dobrasdaleitura | Ontem, Maneco Caneco fez passear os livros de Luís Camargo aqui em casa. O personagem, completando já 45 anos, muito me faz pensar em sua permanência afetiva na memória dos leitores, ao mesmo tempo que permite ser reverenciado, citado e refeito inúmeras vezes por quem que deseje desenhá-lo ou montar novas versões com utensílios da cozinha. Como é importante um personagem ter um nome próprio!
As aventuras de Maneco Caneco Chapéu de Funil se dão nos livros Panela de arroz (1980) e Bule de café (1982). Pertencentes originalmente à serie Lagarta Pintada da Editora Ática, os três livros nos trazem ainda a alegria das histórias em lengalenga, com uma estrutura repetitiva e acumulativa que permite o encaixe de outros brinquedos falados: rimas populares, adivinhas tradicionais e outras inventadas pelo autor-ilustrador. Em 2007, a trilogia foi assumida como uma coleção e acrescida da história Folia de feijão (com ilustrações de Roberto Weigard).
Pintados a lápis de cor, os desenhos revelam a textura do papel vergê. Ora, vemos linhas pontilhadas formando figuras ou palavras; as onomatopeias andam soltas pelas páginas e há a intrusão de linguagens visuais em diferentes graus ou pedagogias do olhar. Teatro, livro encenado; balões de falas de histórias em quadrinhos; a aproximação com o cinema, através de planos sucessivos que se mostram nas aberturas de página no começo do livro Panela de Arroz.
Depois de empilhar objetos de metal e madeira, justapor cabeça, ombros, membros dos pés e das mãos, fui buscar como vestir Maneco Caneco e trazer para a brincadeira das minhas colagens o Leitão Leitor para fazê-los correr o mundo, assim mesmo de ponta cabeça a fim de mostrar que o mundo continua redondo e as Américas começam por onde melhor nos aprouver.
#luiscamargo
@luiscamargo4793
#manecocanecochapéudefunil
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6 de fevereiro de 2025
1 de janeiro de 2025
porque é ano novo, retomando O'blog
Unindo pontos, unindo textos, porque é Ano Novo e, frente à capa deste livro, nossa imaginação logo se põe a funcionar — mãos dadas, menino e menina tão feitos a João e Maria vão abrir o próprio caminho. Podemos indagar para onde vão, eles têm todo o mundo a seus pés... Na moldura da ilustração, souvenires ou apetrechos para a ventura, pena, arco, ampulheta, árvore, um avião e uma viola, um barco antigo, a famosa torre, um monstro marinho escamoso e alado. Um par de óculos? Aonde ambos vão?
A lugar nenhum, a princípio, pois este é apenas um despiste da ilustradora Elisabeth Teixeira a respeito de que é possível encontrar livro adentro. A viagem que nos oferece Ana Maria Machado tem outra natureza: com um livro nas mãos, nem é preciso sair do lugar para conhecer o que haveria no meio do caminho de Dante, Carlos e Tom — uma selva “oscura”, uma pedra, um rio... No caminho de Cris, Marco ou Alberto — oceano, deserto, muita lonjura. E o que há à frente de cada leitor? Os versos dizem:
“No meio do meu caminhoPelos caminhos da intertextualidade, Ana Maria abre começos de leitura sobre os clássicos da literatura universal, da poesia e da canção popular brasileira, com toda sorte de referências históricas da grande marcha da civilização humana. Todo o livro é, de fato, promessa de vida — porque a autora, afinada com o diálogo entre gerações, vai juntando frases e versos que pinçou aqui e ali para compor sua própria narração. Grandes e respirando leveza, as ilustrações vão abrindo a seu modo um variado cenário, dando ao olhar as pistas que o texto verbal nos quer fazer descobrir.
tem coisa de que não gosto.
Cerca, muro, grade tem.
No meio do seu, aposto,
tem muita pedra também.”
