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9 de setembro de 2021

uns versos felinos e uma citação de pouco visgo

Um livro me leva sempre a outros livros e encontrei nos andaimes da memória do personagem de Mario Benedetti, uns versos felinos de Juan Cunha e uma citação de pouco visgo a Constancio Vigil. Fui às páginas do Gran Diccionario de Autores Latinoamericanos de LIJ (2010), editado em Madrid com a colaboração de estudiosos do lado de cá do oceano. Das origens da literatura infantil no Uruguai, Sylvia Puentes Oyenard dá notícias de um tardio desenvolvimento por transculturação de fontes clássicas, espanholas e francesas, escassas influências negra e ameríndia, o folclore infantil compartilhado com outros povos, um lugar de conforto na ociosa voz do gaúcho improvisador de redondilhas e repetentes, por onde se mesclam baladas e rimances medievais em novos tons.

Porém me inquietou saber da outra literatura, aquela feita em livros. Tropeço numa trova que fala de índios puros (sic) abaixo do cielito, ensinando a rima que não se troca mate por chocolate! Adiante há de sabermos que o clima de lutas pela independência não poderia favorecer a criação de textos para crianças. No entanto, um colega de escola do bravo José Artigas viria a dedicar à sua sobrinha o ditado de fábulas e apólogos em versos, publicados na imprensa pouco a pouco nos idos de 1826. Trata-se de Antonio Larrañaga e quem se interessar poderia estender a pesquisa sobre Petrona Rosende, ambos fundamentalmente imbuídos de visões morais e patrióticas (em todas as literaturas se passou algo assim, não?). Com o dedo no índice onomástico, corro o nome de 63 autores de literatura para crianças no Uruguai. Conheço três? Que nome você poderia me recomendar?

Sigo equilibrando-me nos andaimes do romance de Benedetti. “Javier havia se convertido em um devoto de [Juan] Cunha, ainda que este não tivesse escrito rondas infantis. A poesia especialmente escrita para crianças lhe produzia alergia, ou melhor, um tédio insuportável. Estes autores devem crer que as crianças são idiotas, murmurava, que só entendem os diminutivos. E dá-lhe com o cachorrinho, o gatinho, o lourinho, a menininha, o papaizinho. Juan Cunha não, escrevia sério e sem diminutivos.”

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Un gato por la azotea.
La noche, parda también.
Um gato por el pretil:
Con su sombra, ya eran dos;
Y, cantándole la cola,
Podia passar por três.
Versos de JUAN CUNHA que descobri após conhecer o Javier, personagem de Mario Benedetti no livro ANDAIMES (1996) que li no final de agosto. Digo que, em fevereiro mesmo deste ano, escrevi um poema onde digo: olhe, que mal há / a sombra de um familiar / ali se levantou /... / olhe, não um porém três.

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AUTORES DE LITERATURA PARA CRIANÇAS E JOVENS DO URUGUAI

Adela Marziali, Adolfo Montiel Ballesteros, Aida Marcuse, Alicia Alonso, Álvaro Figueredo, Ana Amalia Clulow, Antonio Soto (Boy), Armando Quintero Laplume, Carmen Posadas, Celestina Andrade de Ramos, Constancio Vigil, Daniel Baldi, Elena Pesce, Eloísa Pérez de Pastorini, Elsa Lira Gaiero, Ernesto Pinto, Esteban Stancov, Federico Correa Pose, Federico Ivanier Barreix, Fernán Silva Valdés, Fernando González, Francisco Espínola, Gabriel Eduardo Aznárez Morelli, Gabriela Armand Ugon, Gastón Figueira, Graciela Burger Fernández, Graciela Genta Horgales, Héctor Balsas, Helen Velando, Horacio Quiroga, Hyalmar Blixen, Ignacio Martínez, Isabel Amorín, Jesualdo Sosa, José María Obaldía Lago, José Pedro Bellán, Jovita de Almeida, Juan Burghi, Juan José Morosoli, Juan Zorrilla de San Martín, Juana de Ibarbourou, Julián Luis Murguía Azpíroz, Julio C. da Rosa, Julio Fernández, Kitita Guerendiaín, Lía Schenck, Luis Ramón Igarzábal, Magadalena Helguera, María Carmen Izcua Barbat de Muñoz, Marissa Arroyal Ordeix, Marita de Tutté, Mauricio Rosencof, Michel Visillac, Otilia Fontanals, Pedro Leandro Ipuche, Raquel Martínez Martínez, Ricardo Alcántara Sgarbi, Roberto Bertolino, Roy Berocay, Serafín José García, Sergio López Suárez, Susana Olaondo e Sylvia Puentes de Oyenard.

