interioridade estampada no achado original de novas formas poéticas. Tal fato acontece devido à equivalência entre os elementos sonoros, imagéticos e estruturais, que convergem para o mesmo eixo de sentido, simulando, em todos os níveis, a idéia que se quer representar. O prazer advém, assim, da familiaridade dos temas percorridos pela literatura e também da descoberta de uma linguagem inusitada, recheada de recursos antes não percebidos. São jogos iterativos e gratuitos, que reorganizam a realidade próxima da infância em esquemas mentais (de entendimento) e corpóreos (de sons e ritmos, a matéria orgânica do poema), fazendo com que o cotidiano possa ser visto e sentido como nunca o fora antes."
POESIA FORA DA ESTANTE, org. Vera Aguiar, Simone Assumpção e Sissa Jacoby, foi ilustrado com miniaturas de Laura Castilhos (Projeto, 1995) #dobrasdapoesia

29 de julho de 2020

a ema e outras cabeças de pássaros

Há duas semanas uma ave marrom-acinzentada, a ema – também chamada nandu ou xuri – tornou-se o símbolo de nossa brasilidade reprimida. Foi na tarde de 13 de julho: rejeitando agrados, a Rhea americana bicou o homem que ninguém (com um mínimo de discernimento) já não engole mais. Bicou, bicou bonito.

De outro lado, quarentenava comigo outra linha de pensamento a respeito dos gêneros narrativos mais apropriados para o ambiente emocional em que vivemos – uma reflexão incerta que nasceu após tomar parte do júri de um concurso literário. Que histórias desejamos retirar do passado, quais outras propor no presente e, afinal, o que esperamos lembrar no futuro? Temos agora necessidade de realismo ou visões românticas, contos curtos ou novelas que nos enredem, anedotas ou ditirambos? Ainda que não seja minha intenção compartilhar as breves escolhas a que cheguei intimamente, digo que a fábula aparenta ser um dos gêneros mais fortalecidos e favoráveis para o momento.


Arrisco-me a pensar como a fábula foi um gênero que nasceu letrado e fortuitamente imiscuiu-se às tradições orais e anônimas, talvez porque simplesmente um ouvido e outro mais capturaram a breve forma de narração e sem dificuldades a transmitiram de viva voz e orelhadas a outrem... Gênero narrativo em que a linguagem se dobra sobre si mesma, articulando divertimento e uso prático, elementos da ficção e a autenticação de conselhos sobre a experiência e o previsível, a fábula exige, graças às vozes de animais em seu discurso, ler a aparência e a essência, o dito e o não-dito, a intenção e o que denominamos acaso, a perda e o ganho. É tanto um gênero verbal quanto visual que administra a fala e o gesto; a autoridade de uma fábula se dilui em fabliaux, uma forma da poesia narrativa francesa medieval que escapa ao didático-moralizante, mas jamais menos moral ou instrutivo! Mas a fábula também é tableau, uma alegoria, uma imagem do pensamento. O espírito da coisa, eu dizia nas aulas, é mesclar em seu genes o que é da crônica e da fotografia como nós conhecemos talvez com maior proximidade.


Podemos sempre discutir o que é a verdade ao longo da história da evolução humana, desde a mais alta antiguidade, presos que estamos nas múltiplas malhas de fazer corresponder os fatos e o discurso sobre os fatos. Este é o problema comum a muitas tradições filosóficas que fizeram uso do conceito travestido em imagem. Veja só, mesmo a identidade de um dos mais importantes sábios e sacerdotes no Egito, tal era Thoth, vivendo por volta de 2,500 a.C. não escaparia, após a morte, à confabulação de seu legado em uma divina imagem animal.

Eterno escriba dos deuses, portador da verdade, Thoth mostra-se com cabeça de íbis no panteão do tempo dos faraós. A ele eram atribuídas as invenções da geometria e da astronomia, e particularmente o poder de cura. Às ciências abstratas e às ciências da observação, entre os filósofos do passado, ligava-se o domínio da medicina. Todas essas matérias pertenciam a Thoth e ele teria afirmado: “O homem nada sabe, mas é chamado a tudo conhecer.”

