Quero roubar 111 POEMAS PARA CRIANÇAS, que vi no @clubequindim, para minha coleção de livros de Sérgio Capparelli. A antologia, lançada em 2003, reúne textos inéditos e outros tantos retirados de títulos que foram publicados e republicados, desde a coletânea BOI DA CARA PRETA (1983) e, portanto, pode ser considerada uma comemoração. Agora vão mais de 40 anos, com certeza, e mesmo sendo outono retiro da estante as várias primaveras... Doideira de leitor-colecionador, poderia ser outro poema e também viajar através de outros livros, propondo uma comparação.
TIGRES NO QUINTAL (1989) com ilustrações de Gelson Radaelli, pela Editora Kuarup. E vou te contar uma coisa: o poema não está na quarta edição publicada pela Global, com os traços de Orlando (2008); é que já constava de POESIA VISUAL (2000) que contou com o projeto gráfico de Ana Cláudia Gruszynski. Ao longo dos anos, o poema foi adquirindo novas vizinhanças pelas páginas afora. Num rápido voo do olhar, espiamos, ao lado do Jacaré Letrado, no livro organizado por Vera Aguiar com Simone Assunção e Sissa Jacoby, il. Laura Castilhos (Projeto, 1997).
Sérgio Capparelli é poeta mineiro
ou gaúcho, nascido em Belo Horizonte?
Repórter brasileiro ou chinês?
Roubo ou não roubo o livro,
@renatanakano ? Hoje é 1 de abril.
Deu até saudade da revista Tigre Albino,
quem aí se lembra?
#sergiocapparelli
#dobrasdapoesia
#poesiavisual #poesia
🧡 #quemtemquindimtem
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1 de abril de 2024
8 de fevereiro de 2021
foi assim que
dobrasdaleitura | reencontrando os mistérios da noiva-animal "Entre as folhas do verde O", essa bonita vogal solta em meu nome e no conto de Marina Colasanti: os desejos de UMA IDÉIA TODA AZUL (1979), com a saudade dos oblíquos acentos agudos brilhantes e outras ortografias...
🧡 #quemtemquindimtem
"Foi assim que o príncipe a viu. Metade mulher, metade corça, bebendo no regato. A mulher tão linda. A corça tão ágil. A mulher ele queria amar, a corça ele queria matar. Se chegasse perto será que ela fugia? Mexeu num galho, ela levantou a cabeça ouvindo. Então o príncipe botou a flexa no arco, retesou a corda, atirou bem na pata direita. E quando a corça-mulher dobrou os joelhos tentando arrancar a flexa, ele correu e a segurou, chamando homens e cães.
"Levaram a corça para o castelo. Veio o médico, trataram o ferimento. Puseram a corça num quarto de porta trancada.
"Todos os dias o príncipe ia visitá-la. Só ele tinha a chave. E cada vez se apaixonava mais. Mas corça-mulher só falava a língua da floresta e o príncipe só sabia ouvir a língua do palácio.""
🧡 #quemtemquindimtem
7 de julho de 2020
história de uma gata
☆ ME ALIMENTARAM,
me acariciaram,
me aliciaram,
me acostumaram.
O meu mundo era o apartamento.
Detefon, almofada e trato,
todo dia filé mignon
ou mesmo um bom filé... de gato.
Me diziam, todo momento:
fique em casa, não tome vento.
Mas é duro ficar na sua
quando à luz da lua
tantos gatos pela rua
toda a noite vão cantando assim:
Nós, gatos, já nascemos pobres,
porém, já nascemos livres.
Senhor, senhora, senhorio,
felino, não reconhecerás.
De manhã eu voltei pra casa,
fui barrada na portaria,
sem filé e sem almofada,
por causa da cantoria.
Mas agora o meu dia-a-dia
é no meio da gataria
pela rua virando lata
eu sou mais eu, mais gata,
numa louca serenata,
que de noite sai cantando assim:
Nós, gatos, já nascemos pobres,
porém, já nascemos livres.
Senhor, senhora, senhorio,
felino, não reconhecerás. ☆
Parte do musical OS SALTIMBANCOS, de Sergio Bardotti e Luiz Enriquez, com tradução de Chico Buarque (1977), "A história de uma gata" é aqui ilustrada com a colagem em papel de S&onia Magalhães @globaleditora (1996) pp. 14-16 #FiqueFirme #AbreAspas
1 de julho de 2020
vermelho amargo
☆ AO ERGUER OS OLHOS DO LIVRO, o olhar da mãe vinha vestido com um novo luar — eu invejava. Em cada página virada ela se remoçava, afaga pelas viagens, amores, incômodos. O livro aberto era seu berço e seu barco, em suas páginas ela se transmutava. Eu suspeitava que o embaraço das letras amarrava segredos que só o coração decifra. Mas uma certeza me vigiava: ler era meu único sonho viável. ☆
Um parágrafo da narrativa autobiográfica de Bartolomeu Campos de Queirós — VERMELHO AMARGO (2011), livro relançado pela @globaleditora (2017) pp. 19-20 #FiqueBem #AbreAspas2020
[outros livros] de Bartolomeu Campos de Queirós
apresentados anteriormente em Dobras da Leitura:
- A árvore
- Ah! Mar...