2 de abril de 2021

ainda floresce

Já havia resenhado este livro, quase doze anos atrás... O MENINO QUE FLORESCIA, de Jen Wojtowicz e Steve Adams (Edições SM, 2007) conta a história de Vicente Calaveira que mora no alto de uma montanha, lá, bem pra lá de uma floresta de árvores centenárias. Sua família era um estranho clã de exóticos talentos e, na escola, ninguém se dava ao trabalho da mínima conversa com ele... Até que chega Angelina. Todos se assanham a rodeá-la, principalmente às vésperas do baile, mas Angelina del Valle mantém discreta atenção ao menino com seus livros, no canto mais silencioso da sala.

Neste conto de figuras mágicas que parecem saídas do gótico mundo das fadas, sabemos que, em noites de lua cheia, flores crescem pelo corpo de Vicente, no entanto o menino não se importa e sua mãe, delicadamente, podava as flores pela manhã, antes de ir para escola. Com lirismo e humor, a escritora nova-iorquina Jen Wojtowicz celebra o respeito às diferenças e à amizade, a fim de diluir equívocos e mexericos. O ilustrador canadense Steve Adams evoca igualmente motivos populares através de suas tintas acrílicas sobre madeira, dando às imagens uma lenhosa textura, mesclando o romantismo ao expressionismo com toques e ares de Magritte, onde predominam a vibração das cores, uma perspectiva psicológica, afetos de proporções e revelações inesperadas... E qual o talento secreto de Angelina? Depois do baile, você descobrirá!!

Leia a resenha completa feita anteriormente >>
Quando a vida floresce de outro modo

30 de março de 2021

em asas de algodão

Às vezes, palavras como fantasia, imaginação ou devaneio não parecem dar conta da descrição de uma literatura para crianças que escape das fórmulas românticas. Nem mesmo as chaves de leitura de uma psicologia fácil me auxiliam aqui... O livro de Marilda Castanha: EM ASAS DE ALGODÃO (Edições SM, 2015) nos convida a deixar para trás os comentários adornados e manhosos ao gosto do século XIX.

Ainda que venha pesar a tríplice leveza dos símbolos oníricos, da simbologia dos alquimistas e do simbolismo no seio da literatura, talvez seja possível falar aí a respeito de um realismo metafísico ou existencial. A personagem da narrativa vestida com seu vermelho próprio e vibrante está presa na dor e na cor cinza de sua casa interior. De um quadro, se desprende uma nuvem que será sempre passageira, com sua forma instável e força invisível de água-e-vento a transportar a menina para um novo lugar... Ora, é um conto visual de tristeza e uma janela para alguma presença física de afeto, movimento e esperança. Por entre as imagens, uma voz narrativa percorre em tom de reflexão ou confissão que organiza, em um conhecimento particular, um processo de despedida dos sentimentos amargos a uma liberdade consoladora. Sim, penso então num realismo espiritual.
Um P.S. de Marilda Castanha!

Peter querido, que honra e alegria ter uma leitura, deste livro, tão maravilhosa como esta sua. E você (considerando tanto o texto quanto a imagem) foi exatamente no ponto nevrálgico desta narrativa. Já na fase final do livro não havia nenhum pedacinho de azul. Ou seja, a personagem estava totalmente imersa numa tristeza muito maior. Conto um segredo: tive que voltar nas artes e colocar azul em todas, e assim pensava que esta tristeza seria amenizada e não estaria tão aparente (ou que ia "despistar" a dor de viver da personagem. Mas você, hein? sempre super atento! E este "realismo espiritual"...puxa vida! Obrigada pelo olhar tão generoso! Abraço grande! (Facebook, 30 de mar. 2021)

13 de abril de 2018

o chão é o mapa de tudo

Peter O'Sagae


Um livro sempre começa em outro livro, ponte para a vida e para os sonhos semeados na vida de um autor. Isso posso dizer do universo poético visual de Lúcia Hiratsuka, refazendo seus passos de um desenho para uma confissão, de uma palavra breve a uma novela, dos antigos ideogramas às suas próprias ilustrações, das antigas lendas à própria voz, enfim, de um conjunto de gestos familiares de sua infância à constante reelaboração de um quintal, sob o signo do imaginário...

