Mostrando postagens com marcador Paulus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paulus. Mostrar todas as postagens

8 de junho de 2017

não mandem flores para as crianças

peter O sagae


Vasculhando os livros guardados na memória, não encontro antologias que falem de flores para crianças, integralmente, fora um ou outro poema de exceção que não insista em suspirar a pétala perdida com a cor de rosa da infância ou repetir rimas óbvias por entre ingênuas borboletas, cores e olores. Realmente é uma temática difícil, quando pensamos que a generalidade das flores se tornou arranjo ou objeto de contemplação, símbolos de alegrias e desastres amorosos, inspirando bem poucos versos animistas, amigos, animados. Realmente, pensemos, para quê mandar flores para as crianças?

Claramente não concordo com o que diz o título dessa postagem, apenas sinto realmente um vazio de referências e corro aos livros que dormem na estante. Vez ou outra abro UM POUCO DE TUDO, de Elias José (1982), e encontro UM POUCO DE FLORES, em diálogo bem humorado com o leitor – a hortênsia, rainha da paciência, toda gordura, a triste violeta, a rosa que não é flor para qualquer poeta, o girassol aluado e as algas que embalam as criaturas do mar. Também tomo o irregular POETANDO FLOR, de Lúcia Pimentel Góes (1991), como um ramalhete de experimentações com a sonoridade e a espacialidade das palavras na página.


Uns vinte anos passariam para podermos colher e ouvir as CANTORIAS DE JARDIM, de Eloí Elisabet Bocheco com ilustrações de Elma (Paulinas, 2012). O livro traz temas e formas inspiradas na poesia de origem folclórica – quadrinhas e jogos dialogados, principalmente – junto aos textos que nascem na cabeceira ou na escrivaninha, entre a visão e a escrita particular da autora. São diferentes aromas que se mesclam nesse jardim de palavra e brinquedo.


Tem origem na fala popular os poemas dedicados às flores de nome e aparência às vezes mais simples, como camomila, margarida, cravo e rosa de todas as cores, açucena, jasmim branco, flor-de-maio e palma-flor – com um pé fixo nas cantigas e nos recortados das cirandas. Com a forma característica da trova, ocorre volta e meia a justaposição de dois versos iniciais com outros dois que vêm assinalar uma ruptura temática, mas também o forte paralelismo tão comum aos jogos da memória e do improviso. A terceira estrofe do primeiro poema, nesse sentido, é exemplar:
“O fogo quando se apaga
na cinza deixa o calor.
Camomila quando balança
esmalta o chão de flor.” (p.07)
Daí encenar o diálogo, como:
“— Rosa encarnada,
quem te incendiou?
— Foi o sol nascente
que aqui chegou.” (p.12)
Ou então fazer um cruzadinho com as figuras nos dois primeiros versos para fechar os dois últimos com uma provocação:
“Flor-de-maio no canteiro,
passarinho na janela.
O que espera, passarinho,
para beijar flor tão bela?” (p.38)
Da inspiração enraizada no folclore, passamos a ouvir cantorias da música popular brasileira. São três ou mais homenagens. O eu-lírico de Eloí Elisabet Bocheco diz assim: “Este lírio quem me deu foi Yara” aludindo à ciranda de Lia do Itamaracá; no mesmo poema, sai um verso, sai uma quadra inteira, para os irmãos Tonico e Tinoco:
“Sereno caiu no lírio
Sereno deixa cair
Sereno da meia-noite
faz tempo que foi dormir.” (p.24)
Talvez alguém se lembre ainda de uma marchinha de 1939 composta por Benedito Lacerda e Humberto Porto, A jardineira, ao ler o poema que fala da camélia que suspira no galho. Segundo Eloí, cai orvalho, cai perfume, cai nosso coração no laço, mas a flor continua lá, branca, roxa, arco-íris e luar... A ilustração de Elma, nesta abertura de páginas, dá conta de mostrar como as flores se animam e se agitam com asas de elfo, jeito de fada, cara de sílfide – uma alma, uma criatura florida é, ela mesma, a jardineira com regador na mão e a flor.


