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13 de julho de 2020

fabíola foi ao vento



☆ FABÍOLA DESCE O MORRO, todo dia, à mesma hora, com passinho de formiga, formiga de perna curta, perna curta e apressada, pois quem guia é o cachorro. Passo largo, vem Titã, cheirando o nada, procurando um não sei quê, talvez um osso, talvez um troço, talvez... Até o momento em que Titã dispara, arrastando a menina pelo vento. Ela segura firme na coleira e, com cara de muito faceira, diz: — Para, eu não aguento! Fabíola foi ao vento e perdeu o acento. E virou Fabiola, virou pipa que balança a rabiola quando sobe lá pro longe lá do céu. ☆


Um história pelo meio, de Ricardo Benevides — FABÍOLA FOI AO VENTO, com mudanças de acento, sons abertos e fechados, graves e agudos, com ilustrações de Loly & Bernardilla @editoraDCL (2010) pp. 10-14 #FiqueBem #FiqueFirme #FiqueEmCasa #AbreAspas2020

30 de junho de 2020

com a palavra, angela lago



☆ Pedi a uma criança que me ajudasse a responder a essa pergunta difícil: o que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil? Ela não deve dúvidas: “Um desenho bom é um desenho que faz rir.” E ela está certa. É o que eu gostaria de conseguir. Um desenho que faça rir, ou sorrir, que pegue de surpresa, que arranque um ah... Um desenho inesperado, um achado poético. ☆

Depoimento de Angela Lago, no livro O QUE É QUALIDADE EM ILUSTRAÇÃO NO LIVRO INFANTIL E JUVENIL? COM A PALAVRA O ILUSTRADOR, org. Ieda de Oliveira @editoraDCL (2008) p. 173 #FiqueBem #AbreAspas2020

Leia resenha >>
O que é qualidade em ilustração no livro infantil e juvenil?
 

13 de abril de 2018

o chão é o mapa de tudo

Peter O'Sagae


Um livro sempre começa em outro livro, ponte para a vida e para os sonhos semeados na vida de um autor. Isso posso dizer do universo poético visual de Lúcia Hiratsuka, refazendo seus passos de um desenho para uma confissão, de uma palavra breve a uma novela, dos antigos ideogramas às suas próprias ilustrações, das antigas lendas à própria voz, enfim, de um conjunto de gestos familiares de sua infância à constante reelaboração de um quintal, sob o signo do imaginário...

Aí já não se tem mais a vida, mas a sugestão sobre ela.


O livro CHÃO DE PEIXES (Pequena Zahar, 2018), tão longamente esperado e conhecido em forma de esboços e rascunhos por diversos amigos de Lúcia Hiratsuka, possui uma gestação de muitas estações, paradas e volteios. Podemos anunciar que virá a ser o primeiro livro de poesia da autora, porém desconfio que isso não seja verdade.

extenso chão verde
ouço um mugido ao longe 
eterno domingo 

Abro o livro, ao acaso, para encontrar um haicai. Em outras páginas, a estrutura rígida da tradição poética japonesa se desfaz no acento lento de uma voz que arrasta, que sabe, um graveto pelo quintal de outras combinações de som e imagens. Lúcia sempre quis contar histórias com seus traços e não escapou à fabula: eis, então, um apólogo sobre a exuberância, a cor, a forma, a simplicidade, numa predileção por vários domingos, entre a abóbora e a berinjela.


Mas onde tudo isso começa? Qual o mapa de seus livros?


Mudemos o tom: em outubro de 1997, Lúcia havia terminado de ilustrar o livro Batiyan, vem brincar! do casal Marilda e Guilherme del Campo.