//
Dobras da Leitura O’Blog
Abrindo caminho #anamariamachado
@elisabethteixeira.imagem (Ática, 2003)
1 de jun. 2009, resenha revista em 2025
#intertextualidade
#dobrasdapoesia
16 de janeiro de 2018
de volta ao buraco
Com uma pergunta – Para onde vamos? Regina Zilberman descerra o último capítulo de COMO E POR QUE LER A LITERATURA INFANTIL BRASILEIRA (2005) e produz um ânimo de tristeza e insatisfação, ao verificarmos que nem os escritores, nem a crítica talvez possam responder por onde os livros devem caminhar, quando é preciso considerar as dificuldades de criação dos autores que nada mais têm a nos contar... afinal, todas as histórias já foram algum dia recitadas ou escritas! Como construir um personagem sempre presente igual àqueles advindos com a tradição e a repetição de suas tramas? como encontrar um conflito instigante? como dar voz à solução do enredo e da própria redação? Enfim, como libertar a inventividade da mente para o papel?
Partindo de algumas obras dos anos 1980, 90, a professora da UFRGS faz entrar em cena o autor-personagem, evocando o emblemático UM HOMEM NO SOTÃO, retratado por Ricardo Azevedo (1982, reformulado em 2001). Narra-se aí, em terceira pessoa, a desventura de um autor de contos para crianças. Em seu processo, obsessivo, circular, ele esbraveja consigo mesmo. “Chega de inventar histórias que, mesmo sem ler, todos já sabem o que vai acontecer e como vão terminar. Chega de só inventar pessoas e coisas que nem existiram nem poderiam existir.” O que o escritor deseja é ocupar-se de gente de carne e osso como ele... e começa, então, pelo começo que muitos autores se esforçariam por esconder – a teimosia na falta crônica de inspiração.
Zilberman traz à luz outras narrativas que se aventuraram pela intertextualidade, quando o autor contemporâneo enfrenta o fantasma dos personagens da literatura de tradição, em especial contos de fadas, ou já tradicionais, como no caso dos habitantes do sítio de Monteiro Lobato. A intertextualidade, representada de diferentes modos pela paródia, inscreve-se em questões mais amplas de metalinguagem e, nesse aspecto, frente aos leitores, o ser de ficção que é o autor-personagem pode confundir-se com o sujeito empírico, o escritor que é “gente de carne e osso”, pois toma-lhe de empréstimo o nome, a aparência ou seu lugar.
Na literatura portuguesa, é flagrante que assim faz certo Saramago, pouco modesto, em A MAIOR FLOR DO MUNDO, de José Saramago (2001). Lembre-se: o narrador não é o autor empírico, mas é um personagem que, neste mise-en-scène, se desdobra em culpas e desculpas por não possuir doçuras, nem palavras ou talhe para contar histórias às crianças!
Na literatura infantil brasileira, o jogo com os personagens de uma história bem conhecida dentro de uma nova aventura aparece desde o movimento modernista. Já o questionamento sobre as figuras do narrador e do autor-personagem talvez venha de um influxo estruturalista nos estudos literários universitários, pela década de 1970. Essa regressão toda é necessária quando tomo uma publicação como ALICE NO TELHADO, de Nelson Cruz (Edições SM, 2010) e repenso os impasses dos últimos 40 anos, ou mais, na produção destinada a pequenos e jovens leitores.