Da cabeça de Thoth, nossa memória pode carregar séculos e repensar se um signo religioso ou filosófico pode ou não estar na remota raiz das fábulas, convertendo-se em usos novos, signo político, signo estético e finalmente signo utilitário em diferentes épocas.

Vejamos isto: as colagens de Max Ernst.


A vida de um artista equivale à sua obra, como um recorte de seu sistema de pensamento, uma dobra de fala e imagens na ilusão de que podemos “abocanhar” o todo por uma parte? Ora, ora, se abrirmos a Wikipédia, nos deparamos com dados biográficos do autor de UNE SEMAINE DE BONTÉ (1934).

Max Ernst, aos 25 anos, fora convocado para lutar na Primeira Guerra Mundial pelo serviço militar alemão. O horror à guerra faria o artista escrever: “Max Ernst morreu em 1º de agosto de 1914. Ressuscitou em 11 de novembro de 1918, na forma de um rapaz que queria ser mágico e pretendia descobrir os mitos de seu tempo”. Torna-se assim curioso seu processo de despersonalização através do discurso, colocando-se na terceira pessoa, deslocando a si mesmo para o campo das coisas-que-se-vê: é impossível ao homem reconhecer-se como sujeito em uma realidade caótica. Esta é sua crítica.

Também através da arte, Ernst tornou intenso o seu fascínio por pássaros. Em algumas pinturas, ele apresenta um alter ego sob o nome LopLop e chegou mesmo a sugerir que este personagem pictográfico era uma extensão de si mesmo, a partir de uma confusão entre aves e humanos em sua infância: Max Ernst conta que, numa noite, acordou e descobriu que seu querido pássaro havia morrido; alguns minutos depois, seu pai anunciava que sua irmã havia nascido! Afinal, onde nos encontramos e encontramos nossos rostos?


Voei livremente dos livros para crianças para o surrealismo prenhe de dadá e ao passado que invento para as fábulas como fórmulas mágicas de cura. E tenho em mãos um poema de Maria Elena Walsh (1964), com boa tradução de Gláucia de Souza e as iluminações de Angela Lago, em ZOO LOUCO (Projeto, 2011)
Caso as Cobras fossem tão gabolas,
se usassem calças, luvas, cartolas
e lenços de seda feitos
não haveria jeito:
ficariam tão feias como outrora.

A redução da fábula à forma do limerique não diminui o desnudamento do homem sob a máscara animal. Ao virar a página, encontro um comentário visual sobre nossos hábitos que extrapola em alguns decibéis a escuta do poema. A narrativa é clara; a crítica necessária é nutritiva de leituras como a gema de um ovo, uma novidade renovada.


Em outro livro, as contradições humanas são evitadas desde o ninho. Com o texto verbal de Ana Rosa Costa e as ilustrações de Odilon Moraes, CASA DE PASSARINHO (Positivo, 2018) promove um reforço à vida organizada e amena, por todos os cômodos da imaginação.



Da provocação da arte ao signo utilitário da literatura em prosa e imagens, a realidade da fábula permite pequenos reflexos, grandes reflexões. E o acaso-sem-esforço me traz um parágrafo do manifesto dadá 1918
*** Toda obra de pintura ou plástica é inútil; que ela seja um monstro que faça medo aos espíritos servis, e não adocicada para adornar os refeitórios dos animais com roupas humanas, ilustrações desta triste fábula da humanidade.
Fragmento extraído do livro organizado por Gilberto Mendonça Teles: VANGUARDA EUROPEIA E MODERNISMO BRASILEIRO (1975, 17.ed. Vozes, 2002) p. 140 e destas e outras cabeças de aves e pássaros, eu volto a ema e a memefacção da fábula.