- Flora
- Mais com mais dá menos
- Mário
- O ovo e o anjo
- O rio
- Os cinco sentidos
- Para criar passarinho
- Rosa dos ventos
- Sei por ouvir dizzzer
- Tempo de voo
13 de abril de 2018
o chão é o mapa de tudo
Peter O'Sagae
Um livro sempre começa em outro livro, ponte para a vida e para os sonhos semeados na vida de um autor. Isso posso dizer do universo poético visual de Lúcia Hiratsuka, refazendo seus passos de um desenho para uma confissão, de uma palavra breve a uma novela, dos antigos ideogramas às suas próprias ilustrações, das antigas lendas à própria voz, enfim, de um conjunto de gestos familiares de sua infância à constante reelaboração de um quintal, sob o signo do imaginário...
Aí já não se tem mais a vida, mas a sugestão sobre ela.
O livro CHÃO DE PEIXES (Pequena Zahar, 2018), tão longamente esperado e conhecido em forma de esboços e rascunhos por diversos amigos de Lúcia Hiratsuka, possui uma gestação de muitas estações, paradas e volteios. Podemos anunciar que virá a ser o primeiro livro de poesia da autora, porém desconfio que isso não seja verdade.
Abro o livro, ao acaso, para encontrar um haicai. Em outras páginas, a estrutura rígida da tradição poética japonesa se desfaz no acento lento de uma voz que arrasta, que sabe, um graveto pelo quintal de outras combinações de som e imagens. Lúcia sempre quis contar histórias com seus traços e não escapou à fabula: eis, então, um apólogo sobre a exuberância, a cor, a forma, a simplicidade, numa predileção por vários domingos, entre a abóbora e a berinjela.
Mas onde tudo isso começa? Qual o mapa de seus livros?
Mudemos o tom: em outubro de 1997, Lúcia havia terminado de ilustrar o livro Batiyan, vem brincar! do casal Marilda e Guilherme del Campo.
O desenho era ainda bem suportado pelo contorno contínuo, a aquarela que descia sobre o papel em meio a tinta acrílica e pontos opacos de guache. Mas era, na biografia na quarta capa, que Lúcia Hiratsuka começava a traduzir afetivamente suas vivências:
A descoberta dos ideogramas e da própria imaginação se apresenta em contraste e complementariedade, acerca dos valores ancestrais japoneses e de sua necessária atualização a um modo brasileiro de ser. Aos filhos e netos de orientais, isto é muito claro: o rosto, a língua, o código, um lugar no passado que não nos pertenceu. Para superar a ambivalência, Lúcia Kyoko, como a personagem de Os livros de Sayuri (2008), requer para si outro modo de reconhecer-se:
Sim, o quintal, na obra de Madame Hiratsuka (como brincam os amigos), é um lugar de transposições simbólicas. Entre a casa e as estradas do mundo, o quintal se define como um lugar onde se deseja permanecer e, simultaneamente, que se deve atravessar. Em muitos livros da autora, podemos encontrar sua fixação aos meios móveis: desde a travessia de uma menina, ao modo de Chapeuzinho Vermelho, na narrativa visual Um rio de muitas cores (1999), o outro barco que afetuosamente balança a memória da avó materna Orie (2014), os bisavós barqueiros, caminhos líquidos que alcançam novas paisagens e cidades; por terra, roda, linha de ferro e asfalto: a bicicleta de O guardião da bola (2015), o fusca de A visita (2011), Na janela do trem (2013), O caminhão (2017), este último com a dedicatória: para aqueles que carregam o cheiro da terra e as cores de longe.
Os caminhos todos já estavam desenhados, numa distração numa corrida de caracóis ou no parentesco sem fim das formigas... Sabe o segredo de Drummond? No meio do caminho tinha uma pedra, uma montanha! E ela teve de subir, subir muito alto. Em seguida, descer e descer... O objeto da percepção transfigura-se em um objeto da imaginação.
Assim, as páginas de CHÃO DE PEIXES são quadros de outra memória. Cada abertura apresenta um fotograma em palavras e sumi-ê, o desenho gestual que não admite retoques, expresso tradicionalmente com tinta negra. Nas pinceladas de Lúcia Hiratsuka, no entanto, adaptou-se e absorveu cores. São vinte composições, ou registros, terminando com uma outra sorte de amadurecimento: metalinguagem.
Imagens
Pinturas feitas de instantes,
de chuvas e luas,
entardeceres e noites escuras,
de toques e flores
na memória.
//.
/.
.//
P. S. Com CHÃO DE PEIXES, Lúcia Hiratsuka é a vencedora do Prêmio Sylvia Orthof 2018, concedido pela Biblioteca Nacional à Literatura Infantil (13 de nov. 2018).
Primeiro livro de poesia da autora, este chão é um exemplo de persistência na criação literária: palavras e imagens vieram amadurecendo brandamente, cuidando igualmente ao longo dos anos do tempo de recepção do leitor. Este é o chão do seu quintal, extenso chão de sonhos, sons ouvidos ao longe, dias em festa em suas memórias afetivas... Enfim, o quintal hoje é para todos nós!!!