Em outros poemas, o ouvido sonoro da autora se distrai com ecos – e as marcas da poesia popular vão se diluindo. Estou a ler e a reler o tremor da hortênsia, o jasmim sonhador, delicadas as begônias, a petúnia breve e o hospitaleiro amor-perfeito. Se eu fosse um peixinho, talvez usasse apenas o verbo no pretérito imperfeito, porém morava num lugar onde vivem os sábios insetos – a borboleta, o grilo, a joaninha e outros, um lugar onde parece existir um “único amor sem defeito”.

Por fim, é preciso colher flores que nascem da experiência com a linguagem escrita, em que a estrutura e a divisão em estrofes mostram-se em formas variadas, com ritmos e dizeres também variados. É o caso dos poemas “Rei do jardim” e “O preferido” que dividem a mesma abertura das páginas em espelho; “Qual é a flor?”, pergunta Eloí, que são contas azuis, colares de luz, fino bordado... Temos aí nomes que deixo para o leitor descobrir.

Há ainda “Viva a sempre-viva!” que brinca com repetições de palavras e o deslocamento delas sobre o eixo sintagmático dos versos, por isso, o efeito venha a soar mais frio ou calculado do que todos os demais. Eixo sintagmático, eu sei, soa igualmente estranho e nem se preocupe se agora você não entender. É um festim de palavras pra lá e pra cá, lembrando cantorias da Tropicália em seus momentos de exaltação. É preciso estar atento e forte (porque) a sempre-viva só tem cores vivas!

E quase me esqueço do copo-de-leite em duas quadras que falam do luar e mereciam realmente o branco mais branco de uma página quase silenciosa de ilustrações. Ponto alto, no entanto, para quem conheceu Eloí cronista e tecelã de casos fantásticos nas colunas do jornal, é o poema que narra como surgiu a violeta: uma história que o eu-lírico traz gravada nas linhas da mão, uma história leve que fala de um velho profeta penteando as longas barbas na janela do céu, e fala também de um vento forte, de um riacho e seus peixes, de uma catadora de sementes e gotas, muitas gotas.


CANTORIAS DE JARDIM, o livro, tem projeto gráfico de André Neves. Muitas vezes as páginas funcionam em um ritmo quaternário, isto é, a cada duas aberturas, a ilustração impõe uma breve narrativa visual. Após a folha de rosto e o índice que trazem flores de pétalas brancas e miolos amarelos, vemos uma página sem desenhos e mais outra com duas dessas flores ao vento, emoldurando o primeiro poema; são flores de camomila ou são margaridas que se apresentam ainda na abertura seguinte, já o fundo amarelo, onde um personagem com pétalas e asas permanece em pé sobre o miolo da flor. Outro flagrante é a sequência pp.20-23. Elma desenhou um jardineiro com um imenso balaio às costas, caminhando da esquerda para direita, olhando rumo ao poema “Delicadas” – e viramos a página para encontrá-lo ao pé da namorada com um buquê de hortênsias nas mãos.

Outra narrativa também se revela nas imagens de Elma. Na abertura das pp.34-35, flores de jasmim-manga decoram os poemas “Petúnia” e “Jasmim”. Sentada à beira do rio que parece transformado em lagoa, uma menina de vestido azul e pássaro na cachola. Você pode dizê-la com nome próprio – Petúnia. Ou ler seu gesto de Ofélia, ou desconfiar que seja uma ninfa – Eco, enamorada de Narciso, invisível ao olhar e ao reflexo que deita na água.


Ora, não mandem flores para as crianças.
Elas poderão gostar.

14 de dezembro de 2015

Como brincam as crianças...

Jogo de Trilhas e Textos.