Aí já não se tem mais a vida, mas a sugestão sobre ela.


O livro CHÃO DE PEIXES (Pequena Zahar, 2018), tão longamente esperado e conhecido em forma de esboços e rascunhos por diversos amigos de Lúcia Hiratsuka, possui uma gestação de muitas estações, paradas e volteios. Podemos anunciar que virá a ser o primeiro livro de poesia da autora, porém desconfio que isso não seja verdade.

extenso chão verde
ouço um mugido ao longe 
eterno domingo 

Abro o livro, ao acaso, para encontrar um haicai. Em outras páginas, a estrutura rígida da tradição poética japonesa se desfaz no acento lento de uma voz que arrasta, que sabe, um graveto pelo quintal de outras combinações de som e imagens. Lúcia sempre quis contar histórias com seus traços e não escapou à fabula: eis, então, um apólogo sobre a exuberância, a cor, a forma, a simplicidade, numa predileção por vários domingos, entre a abóbora e a berinjela.


Mas onde tudo isso começa? Qual o mapa de seus livros?


Mudemos o tom: em outubro de 1997, Lúcia havia terminado de ilustrar o livro Batiyan, vem brincar! do casal Marilda e Guilherme del Campo.


O desenho era ainda bem suportado pelo contorno contínuo, a aquarela que descia sobre o papel em meio a tinta acrílica e pontos opacos de guache. Mas era, na biografia na quarta capa, que Lúcia Hiratsuka começava a traduzir afetivamente suas vivências:
“Meus avós chegaram ao Brasil 70 anos atrás e se instalaram próximo à cidade de Duartina, interior de São Paulo. Nessa região chamada ASAHI, que significa sol da manhã, plantaram café, caqui, laranjas e criaram bicho da seda.

“Eu também nasci e morei lá até os 9 anos. Meu Dityan me ensinava a ler e escrever em japonês e minha Batiyan me ensinava a fazer origamis e contava as lendas do Japão que ela ouviu da Batiyan dela.

“Naquela região ainda não havia luz e quando começava a escurecer, nossas brincadeiras prediletas eram contar estrelas e caçar vagalumes. A minha Batiyan, hoje com 96 anos, ainda vive e fica feliz em ver meus trabalhos, pois ela sempre se lembra do primeiro peixinho que desenhou para mim no chão do terreiro e que me despertou para o desenho.” 
Acredito que aí estejam as primeiras sementes, pista e peixe, germinando no chão. E talvez nem pudesse ser de outra maneira: o primeiro poema do velho/novo livro intitula-se “Quintal” fazendo referência a um tempo mágico, lendário e pessoal, à lua e ao coelho que lá habita fritando bolinhos. Contudo a tradição oriental cede a um imaginário diferente. No lugar de bolinhos de arroz, o eu-lírico de Lúcia aguardaria bolinhos de chuva!!!



A descoberta dos ideogramas e da própria imaginação se apresenta em contraste e complementariedade, acerca dos valores ancestrais japoneses e de sua necessária atualização a um modo brasileiro de ser. Aos filhos e netos de orientais, isto é muito claro: o rosto, a língua, o código, um lugar no passado que não nos pertenceu. Para superar a ambivalência, Lúcia Kyoko, como a personagem de Os livros de Sayuri (2008), requer para si outro modo de reconhecer-se:
“Vou rabiscando no chão do quintal. Uso uma vareta, faço riscos bem grandes, lembrando o que ensinou o professor. Cada jeito de fazer os traços. De cima para baixo, da esquerda para a direita. Traço reto, traço em curva, traço que parece um pingo de chuva. Um bom jeito de estudar, assim, no chão, pena ter que apagar depois. Gosto de olhar para a minha letra. Torta, mas minha [...] Já sabia escrever: casa, pássaro, peixe, manhã, caminho, capim. Depois apagava e riscava de novo.” (pp. 59-60) 
A escrita-desenho revolve não apenas o chão de terra batida. Traz silêncios que falam e “mais rabiscos e rabiscos mil”, persistência em possuir o inefável da criação singela, efêmera, de pouca de extensão. Mas... como não ver que o quintal vira mar?



