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29 de julho de 2020

a ema e outras cabeças de pássaros

Há duas semanas uma ave marrom-acinzentada, a ema – também chamada nandu ou xuri – tornou-se o símbolo de nossa brasilidade reprimida. Foi na tarde de 13 de julho: rejeitando agrados, a Rhea americana bicou o homem que ninguém (com um mínimo de discernimento) já não engole mais. Bicou, bicou bonito.

De outro lado, quarentenava comigo outra linha de pensamento a respeito dos gêneros narrativos mais apropriados para o ambiente emocional em que vivemos – uma reflexão incerta que nasceu após tomar parte do júri de um concurso literário. Que histórias desejamos retirar do passado, quais outras propor no presente e, afinal, o que esperamos lembrar no futuro? Temos agora necessidade de realismo ou visões românticas, contos curtos ou novelas que nos enredem, anedotas ou ditirambos? Ainda que não seja minha intenção compartilhar as breves escolhas a que cheguei intimamente, digo que a fábula aparenta ser um dos gêneros mais fortalecidos e favoráveis para o momento.


Arrisco-me a pensar como a fábula foi um gênero que nasceu letrado e fortuitamente imiscuiu-se às tradições orais e anônimas, talvez porque simplesmente um ouvido e outro mais capturaram a breve forma de narração e sem dificuldades a transmitiram de viva voz e orelhadas a outrem... Gênero narrativo em que a linguagem se dobra sobre si mesma, articulando divertimento e uso prático, elementos da ficção e a autenticação de conselhos sobre a experiência e o previsível, a fábula exige, graças às vozes de animais em seu discurso, ler a aparência e a essência, o dito e o não-dito, a intenção e o que denominamos acaso, a perda e o ganho. É tanto um gênero verbal quanto visual que administra a fala e o gesto; a autoridade de uma fábula se dilui em fabliaux, uma forma da poesia narrativa francesa medieval que escapa ao didático-moralizante, mas jamais menos moral ou instrutivo! Mas a fábula também é tableau, uma alegoria, uma imagem do pensamento. O espírito da coisa, eu dizia nas aulas, é mesclar em seu genes o que é da crônica e da fotografia como nós conhecemos talvez com maior proximidade.


Podemos sempre discutir o que é a verdade ao longo da história da evolução humana, desde a mais alta antiguidade, presos que estamos nas múltiplas malhas de fazer corresponder os fatos e o discurso sobre os fatos. Este é o problema comum a muitas tradições filosóficas que fizeram uso do conceito travestido em imagem. Veja só, mesmo a identidade de um dos mais importantes sábios e sacerdotes no Egito, tal era Thoth, vivendo por volta de 2,500 a.C. não escaparia, após a morte, à confabulação de seu legado em uma divina imagem animal.

Eterno escriba dos deuses, portador da verdade, Thoth mostra-se com cabeça de íbis no panteão do tempo dos faraós. A ele eram atribuídas as invenções da geometria e da astronomia, e particularmente o poder de cura. Às ciências abstratas e às ciências da observação, entre os filósofos do passado, ligava-se o domínio da medicina. Todas essas matérias pertenciam a Thoth e ele teria afirmado: “O homem nada sabe, mas é chamado a tudo conhecer.”

Da cabeça de Thoth, nossa memória pode carregar séculos e repensar se um signo religioso ou filosófico pode ou não estar na remota raiz das fábulas, convertendo-se em usos novos, signo político, signo estético e finalmente signo utilitário em diferentes épocas.

Vejamos isto: as colagens de Max Ernst.


A vida de um artista equivale à sua obra, como um recorte de seu sistema de pensamento, uma dobra de fala e imagens na ilusão de que podemos “abocanhar” o todo por uma parte? Ora, ora, se abrirmos a Wikipédia, nos deparamos com dados biográficos do autor de UNE SEMAINE DE BONTÉ (1934).

