10 de julho de 2025
verso que estica, verso que encolhe
Tradução talvez seja um exercício muito próximo dos esquemas de ‘close reading’, tropeçando em cada palavra, à cata de sons, ritmo ou imagens. Verso que estica, verso que encolhe, desde a língua de partida, às diferentes chegadas...
I –
There was on Old Man with a beard,
who said, “It is just as I feared! –
Two Owls and a Hen,
four Larks and Wren,
Have all built their nests in my beard!
Edward Lear : A book of nonsense (1846)
II –
Havia um velho de longa barba
que se lamentava: “Que coisa bárbara! –
Pardal, andorinha,
coruja, galinha,
Tudo se aninha na minha barba!”
José Paulo Paes : Sem cabeça nem pé,
com ilustrações de Luiz Maia (1991)
III –
Había un hombre de barba espesa
Que dijo: “¡Vaya sorpresa
Una gallina y dos lechuzas
Quatro calladrias e una grulla
Anidaron em médio de mi barba espesa!”
Eduardo Berti (2010)
IV–
Havia um sujeito com barba gigante
Que disse, “Mas é natural que me espante!
Corujas e uma galinha,
Sabiás mais algumas rolinhas,
Em mim construíram um ninho gigante!
Renato Moriconi : 200 limeriques de
Edward Lear para ler e para ver (2024)
🧡 #quemtemquindimtem
V –
Havia um velho de hirsuta barba,
que alto contava, “Isso aqui me amarga! –
Duas corujas e galinha caipira,
Quatro cotovias, uma corruíra,
Todas assim aninhadas na minha barba!
peter O sagae (2025)
#dobrasdapoesia #edwardlear
#limerique #limerick
17 de dezembro de 2015
Medo do Lobo? Não seja bobo...
Notícias sempre chegam de outras paragens e de outros contos. A prima de mamãe tinha 7 filhos e só por muita sorte escaparam do Lobo. Mesmo morando na vila, Mamãe Cabra anda assustada, tudo pode acontecer a Lilo, Laila e Lulu... Uma história sobre antigos juízos e mudanças de hábito, com o chapéu e a echarpe vermelha de Aristide Bruant. MAMÃE TEM MEDO, de Beatrice Masini, il. Alireza Goldouzian, trad. Márcia Leite #editorapulodogato (2015)
Acorda o Lobo e lá vai ele, pé na estrada. Encontra um ratinho. "O senhor quer me comer?! Eu?! Mas eu sou magrinho!" - e com uma conversa fiada vão escapando também o porco-espinho, o sapo, o jabuti e hmmm, o touro! No final do caminho e ainda mais faminto, ele encontra a casa da vovó e o portão aberto... A FOME DO LOBO se sacia com bondade. Texto de Cláudia Maria de Vasconcelos, il. Odilon Moraes #editorailuminuras (2015) #literaturainfantil
Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com o Lobo, mas correram com ele para o hospital onde foi atendido por uma ovelha branquinha e gentil que se derramou sobre o paciente em demasiadas atenções. O que era pura artimanha de lobo fingindo-se bonzinho, tomando remédio e até infecção sem reclamar, logo se transformou em uma insuspeitada paixão. O MAL DO LOBO MAU, de Cláudio Fragata, il. Luiz Maia #editorapositivo (2009) #literaturainfantil
16 de abril de 2013
era cigarra, era formiga
Nunca pude saber se as formigas têm dentes para sorrir pois, mesmo banguelas, o fato não as impediria de cair na risada contra a cigarra, tal como fabulou Esopo a respeito da colheita dos preguiçosos, num belo e distante dia de inverno...
Roberto Piumini transformou a velha fábula, curtinha, em uma lengalenga: pousada no alto de um galho, a cigarra azucrina um ratinho, uma abelha e, por fim, uma formiga fatigada que puxa um pesado grão de trigo. Ora, o frescor verde das folhas de verão desaparece, tudo seca e a cigarra vai ao chão. Zanzando por todos os lados, ela não mais estridula, mas treme com fome e com frio... Ao fim do percurso narrativo, encontram-se A CIGARRA E A FORMIGA, com imagens de Nicoletta Costa e a tradução de Daniela Bunn (Positivo, 2010), no formigueiro.
A primeira suplica, a outra explica: “Para trazer aqui dois ou três grãos, duas ou três de nós trabalharam dois ou três dias.” Educadíssima a formiga. Porém, o coro de vozes não muda um til ou uma vírgula da lição, enquanto a cigarra se aproxima da porta: cantou, agora dance!
No entanto, dizem... que, ao escolher a história da cigarra e da formiga para encabeçar e abrir o volume de suas Fábulas Escolhidas, em 1668, La Fontaine
Muitos escritores e poetas posicionaram-se em defesa da cigarra – o que é bastante óbvio, modificando principalmente o desfecho da narrativa com ampliações, remendos, arremedos, com a moral esópica às avessas, como as duas versões de Monteiro Lobato (1922), a narrativa rimada de Braguinha (nos anos de 1960) ou o poema de José Paulo Paes, breve sempre e bastante sensível, no livro POEMAS PARA BRINCAR, com ilustrações de Luiz Maia (Ática, 1989).
SEM BARRA
Enquanto a formiga
Carrega a comida
Para o formigueiro,
A cigarra canta,
Canta o dia inteiro.
A formiga é só trabalho.
A cigarra é só cantiga.
Mas sem a cantiga
Da cigarra
Que distrai da fadiga,
Seria uma barra
O trabalho da formiga!
Por fim, Alessandra Pontes Roscoe também escreve, leva e traz A OUTRA HISTÓRIA DA CIGARRA E DA FORMIGA, com ilustrações de Adilson Farias (Mundo Mirim, 2010), introduzindo um bem-te-vi para resolver o bate-boca ao pé do formigueiro. O texto possui uma divisão formal como se escrito em versos, deixando prevalecer, contudo, a feição da prosa em ordem direta:
A formiga, arrependida,
percebeu que estava sendo metida,
até mesmo um pouco exibida,
achando que só o seu trabalho
era importante na vida.