Sim, o quintal, na obra de Madame Hiratsuka (como brincam os amigos), é um lugar de transposições simbólicas. Entre a casa e as estradas do mundo, o quintal se define como um lugar onde se deseja permanecer e, simultaneamente, que se deve atravessar. Em muitos livros da autora, podemos encontrar sua fixação aos meios móveis: desde a travessia de uma menina, ao modo de Chapeuzinho Vermelho, na narrativa visual Um rio de muitas cores (1999), o outro barco que afetuosamente balança a memória da avó materna Orie (2014), os bisavós barqueiros, caminhos líquidos que alcançam novas paisagens e cidades; por terra, roda, linha de ferro e asfalto: a bicicleta de O guardião da bola (2015), o fusca de A visita (2011), Na janela do trem (2013), O caminhão (2017), este último com a dedicatória: para aqueles que carregam o cheiro da terra e as cores de longe.




Os caminhos todos já estavam desenhados, numa distração numa corrida de caracóis ou no parentesco sem fim das formigas... Sabe o segredo de Drummond? No meio do caminho tinha uma pedra, uma montanha! E ela teve de subir, subir muito alto. Em seguida, descer e descer... O objeto da percepção transfigura-se em um objeto da imaginação.


Assim, as páginas de CHÃO DE PEIXES são quadros de outra memória. Cada abertura apresenta um fotograma em palavras e sumi-ê, o desenho gestual que não admite retoques, expresso tradicionalmente com tinta negra. Nas pinceladas de Lúcia Hiratsuka, no entanto, adaptou-se e absorveu cores. São vinte composições, ou registros, terminando com uma outra sorte de amadurecimento: metalinguagem.


Imagens

Pinturas feitas de instantes,
de chuvas e luas,
entardeceres e noites escuras,
de toques e flores
na memória.

//.
/.
.//

P. S. Com CHÃO DE PEIXES, Lúcia Hiratsuka é a vencedora do Prêmio Sylvia Orthof 2018, concedido pela Biblioteca Nacional à Literatura Infantil (13 de nov. 2018).

Primeiro livro de poesia da autora, este chão é um exemplo de persistência na criação literária: palavras e imagens vieram amadurecendo brandamente, cuidando igualmente ao longo dos anos do tempo de recepção do leitor. Este é o chão do seu quintal, extenso chão de sonhos, sons ouvidos ao longe, dias em festa em suas memórias afetivas... Enfim, o quintal hoje é para todos nós!!!

16 de janeiro de 2018

de volta ao buraco


Com uma pergunta – Para onde vamos? Regina Zilberman descerra o último capítulo de COMO E POR QUE LER A LITERATURA INFANTIL BRASILEIRA (2005) e produz um ânimo de tristeza e insatisfação, ao verificarmos que nem os escritores, nem a crítica talvez possam responder por onde os livros devem caminhar, quando é preciso considerar as dificuldades de criação dos autores que nada mais têm a nos contar... afinal, todas as histórias já foram algum dia recitadas ou escritas! Como construir um personagem sempre presente igual àqueles advindos com a tradição e a repetição de suas tramas? como encontrar um conflito instigante? como dar voz à solução do enredo e da própria redação? Enfim, como libertar a inventividade da mente para o papel?

Partindo de algumas obras dos anos 1980, 90, a professora da UFRGS faz entrar em cena o autor-personagem, evocando o emblemático UM HOMEM NO SOTÃO, retratado por Ricardo Azevedo (1982, reformulado em 2001). Narra-se aí, em terceira pessoa, a desventura de um autor de contos para crianças. Em seu processo, obsessivo, circular, ele esbraveja consigo mesmo. “Chega de inventar histórias que, mesmo sem ler, todos já sabem o que vai acontecer e como vão terminar. Chega de só inventar pessoas e coisas que nem existiram nem poderiam existir.” O que o escritor deseja é ocupar-se de gente de carne e osso como ele... e começa, então, pelo começo que muitos autores se esforçariam por esconder – a teimosia na falta crônica de inspiração.


Zilberman traz à luz outras narrativas que se aventuraram pela intertextualidade, quando o autor contemporâneo enfrenta o fantasma dos personagens da literatura de tradição, em especial contos de fadas, ou já tradicionais, como no caso dos habitantes do sítio de Monteiro Lobato. A intertextualidade, representada de diferentes modos pela paródia, inscreve-se em questões mais amplas de metalinguagem e, nesse aspecto, frente aos leitores, o ser de ficção que é o autor-personagem pode confundir-se com o sujeito empírico, o escritor que é “gente de carne e osso”, pois toma-lhe de empréstimo o nome, a aparência ou seu lugar.