Um livro sempre começa em outro livro, ponte para a vida e para os sonhos semeados na vida de um autor. Isso posso dizer do universo poético visual de Lúcia Hiratsuka, refazendo seus passos de um desenho para uma confissão, de uma palavra breve a uma novela, dos antigos ideogramas às suas próprias ilustrações, das antigas lendas à própria voz, enfim, de um conjunto de gestos familiares de sua infância à constante reelaboração de um quintal, sob o signo do imaginário...
Aí já não se tem mais a vida, mas a sugestão sobre ela.
O livro CHÃO DE PEIXES (Pequena Zahar, 2018), tão longamente esperado e conhecido em forma de esboços e rascunhos por diversos amigos de Lúcia Hiratsuka, possui uma gestação de muitas estações, paradas e volteios. Podemos anunciar que virá a ser o primeiro livro de poesia da autora, porém desconfio que isso não seja verdade.
extenso chão verde
ouço um mugido ao longe
eterno domingo
Abro o livro, ao acaso, para encontrar um haicai. Em outras páginas, a estrutura rígida da tradição poética japonesa se desfaz no acento lento de uma voz que arrasta, que sabe, um graveto pelo quintal de outras combinações de som e imagens. Lúcia sempre quis contar histórias com seus traços e não escapou à fabula: eis, então, um apólogo sobre a exuberância, a cor, a forma, a simplicidade, numa predileção por vários domingos, entre a abóbora e a berinjela.
Mas onde tudo isso começa? Qual o mapa de seus livros?
Mudemos o tom: em outubro de 1997, Lúcia havia terminado de ilustrar o livro Batiyan, vem brincar! do casal Marilda e Guilherme del Campo.
O desenho era ainda bem suportado pelo contorno contínuo, a aquarela que descia sobre o papel em meio a tinta acrílica e pontos opacos de guache. Mas era, na biografia na quarta capa, que Lúcia Hiratsuka começava a traduzir afetivamente suas vivências:
“Meus avós chegaram ao Brasil 70 anos atrás e se instalaram próximo à cidade de Duartina, interior de São Paulo. Nessa região chamada ASAHI, que significa sol da manhã, plantaram café, caqui, laranjas e criaram bicho da seda.Acredito que aí estejam as primeiras sementes, pista e peixe, germinando no chão. E talvez nem pudesse ser de outra maneira: o primeiro poema do velho/novo livro intitula-se “Quintal” fazendo referência a um tempo mágico, lendário e pessoal, à lua e ao coelho que lá habita fritando bolinhos. Contudo a tradição oriental cede a um imaginário diferente. No lugar de bolinhos de arroz, o eu-lírico de Lúcia aguardaria bolinhos de chuva!!!
“Eu também nasci e morei lá até os 9 anos. Meu Dityan me ensinava a ler e escrever em japonês e minha Batiyan me ensinava a fazer origamis e contava as lendas do Japão que ela ouviu da Batiyan dela.
“Naquela região ainda não havia luz e quando começava a escurecer, nossas brincadeiras prediletas eram contar estrelas e caçar vagalumes. A minha Batiyan, hoje com 96 anos, ainda vive e fica feliz em ver meus trabalhos, pois ela sempre se lembra do primeiro peixinho que desenhou para mim no chão do terreiro e que me despertou para o desenho.”
A descoberta dos ideogramas e da própria imaginação se apresenta em contraste e complementariedade, acerca dos valores ancestrais japoneses e de sua necessária atualização a um modo brasileiro de ser. Aos filhos e netos de orientais, isto é muito claro: o rosto, a língua, o código, um lugar no passado que não nos pertenceu. Para superar a ambivalência, Lúcia Kyoko, como a personagem de Os livros de Sayuri (2008), requer para si outro modo de reconhecer-se:
“Vou rabiscando no chão do quintal. Uso uma vareta, faço riscos bem grandes, lembrando o que ensinou o professor. Cada jeito de fazer os traços. De cima para baixo, da esquerda para a direita. Traço reto, traço em curva, traço que parece um pingo de chuva. Um bom jeito de estudar, assim, no chão, pena ter que apagar depois. Gosto de olhar para a minha letra. Torta, mas minha [...] Já sabia escrever: casa, pássaro, peixe, manhã, caminho, capim. Depois apagava e riscava de novo.” (pp. 59-60)A escrita-desenho revolve não apenas o chão de terra batida. Traz silêncios que falam e “mais rabiscos e rabiscos mil”, persistência em possuir o inefável da criação singela, efêmera, de pouca de extensão. Mas... como não ver que o quintal vira mar?
Sim, o quintal, na obra de Madame Hiratsuka (como brincam os amigos), é um lugar de transposições simbólicas. Entre a casa e as estradas do mundo, o quintal se define como um lugar onde se deseja permanecer e, simultaneamente, que se deve atravessar. Em muitos livros da autora, podemos encontrar sua fixação aos meios móveis: desde a travessia de uma menina, ao modo de Chapeuzinho Vermelho, na narrativa visual Um rio de muitas cores (1999), o outro barco que afetuosamente balança a memória da avó materna Orie (2014), os bisavós barqueiros, caminhos líquidos que alcançam novas paisagens e cidades; por terra, roda, linha de ferro e asfalto: a bicicleta de O guardião da bola (2015), o fusca de A visita (2011), Na janela do trem (2013), O caminhão (2017), este último com a dedicatória: para aqueles que carregam o cheiro da terra e as cores de longe.