13 de julho de 2020

um pé de vento



☆ UMA VOZ DISTANTE chama Íris e um adeus põe-se no olhar. É tempo de voltar. É tempo de ir para casa e enfrentar distâncias. A menina vai porque sabe que o sol sempre retorna e amanhã é tempo de novas descobertas. E o menino Cristalino? De onde ele veio? Para onde ele foi? Ninguém sabe. Talvez seja imaginação transparente e brilhante como cristal. A árvore diz que ele ficou grudado nos olhos da menina. Por falar nisso, que tal subir numa árvore, pintar as folhas, sentir o vento? Aproveite agora que o dia passa ligeiro e tempo de criança é mansinho, mansinho. ☆


Um fim de história que deseja não terminar com suas metáforas, empréstimos e metonímias — UM PÉ DE VENTO, fábula poética e ilustrações de André Neves @neves.ilustra @projetoeditora (2007) pp. 29-30 #FiqueBem #FiqueFirme #FiqueEmCasa #AbreAspas2020




Abaixo, uma resenha publicada no site
DOBRAS DA LEITURA, Ano VIII - N.º 51 - jan. 2008

O amor poderá ser vento ou invenção? E um cata-vento também cata coração de menina? De onde virá o nome de cristal e hinos que pregará o amor nos olhos da menina? Desde a primeira vez que a viu, Íris não mais se separou da árvore. Com ela passava o tempo sentindo passar o vento, tanta afinidade entre a menina e a árvore, cada uma com seu temperamento.

Surpresa mesmo aconteceu no dia que vem depois de outro dia e a leve Íris encontrou um menino dormindo no silêncio da sombra da árvore. E fez um tudo para não despertar o sono que embalava o menino e ficar ali apenas olhando... Mas quis o vento, ou a invenção do autor, rodar o cata-vento que ela trazia nas mãos!


André Neves confabula imagens e ritmos, tanto em sua prosa quanto em sua ilustração, fazendo com que a utopia dos cenários — com flores, caracóis de ventos e texturas tingidas em turquesa, coral, ambarino, magenta, esmeralda e outras cores, ao fundo, — reflua para o interior de um discurso verbal cuidadosamente enrodilhado com escolhas lexicais reiterativas, tramando efeitos sonoros repetitivos que giram e variam frase a frase. Sobre estes relevos de sons e significados, no redemoinho do próprio texto, como na página ilustrada, parece existir uma coreografia realizada por ambos os personagens como se vivendo um gesto contínuo: “O menino despertou assustado, olhando para baixo, enquanto a menina olhava para cima, vendo o menino acordado.” Tudo isso provoca embriaguez, especialmente aos ouvidos, fazendo com que certas sensações permaneçam como extensão visual ou duração de um estado poético.

Há um um rico conjunto de imagens no texto verbal, como numa cena em que a menina corre “ao redor da árvore para rodar o vento no cata-vento”, enquanto o menino, mesmo parado e encostado à árvore, gira (seus olhos, sua atenção, sua vida) “como girassol sentindo o sol que brilhava nos olhos da menina” e “seu coração já rodopiava tão forte quanto o cata-vento na mão da menina”. Num texto assim, com espelhos e danças especiais, qual mesmo o nome do amor pregado à menina dos olhos dos olhos da menina?

23 de setembro de 2016

palavras ao Zoo

peter O.ô sagae


Com que se parecem todas as manchas no corpo da girafa? Com todos os encantos da zoologia, neste imagiário de Jesús Gabán! Com certeza, não se trata apenas de uma coleção de animais nem só mais um livro de figuras... mas é tudo isso e mais um jogo para leitores de muitas idades que gostem de ciência e poesia, descobrindo as famílias de cada espécie, as semelhanças nos hábitos e na roupagem, também nas cores e nos nomes, contudo as semelhanças nas diferenças. Este livro se chama ZOO #editoraprojeto (2012) #jesusgaban #imagiario #livrodeimagem


Quem eu vejo? Um rinoceronte indiano do século XVI ou Clara, a rinoceronte, com sua casca tão grosso e escura... E, como laços, à sua volta voam borboletas multicores! Paquiderme é bicho casca-grossa como uma escavadeira, um tatu-bola na carapaça sanfonada, um besouro rola-bosta e até mesmo um caranguejo.


O que esses pássaros têm em comum com um mandril, e o mandril com um palhaço, e o palhaço com a palhoça?


Notívagos!
Olhos são faróis e vaga-lumes, mas são olhos
os olhos da Caligo, a borboleta-coruja?


Aqui eu penso: a girafa é
uma arca ou o baobá dos animais...