Na literatura portuguesa, é flagrante que assim faz certo Saramago, pouco modesto, em A MAIOR FLOR DO MUNDO, de José Saramago (2001). Lembre-se: o narrador não é o autor empírico, mas é um personagem que, neste mise-en-scène, se desdobra em culpas e desculpas por não possuir doçuras, nem palavras ou talhe para contar histórias às crianças!

Na literatura infantil brasileira, o jogo com os personagens de uma história bem conhecida dentro de uma nova aventura aparece desde o movimento modernista. Já o questionamento sobre as figuras do narrador e do autor-personagem talvez venha de um influxo estruturalista nos estudos literários universitários, pela década de 1970. Essa regressão toda é necessária quando tomo uma publicação como ALICE NO TELHADO, de Nelson Cruz (Edições SM, 2010) e repenso os impasses dos últimos 40 anos, ou mais, na produção destinada a pequenos e jovens leitores.


Ainda que trabalhando como escritor e como ilustrador, Ricardo Azevedo caraminholou a saída dos personagens da cabeça ou da imaginação do autor e, assim, muitos outros igualmente fizeram. Por sua vez, em seu duplo ficcional, Nelson Cruz escreve que
“Certa vez, tarde da noite, quis escrever uma história. Sobre a mesa, várias folhas de papel desafiavam minha intenção. Pela janela aberta entravam os sons dos grilos nas sombras das árvores. O pensamento perambulou por alguns temas e nenhuma ideia me veio à mente. Cansado de tentar escrever, apanhei um pincel e desenhei um círculo no meio de uma folha. E fiquei ali, imaginando se, a partir daquele desenho despretensioso, uma história poderia ter início. Mas nada.”
O que se pode adivinhar é que, em meio ao entorpecimento do cricrilar madrugada afora, o Nelson-personagem ouvirá vozes e não será um sussurro, mas o espichado grito chamando COEEEELHOOOO! Do círculo, vicioso círculo, sairão o Coelho Branco, a menina Alice de cabelos escuros, o pequeno Chapeleiro, o rei, a rainha gorda e três soldados, em uma lengalenga sucessiva que traz os personagens do país das maravilhas correndo em cima de papéis na mesa do escritor-ilustrador. Eles estacam, todos, no limite... de uma ilustração ou de um telhado à borda de uma imensa favela no morro.


Nelson Cruz já havia trabalhado com tamanho contraste entre as realidades das pessoas de ficção e das pessoas de carne e osso, em 2004, com O CASO DO SACI, fazendo dialogar o mano velho Zé Preto, um Gepeto às avessas, com a obra de Carlo Collodi. De seus projetos intertextuais, permanece oportuno para a leitura OS HERDEIROS DO LOBO, tour de force empreendida em 2009, entre narrativa, ritmo, imagens literárias, pintura e os contos da tradição popular.


No livro de 2010, ALICE NO TELHADO, os desenhos revelam um mundo coberto de ocre e pobreza pouco afeito à fantasia, uma favela de parabólicas e tiroteios onde nem os personagens mais cativantes ou absurdos da literatura para crianças ousam entrar. Ali, a infância é outra – e este recado, um tanto pessimista (leitor! insista) nos faz refletir... A saída para Alice é voltar ao buraco traçado pelo pincel do autor, um buraco de onde nem deveria ter saído? Talvez.





11 de fevereiro de 2017

admirar não é segredo

peter O sagae


Querida Angela, deixei a ponta de uma página virada para não esquecer o poema onde parei e com ânsia de colo quero recomeçar a partir daí porque imagino algum eu sob os passos das formigas e apanho com o olhar apenas umas flores do caminho que é seu mundo familiar em cada verso casa pedra instante lírios pois um escriba o escreve branco: esse mundo (ai, ardil) cheio de perfumes presídios e é você quem nos enreda em beleza em minha tarde também exausta... ou será amor O CADERNO DO JARDINEIRO #edicoessm (2016) #angelalago #poesia

