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20 de janeiro de 2025

entre dezembro e janeiro


Entre Dezembro e Janeiro, muita coisa acontece: um livro, um encontro, um poema inesperado. Entre ontem e amanhã, tiro um tempo para ler o novo livro de Gloria Kirinus. Ontem ela esteve no Café Colombiano e estará, nesta terça-feira, na Casa Tombada, fazendo uma oficina de escrita e criação poética. 

Informações para inscrição @acasatombada 

O recente livro reúne 47 curtos poemas como fotogramas de um tempo que se passa amplamente em vários ritmos e imagens, ambíguas e complementares em seus sentimentos. Ora adivinho objetos de concreto e bibelôs, como na poesia de Maria Dinorah, ora antevejo humor e fugacidade como nos haicais de Millôr Fernandes. Os poemas sempre se iniciam com um pé de cantiga fixo, mostrando-nos este tempo de esperas e construção. 

8.
Entre Dezembro
e Janeiro, 

De barriga
para as nuvens,
a menina rodopia
estrelas
com o dedo...
Sem saber
que os povos
rodopiam hélices
brincando de guerra.

30.
Entre Dezembro
e Janeiro,

Delicada louça
escorrega na pia
perde asa e cedilha
e de repente
fica louca. 

@gloriakirinus
@editorainverso
#dobrasdapoesia 

E para quem deseja um pouco mais de Gloria Kirinus: Criança e poesia na pedagogia Freinet (1998) e Synthomas de poesia na infância (2011), publicados pela Editora Paulinas.

26 de novembro de 2024

o porteiro, os porteiros

O porteiro ainda veste camisa azul e ele se chama Celso Cícero, Eritônio, Marcos, Luciano, como aqui em meu prédio. Ou Alberto, como o personagem do livro de imagem de Vitor Rocha (Gato Leitor, 2024), ou Rodolfo, o porteiro que se descobre leitor ao ler histórias em voz alta para a criançada do condomínio de Ana Lúcia Brandão e Roger Mello (Paulinas, 1998). É evidente que estamos pensando em homens com nomes próprios e não porteiros eletrônicos, como querem alguns moradores de nossa vizinhança. Mas, quando “acaba a luz”, acaba também a cerca elétrica, o portão tem que ser aberto a arroz com feijão, no jeitinho, no empurrão.

Ah, eu gostava dos antigos porteiros com mesa na entrada e talvez tivesse eu tido tempo para descobrir um porteiro que me amava e, toda vez que chegava, ele se apressava em apertar o botão do elevador e abrir a porta.
Vi muitos porteiros com cartas e pacotes na mão, porteiro que abre a passagem para o executivo e o ladrão (ou seriam ambos o mesmo morador?). No livro de Vitor Rocha, a janela da guarita é igualmente uma representação social. Este homem negro, obeso, poderia ser alguém bastante “uniforme” em calças cinzas, porém usa um kufi, este boné curto e arredondado, sem aba, geralmente feito em crochê. Ler imagem é dar nomes aos objetos e relacioná-los à composição do personagem e nosso modo de estar frente a eles, na literatura e na vida. Alberto carrega três chaves grandes (outro truque da linguagem cinematográfica, viva Méliès) que o fazem até mesmo parecer... um carcereiro o nosso porteiro!
#intertextualidade
🧡 #quemtemquindimtem

18 de fevereiro de 2021

copiando poemas

domingo eu tava lendo A CALIGRAFIA DE DONA SOFIA, o conto quase triste de André Neves (2 ed. Paulinas, 2006) a respeito da velha professora aposentada que liberta a poesia para fora da estante, copiando poemas nas paredes de sua casa... e, quando não há mais nenhum canto para acolher um verso, ela envia cartões a todos os moradores do lugarejo. Os dias ensolarados tornam-se amenos e as noites claras, na cumplicidade do carteiro e da leitora de muitos livros e poetas. O tempo vai passando afetos a limpo...

"Mais uma vez, quando o alvor da aurora surgiu no céu, Seu Ananias começou a percorrer a cidade de casa em casa. Mas não entregava cartas. A cada morador ele contava o quanto tinha aprendido com Dona Sofia e como aquela senhora havia mudado aos poucos a vida da pequena cidade, sem ninguém perceber. Um por um, todos foram tornando consciência do grande presente que haviam recebido.”