23 de outubro de 2013

para aprisionar uma canção

Peter O’Sagae


Se me fosse dada a ordem para fazer uma antologia para falar de meninos e pássaros, começaria com os versos de Carlos Queiroz Telles encontrados em seu RELATÓRIO DE VIAGEM (SECSP/Livraria Martins, 1983), livro comemorativo dos 25 anos de poesia do autor que me chegou pelas mãos de Rita Okamura em outubro de 1993. Coincidência ou não, releio “Primeiro, primário” com suas metonímias e imagens que jamais poderia esquecer:
Para aprisionar
a canção de um pássaro
cautelosamente
o menino arma seu laço
– mas o pássaro
desprezando o laço
vem pousar no seu braço
e o coração do menino
canta mais
do que o coração do pássaro.
Ao ler O MENINO-VAZIO, livro de imagem de Jean-Claude R. Alphen (Jujuba, 2012), os versos de Carlos Queiroz imediatamente vieram pousar ante meus olhos. Já na capa anuncia-se a intenção do menino, cabeça-de-laço rumo ao pássaro. A narrativa ilustra o esforço de prender o que nasceu livre e livre deveria ser – o pássaro e sua canção...


Entretanto, mesmo vindo o pássaro para dentro do menino-vazio, dando-lhe voz e asas para viver fora de sua solidão, mesmo assim, o menino não ficou satisfeito, trocando o pássaro por outro, maior, mais enfeitado e mais canoro. Voou mais alto, é verdade, voou – mas, a felicidade não lhe foi mais duradoura que a antiga companhia do pequeno pássaro.


Ao ler TOM, com texto e ilustrações de André Neves (Projeto, 2012), meus olhos se prendem e se perdem na poesia da imagem, desde a árvore de pássaros que gesta um tímido menino. O que há ali dentro é silêncio, ou canção?


E dentro da cabeça de Tom? Pois este é o desafio para o irmão do menino. Por que Tom gosta da solidão dos pensamentos, por que não brinca, nem diz o que sente? Onde vivem e voam os seus sonhos? É então que se abrem as asas da narrativa, na duplicação do espaço imaginativo: o coração do menino canta mais que mil pássaros para libertar os pés da realidade incomunicável. Tom dança completamente em uma outra linguagem, na linguagem dos sentimentos, no tom da verdadeira amizade.


É importante que todos tentem entender. “A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos a ajudar a viver.” Palavras de Tzvetan Todorov. É importante entender o tom, e outros meninos, e outros pássaros...


* TODOROV, T. Literatura em perigo (DIFEL, 2012) p.76.

14 de março de 2013

recortes e citações poéticas para o alto levam

Três livros para jovens leitores, por Peter O’Sagae


POEPLANO, de Dilan Camargo (Projeto, 2010) com ilustrações de Ana Claudia Gruszynski. O título do poema “A musa e o mouse” bem resume o programa poético do autor em sua obra: novos contextos para uma voz que ressoa virtualmente através dos tempos de amor juvenil, dos primeiros queixumes às cantigas contendo estribilhos: “Você não me fere com a mão/ me fere com seu olhar de distração.” E o respiro que se ouve, e se sente, longo, discursivo, como se palavra fosse laço para prender os sentimentos de alguém. Versos que aqui recorto é língua que não estala na boca, apenas na tela: “Você é um voce/ sem circunflexo / um pequeno ome/ sem H e sem M/ um ser sem nexo”. Dilan propõe dilemas e fugas, entre viver e esperar, conversas de MSN e chamadas de SMS que se perdem, controle-delete.  Ao fim de 96 páginas, a dúvida: se haveria algo mais breve, que versos ninguém esquece?

“Minha vida é ler
o nome na lista
o sangue na pista
os cacos de vidro
os brancos do livro
a febre de sentir
a ânsia de partir.”

VAGALOVNIS, de Antonio Barreto (Autêntica, 2011) com colagens de Diogo Droschi. Já o sumário se apresenta como Embarques, Escalas, Paradas, Baldeações... e os poemas adentram o leitor na noite renovada dos velhos plenilúnios, entre palavras comuns e esdrúxulas que os sapos coaxam, palavra-valises que aqui e ali se soltam, embaralhadas com os vagalumes e alguns neologismos. Este é o jogo, palavra-colagem, “quem somos nós?/ quem seremos?” para cada um buscalevar(-se) entre objetos voadores nau-identificados com a própria viagem. A poética de Antonio Barreto é uma teia de aranha que me entrelaça com a força do surrealismo e a velocidade de uma surrealesma.