E recomeço por uma página à toa


e tonto com o seu respirar maduro e honesto porque não há nada na linguagem tão fiel à essência humana, seja macho fêmea bicho água fruto, que um poema e você sabe fingir à maneira de um prefácio

ou flores que veio oferecer através da distância a ninguém – mas logo sólido se torna como a figura de um leitor velho, novo, estranho. Todo o seu livro tem uma urgência de permanecer pois logo se acabará

como cor, maciez ou perfume de um verso preso seco esquecido entre as folhas de um caderno. Aqui uma fotografia no gesto da luz e o dedo a digital o pincel que realça o visível invisível quando andamos distraídos


pelo mato pela biblioteca pelo verde pelos livros que não colhemos. Angela, palavra que brota, eis a confissão do método: feito um clique de botão. O olhar a máquina a câmera o editor de imagens e de texto a câmara oculta de seus devaneios pela literatura ilustração filosofia o existir incompleto. Às vezes, o despontar de um novo botão de flor

toma ares apressado, porém sabemos é fingimento e maestria porque nenhuma dessas flores jamais existiu ou já não existe. É o signo de uma flor, em um caderno que não é caderno, não são verdadeiras as manchas da seiva que circulava por um caule fino. Mas são deliberadamente belas, são também outras transparências.


E talvez por isso esse feitiço de horto


onde as páginas não contam passagem alguma de tempo. E vou e volto. A ponta virada desvira dente-de-leão leitura que vai se espalhando aleatoriamente saltitante. Onde eu parei ninguém se importe, nesse passo, imito repito e faço eco dos seus versos: a semente se costura.

21 de julho de 2016

Próximo!

Julho Amarelo 4 Peter O.ô Sagae


Nem todos os livros para crianças precisam ser fofos* ou demasiadamente instrutivos... BOM DIA, DOUTOR, da dupla Michaël Escoffier e Matthieu Maudet (2010), é um livro encenado com recursos de HQ. Na sala de espera, os pacientes, um a um, vão... sumindo! Um coelho com dor de ouvidos, um jacaré com dor de dente? Todos os seis personagens esperam o médico abrir a porta e chamar. Próximo! Mas algo saborosamente sórdido acontece... #edicoessm (2015) #michaelescoffier #matthieumaudet #literaturainfantil #humor trad. graziela r. s. costa pinto


A narrativa é uma anedota para leitores de 18 meses a três anos que, mesmo informalmente, poderão realizar diversas atividades de epilinguagem. Obedecendo a lógica e a estrutura fácil da narração oral, aqui se vê um balão de fala, logo adiante uma onomatopeia. PAF! Visual e verbal articulam situações comunicativas padrões, como o chamado na sala de espera, a queixa de cada paciente, o diagnóstico e a prescrição do médico. Porém tudo com humor que agrada também leitores mais experientes.




O jogo é ampliado pelo ritmo da ilustração. Afinal, pedir às crianças que digam e descrevam os seis personagens, criem hipóteses por quê motivos foram eles ao consultório e... qual o acontecimento estranho e misterioso que faz o número de pacientes diminuir mais rapidamente que os atendimentos? Quem será (se você já adivinhou) a próxima vítima?


P.S. Por que o elefante foi ao médico? Não, esse não é o motivo central da trama, nem da piada. Para completar uma resenha deveria eu contar que um desses personagens está... CHOMP-chomp-CHOMP, deixa pra lá!

4 de abril de 2016

amor


Uma página se desprende. Cegamente a recolho. Porque o mundo é branco e as sombras transparentes. O CADERNO DO JARDINEIRO, de Angela Lago. As metáforas por aqui passeiam, flutuam. A vida é o seu próprio tempo, o meu próprio tempo é a vida. Flores e poemas. Amor. Enquanto dure nossa leitura...
ÁRVORE VERGADA
– Angela Lago –

tudo no meu corpo é ânsia de colo
sou a mãe e a criança misturadas no amor
amo a mim mesma condoída
como a um próximo distante
amo o que neste corpo velho já fui
o bicho também
e assim
o amor se estende às pedras
à árvore vergada de frutos e à água
e é tudo amor por mim mesma
ou será amor

Fonte: Babel

28 de fevereiro de 2016

cores e formas III

Peter O.o SagAe


SENHOR HORIZONTAL E SENHORA VERTICAL, de Noémie Révah e Olimpia Zagnoli, é uma crônica inspirada em uma fotografia de René Maltête