Max Ernst, aos 25 anos, fora convocado para lutar na Primeira Guerra Mundial pelo serviço militar alemão. O horror à guerra faria o artista escrever: “Max Ernst morreu em 1º de agosto de 1914. Ressuscitou em 11 de novembro de 1918, na forma de um rapaz que queria ser mágico e pretendia descobrir os mitos de seu tempo”. Torna-se assim curioso seu processo de despersonalização através do discurso, colocando-se na terceira pessoa, deslocando a si mesmo para o campo das coisas-que-se-vê: é impossível ao homem reconhecer-se como sujeito em uma realidade caótica. Esta é sua crítica.

Também através da arte, Ernst tornou intenso o seu fascínio por pássaros. Em algumas pinturas, ele apresenta um alter ego sob o nome LopLop e chegou mesmo a sugerir que este personagem pictográfico era uma extensão de si mesmo, a partir de uma confusão entre aves e humanos em sua infância: Max Ernst conta que, numa noite, acordou e descobriu que seu querido pássaro havia morrido; alguns minutos depois, seu pai anunciava que sua irmã havia nascido! Afinal, onde nos encontramos e encontramos nossos rostos?


Voei livremente dos livros para crianças para o surrealismo prenhe de dadá e ao passado que invento para as fábulas como fórmulas mágicas de cura. E tenho em mãos um poema de Maria Elena Walsh (1964), com boa tradução de Gláucia de Souza e as iluminações de Angela Lago, em ZOO LOUCO (Projeto, 2011)
Caso as Cobras fossem tão gabolas,
se usassem calças, luvas, cartolas
e lenços de seda feitos
não haveria jeito:
ficariam tão feias como outrora.

A redução da fábula à forma do limerique não diminui o desnudamento do homem sob a máscara animal. Ao virar a página, encontro um comentário visual sobre nossos hábitos que extrapola em alguns decibéis a escuta do poema. A narrativa é clara; a crítica necessária é nutritiva de leituras como a gema de um ovo, uma novidade renovada.


Em outro livro, as contradições humanas são evitadas desde o ninho. Com o texto verbal de Ana Rosa Costa e as ilustrações de Odilon Moraes, CASA DE PASSARINHO (Positivo, 2018) promove um reforço à vida organizada e amena, por todos os cômodos da imaginação.



Da provocação da arte ao signo utilitário da literatura em prosa e imagens, a realidade da fábula permite pequenos reflexos, grandes reflexões. E o acaso-sem-esforço me traz um parágrafo do manifesto dadá 1918
*** Toda obra de pintura ou plástica é inútil; que ela seja um monstro que faça medo aos espíritos servis, e não adocicada para adornar os refeitórios dos animais com roupas humanas, ilustrações desta triste fábula da humanidade.
Fragmento extraído do livro organizado por Gilberto Mendonça Teles: VANGUARDA EUROPEIA E MODERNISMO BRASILEIRO (1975, 17.ed. Vozes, 2002) p. 140 e destas e outras cabeças de aves e pássaros, eu volto a ema e a memefacção da fábula.



25 de novembro de 2016

sempre em casa

Peter O.ô Sagae


Era uma vez uma casa... Assim começa o premiado livro de Carolina Moreyra e Odilon Moraes. Uma casa onde toda a família poderia viver feliz... no entanto um dia se afogou e tornou-se vazia. Os olhos da mãe encheram-se de peixes. Os pés do pai levaram-no embora. O tempo passa, evidentemente que passa, como as páginas de um livro, e o menino descobre como é sentir-se em casa e caminhar. Entre duas casas. LÁ E AQUI #pequenazahar (2015)


Contar uma história ou uma experiência é escolher um ponto de vista – e o ponto de vista do menino para relatar a separação dos pais é a estratégia do discurso que empresta leveza a esse texto, jogando palavra e imagem entre metáforas, metonímias e momentos de silêncio. Inicialmente, temos o tempo do “era uma vez” permitindo que a casa e a extensão do jardim (com sapos, lago cheio de peixes, flores, dois cachorros e uma árvore habitada por passarinhos) revelem, por fora, o otimismo da vida lá dentro.