O desenho era ainda bem suportado pelo contorno contínuo, a aquarela que descia sobre o papel em meio a tinta acrílica e pontos opacos de guache. Mas era, na biografia na quarta capa, que Lúcia Hiratsuka começava a traduzir afetivamente suas vivências:
“Meus avós chegaram ao Brasil 70 anos atrás e se instalaram próximo à cidade de Duartina, interior de São Paulo. Nessa região chamada ASAHI, que significa sol da manhã, plantaram café, caqui, laranjas e criaram bicho da seda.

“Eu também nasci e morei lá até os 9 anos. Meu Dityan me ensinava a ler e escrever em japonês e minha Batiyan me ensinava a fazer origamis e contava as lendas do Japão que ela ouviu da Batiyan dela.

“Naquela região ainda não havia luz e quando começava a escurecer, nossas brincadeiras prediletas eram contar estrelas e caçar vagalumes. A minha Batiyan, hoje com 96 anos, ainda vive e fica feliz em ver meus trabalhos, pois ela sempre se lembra do primeiro peixinho que desenhou para mim no chão do terreiro e que me despertou para o desenho.” 
Acredito que aí estejam as primeiras sementes, pista e peixe, germinando no chão. E talvez nem pudesse ser de outra maneira: o primeiro poema do velho/novo livro intitula-se “Quintal” fazendo referência a um tempo mágico, lendário e pessoal, à lua e ao coelho que lá habita fritando bolinhos. Contudo a tradição oriental cede a um imaginário diferente. No lugar de bolinhos de arroz, o eu-lírico de Lúcia aguardaria bolinhos de chuva!!!



A descoberta dos ideogramas e da própria imaginação se apresenta em contraste e complementariedade, acerca dos valores ancestrais japoneses e de sua necessária atualização a um modo brasileiro de ser. Aos filhos e netos de orientais, isto é muito claro: o rosto, a língua, o código, um lugar no passado que não nos pertenceu. Para superar a ambivalência, Lúcia Kyoko, como a personagem de Os livros de Sayuri (2008), requer para si outro modo de reconhecer-se:
“Vou rabiscando no chão do quintal. Uso uma vareta, faço riscos bem grandes, lembrando o que ensinou o professor. Cada jeito de fazer os traços. De cima para baixo, da esquerda para a direita. Traço reto, traço em curva, traço que parece um pingo de chuva. Um bom jeito de estudar, assim, no chão, pena ter que apagar depois. Gosto de olhar para a minha letra. Torta, mas minha [...] Já sabia escrever: casa, pássaro, peixe, manhã, caminho, capim. Depois apagava e riscava de novo.” (pp. 59-60) 
A escrita-desenho revolve não apenas o chão de terra batida. Traz silêncios que falam e “mais rabiscos e rabiscos mil”, persistência em possuir o inefável da criação singela, efêmera, de pouca de extensão. Mas... como não ver que o quintal vira mar?



Sim, o quintal, na obra de Madame Hiratsuka (como brincam os amigos), é um lugar de transposições simbólicas. Entre a casa e as estradas do mundo, o quintal se define como um lugar onde se deseja permanecer e, simultaneamente, que se deve atravessar. Em muitos livros da autora, podemos encontrar sua fixação aos meios móveis: desde a travessia de uma menina, ao modo de Chapeuzinho Vermelho, na narrativa visual Um rio de muitas cores (1999), o outro barco que afetuosamente balança a memória da avó materna Orie (2014), os bisavós barqueiros, caminhos líquidos que alcançam novas paisagens e cidades; por terra, roda, linha de ferro e asfalto: a bicicleta de O guardião da bola (2015), o fusca de A visita (2011), Na janela do trem (2013), O caminhão (2017), este último com a dedicatória: para aqueles que carregam o cheiro da terra e as cores de longe.




Os caminhos todos já estavam desenhados, numa distração numa corrida de caracóis ou no parentesco sem fim das formigas... Sabe o segredo de Drummond? No meio do caminho tinha uma pedra, uma montanha! E ela teve de subir, subir muito alto. Em seguida, descer e descer... O objeto da percepção transfigura-se em um objeto da imaginação.