Ainda que trabalhando como escritor e como ilustrador, Ricardo Azevedo caraminholou a saída dos personagens da cabeça ou da imaginação do autor e, assim, muitos outros igualmente fizeram. Por sua vez, em seu duplo ficcional, Nelson Cruz escreve que
“Certa vez, tarde da noite, quis escrever uma história. Sobre a mesa, várias folhas de papel desafiavam minha intenção. Pela janela aberta entravam os sons dos grilos nas sombras das árvores. O pensamento perambulou por alguns temas e nenhuma ideia me veio à mente. Cansado de tentar escrever, apanhei um pincel e desenhei um círculo no meio de uma folha. E fiquei ali, imaginando se, a partir daquele desenho despretensioso, uma história poderia ter início. Mas nada.”O que se pode adivinhar é que, em meio ao entorpecimento do cricrilar madrugada afora, o Nelson-personagem ouvirá vozes e não será um sussurro, mas o espichado grito chamando COEEEELHOOOO! Do círculo, vicioso círculo, sairão o Coelho Branco, a menina Alice de cabelos escuros, o pequeno Chapeleiro, o rei, a rainha gorda e três soldados, em uma lengalenga sucessiva que traz os personagens do país das maravilhas correndo em cima de papéis na mesa do escritor-ilustrador. Eles estacam, todos, no limite... de uma ilustração ou de um telhado à borda de uma imensa favela no morro.
Nelson Cruz já havia trabalhado com tamanho contraste entre as realidades das pessoas de ficção e das pessoas de carne e osso, em 2004, com O CASO DO SACI, fazendo dialogar o mano velho Zé Preto, um Gepeto às avessas, com a obra de Carlo Collodi. De seus projetos intertextuais, permanece oportuno para a leitura OS HERDEIROS DO LOBO, tour de force empreendida em 2009, entre narrativa, ritmo, imagens literárias, pintura e os contos da tradição popular.
No livro de 2010, ALICE NO TELHADO, os desenhos revelam um mundo coberto de ocre e pobreza pouco afeito à fantasia, uma favela de parabólicas e tiroteios onde nem os personagens mais cativantes ou absurdos da literatura para crianças ousam entrar. Ali, a infância é outra – e este recado, um tanto pessimista (leitor! insista) nos faz refletir... A saída para Alice é voltar ao buraco traçado pelo pincel do autor, um buraco de onde nem deveria ter saído? Talvez.
26 de novembro de 2014
olhe o céu encarneirado
Peter O'Sagae, hoje
No cenário dos livros para crianças, quando muito se pensa e discute a respeito de ilustração, textos ilustrados e narrativas visuais (conceitos que se esbarram um tanto, sem contornos), acabamos nos esquecendo de que a imagem não é algo externo aos variados processos criativos e que ela – A IMAGEM – é um elemento constituinte da linguagem literária, independente do código e das relações entre os signos sonoros, visuais e verbais. Repenso e brevemente apresento a questão pois existe um sem-número de autores que reclama a originalidade de suas obras, acreditando estarem eles desobrigados da intertextualidade.
Ora, a Natureza recortada pela linguagem popular costuma oferecer ótimas imagens literárias para a criação de poesia, narrativas e ilustração. Acaso hoje, limpando as estantes, encontrei ovelhas e carneiros nos lençóis de nuvens brancas e cinzentas, criando massas redondas como flocos de algodão, com suas próprias sombras para o olhar mais imaginoso, ainda que esses rebanhos de água sejam cientificamente chamados altos-cúmulos. Então, trouxe para a mesa três livros que se nutrem da mesma imagem, porém motivando narrativas bem diferentes quanto à mensagem que reside ao fundo. O exemplo é didático.
Ana Maria Machado começa a história de BETO, O CARNEIRO (1977) exatamente com um sentimento de insatisfação, o desejo de liberdade do personagem. Cansado de uma vida de carneirices, Bebeto foge do cercado e sobe uma montanha calma e, apenas com um pensamento, resolve virar nuvem. E vira. No entanto, ele se apercebe que as nuvens respondem à vontade dos ventos, como qualquer rebanho às ordens do pastor. Bebeto, então, vira espuma das ondas do mar, na terceira vez em que o tema é apresentado aos leitores.