O cavalinho de pau balança, um pé na psicologia, a outra ponta na sociologia do brinquedo. Crianças em casa, brincadeiras outdoor. As diferentes relações consigo e com o outro. Em nove sugestões de leitura. E possibilidades.


"Podemos olhar o brinquedo como uma ponte, um objeto de transição da subjetividade para a vida cotidiana, do mundo de dentro para o mundo de fora e vice-versa. É no brinquedo que a criança, sujeito completo de desejos e realizações, encontra luz para a elaboração de seus conflitos e de suas dúvidas. Ao brincar, a criança se mostra, revela-se com todas as suas coragens e os seus medos." Ninfa Parreiras, O BRINQUEDO NA LITERATURA INFANTIL #editorabiruta (2008) p. 41

"... o brinquedo é uma confrontação - não tanto da criança com o adulto, como deste com a criança. Não são os adultos que dão em primeiro lugar os brinquedos às crianças? E, mesmo que a criança conserve certa liberdade de aceitar ou rejeitar, muito dos antigos brinquedos (...) de certo modo terão sido impostos à criança como objeto de culto, que somente graças à sua imaginação se transformam em brinquedos." Walter Benjamin, Obras escolhidas I. MAGIA E TÉCNICA, ARTE E POLÍTICA (1928) p. 250


Com uma ponta de tristeza e desapego para torná-la em alegria e algum sentimento de eternidade. Ser criança. Detalhe da ilustração de Isabelle Arsenault para A CAIXA DE LEMBRANÇAS, de Anna Castagnoli #editorapositivo (2012) #literaturainfantil #isabellearsenault


Com boneca, boneco, badulaques, cacarecos e todas as coisas guardadas dentro mesmo do armário, closet ou guarda-roupas. Detalhe da ilustração de Andréia Vieira para BETINA QUERO-QUERO #editoradcl (2015) #literaturainfantil #andreiavieira


Com quadradinhos de papel colorido e estampado, dobrando e desdobrando flores e animais milenares em delicado silêncio. Detalhe da ilustração de Suppa para as MÃOS MÁGICAS, de Tereza Yamashita #sesispeditora (2013) #literaturainfantil #origami


Assoviando uma canção, reciclando objetos, criando heróis para transformar hábitos e ideias mundo afora. Detalhe da ilustração de Eduardo Albini no livro de imagem PEDRO PET PLÁSTICO #editoraformato (2011) #literaturainfantil #eduardoalbini


Inventando um jeito misterioso de sentir as cores do mundo quando não é possível enxergá-las todas. Detalhe da ilustração de Denise Nascimento para AS CORES NO MUNDO DE LÚCIA, de Jorge Fernando dos Santos #editorapaulus (2010) #literaturainfantil #denisenascimento


Na hora do recreio, a irreverente linha azul que escapou do caderno vai lá bater e pular corda. Detalhe da ilustração de Sílvia Amstalden para a HISTÓRIA DE UMA LINHA, de Silvana Beraldo Massera #editoraquatrocantos (2015) #literaturainfantil #silviaamstalden


Compartilhando o mesmo espaço do céu, o menino do bairro e o menino do morro. Detalhe da ilustração de Weberson Santiago, em PIPA OU PAPAGAIO, livro de imagem com roteiro de Stella Elia #devirlivraria (2013) #literaturainfantil #webersonsantiago

24 de agosto de 2015

histórias navegam na voz

peter O.o.O.o...


Comece procurando uma sereia nos livros, pois ler não é somente uma viagem a outras eras, outras terras, mas igualmente a outras histórias e textos, mitos revisitados e travestidos em imagens que fascinam o leitor curioso. Comece encontrando um homem, velho talvez, que deite palavras ao vento... Tem esse homem que mora no banco da praça, aponta Luiz Bras, esse homem feito de sonhos, risadas, primaveras e ideias engraçadas. 
De onde ele veio?
De outro país? De outro planeta?
Semana passada foi aniversário dele.
— Hoje eu faço mil anos — ele disse muito sério, mas também muito feliz.
Não estava brincando, não.