Assim, as páginas de CHÃO DE PEIXES são quadros de outra memória. Cada abertura apresenta um fotograma em palavras e sumi-ê, o desenho gestual que não admite retoques, expresso tradicionalmente com tinta negra. Nas pinceladas de Lúcia Hiratsuka, no entanto, adaptou-se e absorveu cores. São vinte composições, ou registros, terminando com uma outra sorte de amadurecimento: metalinguagem.


Imagens

Pinturas feitas de instantes,
de chuvas e luas,
entardeceres e noites escuras,
de toques e flores
na memória.

//.
/.
.//

P. S. Com CHÃO DE PEIXES, Lúcia Hiratsuka é a vencedora do Prêmio Sylvia Orthof 2018, concedido pela Biblioteca Nacional à Literatura Infantil (13 de nov. 2018).

Primeiro livro de poesia da autora, este chão é um exemplo de persistência na criação literária: palavras e imagens vieram amadurecendo brandamente, cuidando igualmente ao longo dos anos do tempo de recepção do leitor. Este é o chão do seu quintal, extenso chão de sonhos, sons ouvidos ao longe, dias em festa em suas memórias afetivas... Enfim, o quintal hoje é para todos nós!!!

24 de junho de 2017

de volta ao boi

peter O sagae


Boi não é livro. Boi não é faixa de disco. Nem mesmo um vídeo, essa espécie de fotografia sonora em movimento... Boi é função, quem o confina? Festa popular, alegria, ritmo, lírica, fantasia, devoção – Boi é o brilho do sol à noite, quando incendeia, aquece e ilumina. Boi assim se escreve com letra maiúscula, não é brinquedo para crianças. É para todos. Esta é a ordem que São João mandou...

Talvez por isso, outras razões, talvez pelo bem de quem gosta de cantar vivas toadas, Marilda Castanha confesse as dificuldades de admirar o festejo, apenas por uma janela. Em uma das mais bonitas homenagens ao Boi-bumbá que a literatura infantil pôde produzir – o livro PULA, BOI! (Scipione, 2012), enfrentamos a luta entre a vida e a morte, entre o espaço e o pedaço do que foi, do que é, do que será o Boi.


Como num teatro sem chão e sem teto, o livro se abre com um proscênio de páginas brancas: bem ali, pássaros, pousados no corpo longo do mandacaru, tagarelam. Que o público saiba imediatamente: esta é a história de uma menina que adora exposições e museus, gatos, cachorros e bichos-preguiça. Mas, o principal é – esta é a história de um encontro! A personagem com chapéu, vestido quase sempre abaixo dos joelhos, óculos atentos, levando uma máquina fotográfica ou uma caderneta onde registra tudo que vê, pulou de outros livros para dentro de uma nova aventura. Pra dizer a verdade, a menina de Marilda saiu de dois livros de imagem para encontrar o Boi-bumbá em uma paisagem bem maior que qualquer museu de artes ou ciências naturais. Daí, pressentiram elas – autora e personagem – uma janela só, a linguagem visual, seria insuficiente para comunicar o Boi, seu mundo, seu universo.


Cores cantam e um galo eleva um céu sentimental, rosa. Palavras despertam a manhã. Boi-bumbá não é homem, não é carcaça de veludo bordado apenas. É um ser único, ardente, animal e humano, na tranquilidade dos afazeres diários... A primeira refeição, depois ouvir as notícias locais, e cuidar de seus pássaros, e trabalhar o roçado sob o sol quente do sertão. Vindo lá do fundo da estrada que começa no longe dos livros, entra a menina na história...


A visitante quer logo saber qual é o segredo do Boi-bumbá, mas ele a convida para conviver um tempo com sua família até o dia da festa.