Originalmente lançado com o título CARNEIRINHO, CARNEIRÃO, o texto pertence a uma categoria de histórias mais conformadoras, fazendo com que Bebeto abandone suas fantasias, compreendendo quanto a liberdade está em aceitar e obedecer sua própria natureza. O encontro com a ovelha Memélia torna ambíguo o final do percurso narrativo, com a introdução de outros temas e valores que não ousam ir além de limites previamente estabelecidos, ao mesmo tempo que marca o não-lugar de todo artista, nem livre, nem preso às convenções, em seu destino itinerante.
A prosa de Ana Maria Machado já contou com ilustrações de Alberto Llinares (1977), Fernando Nunes (1993), como vemos nas fotografias, e mais recentemente Jean-Claude R. Alphen (Salamandra, 2010).
Comparando textos, Sylvia Orthof com sua MARIA-VAI-COM-AS-OUTRAS (Ática, 1982) busca demonstrar os perigos de seguir o rebanho de olhos fechados, sem qualquer lampejo de consciência. Liberdade é pensamento. No livro de imagem BRANCA, criado por Rosinha (Paulinas, 2004), a imagem literária, condensada na ilustração de uma ovelha que deseja ser nuvem, conduz o leitor a um importante enigma. No dizer de Angela Lago: “A história da ovelha Branca não nos ajuda a dormir, mas a acordar. Um belo livro que nos deixa, crianças e adultos, um pouco mais altos: sabedores que a vida – e a morte – é tudo sonho.”
A partir da mesma imagem, diferentes textos revelam camadas do discurso eufórico, crítico ou emancipatório, marcando a posição dos autores frente às crianças. Leia outros comentários sobre os livros de Sylvia Orthof e Rosinha, abaixo, na sequência.
Ora, a Natureza recortada pela linguagem popular costuma oferecer ótimas imagens literárias para a criação de poesia, narrativas e ilustração. Acaso hoje, limpando as estantes, encontrei ovelhas e carneiros nos lençóis de nuvens brancas e cinzentas, criando massas redondas como flocos de algodão, com suas próprias sombras para o olhar mais imaginoso, ainda que esses rebanhos de água sejam cientificamente chamados altos-cúmulos. Então, trouxe para a mesa três livros que se nutrem da mesma imagem, porém motivando narrativas bem diferentes quanto à mensagem que reside ao fundo. O exemplo é didático.
Ana Maria Machado começa a história de BETO, O CARNEIRO (1977) exatamente com um sentimento de insatisfação, o desejo de liberdade do personagem. Cansado de uma vida de carneirices, Bebeto foge do cercado e sobe uma montanha calma e, apenas com um pensamento, resolve virar nuvem. E vira. No entanto, ele se apercebe que as nuvens respondem à vontade dos ventos, como qualquer rebanho às ordens do pastor. Bebeto, então, vira espuma das ondas do mar, na terceira vez em que o tema é apresentado aos leitores.
Originalmente lançado com o título CARNEIRINHO, CARNEIRÃO, o texto pertence a uma categoria de histórias mais conformadoras, fazendo com que Bebeto abandone suas fantasias, compreendendo quanto a liberdade está em aceitar e obedecer sua própria natureza. O encontro com a ovelha Memélia torna ambíguo o final do percurso narrativo, com a introdução de outros temas e valores que não ousam ir além de limites previamente estabelecidos, ao mesmo tempo que marca o não-lugar de todo artista, nem livre, nem preso às convenções, em seu destino itinerante.
A prosa de Ana Maria Machado já contou com ilustrações de Alberto Llinares (1977), Fernando Nunes (1993), como vemos nas fotografias, e mais recentemente Jean-Claude R. Alphen (Salamandra, 2010).