O compromisso com a leveza é algo para nós muitas vezes estranho, não é mesmo? Quem lê, ouve e compartilha histórias corre sempre o risco de parecer o habitante de um lugar estrangeiro, alguém que sempre desperta alguma desconfiança, alguém sem juízo, um louco, sempre. Experimente você subir com os pés no banco da praça e confessar que tem mil anos de idade e venturas para contar... Pois era um homem de roupa surrada, voz áspera, de barbas brancas, encurvado sobre o próprio coração maltrapilho que Aline viu e ouviu contar façanhas de outras vidas, outros mares, outros amores...


No livro PROCURA-SE UMA SEREIA, com ilustrações de Alexandre Camanho (SESI-SP Editora, 2014), Luiz Bras faz da voz uma onda gigante empurrada pelo vento e, assim, vai mesclando, através do discurso, a realidade do mundo narrado pelo velho da praça às possibilidades do mundo vivido de todos nós. É doce saber que o leitor/ouvinte habituando-se à imaginação, um dia, poderá dizer – chovia demais dentro da gente, ventava demais dentro da gente... e descobrir muito mais coisas. Para sonhar, correr o risco. De viver.


 E amanhã será o aniversário de um velho amigo, voz que retumbava trovões, sem barbas brancas, mas poeta e prosador de muita imaginação, dialogando entre gentes de muitas idades. Entrava mês, saía mês e a nossa cidade era a mesma, sem novidade alguma, começa escrevendo Elias José no livro que voa da estante, agorinha, A CIDADE QUE PERDEU O SEU MAR, com ilustrações de Marilda Castanha (Paulus, 1998). Entrava ano, saía ano, já não éramos crianças pequenas, nem éramos moços ainda. 
Já queríamos ser gente séria, sem esquecer as bolas de meia, as pipas e os brinquedos de pique. Meio escondidos, fazíamos a infância voltar e era bom segurar o tempo [...] Em nossa cidade, todos eram mais ou menos iguais. Ninguém muito rico nem muito pobre.

E do tempo que se plantava serviço com os pés de café e as casas recebiam visita de parentes para os festejos do padroeiro, a quermesse de São Francisco, desse tempo quando as noites se enchiam com bandeirolas, sons de banda e a música de antigos discos girando na agulha até os alto-falantes, Elias José trouxe o estranho encantado da memória, com palavras que ondejam em nossos ouvidos. Em uma praça, encontramos a figura de Manuelão Marinheiro com irrevogáveis olhos de céu e rugas multiplicadas por todo rosto. São suas histórias o vasto mar às vezes manso, às vezes raivoso, tomando conta das ruas e das pessoas...


Ambos os textos atestam o amor sobre as coisas um mar que desejamos fiquem dentro de nós, enquanto o sonho for mistério e imensidão e venha contar e recontar as suas histórias.

* * * * *
* * *
*
Outras sereias n'O Blog:
[+] mar de sons de cores
[+] imagens de mar e ar
[+] deram os homens a sonhar
[+] caiu na rede, é sonho

25 de junho de 2015

imagens com reticências

Quando o carteiro chegou... leituras risonhas 3


Todos os contos são geralmente o mesmo conto e possuem todos as mesmas imagens sábias, quase os mesmos sabores conforme foram amadurecidos pelo tempo e as terras das várias culturas, permanecendo, na casca de seus frutos, as cores e texturas locais. Esta é uma tese bastante compreensiva de quem colheu e comparou narrativas através dos continentes, desde os primeiros folcloristas, antropólogos, viajantes e estudiosos de gabinete do século XIX, e após...