A menina participa da vida daquele lugar: plantar, colher, preparar os alimentos, ir à feira – que também é dia de trabalho, porém festivo, diferente, entre a venda e a troca, os produtos da terra, o artesanato, as notícias boas e ruins que trazem as pessoas. A festa (que é preciso esperar ainda) será a continuidade desse andar para conhecer. Boi é participação, as horas em véspera. Boi é enredo de muitas encruzilhadas no caminho das histórias e da ação coletiva. E Pai Francisco e Catirina comparecem, debaixo do céu estrelado de junho. A menina descobre que Boi é a morte e é a vida que magicamente se levanta todos os dias nos ritos da natureza.

Ao fim de uma sequência descritiva, apaixonada, rememorativa, prenunciando o inverno que é a estação das chuvas para o sertanejo, Marilda Castanha desvenda o segredo que não precisava de pergunta, nem espera por resposta. O Boi é realmente muito amplo. E é promessa de estar de volta, na próxima festa, se mais um ano permitir...


Boi é confiança que o Céu há de querer.


Ora, das mãos de Marilda às asas de Josimar Fernandes de Oliveira – Jô Oliveira!, vamos ao Boi celebrado em cores na vibração de 1974, 1975, quando o artista pernambucano escreveu, ilustrou e publicou um trabalho sobre o Bumba meu Boi, pela Escola Superior de Artes Industriais... na Hungria. Como uma série de tableaux vivants, os personagens típicos da Zona da Mata retornam agora contornados pelas trovas do poeta Marco Haurélio, através do livro MATEUS, ESSE BOI É SEU (DCL, 2015).



Aqui se resgata um fragmento do Boi, o entrecho cômico-dramático, em uma das muitas variantes; conta-se da paixão de Mateus por Catarina e da prova de amor que a caprichosa morena lhe exige: arrancar o coração de Mangangá, o boizinho mais belo e estimado do Coronel, aos cuidados do jovem vaqueiro. Nem Santo Antônio parece ajudar a alguém ter juízo!


E a carreira tem lugar, incluindo diversas figuras do folguedo dançado por ocasião do ciclo natalino, por vezes até o Carnaval, na companhia do Cavalo-Marinho, representando o chefe da polícia que leva Mateus para mofar na prisão, os soldados, o Curumim, os Caboclinhos que defendem o vaqueiro... e está armada a confusão, a luta entre os brincantes.


A narração é bastante resumida, ágil para os pequenos leitores, deixando as entrelinhas para a memória dos mais velhos que alhures já conheceram o desígnio do Boi, em encenar o encontro de três culturas.


Eu quero ver quem vai à rua, eu quero ver acontecer! 


Boi é outra brincadeira nas mãos de André Neves a inventar o TOMBOLO DO LOMBO (Paulinas, 2016), a partir de duas tradições populares.

O que se mostra desde o título é o bem-conhecido brinquedo cantado do tangolomango que vem emprestar a fórmula repetitiva da lengalenga a fim de nos ensinar a contar ao contrário, como que subtraindo a cada vez um elemento da sequência numérica. Quase sempre, há uma família, ou uma casa com nove pessoas, uma velha com nove filhas, e elas vão misteriosamente desaparecendo até sobrar apenas um – para contar a história. Ou nenhum! Todos conhecem a parlenda. Mas, aqui, no lombo do boi, vão nove músicos com seus instrumentos.


Preenchendo a estrutura da brincadeira, estão os personagens encontradiços em algumas das variantes do Bumba-meu-boi, a exemplo do Coronel com o tamborim, a Índia que não sabe tocar trompete, o Padre batendo o sino, o vaqueiro Bastião levantando a cuíca, o Jaraguá parará parapá, sem faltar, no cortejo de "Mestre" André Neves, as figuras centrais do folguedo. O mote principal é descobrir quem deles quis comer um pedaço da língua do boi...