Os caminhos todos já estavam desenhados, numa distração numa corrida de caracóis ou no parentesco sem fim das formigas... Sabe o segredo de Drummond? No meio do caminho tinha uma pedra, uma montanha! E ela teve de subir, subir muito alto. Em seguida, descer e descer... O objeto da percepção transfigura-se em um objeto da imaginação.
Assim, as páginas de CHÃO DE PEIXES são quadros de outra memória. Cada abertura apresenta um fotograma em palavras e sumi-ê, o desenho gestual que não admite retoques, expresso tradicionalmente com tinta negra. Nas pinceladas de Lúcia Hiratsuka, no entanto, adaptou-se e absorveu cores. São vinte composições, ou registros, terminando com uma outra sorte de amadurecimento: metalinguagem.
Imagens
Pinturas feitas de instantes,
de chuvas e luas,
entardeceres e noites escuras,
de toques e flores
na memória.
//.
/.
.//
P. S. Com CHÃO DE PEIXES, Lúcia Hiratsuka é a vencedora do Prêmio Sylvia Orthof 2018, concedido pela Biblioteca Nacional à Literatura Infantil (13 de nov. 2018).
Primeiro livro de poesia da autora, este chão é um exemplo de persistência na criação literária: palavras e imagens vieram amadurecendo brandamente, cuidando igualmente ao longo dos anos do tempo de recepção do leitor. Este é o chão do seu quintal, extenso chão de sonhos, sons ouvidos ao longe, dias em festa em suas memórias afetivas... Enfim, o quintal hoje é para todos nós!!!
16 de dezembro de 2015
Um pouco selvagem.
Peter On Instagram
Quase certo que as crianças sintam ter vindo de um lugar distante, ninguém se lembra exatamente, talvez uma floresta onde se aprendeu a falar com os corvos, a comer como um pequeno urso esfomeado e a rolar tal qual uma raposa na toca... Emily Hughes permite pensar quanto os adultos são animais estranhos, brincando com o conceito de SELVAGEM que pouco tem frequentado a literatura infantil brasileira. Ops! #pequenazahar (2015) #literaturainfantil #emilyhughes
É preciso olhar. O colecionador é quem vive preso às figuras do velho álbum de animais exóticos que cobiça, é quem vive. Preso ao grave reflexo de si em frente ao orgulhoso espelho. É preciso. Caçar e contar histórias, favorecer-se delas. Uma hora parte o homem, entretanto desperta o tigre da fotografia. O olhar que caça atravessa as sombras e as molduras do território livre da imagem, em seu enigma SELVAGEM #editoraglobal (2010) #livrodeimagem #rogermello
Literalmente, ONDE ESTÃO AS COISAS SELVAGENS. Não se faz aí uma pergunta, mas a afirmativa lembrança de que uma viva alegria existe dentro de nós. Vontade divina, instinto para ser grande... Talvez sob o domínio da imagem e uma imaginação pouco livre, as línguas neolatinas usaram compreender que as coisas remotas são *monstros*, talvez esquecidas do sentido puro do maravilhoso. Vamos deixar o rumor da festa começar. #mauricesendak (1963)
Quase certo que as crianças sintam ter vindo de um lugar distante, ninguém se lembra exatamente, talvez uma floresta onde se aprendeu a falar com os corvos, a comer como um pequeno urso esfomeado e a rolar tal qual uma raposa na toca... Emily Hughes permite pensar quanto os adultos são animais estranhos, brincando com o conceito de SELVAGEM que pouco tem frequentado a literatura infantil brasileira. Ops! #pequenazahar (2015) #literaturainfantil #emilyhughes
É preciso olhar. O colecionador é quem vive preso às figuras do velho álbum de animais exóticos que cobiça, é quem vive. Preso ao grave reflexo de si em frente ao orgulhoso espelho. É preciso. Caçar e contar histórias, favorecer-se delas. Uma hora parte o homem, entretanto desperta o tigre da fotografia. O olhar que caça atravessa as sombras e as molduras do território livre da imagem, em seu enigma SELVAGEM #editoraglobal (2010) #livrodeimagem #rogermello
Literalmente, ONDE ESTÃO AS COISAS SELVAGENS. Não se faz aí uma pergunta, mas a afirmativa lembrança de que uma viva alegria existe dentro de nós. Vontade divina, instinto para ser grande... Talvez sob o domínio da imagem e uma imaginação pouco livre, as línguas neolatinas usaram compreender que as coisas remotas são *monstros*, talvez esquecidas do sentido puro do maravilhoso. Vamos deixar o rumor da festa começar. #mauricesendak (1963)
27 de novembro de 2015
My Black Friday is bone...
