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20 de janeiro de 2025

entre dezembro e janeiro


Entre Dezembro e Janeiro, muita coisa acontece: um livro, um encontro, um poema inesperado. Entre ontem e amanhã, tiro um tempo para ler o novo livro de Gloria Kirinus. Ontem ela esteve no Café Colombiano e estará, nesta terça-feira, na Casa Tombada, fazendo uma oficina de escrita e criação poética. 

Informações para inscrição @acasatombada 

O recente livro reúne 47 curtos poemas como fotogramas de um tempo que se passa amplamente em vários ritmos e imagens, ambíguas e complementares em seus sentimentos. Ora adivinho objetos de concreto e bibelôs, como na poesia de Maria Dinorah, ora antevejo humor e fugacidade como nos haicais de Millôr Fernandes. Os poemas sempre se iniciam com um pé de cantiga fixo, mostrando-nos este tempo de esperas e construção. 

8.
Entre Dezembro
e Janeiro, 

De barriga
para as nuvens,
a menina rodopia
estrelas
com o dedo...
Sem saber
que os povos
rodopiam hélices
brincando de guerra.

30.
Entre Dezembro
e Janeiro,

Delicada louça
escorrega na pia
perde asa e cedilha
e de repente
fica louca. 

@gloriakirinus
@editorainverso
#dobrasdapoesia 

E para quem deseja um pouco mais de Gloria Kirinus: Criança e poesia na pedagogia Freinet (1998) e Synthomas de poesia na infância (2011), publicados pela Editora Paulinas.

18 de janeiro de 2015

não qualquer palavra

O’ABRE ASPAS de um livro a outro


“Preocupada com as crianças que atualmente recebem tantos rótulos (e mesmo diagnósticos) negativos – hiperativos, impulsivos, desatentos, indisciplinados, entre outros –, Gloria Kirinus propõe uma mudança de enfoque. Para ela, a criança é um ser em estado puro de linguagem e é preciso escutá-la melhor para perceber os ‘sintomas’ de criatividade e inteligência que estão por trás de um comportamento à primeira vista inadequado.” Expõe Angela Leite de Souza no primeiro capítulo da série que compõe o livro POESIA PARA CRIANÇAS: conceitos, tendências e práticas, org. Leo Cunha, no qual participam juntamente Carlos Augusto Novaes, Gláucia de Souza e Maria Antonieta Antunes Cunha. “Uma das causas desse descompasso estaria no fato de que o fascínio que a criança sente pela palavra e pela multiplicidade de imagens que ela lhe suscita costuma ser reprimido na sala de aula.” (2013: 22-23)

II

“O que eu pediria para pais e professores é que, entre espaços e horários fechados, deixem a porta entreaberta para a escuta da poesia.” É o que responde Gloria Kirinus, no livro SYNTHOMAS DE POESIA NA INFÂNCIA, observando e refletindo sobre casos de rimite aguda, delírio verbal, estado contemplativo, devaneio crônico, analogia intensa, isolamento fabuloso, surtos de genial ingenuidade, abundante riso, acesso de perguntas e catapora inventiva... “Quando fechamos a porta da sala de aula ou qualquer outra porta da vida privada, ocupando todos seus vazios, normalmente bloqueamos também a possibilidade de escuta da poesia. Pais e professores de crianças pré-alfabetizadas teriam muito a ganhar se soubessem receber a poesia de viva voz, aquela poesia que inventa seus ritos recuperando a unidade do homem primordial que cantava e dançava a palavra. Não qualquer palavra, mas aquela que pulsa no ritmo de sístole e diástole numa intenção de se organizar no mundo.” (2011: 68)


III

“Agora que caminhamos para o fim, quero lhe contar um segredo e fazer uma confissão.” Escreveu Elias José, nas páginas de POESIA PEDE PASSAGEM: um guia para levar a poesia às escolas. “Antes, eu tinha um caderno de poesia com espaços para cópias e anotações, vários cheios. Hoje, tenho programas no computador para copiar tudo o que leio e gosto. Gosto de enviar cartões, cartas e e-mails com poemas, meus e alheios. É uma forma bonita de presentar e até de elogiar os amigos. Poesia bonita é para ser multiplicada, distribuída, com nome do autor, editora e sem erros. Que tal entrar em mais esse jogo gostoso?” (2003: 97)

17 de janeiro de 2015

naquele dia, naquela noite

Peter O’Sagae


Na poesia de Gloria Kirinus, quase sempre encontro um diálogo com as formas e as forças da natureza, as montanhas, os desertos, as chuvas, a lua e as estrelas, através de seu olhar de contemplação e espanto, como quem se habituou a buscar nas paisagens o caminho para as lembranças de casa, a sua primeira casa.