Comparando textos, Sylvia Orthof com sua MARIA-VAI-COM-AS-OUTRAS (Ática, 1982) busca demonstrar os perigos de seguir o rebanho de olhos fechados, sem qualquer lampejo de consciência. Liberdade é pensamento. No livro de imagem BRANCA, criado por Rosinha (Paulinas, 2004), a imagem literária, condensada na ilustração de uma ovelha que deseja ser nuvem, conduz o leitor a um importante enigma. No dizer de Angela Lago: “A história da ovelha Branca não nos ajuda a dormir, mas a acordar. Um belo livro que nos deixa, crianças e adultos, um pouco mais altos: sabedores que a vida – e a morte – é tudo sonho.”
A partir da mesma imagem, diferentes textos revelam camadas do discurso eufórico, crítico ou emancipatório, marcando a posição dos autores frente às crianças. Leia outros comentários sobre os livros de Sylvia Orthof e Rosinha, abaixo, na sequência.
por onde Maria vai
Dobras da Leitura 49, outubro de 2007
O que é necessário para alguém dar uma ‘requebrada’ na vida e modificar todo o seu caminho? Dos textos mais bem comportados de Sylvia Orthof, esta história é uma das primeiras delícias que conheci: MARIA-VAI-COM-AS-OUTRAS, com desenhos da própria autora (Ática, 1982), uma fábula risonha, cheia de rimas e arejada com a precisão da lengalenga, com um bordão marcando um ritmo e o final de cada cena: Maria ia sempre com as outras.
E ela ia mesmo: pra baixo, pra cima. Ia pro deserto, pro polo sul. Enquanto o rebanho seguia com um sorriso de aceitação e as pestanas fechadas, Maria surge na ilustração de olhos abertos, insatisfeita, constrangida, mesmo assim Maria ia sempre com as outras... No meio da alvura azulada de suas irmãs, Maria era bem parecida com a maioria. Porém, sofria, como sofria. Pegava gripe e insolação.
Até que foram todas comer jiló (e Maria detestava jiló), mas como as outras ovelhas comiam, Maria comia também. Ora, é neste instante que o narrador se manifesta com uma simples e enfática exclamação: “Que horror!” E Maria pensa pela primeira vez. Pensa em si. Bastou? Que nada, Maria continuou seguindo o rebanho... E vão as ovelhas parar no alto do morro do Corcovado e, fofinhas e faceiras, vão saltando pra lagoa abaixo, muito abaixo. Conseguiram? Que nada! E Maria?
Sylvia Orthof dá um desfecho simples à história com seu recado inteligente, leve, gracejando com os leitores, com as ovelhas e com o narrador. Agora, méée, leia você este livro e descubra como caminhar por onde manda o seu pé!
E ela ia mesmo: pra baixo, pra cima. Ia pro deserto, pro polo sul. Enquanto o rebanho seguia com um sorriso de aceitação e as pestanas fechadas, Maria surge na ilustração de olhos abertos, insatisfeita, constrangida, mesmo assim Maria ia sempre com as outras... No meio da alvura azulada de suas irmãs, Maria era bem parecida com a maioria. Porém, sofria, como sofria. Pegava gripe e insolação.
Até que foram todas comer jiló (e Maria detestava jiló), mas como as outras ovelhas comiam, Maria comia também. Ora, é neste instante que o narrador se manifesta com uma simples e enfática exclamação: “Que horror!” E Maria pensa pela primeira vez. Pensa em si. Bastou? Que nada, Maria continuou seguindo o rebanho... E vão as ovelhas parar no alto do morro do Corcovado e, fofinhas e faceiras, vão saltando pra lagoa abaixo, muito abaixo. Conseguiram? Que nada! E Maria?
Sylvia Orthof dá um desfecho simples à história com seu recado inteligente, leve, gracejando com os leitores, com as ovelhas e com o narrador. Agora, méée, leia você este livro e descubra como caminhar por onde manda o seu pé!
* * *
16 de abril de 2013
era cigarra, era formiga
peter o.o sagae
Nunca pude saber se as formigas têm dentes para sorrir pois, mesmo banguelas, o fato não as impediria de cair na risada contra a cigarra, tal como fabulou Esopo a respeito da colheita dos preguiçosos, num belo e distante dia de inverno...