O divertido do tombolo não é apenas ver, um a um, os brincantes tombarem para trás. Não, mesmo. O divertimento está em dar movimento ao Boi. Página a página, o que estava embaixo foi para cima, o que havia em cima desceu... o livro gira em nossas mãos, da esquerda para a direita, como os ponteiros do relógio ou quando se fecha a torneira, como se dependesse apenas do leitor derrubar os personagens para fora do lombo do boi.


Esta função participante do livro, digamos, cria uma imagem cinética – uma coreografia para as mãos. Seria o pequeno leitor o décimo brincante, aquele que se esconde, a tripa vivente dentro da carcaça do boi?

Além de bailar explicitamente com o suporte material, encontramos um importante emblema da cultura nordestina nas reinações de André Neves – a chuva, a renovação, o nordeste que renasce para viver o Boi outra vez.


Lá vai, lá vai, lá vai...
Rasteirinhas pelo chão!
Borboletas no Inverno, é meu boi,
Andorinhas no Verão.

13 de abril de 2016

muitos os cantos pra passear

Peter O.o Sagae


H. J. Koellreutter certa vez comparou o trabalho da composição musical ao trabalho das rendeiras de bilro: é o som que se trama, linha que se leva de um lado para o outro até aparecer o desenho sobre o tecido do silêncio. Pois lembro agora dessa imagem e não sei bem por quê... Talvez seja a simplicidade com que se pode fazer um livro.




Lúcia Hiratsuka atravessa os seus silêncios com palavras, desenhos e ruídos para revelar o espírito familiar, as brincadeiras, a máquina de costura da mãe, o tamanco das meninas, um trem que se inventa no quintal... São muitos os cantos pra passear, por onde passa um fio de brisa também passa alegria, memória e afeto.



Para leitores pequeninos, sim. E para quem viveu outros TANTOS CANTOS na infância. #editoradcl (2012) #literaturainfantil #luciahiratsuka capa, projeto gráfico e fotos adicionais: www.deborabarbieri.com.br

14 de dezembro de 2015

Como brincam as crianças...

Jogo de Trilhas e Textos.


O cavalinho de pau balança, um pé na psicologia, a outra ponta na sociologia do brinquedo. Crianças em casa, brincadeiras outdoor. As diferentes relações consigo e com o outro. Em nove sugestões de leitura. E possibilidades.


"Podemos olhar o brinquedo como uma ponte, um objeto de transição da subjetividade para a vida cotidiana, do mundo de dentro para o mundo de fora e vice-versa. É no brinquedo que a criança, sujeito completo de desejos e realizações, encontra luz para a elaboração de seus conflitos e de suas dúvidas. Ao brincar, a criança se mostra, revela-se com todas as suas coragens e os seus medos." Ninfa Parreiras, O BRINQUEDO NA LITERATURA INFANTIL #editorabiruta (2008) p. 41

"... o brinquedo é uma confrontação - não tanto da criança com o adulto, como deste com a criança. Não são os adultos que dão em primeiro lugar os brinquedos às crianças? E, mesmo que a criança conserve certa liberdade de aceitar ou rejeitar, muito dos antigos brinquedos (...) de certo modo terão sido impostos à criança como objeto de culto, que somente graças à sua imaginação se transformam em brinquedos." Walter Benjamin, Obras escolhidas I. MAGIA E TÉCNICA, ARTE E POLÍTICA (1928) p. 250


Com uma ponta de tristeza e desapego para torná-la em alegria e algum sentimento de eternidade. Ser criança. Detalhe da ilustração de Isabelle Arsenault para A CAIXA DE LEMBRANÇAS, de Anna Castagnoli #editorapositivo (2012) #literaturainfantil #isabellearsenault


Com boneca, boneco, badulaques, cacarecos e todas as coisas guardadas dentro mesmo do armário, closet ou guarda-roupas. Detalhe da ilustração de Andréia Vieira para BETINA QUERO-QUERO #editoradcl (2015) #literaturainfantil #andreiavieira