#dobradapoesia

8 de julho de 2020

pacífico, o gato



☆ Eu tenho um gato, mas ele não é meu. Apareceu um dia no muro lá de casa, magro de dar dó. Veio não sei de onde, vai não sei para onde. Mamãe diz que é um gato vadio. Tipo frio. Qualquer dia ele some pra valer. Se for embora, não será por maldade. Pacífico gosta de rua. Gosta de aventura, sei lá. Vou sentir saudade. ☆

Palavras finais do livro PACÍFICO, O GATO, de Branca Maria de Paula com ilustrações assinadas por Aldemir Martins @paulinasbrasil (1999) pp. 26-31 #FiqueBem #FiqueFirme #FiqueEmCasa #AbreAspas2020

28 de junho de 2020

cantorias de jardim



☆ AMOR-PERFEITO

Se eu fosse a borboleta,
Se eu fosse o grilo,
Se eu fosse a abelha,
Se eu fosse o vaga-lume,
Se eu fosse a formiga,
Se eu fosse a cigarra,
Se eu fosse a joaninha
Ou qualquer outro bichinho,
Morava num amor-perfeito
--- único amor sem defeito.
Poema do livro CANTORIAS DE JARDIM, de Eloí Elisabet Bocheco @eloibocheco il. Elma @paulinasbrasil (2012) p. 13.


LEIA RESENHA >>
Não mandem flores para as crianças


#FiqueEmCasa #AbreAspas2020

5 de outubro de 2018

... e a vi(d)a se reconstrói todos os dias

A respeito do livro O REI DO ESPETÁCULO, de Elias José, com ilustrações Mariana Massarani (Paulinas Editora, 2005), escrevi no velho site-revista Dobras da Leitura Ano VI - N.º 30, São Paulo: fevereiro de 2006 :-)


Se o rei da confusão é João, e o rei da brincadeira é José... ê Elias, quem você é? Poeta e contador de histórias que agora inventa um livro-homenagem com um lápis apontadinho — o verdadeiro 'rei do espetáculo' — nosso amigo soberano que, quando “em boas mãos, pode fazer coisas de endoidar, de mudar a cara deste mundo algumas vezes chato.”

Neste livro, vinte poemas como se juntasse os dedos das mãos e dos pés, sobre as alegrias e as inquietações do ato criativo, das primeiras letras ao escritor, o desenhista, o professor e o intelectual... o compositor, o arquiteto, o jornalista, o cientista, a costureira e o agricultor, o matemático e o turista. O índio e o lápis? Você nem mesmo esquece o anjo, a velhinha, a adolescente apaixonada e a criança desenhista! Quem poderá dizer que o poeta tem memória curta?

E como o livro-espetáculo não pode parar, vem então seu convite: “leitores virarão poetas e passarão a criar novos poemas para mostrar o poder do nosso rei.” E seus versos já andam soltos por aí, na métrica livre, rimando muito mais ideias do que sílabas... Ora, ora é assim que faz nascer encantadas gentes e continentes na vida que se reconstrói sobre o papel. O ritmo, a harmonia e os sons / dos sentimentos humanos são aqui plantados.

E, para completar seu espetáculo, Elias, vem Mariana Massarani responder à brincadeira com um livro-circo feito de lápis, borracha e cores!

13 de abril de 2018

o chão é o mapa de tudo

Peter O'Sagae


Um livro sempre começa em outro livro, ponte para a vida e para os sonhos semeados na vida de um autor. Isso posso dizer do universo poético visual de Lúcia Hiratsuka, refazendo seus passos de um desenho para uma confissão, de uma palavra breve a uma novela, dos antigos ideogramas às suas próprias ilustrações, das antigas lendas à própria voz, enfim, de um conjunto de gestos familiares de sua infância à constante reelaboração de um quintal, sob o signo do imaginário...

Aí já não se tem mais a vida, mas a sugestão sobre ela.


O livro CHÃO DE PEIXES (Pequena Zahar, 2018), tão longamente esperado e conhecido em forma de esboços e rascunhos por diversos amigos de Lúcia Hiratsuka, possui uma gestação de muitas estações, paradas e volteios. Podemos anunciar que virá a ser o primeiro livro de poesia da autora, porém desconfio que isso não seja verdade.

extenso chão verde
ouço um mugido ao longe 
eterno domingo 

Abro o livro, ao acaso, para encontrar um haicai. Em outras páginas, a estrutura rígida da tradição poética japonesa se desfaz no acento lento de uma voz que arrasta, que sabe, um graveto pelo quintal de outras combinações de som e imagens. Lúcia sempre quis contar histórias com seus traços e não escapou à fabula: eis, então, um apólogo sobre a exuberância, a cor, a forma, a simplicidade, numa predileção por vários domingos, entre a abóbora e a berinjela.


