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6 de julho de 2025

o bom vizinho da poesia

Poeta severo, tradutor e crítico literário, na minha estante, Régis Bonvicino permanece o bom vizinho da poesia em geral e dos livros para crianças.

Quem nunca ouviu citados, pelo bikerrepórter da Rádio Eldorado, uns versos seus na hora do rush paulistano?
não há saídas
só ruas viadutos
avenidas
Mas aqui estico o braço e abro “O beija-flor”, pequeno pássaro com bico preso num grampo de cabelo, na parceira com @guto.lacaz, no livro NUM ZOOLÓGICO DE LETRAS (Maltese, 1994).
O beija-flor
queria beijar uma flor
voou voou voou
mas flor para beijar
não encontrou

o beija-flor
queria beber água pura
voou voou voou
mas água pura para beber
não encontrou

o beija-flor
queria comer inseto
voou voou voou
mas inseto para comer
não encontrou

então
muito triste
o beija-flor perguntou
em que mundo estou?
em que mundo estou?
#dobrasdapoesia

Veja também no blog Dobras da Leitura, abril de 2013, uma reunião de autores na resenha LETRA, TIPO, PALAVRA... BICHO! Régis Bonvicino com Guilherme Mansour, Arnaldo Antunes e Zaba Moreau.

24 de fevereiro de 2021

andar com bicho-carpinteiro

Valei-me, São Trocadilho!
A vontade de fazer arte é vontade de fazer parte, o que antigamente se dizia a alguém ou alguma criança que andava com bicho-carpinteiro, com o espírito de mover as mãos para fazer e refazer tudo a seu próprio modo. Pois esse tudo, é certo, possui um segredo, um mecanismo invisível que se faz necessário conhecer, através de perguntas e experimentos, reinvenções que a olhos sisudos não passariam de estranhices e reinação...

Com a narração de Gil Veloso, inspirado em objetos ou assemblagens de Guto Lacaz, O MENINO ARTEIRO que aqui se apresenta é menos história do que moda, como quem tenta capturar a própria sombra: o que é visto é mais gostoso revisto!!! O que se pasaa na mente também poderá existir pelo mundão afora, mesmo quando nos querem fazer acreditar que geringonças e poesia são algo inútil na vida. O desafio é saber como persistir no inventivo clima de isolamento. Mas como? Talvez conhecendo o alegre coração das coisas...

O livro, publicado em segunda edição pela Ôzé Editora (2017), fornece uma dupla viagem ao universo da estética da acumulação, através das fotografias da arte de Guto Lacaz e através de palavras que vão se aglutinando para ressignificar o dia-a-dia de um menino frente aos azedumes alheios.

#gutolacaz
#gilveloso
#ozeeditora

22 de maio de 2017

“no oceano não tem onça”

Peter O.ô Sagae


Bem simples, certamente bem mais simples que outras postagens desta série a respeito de publicações independentes próximas ao sistema literário para crianças, porém não menos importante, apresentamos aqui uma plaquete – ou seja, um pequeno impresso para divulgar obras de curta extensão: poemas, um conto ou outro tipo de texto breve e único, até mesmo um capítulo isolado de uma obra maior.





Uma folha de papel azul turquesa tamanho A4 vira um minilivro de oito páginas – vira também um pedaço do mar em seis poemas com leão marinho, baleia, lagosta, raia, polvo, tubarão, um cardume de sardinhas, peixe espada, caranguejo, um golfinho animado e sonho de pescador em forma de sereia. AQUÁTICA, do poeta Zhô Bertholini, com ilustrações de Guto Lacaz, tem o projeto gráfico assinado por Luzia Maninha e a produção de A Cigarra Edições (2016), de Santo André SP.


São seis quadrinhas bastante gaiatas para o pequeno leitor lembrar-se que “no oceano não tem onça”, mas, na poesia, há encontro de sonoridades entre as palavras.


15 de dezembro de 2015

ABC até Z

Peter On Instagram


Primeiro o desenho. Aquele A feito o telhado de casa, o b é uma bota para calçar o pé, o C cheio de dentes para o verbo comer... Com o contorno próprio de cada letra, Weberson Santiago resgata a função original do ABC para crianças pequenas: ensinar a olhar ludicamente as formas gráficas da escrita. Simples como escorregar no escorregadoR ou manter o eQuilíbrio no alto de uma bicicleta! TIRAR DE LETRA #edicoessm (2014) #imagier #livroinformativo #webersonsantiago


Abacate, bananas, caqui, damasco, estrelas de carambola... Um abecedário poético jamais será rigoroso e Roseana Murray sabe que, antes das letras, virão sombra, cheiro, cor e açúcares escondidos numa palavra que amadurece a forma e o sabor. E inventa ela de encontrar fruta que ninguém conhece, xixá, apenas xixá para constar. E traz assaz uma flor para encerrar o olhar sobre as zínias... ABECEDÁRIO [POÉTICO] DE FRUTAS #editorarovelle (2013) #poesia #roseanamurray aquarelas #claudiasimoes