É este deslocamento do lugar do narrador que se torna índice do deslocamento que o personagem vivenciar no mundo narrado... No momento em que o conflito se instala, a realidade é invadida por uma percepção quase mágica: é a chuva que não cessa, o afogamento, o fim do jardim, a fuga de todos os animais. Os peixinhos que viviam no lago, conta o narrador, foram morar nos olhos da mãe... mas onde se fixam os olhos do menino? De onde vinha tamanha chuva?


A velha casa já não basta, necessita ser abandonada. Será preciso que o tempo passe e novas páginas surjam pelo caminho para escrever uma nova história. A narração verbal é uma confissão em pequenas frases, quase soltas, quase nada, apenas o essencial. Para cada leitor preencher os vazios.

A verdade é que a casa do mãe e a casa da mãe são equidistantes em conforto e afetos também. Quando se está aqui em uma casa, sempre haverá outra. Lá.


O livro LÁ E AQUI foi extremamente celebrado neste ano, recebendo o Prêmio FNLIJ – O Melhor para Criança 2016, indicado entre os 30 Melhores Livros da Revista Crescer e selecionado para o acervo de literatura infantil brasileira da Internationale Jugendbibliothek – IJB (Munique/Alemanha), através da lista THE WHITE RAVENS, publicada em outubro. Por fim, conquistou o 2o lugar da categoria Livro Infantil do 58o Prêmio Jabuti, concedido pela CBL.


17 de dezembro de 2015

Medo do Lobo? Não seja bobo...

Peter On Instagram


Notícias sempre chegam de outras paragens e de outros contos. A prima de mamãe tinha 7 filhos e só por muita sorte escaparam do Lobo. Mesmo morando na vila, Mamãe Cabra anda assustada, tudo pode acontecer a Lilo, Laila e Lulu... Uma história sobre antigos juízos e mudanças de hábito, com o chapéu e a echarpe vermelha de Aristide Bruant. MAMÃE TEM MEDO, de Beatrice Masini, il. Alireza Goldouzian, trad. Márcia Leite #editorapulodogato (2015)

 

Acorda o Lobo e lá vai ele, pé na estrada. Encontra um ratinho. "O senhor quer me comer?! Eu?! Mas eu sou magrinho!" - e com uma conversa fiada vão escapando também o porco-espinho, o sapo, o jabuti e hmmm, o touro! No final do caminho e ainda mais faminto, ele encontra a casa da vovó e o portão aberto... A FOME DO LOBO se sacia com bondade. Texto de Cláudia Maria de Vasconcelos, il. Odilon Moraes #editorailuminuras (2015) #literaturainfantil

 

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com o Lobo, mas correram com ele para o hospital onde foi atendido por uma ovelha branquinha e gentil que se derramou sobre o paciente em demasiadas atenções. O que era pura artimanha de lobo fingindo-se bonzinho, tomando remédio e até infecção sem reclamar, logo se transformou em uma insuspeitada paixão. O MAL DO LOBO MAU, de Cláudio Fragata, il. Luiz Maia #editorapositivo (2009) #literaturainfantil

8 de dezembro de 2015

Ler e ouvir Alice Vieira.

Peter O. Sagae*


Portas fechadas, corredores sem cores e as sombras a esconder os olhos de uma presença invisível e misteriosa. Talvez viesse a ser a própria Alminha-da-Senhora, ou a Outra-Pessoa de quem ninguém ousa falar. O silêncio retumba mais que outro ruído qualquer — e invade a infância de Marta. Seria preciso a ela permanecer imóvel como uma boneca de porcelana posta à exibição para as visitas posto que os seus passos pequenos, por mais leves que fossem, despertam sempre a casa e as crises de Flávia que-todos-diziam-ser-sua-mãe. Fato. A menina se convenceu de que houve uma troca, a acontecer coisas de mau destino que fez Flávia correr ao hospital como quem busca remédios para a dor de cabeça e, de lá, no entanto, retornaria com uma criança nos braços. Flávia jamais dizia seu nome, jamais saía de casa, nem durante as férias.
« Leonor costumava dizer que eu tinha nascido em berço de ouro, ao mesmo tempo que enchia a minha cabeça de pavores com a Alminha-da-Senhora querendo sair das paredes assim que anoitecia. Lembro-me de ter passado muito dias a espreitar pelo buraco da fechadura dos quartos fechados para ver se descobria, nalgum deles, o tal berço de ouro. Mas o ângulo da visão era fraco, e sempre o mesmo. Acabei por desistir. De resto, de que me serviria um berço de ouro? De certeza não iria poder brincar com ele, como acontecia com as bonecas de porcelana que o pai me dava no Natal e no dia dos meus anos. »
Envolta por uma atmosfera de segredos e histórias, iniciadas muito antes de seu nascimento, Marta refugia-se nas cantigas e nas aventuras do Príncipe Graciano pelas sete partidas do mundo tiradas pela velha e calorosa Leonor. Havia um tempo em que diligências cortavam planícies pelos corredores da casa e seu pai não era Martim, mas Touro Sentado, em conversações sobre alianças e emboscadas com o Coiote Vermelho. Leonor contava o passado quando sentia saudades ou quando se zangava com Flávia...