Mas onde tudo isso começa? Qual o mapa de seus livros?


Mudemos o tom: em outubro de 1997, Lúcia havia terminado de ilustrar o livro Batiyan, vem brincar! do casal Marilda e Guilherme del Campo.


O desenho era ainda bem suportado pelo contorno contínuo, a aquarela que descia sobre o papel em meio a tinta acrílica e pontos opacos de guache. Mas era, na biografia na quarta capa, que Lúcia Hiratsuka começava a traduzir afetivamente suas vivências:
“Meus avós chegaram ao Brasil 70 anos atrás e se instalaram próximo à cidade de Duartina, interior de São Paulo. Nessa região chamada ASAHI, que significa sol da manhã, plantaram café, caqui, laranjas e criaram bicho da seda.

“Eu também nasci e morei lá até os 9 anos. Meu Dityan me ensinava a ler e escrever em japonês e minha Batiyan me ensinava a fazer origamis e contava as lendas do Japão que ela ouviu da Batiyan dela.

“Naquela região ainda não havia luz e quando começava a escurecer, nossas brincadeiras prediletas eram contar estrelas e caçar vagalumes. A minha Batiyan, hoje com 96 anos, ainda vive e fica feliz em ver meus trabalhos, pois ela sempre se lembra do primeiro peixinho que desenhou para mim no chão do terreiro e que me despertou para o desenho.” 
Acredito que aí estejam as primeiras sementes, pista e peixe, germinando no chão. E talvez nem pudesse ser de outra maneira: o primeiro poema do velho/novo livro intitula-se “Quintal” fazendo referência a um tempo mágico, lendário e pessoal, à lua e ao coelho que lá habita fritando bolinhos. Contudo a tradição oriental cede a um imaginário diferente. No lugar de bolinhos de arroz, o eu-lírico de Lúcia aguardaria bolinhos de chuva!!!



A descoberta dos ideogramas e da própria imaginação se apresenta em contraste e complementariedade, acerca dos valores ancestrais japoneses e de sua necessária atualização a um modo brasileiro de ser. Aos filhos e netos de orientais, isto é muito claro: o rosto, a língua, o código, um lugar no passado que não nos pertenceu. Para superar a ambivalência, Lúcia Kyoko, como a personagem de Os livros de Sayuri (2008), requer para si outro modo de reconhecer-se:
“Vou rabiscando no chão do quintal. Uso uma vareta, faço riscos bem grandes, lembrando o que ensinou o professor. Cada jeito de fazer os traços. De cima para baixo, da esquerda para a direita. Traço reto, traço em curva, traço que parece um pingo de chuva. Um bom jeito de estudar, assim, no chão, pena ter que apagar depois. Gosto de olhar para a minha letra. Torta, mas minha [...] Já sabia escrever: casa, pássaro, peixe, manhã, caminho, capim. Depois apagava e riscava de novo.” (pp. 59-60) 
A escrita-desenho revolve não apenas o chão de terra batida. Traz silêncios que falam e “mais rabiscos e rabiscos mil”, persistência em possuir o inefável da criação singela, efêmera, de pouca de extensão. Mas... como não ver que o quintal vira mar?



Sim, o quintal, na obra de Madame Hiratsuka (como brincam os amigos), é um lugar de transposições simbólicas. Entre a casa e as estradas do mundo, o quintal se define como um lugar onde se deseja permanecer e, simultaneamente, que se deve atravessar. Em muitos livros da autora, podemos encontrar sua fixação aos meios móveis: desde a travessia de uma menina, ao modo de Chapeuzinho Vermelho, na narrativa visual Um rio de muitas cores (1999), o outro barco que afetuosamente balança a memória da avó materna Orie (2014), os bisavós barqueiros, caminhos líquidos que alcançam novas paisagens e cidades; por terra, roda, linha de ferro e asfalto: a bicicleta de O guardião da bola (2015), o fusca de A visita (2011), Na janela do trem (2013), O caminhão (2017), este último com a dedicatória: para aqueles que carregam o cheiro da terra e as cores de longe.




Os caminhos todos já estavam desenhados, numa distração numa corrida de caracóis ou no parentesco sem fim das formigas... Sabe o segredo de Drummond? No meio do caminho tinha uma pedra, uma montanha! E ela teve de subir, subir muito alto. Em seguida, descer e descer... O objeto da percepção transfigura-se em um objeto da imaginação.