Por isso, são as imagens da palavra o que me interessa na leitura de um recente reconto de Celso Sisto, BATU, O FILHO DO REI, com ilustrações de Simone Matias (DCL, 2015), a partir de uma narrativa tradicional da Etiópia, um país no chifre da África apontando o leste...

Zemene é um jovem e corajoso caçador, mas poderia ser cavaleiro, um mercador, um nobre perdido em viagens pelos contos europeus ou árabes. O nome Zemene significa ‘Príncipe’ e é como aqueles que realmente andam à frente, desde o princípio. Ele entra em uma caverna escura e lá encontra Batu, o menino, que é como um gênio, um elfo, um exu, a sorte, a parca, a fada, um animal, a alma penada de um amigo ou parente morto, que irá mudar o destino do herói se – e somente se – puder salvar o pequeno indefeso da enorme serpente de sete cabeças e levá-lo à terra distante de seus pais, onde Zemene poderá requerer um gorro vermelho que torna qualquer pessoa invisível – como Saci e Perseu – e uma lâmpada de lata, aparentemente de tão pouca valia que, no entanto, realiza todos os desejos de riqueza material em ouro e prata...

Tais imagens abrem o diálogo com diferentes saberes. E é bonito aprender a brincar por esses caminhos a fim de não perdermos nossa humanidade. Um conto são todos os outros contos, iluminando-nos a própria ignorância rumo à realização de um importante feito em nós mesmos – a resignação, a esperança e a obediência, tomar o auxílio ao próximo como uma aventura, ventura ou missão...

Das imagens tecidas pelo conto, vale abrir uma mini-galeria para a ilustração de Simone Matias. Algo que inúmeros contos tradicionais ensinam é jamais desprezar o conselho dos amigos insuspeitados...



Talvez BATU, O FILHO DO REI fosse o aguardado livro de Celso Sisto para mostrar outros títulos que há bom tempo Dobras da Leitura recebeu. Como assegura o velho provérbio – a tempestade de areia passa, as estrelas permanecem –, será testemunho da perenidade das histórias tradicionais de todos os povos o generoso volume MÃE ÁFRICA: MITOS, LENDAS, FÁBULAS E CONTOS (Paulus, 2007) com ilustrações do próprio autor. A reunião de trinta e uma narrativas seguiu principalmente o critério da beleza – da magia, da identidade, da poesia dos nomes diferentes com significados encantatórios e musicais...



Outros dois livros conduzem o leitor à África Ocidental e, mais especificamente, ao Senegal. O CASAMENTO DA PRINCESA, também ilustrado por Simone Matias (Prumo, 2009), tem cores suaves de rosa, vermelho, roxo terra, cor de laranja e o contraste do branco pelas páginas para contar visualmente a história da formosa Abena, com quem a Chuva e o Fogo desejam se casar. O primeiro pretendente chegou com seu olhar molhado e palavras delicadas como água no bico de pássaros. Porém, o Fogo ao pai da moça deu provas de seu poder... O caminho do amor às vezes são cinzas deixadas pra trás, mas mesmo o fogo do Fogo extingue-se com a Temperança...

Por sua vez, RAIO DE SOL, RAIO DE LUA, com imagens de Maurício Negro (Prumo, 2011), relata acontecimentos de um tempo em que o Sol e a Lua eram crianças, vivendo com suas famílias na Terra. É verdadeiramente um conto etiológico que explica por que, desrespeitando a ética e o tabu de não espiar a própria mãe nua durante o banho, o Sol e a Lua foram separados de suas andanças e brincadeiras...