Em um texto que reflui tempos e nomes, Alice Vieira orquestra sombras e personagens com acordes distintos, humanamente possíveis, belos e densos, na pauta de sua escrita. O fraseado é todo melódico e até mesmo as palavras mais estranhas ou expressões desconhecidas acomodam-se dóceis e ingenuamente bem humoradas. É neste embalo que lentamente o prisma de emoções adquire movimento e refratando vai um espectro de luzes sobre os moradores, uns vivos e outros ausentes, da casa. Variados enredos ressoam iluminados pela maestria da autora e articulados pela narração de Marta, em diálogo muito próximo com alguém que não se vê (“Sabes como era Leonor: às vezes as palavras saíam-lhe da boca e, quando ia por elas, já elas estavam ditas.”) — e o leitor bem poderá sentir-se tentado a ocupar o incômodo lugar de ouvinte igualmente observado pelos olhos vigilantes de Ana Marta.

* Extraído de Dobras da Leitura n. 50, nov. 2007. O Vitrina Mundi: Portugal. Alice Vieira. OS OLHOS DE ANA MARTA, capa: Yili Rojas (Edições SM, 2005).


Ler e ouvir Alice Vieira. “Quando estou triste, gosto de ter flores perto de mim. Mas não é preciso que tenham perfume ou que sejam daquelas de caules muito altos, que dormem na vitrine das floras. Só preciso que estejam perto de mim. Que eu olhe para elas e sinta que estou tão acompanhada como se elas fossem pessoas.” Pois família é uma sintonia delicada, releio hoje ROSA, MINHA IRMÃ ROSA (1979) #editorapositivo (2014) #alicevieira #odilonmoraes


Ler e ouvir Alice Vieira, mais o verso de Adriana Calcanhoto e o rumor de Gil Vicente por uma estrada que são as muitas casas de Branca. “De repente caíam em cima de mim todas as lembranças daquele dia na Feira – ontem? há uma semana? há um ano? sonhei? –, eu a perguntar porque a minha mãe não respondia... e toda a gente a dizer coisas sem sentido.” MEIA HORA PARA MUDAR A MINHA VIDA #editorapeiropolis (2014) #alicevieira #annacunha

1 de dezembro de 2015

dia odilon

Peter On Instagram


Outra pedra fez o menino tropeçar na felicidade -uma tartaruga - tão bonita quanto uma lua esverdeada no golfão dos ares. Daí, o correto batismo: Lua. Mas, por quanto tempo durariam as pedras, o inalcansável satélite, a solidão e a saudade? O encanto do livro PEDRO E LUA está na confirmação de que o essencial permanece invisível aos nossos olhos. #cosacnaify (2004) #literaturainfantil #odilonmoraes saiba [+] dobras da leitura: diante de nossos olhos


O sonho da poesia é tornar-se pintura através da multiplicidade de sons e acentos, enquanto, através da melodia, o tempo conquista materialidade espacial. Ler poesia é fazer durar. Quem duvida? ISMÁLIA, reflexo da existência, ou a loucura das palavras no voo-mergulho para o papel, é um livro debruçado sobre si mesmo, canto, desvario, dobras entre o céu e o mar. #cosacnaify (2006) #alphonsusguimaraens #odilonmoraes