Assim, as páginas de CHÃO DE PEIXES são quadros de outra memória. Cada abertura apresenta um fotograma em palavras e sumi-ê, o desenho gestual que não admite retoques, expresso tradicionalmente com tinta negra. Nas pinceladas de Lúcia Hiratsuka, no entanto, adaptou-se e absorveu cores. São vinte composições, ou registros, terminando com uma outra sorte de amadurecimento: metalinguagem.


Imagens

Pinturas feitas de instantes,
de chuvas e luas,
entardeceres e noites escuras,
de toques e flores
na memória.

//.
/.
.//

P. S. Com CHÃO DE PEIXES, Lúcia Hiratsuka é a vencedora do Prêmio Sylvia Orthof 2018, concedido pela Biblioteca Nacional à Literatura Infantil (13 de nov. 2018).

Primeiro livro de poesia da autora, este chão é um exemplo de persistência na criação literária: palavras e imagens vieram amadurecendo brandamente, cuidando igualmente ao longo dos anos do tempo de recepção do leitor. Este é o chão do seu quintal, extenso chão de sonhos, sons ouvidos ao longe, dias em festa em suas memórias afetivas... Enfim, o quintal hoje é para todos nós!!!

24 de junho de 2017

de volta ao boi

peter O sagae


Boi não é livro. Boi não é faixa de disco. Nem mesmo um vídeo, essa espécie de fotografia sonora em movimento... Boi é função, quem o confina? Festa popular, alegria, ritmo, lírica, fantasia, devoção – Boi é o brilho do sol à noite, quando incendeia, aquece e ilumina. Boi assim se escreve com letra maiúscula, não é brinquedo para crianças. É para todos. Esta é a ordem que São João mandou...

Talvez por isso, outras razões, talvez pelo bem de quem gosta de cantar vivas toadas, Marilda Castanha confesse as dificuldades de admirar o festejo, apenas por uma janela. Em uma das mais bonitas homenagens ao Boi-bumbá que a literatura infantil pôde produzir – o livro PULA, BOI! (Scipione, 2012), enfrentamos a luta entre a vida e a morte, entre o espaço e o pedaço do que foi, do que é, do que será o Boi.


Como num teatro sem chão e sem teto, o livro se abre com um proscênio de páginas brancas: bem ali, pássaros, pousados no corpo longo do mandacaru, tagarelam. Que o público saiba imediatamente: esta é a história de uma menina que adora exposições e museus, gatos, cachorros e bichos-preguiça. Mas, o principal é – esta é a história de um encontro! A personagem com chapéu, vestido quase sempre abaixo dos joelhos, óculos atentos, levando uma máquina fotográfica ou uma caderneta onde registra tudo que vê, pulou de outros livros para dentro de uma nova aventura. Pra dizer a verdade, a menina de Marilda saiu de dois livros de imagem para encontrar o Boi-bumbá em uma paisagem bem maior que qualquer museu de artes ou ciências naturais. Daí, pressentiram elas – autora e personagem – uma janela só, a linguagem visual, seria insuficiente para comunicar o Boi, seu mundo, seu universo.


Cores cantam e um galo eleva um céu sentimental, rosa. Palavras despertam a manhã. Boi-bumbá não é homem, não é carcaça de veludo bordado apenas. É um ser único, ardente, animal e humano, na tranquilidade dos afazeres diários... A primeira refeição, depois ouvir as notícias locais, e cuidar de seus pássaros, e trabalhar o roçado sob o sol quente do sertão. Vindo lá do fundo da estrada que começa no longe dos livros, entra a menina na história...


A visitante quer logo saber qual é o segredo do Boi-bumbá, mas ele a convida para conviver um tempo com sua família até o dia da festa.


A menina participa da vida daquele lugar: plantar, colher, preparar os alimentos, ir à feira – que também é dia de trabalho, porém festivo, diferente, entre a venda e a troca, os produtos da terra, o artesanato, as notícias boas e ruins que trazem as pessoas. A festa (que é preciso esperar ainda) será a continuidade desse andar para conhecer. Boi é participação, as horas em véspera. Boi é enredo de muitas encruzilhadas no caminho das histórias e da ação coletiva. E Pai Francisco e Catirina comparecem, debaixo do céu estrelado de junho. A menina descobre que Boi é a morte e é a vida que magicamente se levanta todos os dias nos ritos da natureza.