Peter On Instagram
Com Rosa Amanda Strausz: SETE OSSOS E UMA MALDIÇÃO (2006) O olhar frio e coruscante da boneca de louça espanhola não é nada, o problema é quando ela começa a sorrir para você... Vozes zombam de sua razão e coragem. Vê agora um corpo debruçado no tapete, será seu? #editoraglobal (2013) #literaturafantastica #literaturajuvenil #rosaamandastrausz
My Black Friday is bone, com Machado de Assis: UM ESQUELETO (2015) O mar violento e calmo, sempre igual e diferente, ora escreve sobre a areia, ora apaga os traços... Uma viva adaptação do conto de 1875 para HQ mantendo seu clima de fina ironia e romantismo. #editorapulodogato #literaturafantastica #machadodeassis #hq roteiro #diegomolina desenhos #marciokoprowski
My Black Friday is bone, com Angela Lago: SETE HISTÓRIAS PARA SACUDIR O ESQUELETO (2002) É necessário humor para cada um de nós ouvir uma boa história de terror ou enfrentar nosso reflexo na página... Bem ali, nas dobras insuspeitadas, nossos ossos se unem, dançam e fulguram em sua trêmula brancura #companhiadasletrinhas #literaturainfantil #angelalago
Com Rosa Amanda Strausz: SETE OSSOS E UMA MALDIÇÃO (2006) O olhar frio e coruscante da boneca de louça espanhola não é nada, o problema é quando ela começa a sorrir para você... Vozes zombam de sua razão e coragem. Vê agora um corpo debruçado no tapete, será seu? #editoraglobal (2013) #literaturafantastica #literaturajuvenil #rosaamandastrausz
My Black Friday is bone, com Machado de Assis: UM ESQUELETO (2015) O mar violento e calmo, sempre igual e diferente, ora escreve sobre a areia, ora apaga os traços... Uma viva adaptação do conto de 1875 para HQ mantendo seu clima de fina ironia e romantismo. #editorapulodogato #literaturafantastica #machadodeassis #hq roteiro #diegomolina desenhos #marciokoprowski
My Black Friday is bone, com Angela Lago: SETE HISTÓRIAS PARA SACUDIR O ESQUELETO (2002) É necessário humor para cada um de nós ouvir uma boa história de terror ou enfrentar nosso reflexo na página... Bem ali, nas dobras insuspeitadas, nossos ossos se unem, dançam e fulguram em sua trêmula brancura #companhiadasletrinhas #literaturainfantil #angelalago
12 de agosto de 2015
na hora que a gataria souber cantar... e contar
peter o,sagae
Hora boa
para contar e imaginar gatos com a parlenda DOIS GATOS FAZENDO HORA, de Guilherme Mansur, com as ilustrações em colagens de Sônia Magalhães (SESI-SP Editora, 2013). Porém, não pense que temos aqui só uma mnemonia, não... O poeta vai aos números e às palavras, saltando entre os minutos de dez para daqui a pouco, dez em ponto, dez e um, dez e dois...
... até dez e lá vai pedrada, com um refinado e fácil senso de humor, contando como dois gatos brincam alternadamente em seu ritmo particular.
Por isso, não é à toa que a ilustração alterna formas cheias e vazadas, preto e branco, página adentro, página afora, com dois gatos que às vezes parecem muitos, às vezes enroscam-se e são um só, vejam só.
E os gatos da Sônia me fazem saltar para o passado – ou o presente. Hora boa para contar a “História de uma gata” e pensar por que, de noite, não podíamos cantar assim, imitando miados. Gato não serve apenas para aprender os números, as horas. Gato também ajuda a contar história, ou História, entenderam?
Do livro Os saltimbancos que a Sônia Magalhães também ilustrou...
Veja também a postagem anterior ☺ [aqui]
Hora boa
para contar e imaginar gatos com a parlenda DOIS GATOS FAZENDO HORA, de Guilherme Mansur, com as ilustrações em colagens de Sônia Magalhães (SESI-SP Editora, 2013). Porém, não pense que temos aqui só uma mnemonia, não... O poeta vai aos números e às palavras, saltando entre os minutos de dez para daqui a pouco, dez em ponto, dez e um, dez e dois...
... até dez e lá vai pedrada, com um refinado e fácil senso de humor, contando como dois gatos brincam alternadamente em seu ritmo particular.
Por isso, não é à toa que a ilustração alterna formas cheias e vazadas, preto e branco, página adentro, página afora, com dois gatos que às vezes parecem muitos, às vezes enroscam-se e são um só, vejam só.
E os gatos da Sônia me fazem saltar para o passado – ou o presente. Hora boa para contar a “História de uma gata” e pensar por que, de noite, não podíamos cantar assim, imitando miados. Gato não serve apenas para aprender os números, as horas. Gato também ajuda a contar história, ou História, entenderam?
Do livro Os saltimbancos que a Sônia Magalhães também ilustrou...
Veja também a postagem anterior ☺ [aqui]
9 de agosto de 2015
hora de largar a pata!
peter o'sagae
Quantas vezes sinto que não é preciso dizer nada, mas saber ouvir… Já disseram por aí que um conto é a poesia da alma popular; quando ela se faz voz, forma e força, a sabedoria então se revela. E hoje, domingo bom, recorto quadrados de uma história para compartilhar com a família – e suas crianças também.