E assim cores e saudades despertam com o texto O GALO CANTOU POR ENGANO (1997), em uma nova edição com aquarelas vibrantes de Cris Eich (DCL, 2014). Em versos livres, ritmo brando, o poema narrativo começa com as dúvidas e a estranheza de um dia que virou noite.

Foi o sol que se escondeu atrás da lua para um descanso, ou foi a lua que ocultou a imensa cabeleira do sol com seu manto de prata? O que teria acontecido, seria o fim do mundo que começa com a escuridão?



Naquele dia, naquela noite, enfim, até as crianças deixaram a sala de aula para ver o que se passava: um extraordinário eclipse, com seu manancial de estrelas e a lição de um alfabeto diferente para descrever os antigos mistérios do céu. Mas... Com a confusão, também os animais trocaram o dia pela noite, extravagantes, dobrando suas tarefas: a galinha botou um novo ovo com clara em ponto de lua e o galo cantou, por engano.


Gloria Kirinus divide o poema em três partes – um dia de dúvidas, uma noite de invenções e o estabelecimento de novos modos de olhar, sentir e pensar a ordem e a transitoriedade das coisas no mundo. Contudo, não são três momentos distintos. Existe aí, contra o fluxo do relógio, a simultaneidade, o jogo dos pontos de vista, as analogias, o eclipse que celebra o encontro dos opostos rotineiros, o humor como solução. Tudo é interlúdio, e não haverá enganos para quem aprende a cantar poesia!

17 de abril de 2013

no entanto, mais antenadas

peter o.o sagae*


Desde outros tempos, uma formiga que era só formiga e uma cigarra que era só cigarra se encontraram — e a gente bem sabe no que isso deu. Contudo, mais sábias e antenadas, as novas gerações de formigas e cigarras pertencem a duas interessantes espécies de experiências poéticas: são formigarras e cigamigas que, por aí, andam, tanto, tanto, na terra e no ar, contando histórias de outros tempos...


Ora, se é verdade que a cigarra continua cigana, é também cigamiga, sem abrir mão da capacidade de sonhar e viver seresteira. Por sua vez, a formiga continua com garra e muito arrumadeira, mas não corre mais risco de morrer de enfarto formigante: virou, por que não, a dona da festa, virou fogueteira! É assim que Gloria Kirinus relê a antiga fábula no livro-poema FORMIGARRA E CIGAMIGA, com ilustrações e projeto gráfico de Guilherme Zamoner (Braga, 1993). A autora propõe um saber com sabor e relembra, na interna de capa, a presença garantida da história nos velhos livros escolares como um terreno privilegiado para louvar os esforços da formiga – tão útil, ordeira, trabalhadora, contribuindo para o progresso, como toda criança deveria ser... Se não tivesse sido invadida pelo canto da cigarra, confessa Gloria, ela mesma não teria o destino da poesia.


O livro, INFELIZMENTE fora de catálogo, possui duas portas de entradas: um lado mais Cigamiga, outro lado mais Formigarra. Essa brincadeira se deve ao projeto gráfico de Zamoner que trabalha com o suporte material e também com a espacialidade da escrita sobre o branco da página, pondo em destaque os paralelismos sintáticos, as anáforas e as repetições de rimas e aliterações que os versos carreiam... Formigarra e Cigamiga viram de um lado para o outro, com óculos estranhos, roupas balofas e sapatos extravagantes... Mas, veja você: rumo a um derradeiro encontro, bem no centro do livro, uma cigarra e várias formigas desenhadas realisticamente evocam a natureza primitiva: que histórias hoje elas poderiam contar?


* Texto extraído de Dobras da Leitura 39, novembro de 2006.

5 de maio de 2010

para venda, compra e troca...

Dez anos de estrada e areia


"Num Saara que não tem fim, o camelo de pêlo dourado e o camelô que caminha do lado, passo e peso compensavam, carga de mil badulaques..." Gloria Kirinus, no livro O CAMELO E O CAMELÔ, com ilustrações de Rui de Oliveria (Paulinas, 1997).

"E seu dono era um comerciante saudita que atravessava desertos carregando mercadorias [...] Olemac era obrigado a levar tantos penduricalhos que parecia um camelô das arábias." Fernando Vilela, em OLEMAC E MELÔ (Companhia das Letrinhas, 2007).