Roberto Piumini transformou a velha fábula, curtinha, em uma lengalenga: pousada no alto de um galho, a cigarra azucrina um ratinho, uma abelha e, por fim, uma formiga fatigada que puxa um pesado grão de trigo. Ora, o frescor verde das folhas de verão desaparece, tudo seca e a cigarra vai ao chão. Zanzando por todos os lados, ela não mais estridula, mas treme com fome e com frio... Ao fim do percurso narrativo, encontram-se A CIGARRA E A FORMIGA, com imagens de Nicoletta Costa e a tradução de Daniela Bunn (Positivo, 2010), no formigueiro.
A primeira suplica, a outra explica: “Para trazer aqui dois ou três grãos, duas ou três de nós trabalharam dois ou três dias.” Educadíssima a formiga. Porém, o coro de vozes não muda um til ou uma vírgula da lição, enquanto a cigarra se aproxima da porta: cantou, agora dance!
No entanto, dizem... que, ao escolher a história da cigarra e da formiga para encabeçar e abrir o volume de suas Fábulas Escolhidas, em 1668, La Fontainenão escondia a intenção de encenar o drama dos artistas – que cantam, pintam, escrevem – e enviar um recado político e polido ao rei e à sociedade frívola da época. A estratégia do escritor francês foi deixar os versos sem o arremate de uma moralidade explícita, permitindo que o final permanecesse em aberto para os leitores tomarem um ou outro partido. Na estante de livros, o busto de La Fontaine parece sorrir e piscar para nós, embora a verdade seja como sofrer mordedura de formiga: ainda nos coça...
Muitos escritores e poetas posicionaram-se em defesa da cigarra – o que é bastante óbvio, modificando principalmente o desfecho da narrativa com ampliações, remendos, arremedos, com a moral esópica às avessas, como as duas versões de Monteiro Lobato (1922), a narrativa rimada de Braguinha (nos anos de 1960) ou o poema de José Paulo Paes, breve sempre e bastante sensível, no livro POEMAS PARA BRINCAR, com ilustrações de Luiz Maia (Ática, 1989).
Por fim, Alessandra Pontes Roscoe também escreve, leva e traz A OUTRA HISTÓRIA DA CIGARRA E DA FORMIGA, com ilustrações de Adilson Farias (Mundo Mirim, 2010), introduzindo um bem-te-vi para resolver o bate-boca ao pé do formigueiro. O texto possui uma divisão formal como se escrito em versos, deixando prevalecer, contudo, a feição da prosa em ordem direta:
Nunca pude saber se as formigas têm dentes para sorrir pois, mesmo banguelas, o fato não as impediria de cair na risada contra a cigarra, tal como fabulou Esopo a respeito da colheita dos preguiçosos, num belo e distante dia de inverno...
Roberto Piumini transformou a velha fábula, curtinha, em uma lengalenga: pousada no alto de um galho, a cigarra azucrina um ratinho, uma abelha e, por fim, uma formiga fatigada que puxa um pesado grão de trigo. Ora, o frescor verde das folhas de verão desaparece, tudo seca e a cigarra vai ao chão. Zanzando por todos os lados, ela não mais estridula, mas treme com fome e com frio... Ao fim do percurso narrativo, encontram-se A CIGARRA E A FORMIGA, com imagens de Nicoletta Costa e a tradução de Daniela Bunn (Positivo, 2010), no formigueiro.
A primeira suplica, a outra explica: “Para trazer aqui dois ou três grãos, duas ou três de nós trabalharam dois ou três dias.” Educadíssima a formiga. Porém, o coro de vozes não muda um til ou uma vírgula da lição, enquanto a cigarra se aproxima da porta: cantou, agora dance!