Das recolhas dos irmãos Grimm,
você pode abrir estrada com OS MÚSICOS DE BREMEN, na tradução de Fernando Klabin, acompanhando as ilustrações muito vivas de Claudia Scatamacchia (Global, 2008).
Ou ainda ouvir Os quatro heróis, uma breve adaptação com melodias de Braguinha para a coleção Disquinho (1961), ou Os saltimbancos, musical infantil composto por Luiz Enriquez, libreto de Sergio Bardotti com tradução de Chico Buarque (Polygram, 1977), em afinadas [e atualizadas] montagens, cujo texto chegou em um livro com projeto gráfico e colagens de Sônia Magalhães (Global, 1999); ou assistir o filme Os saltimbancos Trapalhões (1981), a partir do musical – porém, com algumas novas canções de Chico Buarque para a trilha sonora.
Ora, entre a letra e a voz, livro ilustrado, disco, disquinho, filme, espetáculo – a imagem que o conto dos quatros amigos representa tem permanecido intacta! Ao longo do tempo, sinto que o significado tem sido um só, em busca de alimento, agasalho, abrigo e inteligência. Como diz Paul Zumthor
Quem me dera, dera um dia, arriscar uma adaptação.
E saber, de tudo isso, como está e o que pensa você...
* Imagens adicionais: Town Musicians, estátua de bronze confeccionada por Gerhard Marcks e instalada na cidade Bremen em 1953, fotografia: Torsten Krüger / BTZ Bremer Touristik-Zentrale; Embroidery Library; e Arthur Rackham (1909).
Quantas vezes sinto que não é preciso dizer nada, mas saber ouvir… Já disseram por aí que um conto é a poesia da alma popular; quando ela se faz voz, forma e força, a sabedoria então se revela. E hoje, domingo bom, recorto quadrados de uma história para compartilhar com a família – e suas crianças também.
Au, au, au, hi-ho, hi-ho
Miau, miau, miau, cocorocó
Essa história é mais velha que a história
Dos tempos de glória do velho barão
Quem não sabe de cor essa história
Refresque a memória e me preste atenção
Não sou eu quem repete essa história
É a história que adora uma repetição
Uma repetição [+]
Das recolhas dos irmãos Grimm,
você pode abrir estrada com OS MÚSICOS DE BREMEN, na tradução de Fernando Klabin, acompanhando as ilustrações muito vivas de Claudia Scatamacchia (Global, 2008).
Ou ainda ouvir Os quatro heróis, uma breve adaptação com melodias de Braguinha para a coleção Disquinho (1961), ou Os saltimbancos, musical infantil composto por Luiz Enriquez, libreto de Sergio Bardotti com tradução de Chico Buarque (Polygram, 1977), em afinadas [e atualizadas] montagens, cujo texto chegou em um livro com projeto gráfico e colagens de Sônia Magalhães (Global, 1999); ou assistir o filme Os saltimbancos Trapalhões (1981), a partir do musical – porém, com algumas novas canções de Chico Buarque para a trilha sonora.
Ora, entre a letra e a voz, livro ilustrado, disco, disquinho, filme, espetáculo – a imagem que o conto dos quatros amigos representa tem permanecido intacta! Ao longo do tempo, sinto que o significado tem sido um só, em busca de alimento, agasalho, abrigo e inteligência. Como diz Paul Zumthor
... o que concerne à poesia, a escritura parece moderna; a voz, antiga. Mas a voz "moderniza‐se" pouco a pouco: ela atestará um dia, em plena "sociedade do ter", a permanência de uma "sociedade do ser".Todos juntos! Era ainda num certo país…
Quem me dera, dera um dia, arriscar uma adaptação.
E saber, de tudo isso, como está e o que pensa você...
* Imagens adicionais: Town Musicians, estátua de bronze confeccionada por Gerhard Marcks e instalada na cidade Bremen em 1953, fotografia: Torsten Krüger / BTZ Bremer Touristik-Zentrale; Embroidery Library; e Arthur Rackham (1909).
5 de setembro de 2014
uma lição em azul
Peter o.O'Sagae
É preciso, pois, seguir a sua natureza íntima orientada para o Bem – esta é a mensagem que traz um belo apólogo de Tomi Ungerer – UMA NUVEM AZUL, com tradução de Tatiana Belinky (Global, 2011), uma obra originalmente produzida na Alemanha, em 2000. Na capa deste livro ilustrado, já despertam os primeiros significados no jogo palavra e imagem: sorridente, a nuvem azul paira acima das outras nuvens, brancas, brancas, de olhos fechados, amontadas na forma de um rebanho imenso...
A história começa com uma visão “particular” da pequena nuvem, acomodada, preguiçosa, talvez cheia de teimosia, recusando-se a chover quando todas as outras caíam a cântaros. Aparentemente, ela só desejava deitar e rolar pelo céu, sem se alterar quando as nuvens maiores vinham, disparando raios, intimidá-la. Ora, tudo que voa e atravessava a nuvem azul tingia-se com sua cor: uma pipa, as aves e os aviões também. E o pequeno leitor logo vê que não é do interesse de alguns homens ter cor de nuvem, nem cor de satisfação.