Com quadradinhos de papel colorido e estampado, dobrando e desdobrando flores e animais milenares em delicado silêncio. Detalhe da ilustração de Suppa para as MÃOS MÁGICAS, de Tereza Yamashita #sesispeditora (2013) #literaturainfantil #origami


Assoviando uma canção, reciclando objetos, criando heróis para transformar hábitos e ideias mundo afora. Detalhe da ilustração de Eduardo Albini no livro de imagem PEDRO PET PLÁSTICO #editoraformato (2011) #literaturainfantil #eduardoalbini


Inventando um jeito misterioso de sentir as cores do mundo quando não é possível enxergá-las todas. Detalhe da ilustração de Denise Nascimento para AS CORES NO MUNDO DE LÚCIA, de Jorge Fernando dos Santos #editorapaulus (2010) #literaturainfantil #denisenascimento


Na hora do recreio, a irreverente linha azul que escapou do caderno vai lá bater e pular corda. Detalhe da ilustração de Sílvia Amstalden para a HISTÓRIA DE UMA LINHA, de Silvana Beraldo Massera #editoraquatrocantos (2015) #literaturainfantil #silviaamstalden


Compartilhando o mesmo espaço do céu, o menino do bairro e o menino do morro. Detalhe da ilustração de Weberson Santiago, em PIPA OU PAPAGAIO, livro de imagem com roteiro de Stella Elia #devirlivraria (2013) #literaturainfantil #webersonsantiago

18 de julho de 2015

palavra e imagem, silêncio e diálogo

Quando o carteiro chegou... 7


Muito leio e ouço falar a respeito das relações palavra e imagem, contudo poucas pessoas encontro dispostas a explicá-las ou fazer entender o que entendem com essa expressão que virou uma espécie de abre-te-sésamo para a conversaria em torno da literatura para crianças. Qual seja... hoje encontro motivos para um exercício de leitura com Marianne Dubuc que tem proposto diferentes tipos de livros para leitores de todas as idades.

Inspirado em uma parlenda, UM ELEFANTE SE BALANÇA (DCL, 2013) foi o primeiro título da autora canadense publicado no Brasil. A passagem da oralidade para o mundo impresso, em um livro ilustrado intertextual, permite-nos pensar uma parcela expressiva da literatura infantil como um gênero secundário da criação verbal em que a relação boca-ouvido (tão cheia de imagens pessoais) é resgatada e complementada por figuras visivas, despertando novas situações, brincadeiras e comentários entre adultos e crianças.

Olhemos agora ÔNIBUS (Jujuba, 2015), traduzido por Maria Viana. Olhemos a capa – a leitura se faz rapidamente. O cenário: a rua, duas árvores, o gramado, um fundo azul como algo infinito, o cinza na calçada e no asfalto, a tampa do bueiro, um ponto de ônibus. A figuração toda se faz teatral – close na personagem: menina de cabelos curtos, castanhos, vestindo um casaco vermelho, levando na mão uma cestinha. Não é preciso dizer que se trata de Chapeuzinho Vermelho, pois não é – porém, a personagem dos contos de antigamente aí se mostra por dois ou três índices unicamente seus, um objeto que carrega e a cor, associados com a identidade de menina. Já imaginamos e sabemos como a narrativa vai terminar, já. Mas o importante será o caminho...


O interior do veículo torna-se o principal cenário da história ou histórias. Marianne Dubuc oferece uma ilustração rica em detalhes e personagens espalhados por toda a dupla-página; são cinquenta e seis centímetros de comprimento, quando o livro permanece aberto. E, nesse espaço, o pequeno leitor encontra uma gata fazendo tricô, duas lebres de saias xadrez, um urso de botas, uma tartaruga, uma preguiça, um rato... A cada parada do ônibus, tudo se movimenta, as lebres deixam cair uma bala de goma de mascar, entra uma família de toupeiras, alguém sai pela porta dos fundos, um bode vende flores, uma coruja veste um chapéu, aparece uma misteriosa personagem atrás das páginas do jornal (dizem que é Marianne), as toupeirinhas vão pra lá e pra cá, e chega um lobinho aparentemente simpático... O que pode acontecer?