No entanto, dizem... que, ao escolher a história da cigarra e da formiga para encabeçar e abrir o volume de suas Fábulas Escolhidas, em 1668, La Fontaine
Muitos escritores e poetas posicionaram-se em defesa da cigarra – o que é bastante óbvio, modificando principalmente o desfecho da narrativa com ampliações, remendos, arremedos, com a moral esópica às avessas, como as duas versões de Monteiro Lobato (1922), a narrativa rimada de Braguinha (nos anos de 1960) ou o poema de José Paulo Paes, breve sempre e bastante sensível, no livro POEMAS PARA BRINCAR, com ilustrações de Luiz Maia (Ática, 1989).
SEM BARRA
Enquanto a formiga
Carrega a comida
Para o formigueiro,
A cigarra canta,
Canta o dia inteiro.
A formiga é só trabalho.
A cigarra é só cantiga.
Mas sem a cantiga
Da cigarra
Que distrai da fadiga,
Seria uma barra
O trabalho da formiga!
Por fim, Alessandra Pontes Roscoe também escreve, leva e traz A OUTRA HISTÓRIA DA CIGARRA E DA FORMIGA, com ilustrações de Adilson Farias (Mundo Mirim, 2010), introduzindo um bem-te-vi para resolver o bate-boca ao pé do formigueiro. O texto possui uma divisão formal como se escrito em versos, deixando prevalecer, contudo, a feição da prosa em ordem direta:
A formiga, arrependida,
percebeu que estava sendo metida,
até mesmo um pouco exibida,
achando que só o seu trabalho
era importante na vida.
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
Adilson Farias,
Alessandra Roscoe,
Companhia das Letrinhas,
Ed. Mundo Mirim,
Editora Ática,
Editora Positivo,
Fábulas,
José Paulo Paes,
Luiz Maia,
Nicoletta Costa,
Roberto Piumini
25 de março de 2013
diálogos nem sempre dialógicos...
O’ABRE ASPAS para um olhar especial
“Entra em cena a função pedagógica, que se utiliza da imagem como uma estratégia para materializar, determinar e preencher aquilo que poderia se transformar, pela imaginação do leitor-criança, num campo vago e impreciso de possíveis construções imagéticas [...] Não resta dúvida de que é uma forma de dar veracidade à narração, conferindo à palavra-geral e simbólica um caráter de índice, de existente real e individualizado. É a conexão, por contiguidade e subordinativa, texto-ilustração que permite maior eficácia do processo comunicativo, garantindo que as informações nucleares da narrativa, graças ao estímulo da imagem, criem hábitos associativos tais que sejam inscritos diretamente no pensamento da criança com o mínimo de esforço e com o menor dispêndio de energia possível.” (Maria José Palo e Maria Rosa D. Oliveira) Literatura infantil: voz de criança, 1983.
“Entra em cena a função pedagógica, que se utiliza da imagem como uma estratégia para materializar, determinar e preencher aquilo que poderia se transformar, pela imaginação do leitor-criança, num campo vago e impreciso de possíveis construções imagéticas [...] Não resta dúvida de que é uma forma de dar veracidade à narração, conferindo à palavra-geral e simbólica um caráter de índice, de existente real e individualizado. É a conexão, por contiguidade e subordinativa, texto-ilustração que permite maior eficácia do processo comunicativo, garantindo que as informações nucleares da narrativa, graças ao estímulo da imagem, criem hábitos associativos tais que sejam inscritos diretamente no pensamento da criança com o mínimo de esforço e com o menor dispêndio de energia possível.” (Maria José Palo e Maria Rosa D. Oliveira) Literatura infantil: voz de criança, 1983.
19 de outubro de 2010
e quem assoviou, voou... ?
tirando o pó da estante com peter o'sagae
Sei por ouvir contar o que um passarinho cantou: essa é a estratégia de duas obras da literatura infantil brasileira, em dois tempos tuitadamente diferentes.