Um abraço, um passeio: pai e filho no clima festivo das bandeirinhas nas ruas todas vestindo verde e amarelo. Uma loja -- O PRESENTE, a camisa da seleção brasileira. O sorriso. A vida e suas derrotas... Uma crônica vertida em livro de imagem para falar da amizade que fica e consola, de amadurecimento, novas vitórias. E, claro, de futebol. #cosacnaify (2010) #livrodeimagem #cronica #odilonmoraes saiba [+] dobras da leitura: a vida joga bola

28 de agosto de 2014

diante de nossos olhos

Dobras da Leitura 45, mai. 2007


Gosto dos antigos filmes de Georges Méliès.
Suas imagens caprichosas piscam em minha retina e


sobrepõem-se à figura de Pedro, a cabeça desprendendo-se leve para o alto. Cabeça de lua. Na página em preto e branco, nanquim vertido sobre o croqui, nada se parece pedra, nem peso parece possuir... Todo leitor sabe como
é doce deixar-se iludir pelas palavras. No entanto, uma imagem poderia mentir diante de nossos olhos?

Não sei... A primeira dupla-página do livro de Odilon Moraes: PEDRO E LUA (Cosac Naify, 2004) é, pois, essa surpresa e interrogação. Para os leitores mais experientes, a obra pode ser tomada como uma sincera homenagem a Manuel Bandeira, Raimundo Correia e Carlos Drummond de Andrade, apenas para chamar atenção aos nomes de uns poucos poetas e autores de “Satélite”, “Plenilúnio” e “No meio do caminho”, respectivamente.


Pois no meio do caminho de Pedro tinha um livro, onde lera que a lua era
uma grande pedra flutuando no céu. Então, o menino todo se encantara! Encontrou, encoberta por algumas palavras, uma afinidade mágica, admirável e mítica, que o faria sonhar e seguir adiante... A cada noite, Pedro ia juntando as pedrinhas que ele mesmo cismou e concordou consigo terem caído do alto


e, com essa alma mais lá que aqui embaixo, foi subindo uma montanha e asilou todas as pedras para ficarem mais próximas de casa, a lua... O esforço rumo ao aparente inútil é, realmente, sempre belo.

E, no meio do destino de Pedro, outra pedra o fez tropeçar na felicidade
– uma tartaruga – tão bonita quanto uma lua esverdeada no golfão dos ares. Daí, o correto batismo: Lua.


Esta é uma história de amizade verdadeira. Mas, por quanto tempo, durariam
as pedras, o inalcançável satélite, a solidão e a saudade? Eis o outro encanto do livro, a descoberta e a afirmação que o essencial permanece invisível aos nossos olhos.

Peter O'Sagae

6 de setembro de 2013

o esboço do pensamento

setembro na mesa 1


É a palavra sobre a imagem no livro ilustrado para crianças que encontramos em TRAÇO E PROSA: entrevistas com ilustradores de livros infantojuvenis por Odilon Moraes, Rona Hanning e Maurício Paraguassu (Cosac Naify, 2012), recontando uma história íntima da literatura infantil brasileira sob a perspectiva que mais atende ao interesse de leitores entre adultos e crianças: a ilustração, em primeira pessoa, em primeiro plano, nas conversas registradas dentro dos ateliês de doze grandes nomes.

Eliardo França, Rui de Oliveira, Eva Furnari, Alcy Linares, Ricardo Azevedo, Helena Alexandrino, Nelson Cruz, Marilda Castanha, Graça Lima, Mariana Massarani, Roger Mello e Angela Lago delineiam a ambição do livro ilustrado como uma linguagem única em nosso cenário editorial, abrindo os bastidores de seus sonhos e todo o esforço criativo para estabelecer laços de comunicação e afetos com os leitores. “Para o preparo das entrevistas”, afirmam os organizadores, “consultamos a bibliografia existente sobre o assunto. Apesar de escassa, achamos alguns temas comuns nessas fontes, o que nos levou a dividir em três os tipos de abordagem que seriam de grande ajuda para nosso projeto. Elas foram denominadas por nós de histórico-sociológica, pedagógica e formalista. Essa classificação, mesmo não sendo completa, demonstrou-se suficientemente abrangente e útil para o propósito de definir as perguntas para as entrevistas.” Dentre os muitos desafios de recorte e método, os autores necessitaram eleger a geografia editorialmente demarcada por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e o curso da década de 1970 aos dias atuais, no generoso diálogo com quatro representantes de cada estado.