Ao fim de uma sequência descritiva, apaixonada, rememorativa, prenunciando o inverno que é a estação das chuvas para o sertanejo, Marilda Castanha desvenda o segredo que não precisava de pergunta, nem espera por resposta. O Boi é realmente muito amplo. E é promessa de estar de volta, na próxima festa, se mais um ano permitir...


Boi é confiança que o Céu há de querer.


Ora, das mãos de Marilda às asas de Josimar Fernandes de Oliveira – Jô Oliveira!, vamos ao Boi celebrado em cores na vibração de 1974, 1975, quando o artista pernambucano escreveu, ilustrou e publicou um trabalho sobre o Bumba meu Boi, pela Escola Superior de Artes Industriais... na Hungria. Como uma série de tableaux vivants, os personagens típicos da Zona da Mata retornam agora contornados pelas trovas do poeta Marco Haurélio, através do livro MATEUS, ESSE BOI É SEU (DCL, 2015).



Aqui se resgata um fragmento do Boi, o entrecho cômico-dramático, em uma das muitas variantes; conta-se da paixão de Mateus por Catarina e da prova de amor que a caprichosa morena lhe exige: arrancar o coração de Mangangá, o boizinho mais belo e estimado do Coronel, aos cuidados do jovem vaqueiro. Nem Santo Antônio parece ajudar a alguém ter juízo!


E a carreira tem lugar, incluindo diversas figuras do folguedo dançado por ocasião do ciclo natalino, por vezes até o Carnaval, na companhia do Cavalo-Marinho, representando o chefe da polícia que leva Mateus para mofar na prisão, os soldados, o Curumim, os Caboclinhos que defendem o vaqueiro... e está armada a confusão, a luta entre os brincantes.


A narração é bastante resumida, ágil para os pequenos leitores, deixando as entrelinhas para a memória dos mais velhos que alhures já conheceram o desígnio do Boi, em encenar o encontro de três culturas.


Eu quero ver quem vai à rua, eu quero ver acontecer! 


Boi é outra brincadeira nas mãos de André Neves a inventar o TOMBOLO DO LOMBO (Paulinas, 2016), a partir de duas tradições populares.

O que se mostra desde o título é o bem-conhecido brinquedo cantado do tangolomango que vem emprestar a fórmula repetitiva da lengalenga a fim de nos ensinar a contar ao contrário, como que subtraindo a cada vez um elemento da sequência numérica. Quase sempre, há uma família, ou uma casa com nove pessoas, uma velha com nove filhas, e elas vão misteriosamente desaparecendo até sobrar apenas um – para contar a história. Ou nenhum! Todos conhecem a parlenda. Mas, aqui, no lombo do boi, vão nove músicos com seus instrumentos.


Preenchendo a estrutura da brincadeira, estão os personagens encontradiços em algumas das variantes do Bumba-meu-boi, a exemplo do Coronel com o tamborim, a Índia que não sabe tocar trompete, o Padre batendo o sino, o vaqueiro Bastião levantando a cuíca, o Jaraguá parará parapá, sem faltar, no cortejo de "Mestre" André Neves, as figuras centrais do folguedo. O mote principal é descobrir quem deles quis comer um pedaço da língua do boi...

O divertido do tombolo não é apenas ver, um a um, os brincantes tombarem para trás. Não, mesmo. O divertimento está em dar movimento ao Boi. Página a página, o que estava embaixo foi para cima, o que havia em cima desceu... o livro gira em nossas mãos, da esquerda para a direita, como os ponteiros do relógio ou quando se fecha a torneira, como se dependesse apenas do leitor derrubar os personagens para fora do lombo do boi.


Esta função participante do livro, digamos, cria uma imagem cinética – uma coreografia para as mãos. Seria o pequeno leitor o décimo brincante, aquele que se esconde, a tripa vivente dentro da carcaça do boi?

Além de bailar explicitamente com o suporte material, encontramos um importante emblema da cultura nordestina nas reinações de André Neves – a chuva, a renovação, o nordeste que renasce para viver o Boi outra vez.


Lá vai, lá vai, lá vai...
Rasteirinhas pelo chão!
Borboletas no Inverno, é meu boi,
Andorinhas no Verão.

15 de junho de 2017

um pouco de junho e outros meses

peter O sagae


João chegou!
Trouxe com ele uma vontade de falar.
Trouxe um pouco de junho e outros meses.
João não é só um menino, são dois.
Talvez mais, em outros meninos chamados João.