Como um jogo, a cada página virada, alguém mudou de lugar, algo se dá. Neste livro, a narrativa visual pede uma leitura em vai e vem, uma leitura comparativa, ora para frente, ora para trás, como muitas vezes é o balanço de um ônibus na cidade. As imagens falam, as imagens contam e até dispensariam o aparato verbal. No entanto, ele ali está, mínimo, uma sentença e outra revelando o pensamento, a curiosidade, os espantos, a admiração da menina que segue viagem, a cada acontecimento dentro do ônibus. A relação palavra e imagem é pontual ou factual, exprimindo emoções e reações da personagem, e também vincula o ato da leitura (visual) à verbalização entre a criança pequena e um leitor adulto que dá voz às frases.


Marianne Dubuc também produziu um livro de imagem, em 2007, chamado MAR (Positivo, 2014), com uma história de perseguição bastante inusitada. Na contracapa, o verbal busca encapsular toda a narrativa visual em uma sentença só: “Um gato com fome e um peixe que não quer servir de refeição.” Porém, o que faz a história tão especial não é seu caráter linear sucessivo...


É a magia ou triunfo da imagem, em seu significado mais profundo de emancipação – e poesia. Para fugir ao felino, o peixe vermelho inventa asas e voa pela sala da casa, depois escapa para os telhados da vizinhança, vai atravessando um arvoredo, alcança a lua e o gato, atrás, calça estrelas para subir ao céu... Do outro lado da cidade ou do mundo, o peixe mergulha nas águas do mar onde talvez Mar, o gato, não ousa pular! Exatamente e por que não? Uma narrativa visual deve nos permitir evocar sentimentos, o olhar perplexo, novas ideias e um modo inaugural para relacionar imagens e seus enigmas, em palavras. Pelo menos, este livro assim permite...


Uma das marcas mais geniais de Marianne Dubuc é o domínio do ritmo em todas as suas obras, empregando sabiamente a virada de página e o silêncio. No livro ilustrado O LEÃO E O PÁSSARO, traduzido por Ana Caperuto (Positivo, 2014), a narrativa demanda várias estratégias combinadas: o narrador em terceira pessoa, a voz do leão como um discurso livre, assinalado discretamente pelas letras em itálico, a narrativa visual, as cores, a alternância de cenas molduras e páginas de ilustração inteira.


Um leão trabalha em seu jardim, quando encontra um pássaro com a asa ferida, sem poder acompanhar o bando que migra para terras mais quentes. Ainda é outono, mas o leão sente que não poderá abandoná-lo e acabam passando toda a fria estação na companhia um do outro. De certa maneira, parece uma história oposta à brincadeira do gato com peixe-voador esta que trata da amizade indubitável do leão pelo pássaro. Tudo o que fazem juntos é uma sucessão de quadros felizes. Quando se quer retratar o isolamento que possuem do restante do mundo, a imagem amplia-se, ocupa duas páginas e vemos a casa algo distante como um esconderijo. O tempo bom chega com o início da primavera e os pássaros retornam pelo caminho do céu. É hora do amigo seguir com os seus iguais.

O leão naturalmente se entristece – e estar só é sentir-se todo pequeno em um barco à deriva no meio do lago. Mas, creio, que existe um sentimento que nenhuma imagem traduz fielmente. A esperança é um hálito verbal. “Um dia, o outono também volta.” Ora, passamos a aguardar o pássaro, como o leão olhando o céu...

Mas existe, na relação palavra e imagem de Marianne Dubuc, outra força. Uma força que é tempo passando no signo branco de algumas páginas, a presença de uma ausência que faz sentir e faz pensar. Ou seja, silêncio verbal e silêncio visual.


E o que rompe este diálogo?
Um assovio.