18 de janeiro de 2015

não qualquer palavra

O’ABRE ASPAS de um livro a outro


“Preocupada com as crianças que atualmente recebem tantos rótulos (e mesmo diagnósticos) negativos – hiperativos, impulsivos, desatentos, indisciplinados, entre outros –, Gloria Kirinus propõe uma mudança de enfoque. Para ela, a criança é um ser em estado puro de linguagem e é preciso escutá-la melhor para perceber os ‘sintomas’ de criatividade e inteligência que estão por trás de um comportamento à primeira vista inadequado.” Expõe Angela Leite de Souza no primeiro capítulo da série que compõe o livro POESIA PARA CRIANÇAS: conceitos, tendências e práticas, org. Leo Cunha, no qual participam juntamente Carlos Augusto Novaes, Gláucia de Souza e Maria Antonieta Antunes Cunha. “Uma das causas desse descompasso estaria no fato de que o fascínio que a criança sente pela palavra e pela multiplicidade de imagens que ela lhe suscita costuma ser reprimido na sala de aula.” (2013: 22-23)

II

“O que eu pediria para pais e professores é que, entre espaços e horários fechados, deixem a porta entreaberta para a escuta da poesia.” É o que responde Gloria Kirinus, no livro SYNTHOMAS DE POESIA NA INFÂNCIA, observando e refletindo sobre casos de rimite aguda, delírio verbal, estado contemplativo, devaneio crônico, analogia intensa, isolamento fabuloso, surtos de genial ingenuidade, abundante riso, acesso de perguntas e catapora inventiva... “Quando fechamos a porta da sala de aula ou qualquer outra porta da vida privada, ocupando todos seus vazios, normalmente bloqueamos também a possibilidade de escuta da poesia. Pais e professores de crianças pré-alfabetizadas teriam muito a ganhar se soubessem receber a poesia de viva voz, aquela poesia que inventa seus ritos recuperando a unidade do homem primordial que cantava e dançava a palavra. Não qualquer palavra, mas aquela que pulsa no ritmo de sístole e diástole numa intenção de se organizar no mundo.” (2011: 68)


III

“Agora que caminhamos para o fim, quero lhe contar um segredo e fazer uma confissão.” Escreveu Elias José, nas páginas de POESIA PEDE PASSAGEM: um guia para levar a poesia às escolas. “Antes, eu tinha um caderno de poesia com espaços para cópias e anotações, vários cheios. Hoje, tenho programas no computador para copiar tudo o que leio e gosto. Gosto de enviar cartões, cartas e e-mails com poemas, meus e alheios. É uma forma bonita de presentar e até de elogiar os amigos. Poesia bonita é para ser multiplicada, distribuída, com nome do autor, editora e sem erros. Que tal entrar em mais esse jogo gostoso?” (2003: 97)

16 de dezembro de 2014

quadras para o verão

Dobras da Leitura recebeu


Marco Haurélio nasceu no sertão baiano e reuniu quadras, umas poucas adivinhas rimadas e cantigas do ciclo natalino, celebrando a poesia popular e o verde que renasce na estação das chuvas, durante dezembro. Saborosas, as quadrinhas foram quase sempre organizadas pela repetição do primeiro verso, variando depois as sequências. LÁ DETRÁS DAQUELA SERRA, il. Taisa Borges (Peirópolis, 2013).


Lenice Gomes, que nasceu no agreste pernambucano, juntou-se ao paulista Giba Pedroza e colheram, improvisaram e arranjaram quadrinhas com quem inventa um diálogo, lembrança de moços enamorados e meninas em roda, no livro ALECRIM DOURADO E OUTROS CHEIRINHOS DE AMOR, il. Cláudio Martins (Cortez, 2011).


E Elias José convida os leitores para conhecer o cancioneiro simples e amoroso de Fernando Pessoa, a partir de exemplos colhidos do livro Quadras ao gosto popular, publicado postumamente em 1965. Elias selecionou os versos mais próximos da sintaxe, do vocabulário e da sonoridade da língua portuguesa falada e escrita no Brasil, e assim surgiu FERNANDO PESSOA: O AMOR BATE À PORTA (Paulus, 2007).

Um novo ano + poético para você!