É hora de apresentar UMA NOITE PARA JOÃO e outros poemas, com as delicadas ilustrações de Sandra Jávera (Paulinas, 2017).


Os poemas foram escritos entre junho e julho de 2015. Não eram intencionalmente poemas para crianças, quando dei início a uma homenagem aos três padroeiros das festas juninas, buscando evocar a missão de cada um deles – A caminho de Antônio, Entre os sonhos de João e Até o coração de Pedro. Meu gosto pelos temas do bumba-meu-boi me faria incluir São Marçal, louvado, em torno das fogueiras do Maranhão, no dia 30 de junho.

No entanto, o poema para João, ao retratar os sonhos do menino em um diálogo sem palavras com sua mãe, antes mesmo do nascimento, conduzia-me a novas imaginações... O que aconteceu, quando João deixou a noite do ventre? Como viveria João com seus segredos, ouvindo o vento ou o avô inventando uma desajeitada parlenda com nomes de inseto? Encontrava assim o fio condutor para um livro para crianças – puxei nomes e símbolos de lendas medievais, juntei vozes que atravessam o medo e a magia das noites.


Não sei bem como, apareceram duas figuras à minha frente, conversando como se estivessem em um arraial ou na porteira de um livro:
Vô, quem é
aquele menino
com o carneiro
na mão?

Aquele é João.

Ele também?

Também, João.
Sandra Jávera desenhou este João e o avô como se fossem caminhar para o fundo da página, o menino apontando o estandarte. No alto, o pequeno João Batista aparece de olhos fechados e também assim o carneirinho em seus braços. Ambos dormem. Ou fazem de conta... Virando a página, adentramos outro tempo e lugar. Isabel aquece o corpo grávido perto de uma fogueira. Na abertura seguinte, a mulher segura o filho no colo, enquanto uma fumaça branca, distante, aberta em bandeira, sobe ao pano de um céu lilás. As estrelas de Sandra são pontos e flores. O chão é outro tecido, azul.


No poema IV – “Canção do tempo”, uma porção de pontos espalham-se ao pé da página como sementes e poeira cósmica. Caminhos tracejados vão unindo pontos e estrelas, formam as raízes e o tronco de uma árvore. O menino parece que paira sobre um espaço infinito. Apenas um João, os galhos, as folhas e as bagas douradas da alfarroba têm cores encorpadas.

Índice de sonhos, dinâmico, o azul ressurge em diferentes tons – nas asas de um inseto, nas paredes do quarto do moderno João, na manta pontilhada de branco e no travesseiro, nos círculos concêntricos que envolvem o menino – o que, afinal, representam?


O azul ainda domina as bandeirinhas...


Em nossas conversas, Sandra Jávera escreveu: “Encantei-me com os quadros do Volpi. Eu já gostava de suas pinturas, e saber da relação com a Festa Junina me deixou ainda mais interessada. Penso que pode ser bonito uma dupla central cheia de cor e mais abstrata.” Ao fim de seis poemas sobre João, comparecem outros meninos. A segunda parte do livro começa em uma noite cinza...


No poema VIII – “Felicidade tem sete filhos”, o Sol é um gigante devorador de um olho só, enquanto a Lua personifica o bem possível, derramando sua cor de luz e leite. No poema IX, o vento vem e desenrola um tapete no alto de oito colinas, alinhava pétalas de rosa e dentes-de-leão e, por fim, costura sua história com a agulha do tempo – porém, talvez nada disso exista, ou existe, sonho de um menino enquanto brinca, Pedro que não é São Pedro.

Em meio a cores e traços delicados, o vocabulário visual de Sandra Jávera revela agradáveis surpresas. Certos detalhes se mostravam desde os esboços, como três pedras que formam a letra M no poema X – “Trás as histórias de Marçal”, enquanto o menino alimentava algumas aves. Na ilustração final, a ideia de generosidade se traduziu em um gesto entre suas mãos e as mãos de um macaquinho marrom. Todos os personagens de UMA NOITE PARA JOÃO e outros poemas foram vestidos com simplicidade, vivendo fora do registro histórico, porém bem próximos de nós. Viajamos por outros meses que talvez nem existam no calendário.


O livro vai terminando com uma sequência narrativa em três poemas, com o Menino Jesus, ele mesmo!, brincando no barro com água de chuva e riacho, numa manhã de sábado, para amolar e espantar José, seu pai... Querem saber?

No site da editora, você pode baixar um trecho do livro. Espero que gostem!