Cada um, cada qual como nenhum, tem suas manias, gestos, gostos, idiossincrasias em divertidas obsessões. Como Eduardo e Mônica, o que pessoas tão especialmente diferentes possuem é a capacidade de compartilharem um momento, um caminho à borda do mar ou do deserto, uma viagem montanha acima até pescar a lua... Horizontal e Vertical. Da melhor maneira possível. #edicoessm (2015) #literaturainfantil trad. Adilson Miguel #renemaltete



Litertura (e Psicologia) para crianças: o livro evidencia como é bom termos um par de olhos sábios e sadios a fim de enxergarmos as pessoas de uma forma mais livre, respeitosa e interessante...

Mais fotografias curiosas [aqui] mais formas, mais vida ☺

15 de dezembro de 2015

ABC até Z

Peter On Instagram


Primeiro o desenho. Aquele A feito o telhado de casa, o b é uma bota para calçar o pé, o C cheio de dentes para o verbo comer... Com o contorno próprio de cada letra, Weberson Santiago resgata a função original do ABC para crianças pequenas: ensinar a olhar ludicamente as formas gráficas da escrita. Simples como escorregar no escorregadoR ou manter o eQuilíbrio no alto de uma bicicleta! TIRAR DE LETRA #edicoessm (2014) #imagier #livroinformativo #webersonsantiago


Abacate, bananas, caqui, damasco, estrelas de carambola... Um abecedário poético jamais será rigoroso e Roseana Murray sabe que, antes das letras, virão sombra, cheiro, cor e açúcares escondidos numa palavra que amadurece a forma e o sabor. E inventa ela de encontrar fruta que ninguém conhece, xixá, apenas xixá para constar. E traz assaz uma flor para encerrar o olhar sobre as zínias... ABECEDÁRIO [POÉTICO] DE FRUTAS #editorarovelle (2013) #poesia #roseanamurray aquarelas #claudiasimoes


São 26 letras e um número impreciso de sons que elas representam, fazendo ruídos que mudam conforme a palavra... Silvana Tavano permite que as letras soltem o verbo, saltem as dificuldades da língua escrita, falem e apontem saídas numa atitude irreverente que não é comum nos abecedários para crianças, fazendo acontecer assim O ZUM ZUM ZUM DAS LETRAS #editoramoderna (2012) #literaturainfantojuvenil #fonetica #silvanatavano #gutolacaz

8 de dezembro de 2015

Ler e ouvir Alice Vieira.

Peter O. Sagae*


Portas fechadas, corredores sem cores e as sombras a esconder os olhos de uma presença invisível e misteriosa. Talvez viesse a ser a própria Alminha-da-Senhora, ou a Outra-Pessoa de quem ninguém ousa falar. O silêncio retumba mais que outro ruído qualquer — e invade a infância de Marta. Seria preciso a ela permanecer imóvel como uma boneca de porcelana posta à exibição para as visitas posto que os seus passos pequenos, por mais leves que fossem, despertam sempre a casa e as crises de Flávia que-todos-diziam-ser-sua-mãe. Fato. A menina se convenceu de que houve uma troca, a acontecer coisas de mau destino que fez Flávia correr ao hospital como quem busca remédios para a dor de cabeça e, de lá, no entanto, retornaria com uma criança nos braços. Flávia jamais dizia seu nome, jamais saía de casa, nem durante as férias.
« Leonor costumava dizer que eu tinha nascido em berço de ouro, ao mesmo tempo que enchia a minha cabeça de pavores com a Alminha-da-Senhora querendo sair das paredes assim que anoitecia. Lembro-me de ter passado muito dias a espreitar pelo buraco da fechadura dos quartos fechados para ver se descobria, nalgum deles, o tal berço de ouro. Mas o ângulo da visão era fraco, e sempre o mesmo. Acabei por desistir. De resto, de que me serviria um berço de ouro? De certeza não iria poder brincar com ele, como acontecia com as bonecas de porcelana que o pai me dava no Natal e no dia dos meus anos. »
Envolta por uma atmosfera de segredos e histórias, iniciadas muito antes de seu nascimento, Marta refugia-se nas cantigas e nas aventuras do Príncipe Graciano pelas sete partidas do mundo tiradas pela velha e calorosa Leonor. Havia um tempo em que diligências cortavam planícies pelos corredores da casa e seu pai não era Martim, mas Touro Sentado, em conversações sobre alianças e emboscadas com o Coiote Vermelho. Leonor contava o passado quando sentia saudades ou quando se zangava com Flávia...