11 de dezembro de 2014

o vento é sempre bom

Dezembro, tempo de verso


Não me canso de dobrar os ouvidos sobre as CANTIGAS DE NINAR VENTO, de Gláucia de Souza, um livro com ilustrações de Cristina Biazetto, acompanhado de um disco com quinze faixas musicadas por Jorge Hermann (Kalligráphos, 2004*, Paulus, 2007). Não me canso, porque elas me chegam sempre novas!


Sabemos que sons, imagens, palavras são. Signos luminosos, e Gláucia de Souza trova brinquedos, doçuras, tristezas, e retrata a tradição em muitos versos ao modo das redondilhas em sete sílabas. Às vezes um pouco mais, às vezes menos, a forma vem livre. Livre no sabor doce-fácil, e vai brincando, trovando vai. Suas imagens brotam de uma inspiração em azul como a claridade e as cordas que tangem a noite, o dia, o céu, entre castelos e mosteiros, nos caminhos maravilhosos de um sonho...


A cantiga-título diz: para ninar vento que corre, uma trança de cabelo voando a mil e um lugares: quem poderá assim capturar o vento para dormir? Na página, um imenso pássaro com penas cor de fogo a carregar uma menina tal qual Rapunzel. Vai ela agora firme às asas, a longa trança laçando a distância e a vencer trovoada. Alegre – lá, lá... Gláucia de Souza reinventa príncipes e princesas de nosso imaginário, um tempo de acalanto, senhas e sinais, Cristina Biazetto cria reflexos bons de olhar, tomando dos voos e dos movimentos que todos guardamos no baú da memória.
“Cantiga quase sem som”

Tua voz correu lá fora,
bem em dia de virada.
Quase que ela não demora
a fugir da chuvarada...

Tua voz correndo ao longe,
não se ouve quase nada.
Parece prece de monge,
surda, leve, demorada...

Tua voz no meu ouvido
fica rouca, abafada...
Mas só nunca que eu duvido
dessa voz em mel lavada...

Trovar é assim. Trovar é encontrar uma ideia, inventar, criar. E a linha do desenho encontra a linha da melodia: os poemas tão logo nasceram, foram acolhidos no feitio de uma roda, entre cantigas de amor e de amigo, cantigas de ninar e ronda ao modo medieval. Suave é a cantiga da partida, com afetos e desejos de mãe. Em um verso, encontro um anel mágico, é a benção para a viagem que irrompe neste barco de papel, galante e musical entre a viola e o violino, bandolim, piccolo, cello, um arguto oboé, a serena flauta e uma festiva percussão, deixando bailar as vozes do barítono, um tenor, a jovem soprano e também o mezzo-soprano... Jorge Herrmann compôs gostosas melodias, Marcelo Nadruz trovou atmosferas em seus arranjos medievais. Vale a pena ler-ver-ouvir. Encantamentos para o ano inteiro.

* Dobras da Leitura 22, outubro de 2004

Um novo ano + poético para você: 2015 com
Gláucia de Souza e as Cantigas de ninar vento,
livro-CD com músicas de Jorge Hermann
il. Cristina Biazetto (Paulus, 2007).

18 de abril de 2013

poesia no formigueiro

p.e.t.e.r...o... s.a.g.a.e


Era um livro que escorregou da mão de uma menina e caiu na grama, livre, despertando a atenção de uma formiguinha. Era a primeira expedição em que a jovem operária tomava parte. Desconhecia o que era a natureza em um dia de verão, o azul tão imenso e os verdes tantos por todos os lados. Ela não conseguia, não podia mesmo continuar caminhando de cabeça baixa naquela interminável fila de formigas, tão irmãs, tão iguaizinhas no corpo, nas seis patas tateando obstáculos, pedras e troncos, nas antenas voltadas apenas para a repetição do dia-a-dia...