A nuvem azul, crescendo e viajando pelo mundo, aprendeu muito, não passava por aí despercebida. Coisas boas e curiosas aconteceram, até que ela encontrou uma cortina de fumaça subindo do chão e viu uma cidade consumida pela guerra, pelo ódio, pelo fogo. “Gente branca matava negros, negros assassinavam os vermelhos, os vermelhos perseguiam os amarelos, e os amarelos os brancos.”
A nuvem azul tomou a decisão mais importante de sua vida: deixar-se chover e trazer aos homens a igualdade de uma nova cor.
Tomi Ungerer revela, assim, a placidez da resistência, o cumprimento de um desígnio (como a atividade dos artistas em promover a paz) e ter os olhos abertos para todos!
É preciso, pois, seguir a sua natureza íntima orientada para o Bem – esta é a mensagem que traz um belo apólogo de Tomi Ungerer – UMA NUVEM AZUL, com tradução de Tatiana Belinky (Global, 2011), uma obra originalmente produzida na Alemanha, em 2000. Na capa deste livro ilustrado, já despertam os primeiros significados no jogo palavra e imagem: sorridente, a nuvem azul paira acima das outras nuvens, brancas, brancas, de olhos fechados, amontadas na forma de um rebanho imenso...
A história começa com uma visão “particular” da pequena nuvem, acomodada, preguiçosa, talvez cheia de teimosia, recusando-se a chover quando todas as outras caíam a cântaros. Aparentemente, ela só desejava deitar e rolar pelo céu, sem se alterar quando as nuvens maiores vinham, disparando raios, intimidá-la. Ora, tudo que voa e atravessava a nuvem azul tingia-se com sua cor: uma pipa, as aves e os aviões também. E o pequeno leitor logo vê que não é do interesse de alguns homens ter cor de nuvem, nem cor de satisfação.
A nuvem azul, crescendo e viajando pelo mundo, aprendeu muito, não passava por aí despercebida. Coisas boas e curiosas aconteceram, até que ela encontrou uma cortina de fumaça subindo do chão e viu uma cidade consumida pela guerra, pelo ódio, pelo fogo. “Gente branca matava negros, negros assassinavam os vermelhos, os vermelhos perseguiam os amarelos, e os amarelos os brancos.”
A nuvem azul tomou a decisão mais importante de sua vida: deixar-se chover e trazer aos homens a igualdade de uma nova cor.
Tomi Ungerer revela, assim, a placidez da resistência, o cumprimento de um desígnio (como a atividade dos artistas em promover a paz) e ter os olhos abertos para todos!
31 de agosto de 2014
a lição do passaredo
Peter o.O'Sagae
Chico Buarque e Francis Hime certamente não pensavam em literatura infantil ou fazer uma canção para crianças, quando escreveram a letra e a melodia de “Passaredo” para o filme A noiva da cidade, de Alex Viany (1976), cuja história, a partir de um argumento desenvolvido pelo cineasta e pioneiro Humberto Mauro, tomava como cenário a cidade ficcional de Catavento, em meio à zona da mata mineira, onde uma famosa atriz busca resgatar e viver a paz de suas raízes interioranas. Contudo, os políticos do lugarejo assediam a estrela no intuito de usarem sua influência nas causas que defendem... Ora, o tema musical funde-se a esse ambiente de tranquilidade prestes a romper-se – existe, realçada pelo arranjo instrumental, uma carga de aflição entre os sons das madeiras e a percussão acelerada cheia de estrídulos e alarmes. Bico calado, toma cuidado! Só um ouvinte incauto perguntaria: que homem vem aí ameaçando a liberdade do passaredo humano?
É viva a escolha lexical na construção do poema, com o chamamento das interjeições e os verbos no imperativo: ei, oi, ai, foge, vai, xô, xô, xô, some, anda, te esconde, voa, voa... E tamanho passaredo rapidamente viria pousar, com um arranjo mais calmo e as vozes do conjunto MPB-4, na trilha sonora de O sítio do pica-pau amarelo (1978). Humberto Werneck (1989) lembra como Chico trabalhou a letra, caçando pássaros nos livros e nas enciclopédias, e comenta que
Voaram agorinha três livros para cima da mesa...
No mesmo ano de 1976, o poeta português Sidónio Muralha entregava aos leitores brasileiros A DANÇA DOS PICA-PAUS, com ilustrações de Isabel Pires, hoje com traços e cores de Eva Furnari (Global, 1997). Brincando com a repetição e a divisão de umas poucas palavras, o autor não veio apenas falar de pássaros e outros bichos; ele solfeja ritmos e dialoga com a criança nos diferentes níveis da imaginação, dos afetos e dos valores que pretende despertar.
Nos últimos anos, tem sido grande a investidura em um discurso ecológico, solicitado pela Escola, e a própria poesia muitas vezes se repete nas aliterações e paronomásias exploradas no passado. Vamos ver e ouvir a nova informação literária?