Em quase 250 páginas de espontaneidade, riso fácil, segredos, formação profissional, vidas envolvidas com livros e imagens, TRAÇO E PROSA oferece um panorama compreensivo a respeito da dinâmica de processos artísticos que, muitas vezes, ultrapassa o depoimento personalíssimo e vai esboçando ordens mais gerais da produção contemporânea. Um exemplo instigante que lá encontramos é o tema da autoria em três diferentes articulações – quando um autor escreve, depois outro ilustra; a parceria entre escritor e ilustrador; e, por fim, escritor-ilustrador como um só criador –, que implicam nas relações convencionais, contratuais e contextuais da leitura que se transportam para dentro livro ilustrado para crianças. Ora, se o conjunto das entrevistas não responde por uma formulação teórica única, positivamente enseja ser o objeto de análise e reflexão junto a muitos pesquisadores de editoração, teoria literária, pedagogia ou crítica genética, interessados em rever o estatuto da literatura infantil brasileira, no reconhecer a transformação da leitura entre palavras e imagens, redesenhando o conceito sobre o que é livro ilustrado para crianças.

24 de outubro de 2011

a vida joga bola

peter o'sagae


Livro-imagem ou livro de imagem narrativo, o que importa é a história que se inicia com um abraço e um passeio: pai e filho, no clima festivo das bandeirinhas enfeitando a cidade, as ruas todas vestindo verde e amarelo. Uma loja no caminho de ambos – e o presente, talvez insuspeitado, uma camisa oficial da seleção brasileira. O sorriso. Assim é a vida, nem precisa esperar para vestir a camisa 10 ;-) é uma festa só, uma expectativa, as ruas, a reunião com os amigos, a televisão, todos juntos, pra frente é que se joga, Brasil, um país campeão. Mas :(

... um braço suspenso no ar, um grito que não saiu do peito com bravura, um vazio, o presente desejado por tantos, sessenta milhões em ação, e que não veio...


O PRESENTE, de Odilon Moraes (Cosac Naify, 2010), talvez seja a mais extensa narrativa visual, publicada entre nós, neste gênero de livros para crianças e jovens. São, ao todo, 32 shots distribuídos diferentemente entre a capa, requadros e páginas-duplas que vão compondo três grandes sequências narrativas. Assim, à medida que as páginas avançam, cada unidade mostra-se bem delineada por sentimentos de surpresa e felicidade; depois, uma expectativa radiante e frustração; finalmente, a alegria imensa e ingênua do menino, sacudindo a poeira, dando a volta por cima, pois a história termina com um presente de maior significação para ele. Igualmente para nós.

Odilon Moraes faz livro de imagem narrativo em ritmo de crônica para falar da amizade que fica e consola, de amadurecimento, de vitória. E, claro, de futebol.

14 de outubro de 2010

com a palavra, o ilustrador



Livro organizado por Ieda de Oliveira, O QUE É QUALIDADE EM ILUSTRAÇÃO NO LIVRO INFANTIL E JUVENIL: COM A PALAVRA O ILUSTRADOR (DCL, 2008) é uma coletânea de artigos e depoimentos; graficamente caprichado, 216 páginas em couché brilhante e reproduções em cores, índice remissivo e orelha assinada por Nelly Novaes Coelho, assinalando, “nesta fabulosa, caótica, progressista e alienadora era da imagem”, uma irrevogável funcionalidade pedagógica da ilustração: “A palavra cria o texto, o qual serve de fonte para a criação da imagem, cuja tarefa é dialogar e expandir os sentidos do texto de modo a provocar, no leitor-aprendiz (a criança e o adolescente), o ‘olhar de descoberta’ que fará dele um leitor criativo.” É a imagem uma estratégia para materializar e mostrar os caminhos da interpretação?