“quando será
o minuto elétrico
o hipotético
instante
milimétrico
em que esse
milagre poético
acontecerá?”

PÉS DE ARAGEM, de Marco de Menezes (Bipolar, 2007). O livro não pertence a um catálogo de literatura juvenil, mas os versos que contém são extremamente joviais, no sentido da leveza que inspiram. O eu-lírico atravessa a rua difícil, a viela enlameada, a passagem improvável, mas, desde o primeiro poema, desperta milonga, uma estrela turquesa, luas pequeninas e confessa com zelo e felicidade as cantigas que espia de cada janela entreaberta. Penso, qual poema dar a um jovem leitor? Marco de Menezes utiliza palavras e efeitos de cores, aliterações e cintilações fotográficas que entram pelos poros e ouvidos. A isso dá-se o nome de sinestesia, o que provoca insônia em olhares de pedra. E copio e colo inteiro, aqui um poema:
escritos a estilete

por cima das nuvens
uma luz mais branca
se inclinará rumo ao chão
de terra e pasto
até tocar a velha árvore
 
rente à árvore a luz
– filete de jasmim
em permanente branco –
soçobrará contida a cicatriz
o raso e o fundo
da figura irregular que abriga
desde a cor verde do passado
o teu nome e o meu
escritos a estilete

4 de abril de 2012

um ilustrador chamado andersen

peter o.sagae


Juntamente aos poemas de Gláucia de Souza, o livro DO ALTO DO MEU CHAPÉU (Projeto, 2011) revela um aspecto pouco conhecido da personalidade incomum de Hans Christian Andersen. Quem imaginaria passar uma tarde com o delicado escritor ouvindo suas histórias, enquanto ele, tesoura na mão, muito hábil e preciso, seguisse o fio tímido da própria voz, recortando papéis dobrados duas, quatro, oito vezes... até que uma inesperada figura saltasse simetricamente diante dos olhos de grandes e pequenos, atentos?


Pois é sobre esse canteiro de imagens de papel recortado (chamadas papercuts) que a fantasia de Gláucia de Souza se debruçou – e ela inventa, acrobata, imitar os movimentos de mímicos e bailarinos que pertencem, ora aos desenhos, ora os sonhos do escritor dinamarquês. São versos simples que pulam, desconcertantes, reconsertados pela rima, confortáveis no humor, no chiste e nos disparates.


Destaque, destaque para o poema narrativo “Um tonto e outro tanto”, mais os instantes flagrados em leveza e miudezas “Para viajar em cisne” e “Em cada frasco”, como a vida de Andersen sempre sugere: um espanto, um minuto, um sopro frio que vem do mar, gnomos, um jardim que não estava em seu próprio mundo.


2 de abril de 2012

dia de ervilhas

Dobras da Leitura recebeu...


Irreverência comandada por Sylvia Orthof: ERVILINA E O PRINCÊS, ou DEU A LOUCA EM ERVILINA é um reconto de pernas pro ar, publicado originalmente em 1986 com ilustrações da própria autora, agora, com colagens de Laura Castilhos (Editora Projeto, 2009). Princesas delicadas talvez já não existam... apenas umas sirigaitas que saem por aí, aos pulinhos... Quem disse que o príncipe vai conseguir casar?


Pequenas Grandes Histórias é uma coleção bem humorada de recontos de histórias bem conhecidas. Com bastante movimento, Eva Montanari ilustrou A PRINCESA E A ERVILHA, em uma versão feita por Roberto Piumini e traduzida por Daniela Bunn (Positivo, 2010). Principalmente na imagem, a história ganha um acréscimo no desfecho. Será que alguém teria roubado a ervilha do museu real?


Simone Bibian decidiu subir as cortinas e mostrar o que aconteceu por trás das cenas do conto A PRINCESA E A ERVILHA, com ajuda dos desenhos de Sandra Ronca (Scortecci, 2011). Enquanto o desastrado lacaio procura o grão de ervilha que deixou cair no chão do museu, Gertrudes, a criada do castelo, narra os fatos enquanto varre a sujeira para debaixo do tapete. Pelo menos, enquanto não é interrompida...