FEIRA DAS AVES, de Jorge Fernando dos Santos e Cláudio Martins (Prumo, 2010), usa de rimas paralelas e traz um desabafo frente às gaiolas de um viveiro, despertando pena em gente e silêncio, tristeza, carranca e padecimento no passaredo aprisionado. O livro faz parte da coleção Natureza Viva e coube à ilustração um papel preponderante ao exibir vinte e duas aves coloridas, ainda que os traços de Cláudio Martins tendam para a estilização, como sempre, humanizando plantas e animais com olhares e expressões várias.
PASSARINHOS DO BRASIL: poemas que voam, de Lalau e Laurabeatriz (Petrópolis, 2013) apresenta-se às nossas mãos como um catálogo ilustrado de espécies que habitam os seis biomas brasileiros – pampas, mata atlântica, pantanal, cerrado, caatinga e floresta amazônica. O nome de cada ave funciona como o título de um texto muito breve, praticamente uma frase simples para as crianças não tropeçarem na linguagem, ao modo de slogans. É Laurabeatriz quem capricha nos detalhes ao retratar as particularidades de pássaros tão belos, quanto exóticos de nossa fauna.
Chico Buarque e Francis Hime certamente não pensavam em literatura infantil ou fazer uma canção para crianças, quando escreveram a letra e a melodia de “Passaredo” para o filme A noiva da cidade, de Alex Viany (1976), cuja história, a partir de um argumento desenvolvido pelo cineasta e pioneiro Humberto Mauro, tomava como cenário a cidade ficcional de Catavento, em meio à zona da mata mineira, onde uma famosa atriz busca resgatar e viver a paz de suas raízes interioranas. Contudo, os políticos do lugarejo assediam a estrela no intuito de usarem sua influência nas causas que defendem... Ora, o tema musical funde-se a esse ambiente de tranquilidade prestes a romper-se – existe, realçada pelo arranjo instrumental, uma carga de aflição entre os sons das madeiras e a percussão acelerada cheia de estrídulos e alarmes. Bico calado, toma cuidado! Só um ouvinte incauto perguntaria: que homem vem aí ameaçando a liberdade do passaredo humano?
É viva a escolha lexical na construção do poema, com o chamamento das interjeições e os verbos no imperativo: ei, oi, ai, foge, vai, xô, xô, xô, some, anda, te esconde, voa, voa... E tamanho passaredo rapidamente viria pousar, com um arranjo mais calmo e as vozes do conjunto MPB-4, na trilha sonora de O sítio do pica-pau amarelo (1978). Humberto Werneck (1989) lembra como Chico trabalhou a letra, caçando pássaros nos livros e nas enciclopédias, e comenta que
Famintos por visibilidade, alguns urubus de plantão logo quiseram vincular Chico Buarque à tão nobre causa ecológica. Profundo conhecedor desta espécie de urubus, quando indagado se havia aderido a algum movimento ecológico, o compositor, irônico, foi categórico: “Eu não entendo nada de bicho. Aliás, eu não gosto de bicho. Pra falar a verdade, eu detesto bicho.”Pois bem: na poesia para crianças, há mais amor aos pássaros ou às palavras?
Voaram agorinha três livros para cima da mesa...
No mesmo ano de 1976, o poeta português Sidónio Muralha entregava aos leitores brasileiros A DANÇA DOS PICA-PAUS, com ilustrações de Isabel Pires, hoje com traços e cores de Eva Furnari (Global, 1997). Brincando com a repetição e a divisão de umas poucas palavras, o autor não veio apenas falar de pássaros e outros bichos; ele solfeja ritmos e dialoga com a criança nos diferentes níveis da imaginação, dos afetos e dos valores que pretende despertar.
Nos últimos anos, tem sido grande a investidura em um discurso ecológico, solicitado pela Escola, e a própria poesia muitas vezes se repete nas aliterações e paronomásias exploradas no passado. Vamos ver e ouvir a nova informação literária?
FEIRA DAS AVES, de Jorge Fernando dos Santos e Cláudio Martins (Prumo, 2010), usa de rimas paralelas e traz um desabafo frente às gaiolas de um viveiro, despertando pena em gente e silêncio, tristeza, carranca e padecimento no passaredo aprisionado. O livro faz parte da coleção Natureza Viva e coube à ilustração um papel preponderante ao exibir vinte e duas aves coloridas, ainda que os traços de Cláudio Martins tendam para a estilização, como sempre, humanizando plantas e animais com olhares e expressões várias.
PASSARINHOS DO BRASIL: poemas que voam, de Lalau e Laurabeatriz (Petrópolis, 2013) apresenta-se às nossas mãos como um catálogo ilustrado de espécies que habitam os seis biomas brasileiros – pampas, mata atlântica, pantanal, cerrado, caatinga e floresta amazônica. O nome de cada ave funciona como o título de um texto muito breve, praticamente uma frase simples para as crianças não tropeçarem na linguagem, ao modo de slogans. É Laurabeatriz quem capricha nos detalhes ao retratar as particularidades de pássaros tão belos, quanto exóticos de nossa fauna.
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
Cláudio Martins,
Dobras da Poesia,
Editora Prumo,
Eva Furnari,
Global Editora,
Jorge Fernando dos Santos,
Lalau,
Laurabeatriz,
Peirópolis,
Sidónio Muralha
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