São 26 letras e um número impreciso de sons que elas representam, fazendo ruídos que mudam conforme a palavra... Silvana Tavano permite que as letras soltem o verbo, saltem as dificuldades da língua escrita, falem e apontem saídas numa atitude irreverente que não é comum nos abecedários para crianças, fazendo acontecer assim O ZUM ZUM ZUM DAS LETRAS #editoramoderna (2012) #literaturainfantojuvenil #fonetica #silvanatavano #gutolacaz

23 de abril de 2013

letra, tipo, palavra... bicho!

por pet:r o’sagae


“mesmo que ninguém
entenda nada 
tudo é invenção”
 

Pois bem: livros como NUM ZOOLÓGICO DE LETRAS, de Régis Bonvicino, com a programação visual de Guto Lacaz (Maltese, 1994), sempre me fazem lembrar histórias de sala de aula. Tive, por acaso, um aluno que me perguntava se eram importantes e qual a necessidade de aprender os três modos retóricos com que a palavra é carregada de significados, segundo as lições do ABC de Ezra Pound (1934) – melopéia, fanopéia e logopéia – nomes que, escritos à antiga regra, com acentos, figuram bem mais interessantes como esses pequenos insetos que estão nos jardins, com antenas zumbidoras e asas tortas transparentes. Porque a questão é essa: ouvir, ver e pensar com sensibilidade a poesia para crianças, sem perder o senso de humor. Possibilidades de descobertas dentro de uma só palavra, sem exigir versos longos ou explicadinhos, para descobrir mel no interior da palavra melancia. Pega o leitor e o embala com o som, uma visão (pessoal) e várias idéias. Que brilhem e pisquem.


Pois, então: Régis Bonvicino se avizinha da poesia visual no poema que dá título ao livro, único para o público infantil em sua produção. “Num zoológico de letras”, a imagem gráfica é quase sempre metonímia, ilustrando uma característica que permite o leitor vislumbrar o animal inteiro, em movimento, canto, urro, alarido, camuflagem, garras ou dentes. Em uma lista com 34 nomes, temos, lemos, vemos:

aa aa aa aa aa belhas 
eLEFANTe 
m:rc:g: 
j%g%%t%r%c%


Tão simples como uma brincadeira de criança, BICHOS TIPOGRÁFICOS, do poeta, tipografo e editor Guilherme Mansur (Edições Dubolsinho, 2007), explora as diferentes características dos animais através do desenho de uma ou mais letras que compõem seus nomes. Assim, uma gaivota voa nas asas da letra v, um canguru pode carregar gentilmente o filhote na barriga da letra g. Por vezes, o nome do bicho vai tomando conta da página, espacializando-se discretamente, como um rinoceronte, ou toda-toda para chamar a atenção, como a letra f escolheu equilibrar a bola do O na ponta do próprio nariz, imitando uma foca, ou muitos zzzz ziguezagueando uma zebra veloz...


Por sua vez, ANIMAIS, de Arnaldo Antunes e Zaba Moreau, com ilustrações do Grupo Xiloceasa (Editora 34, 2011), brinca com deslocamentos, permutas e acréscimos de letras que facilmente poderiam ser tomados como erros. Ao contrário, o que se descortina é um jogo de encaixar nomes e coisas aos bichos que se transformam totalmente pelo exercício da imaginação. Tipo assim: vacaVAlo, MARIpousa, mosquiSIto, DormeDário... Parece difícil acreditar que esses novos bichos sejam, por si só, um poema. Mas são. Montados artificialmente através de um procedimento que os linguistas denominam amalgama e os poetas chamam de palavra-valise, a mistura de duas ou mais palavras, à base de trocadilhos sonoros ou visuais que levam ao riso – porque, em geral, acabam permitindo-nos ver/rever criativamente uma existência biológica e gramatical, cá entre nós, muitas vezes sem graça...


25 de julho de 2011

para criar passarinho(s) e leitores

Dobras da Leitura recebeu...

«Para bem criar passarinho é urgente
apenas contentar-se com o desejo de tê-los na palma da mão. E isso se alcança ao imaginar-se acariciando as suas penas com cuidados invisíveis e os afagando apenas com o olhar, sossegadamente.
»

Fragmento do livro-lição PARA CRIAR PASSARINHO, de Bartolomeu Campos de Queirós. Original de 2001, em terceira edição com projeto gráfico e ilustrações (silenciosas e com ligeireza de asas) de Guto Lacaz (Global, 2009). Nas trilhas da literatura, tem [a primavera primeira e amores mais] de Neide Medeiros Santos por este livro...