Era, então, um livro, um mundo novo para a formiguinha de primeira viagem. Ela logo descobriu a palavra “folha” verde e cheirosa, colocando-a delicadamente nas costas, a fim de voltar para a fila. Mas, qual? Somente formigas ordeiras e atentas saberiam retornar ao mesmo lugar – o que não era o caso daquela jovem... O fato não passaria desapercebido e a notícia correu elétrica às antenas da formiga-líder no começo da fila. Era uma vez, promessa de enorme confusão!


FORMIGAS, primeiro livro de Elaine Pasquali Cavion, com ilustrações de André Neves (Paulus, 2009), é uma pequena obra na aparência, porém grandiosa nas soluções para a narrativa. Ainda que venha contar da vida monótona das formigas, preocupadinhas com a provisão de migalhas e folhas, a escritora conduz todas à descoberta das palavras, umas pesadas, outras leves, que adoçam os sonhos mais que grãos de açúcar, ampliando os horizontes no interior do formigueiro. E, quando certa cigarra chega para oferecer seus serviços, como costumava fazer em todos os invernos, encontra a caridade e a claridade de uma porta aberta: a literatura em meio às coisas comuns do cotidiano!


"formigas também são palavras
com seu alfabeto miúdo"

20 de novembro de 2010

“Canta e dança agora, meu povo”


Dia da Consciência Negra, consciência de todas as suas cores, com a figura heróica e libertária de Chico Rei: do congo ao samba, uma riqueza dentro de todos nós.


Visão interna/detalhe do livro CHICO REI, de Renato Lima, com ilustrações de Graça Lima (Paulus, 2006).


A HISTÓRIA DE CHICO REI: um rei africano no Brasil, com textos e ilustrações de Béatrice Tanaka, acompanhado de “Escola de samba, uma escola de vida”, de Maria Augusta Rodrigues, e seguido do “Romanceiro VIII ou do Chico-Rei”, de Cecília Meireiles (Edições SM, 2010).

9 de setembro de 2010

nenhuma palavra vale a pena, mas voa!

Dobras da Leitura recebeu...

 
De Edith Derdyk, O COLECIONADOR DE PALAVRAS (Editora 34, 2009), original de 1986; O HOMEM QUE PUNHA PALAVRAS NOS PÁSSAROS, de Julian Borra, trad. Patrícia Levy Simões (Biruta, 2008); e MENINA PALAVRA, de Lúcia Fidalgo com ilustrações de Elma (Paulus, 2007).

30 de julho de 2010

tem magia no que o bicho faz

peter O sagae


Viajando de Portugal para o Brasil, Maria Borralheira, ou simplesmente Maria, encontrou em cada rincão da nova terra um sotaque e um aconchego diferente. Já fora vista em bailados, depois da missa, em Sergipe e nas Minas Gerais, nas cirandas praieiras da Bahia e do Pernambuco... Ela, de fato, andou, andou e andou, conquistando amigos mágicos tão diferentes quanto uma vaca ou um caranguejo, um peixe ou um cordeiro; vez em outra, uma santa padroeira, uma sereia ou uma boa velhinha atrás da porta. Que importa? Depois de tanto sofrer nas mãos daquelas que todo-mundo-bem-sabe-quem, ela merece um descanso, um vestido novo, uma paixão, um compromisso pela vida inteira que a faça feliz, muito feliz.


É sempre a bela e simples Maria que acompanhamos nas ilustrações de Graça Lima: Maria que vem do Maranhão, da voz dos índios Tenetehára, através de um registro de Eduardo Galvão (1941) para as páginas de CINDERELA BRASILEIRA, de Marycarolyn France, com tradução de Luiz Raul Machado (Paulus, 2006). Vale toda magia que o carneiro de Maria faz para fiar dez cestos, muitos cestos de algodão...





“Quando passou pelo portal, as pessoas se viraram para olhar e um murmúrio correu a assistência, pois Maria estava mesmo linda. Seu rosto brilhava com a felicidade que sentia. Estava tão diferente que nem a madrasta nem as irmãs a reconheceram. Todos os rapazes olhavam para ela.”