Ponto alto, a simplicidade com que nos ensinam Odilon Moraes, o projeto gráfico do livro para crianças, e Ciça Fittipaldi, a narratividade da imagem. Eis um bom começo para a leitura dos artigos. Ambos apontam quais os vínculos que se produzem de um a outro código, num jogo incessante de construção e decifração: “Os temas estão colocados, em princípio, pela linguagem literária: uma história dá origem a uma imagem”, afirma Ciça, “a imagem, por sua vez, dá origem a uma história que, por sua vez, apresenta-se por meio de uma nova imagem, esta permitindo uma outra história e mais outra, alternativa que logo se transforma em outras imagens...” (2008: 103)

Os demais capítulos vêm nos trazendo ora informações mais técnicas, ora horizontes que sugerem novas pesquisas — um histórico da ilustração fechado ao século XIX, com Rui de Oliveira, as diferentes técnicas, com Renato Alarcão, e o uso das cores, com Cristina Biazetto; a relação palavra e imagem, por Marcelo Ribeiro, questões a respeito do pensamento, da leitura de imagens e do livro de imagens, por Marilda Castanha... São sete artigos, enfim.


E depois: as visadas pessoais sobre a ilustração e o livro ilustrado, no fazer e pensar de Ana Raquel, Ana Terra, André Neves, Angela Lago, Márcia Széliga, Maurício Veneza, Nelson Cruz, Regina Yolanda, Ricardo Azevedo, Rosinha Campos, Thais Linhares e três ilustradores portugueses: Gémeo Luís, João Vaz de Carvalho e Teresa Lima.

Nas fotos: capa, contracapa e dobras do livro organizado por Ieda de Oliveira: dupla página com Edvard Munch intertextualizado por Marilda Castanha, uma ilustração com recortes em papel craft de Gémeo Luís e a abertura do artigo de Renato Alarcão.

8 de agosto de 2010

debaixo de um guarda-silêncio

por Peter O’Sagae

Quando meu pai morreu, a minha vida parou. Eu não sabia ainda qual e quanto sentimento estava represado, que nome dar ao que sentia e como diminuir as lágrimas que se derramavam igualmente além desta existência. 2008 foi um ano em que se anteciparam à minha vontade um amigo-adulto que tive na infância chamado Agamenon, o poeta Elias José e meu pai. Eu estava sensível e não sabia.

Porque raramente temos a educação dos pensamentos rumo às verdadeiras questões da vida e sofremos quando uma mudança inevitável se interpõe em nosso caminho. Inevitável, pensamos nós, porque somos pequenos frente a toda forma de silêncio. Contudo, exite um silêncio que deveríamos saber significativamente belo, porque nos transforma. Se não temos mais aqueles instantes de ver e abraçar as pessoas amadas, é porque talvez elas tenham vindo morar em nosso próprio íntimo, sem nos acordarmos por qual estrada vieram.

E é um sentido novo de saudade que se revela igualmente nas páginas do livro O GUARDA-CHUVA DO VOVÔ, do casal Carolina Moreyra e Odilon Moraes (DCL, 2008). Não é como uma ausência na casa vazia, um retrato na parede parado, uma lembrança de viagem que não se repetirá. Ao contrário, existe uma saudade-saudável que traz felicidade e presença, quando abrimos o sentimento à estrada da gratidão da experiência vivida, nos fazendo achegar outra vez de nossos queridos companheiros.

No livro, debaixo de um guarda-chuva, a neta confessa: “Quando chove as janelas ficam todas fechadas, os jardins ficam molhados e não podemos brincar lá fora. Muita gente não gosta quando chove... mas eu fico feliz, porque sei que o vovô também está.” Este é o seu segredo, conforme leio no meu próprio guarda-silêncio: descobrir e reconhecer, mesmo que pareça tão difícil, a oportunidade maior que a vida nos estende: um reencontro interior e eterno.

Um ótimo domingo em companhia de nossos pais, com um pouco de literatura sugerida.