Em um texto que reflui tempos e nomes, Alice Vieira orquestra sombras e personagens com acordes distintos, humanamente possíveis, belos e densos, na pauta de sua escrita. O fraseado é todo melódico e até mesmo as palavras mais estranhas ou expressões desconhecidas acomodam-se dóceis e ingenuamente bem humoradas. É neste embalo que lentamente o prisma de emoções adquire movimento e refratando vai um espectro de luzes sobre os moradores, uns vivos e outros ausentes, da casa. Variados enredos ressoam iluminados pela maestria da autora e articulados pela narração de Marta, em diálogo muito próximo com alguém que não se vê (“Sabes como era Leonor: às vezes as palavras saíam-lhe da boca e, quando ia por elas, já elas estavam ditas.”) — e o leitor bem poderá sentir-se tentado a ocupar o incômodo lugar de ouvinte igualmente observado pelos olhos vigilantes de Ana Marta.

* Extraído de Dobras da Leitura n. 50, nov. 2007. O Vitrina Mundi: Portugal. Alice Vieira. OS OLHOS DE ANA MARTA, capa: Yili Rojas (Edições SM, 2005).


Ler e ouvir Alice Vieira. “Quando estou triste, gosto de ter flores perto de mim. Mas não é preciso que tenham perfume ou que sejam daquelas de caules muito altos, que dormem na vitrine das floras. Só preciso que estejam perto de mim. Que eu olhe para elas e sinta que estou tão acompanhada como se elas fossem pessoas.” Pois família é uma sintonia delicada, releio hoje ROSA, MINHA IRMÃ ROSA (1979) #editorapositivo (2014) #alicevieira #odilonmoraes


Ler e ouvir Alice Vieira, mais o verso de Adriana Calcanhoto e o rumor de Gil Vicente por uma estrada que são as muitas casas de Branca. “De repente caíam em cima de mim todas as lembranças daquele dia na Feira – ontem? há uma semana? há um ano? sonhei? –, eu a perguntar porque a minha mãe não respondia... e toda a gente a dizer coisas sem sentido.” MEIA HORA PARA MUDAR A MINHA VIDA #editorapeiropolis (2014) #alicevieira #annacunha

30 de novembro de 2015

as horas, cinzas

Peter On Instagram


Primeira Hora Cinza... "O certo é que nunca estava feliz. Com essa maneira de querer muito, vivia descontente. É que jamais olhava para fora. Estava sempre atento para todos os objetos que seus olhos alcançavam. Era seu desejo trazer, para dentro de si, tudo o que estava fora. Cobiçava sempre [...] Ficava contente em jogar sozinho, ganhando ou perdendo para si mesmo." MAIS COM MAIS DÁ MENOS, de Bartolomeu Campos de Queirós com ilustrações e projeto gráfico dos irmãos irmãos Marcelo Drummond e Marconi Drummond #editorarhj (2011) #prosapoetica #bartolomeucamposdequeiros


Segunda Hora Cinza... "Zolfe fica paralisada. Não tem nenhuma idéia do que deva fazer numa situação como essa. Nenhum gesto, nenhuma palavra. Como num sonho ruim, quando se quer fugir, mas não se sabe de onde. Quando se abre a boca em busca de uma resposta cuja pergunta é impossível encontrar. Quando, em desespero, procura-se no olhar do outro uma saída..." NENHUM PEIXE AONDE IR, de Marie-Francine Hébert, trad. Maria Luiza X. de A. Borges, il. Janice Nadeau #edicoessm (2006) #mariefrancinehebert #janicenadeau


Terceira Hora Cinza... "Depois de um dia de trabalho / Dia problemático / Chato e burocrático // Que bom chegar em casa e te encontrar / Super-Homem, Homem-Aranha, Indiana Jones, Homem-Elástico // (Este existe? / Acho que é do meu tempo / De quando meu pai chegava em casa do trabalho / Trazendo alguma coisa pra mim, um doce, um brinquedo reformado) // Que bom chegar em casa e te encontrar / Capitão Fantástico" MEU FILHO, MEU BESOURO, texto e ilustração de Cadão Volpato #cosacnaify (2011) #poesia #cadaovolpato