Ao som do mar e à luz da reaberutra política do país, Ana Maria Machado fez canto e contracanto num reino-maravilha, onde o rei não enxergava os reais problemas da terra, perdido em meio a exuberâncias da natureza e a crença de viver num paraíso... PASSARINHO ME CONTOU (Nova Fronteira, 1983), agora com ilustrações de Lúcia Brandão (Global, 2009), faz chegar àquele reino um João e Maria retirantes que muito viram e muito tinham o que contar ao rei dos problemas da gente! Espinhos arranhando, panela e barriga vazia, peixes morrendo de sede, patrão mandando embora, e grande fome, fome e fome... Ora, o que um passarinho contou é coisa com que ninguém quer se comprometer — ou dizer quem contou... Será, então, fofoca?
Xô, xô, passarinho, voa e me leva embora, para uma década mais lúdica, para os poemas de José Paulo Paes: UM PASSARINHO ME CONTOU, ilustrado por Kiko Farkas (Ática, 1996), ponte para outro tipo de identificação, para quem não quer apenas ouvir, mas tudo, na palavra, ver, rever e divertir-se: “eu vi um nó cego / andando de bengala / e vi uma andorinha / arrumando a mala”.
Ao som do mar e à luz da reaberutra política do país, Ana Maria Machado fez canto e contracanto num reino-maravilha, onde o rei não enxergava os reais problemas da terra, perdido em meio a exuberâncias da natureza e a crença de viver num paraíso... PASSARINHO ME CONTOU (Nova Fronteira, 1983), agora com ilustrações de Lúcia Brandão (Global, 2009), faz chegar àquele reino um João e Maria retirantes que muito viram e muito tinham o que contar ao rei dos problemas da gente! Espinhos arranhando, panela e barriga vazia, peixes morrendo de sede, patrão mandando embora, e grande fome, fome e fome... Ora, o que um passarinho contou é coisa com que ninguém quer se comprometer — ou dizer quem contou... Será, então, fofoca?
Xô, xô, passarinho, voa e me leva embora, para uma década mais lúdica, para os poemas de José Paulo Paes: UM PASSARINHO ME CONTOU, ilustrado por Kiko Farkas (Ática, 1996), ponte para outro tipo de identificação, para quem não quer apenas ouvir, mas tudo, na palavra, ver, rever e divertir-se: “eu vi um nó cego / andando de bengala / e vi uma andorinha / arrumando a mala”.
*
3 de setembro de 2010
as 3 cores da teoria
flashes & notas da Vitrine Express

Para começar a pintar a paisagem da literatura para crianças e jovens, as cores básicas: conhecer a história da literatura e da produção editorial; as práticas sociais de leitura nos circuitos de recepção e valoração dos textos; não temer as tensões palavra&imagem, nem o caminho da obra em seus leitores.
De vermelho, vivo com a Literatura infantil brasileira: história e histórias, de Marisa Lajolo e Regina Zilberman (Ática, 1984). Cadê a continuação de nossa história? Azul é Zohar Shavit, na Poética da literatura para crianças (Editorial Caminho, 2003): estudo que trata de questões, processos históricos e estruturas textuais, o que nos leva a compreender que a literatura para crianças não é um gênero, pois já configura um sistema literário (ainda que estratificado: ambivalente, em função de seus leitores "grandes e pequenos") imerso em um sistema literário canonizado. Amarelo, post-it: "a literatura infantil também é um campo que abarca quase todos os gêneros literários". Ideias para grifar no livro de Peter Hunt: Crítica, teoria e literatura infantil (Cosac Naify, 2010: 27). Que outros matizes sejam conquistados com misturas e acidentes na paleta.

Para começar a pintar a paisagem da literatura para crianças e jovens, as cores básicas: conhecer a história da literatura e da produção editorial; as práticas sociais de leitura nos circuitos de recepção e valoração dos textos; não temer as tensões palavra&imagem, nem o caminho da obra em seus leitores.
De vermelho, vivo com a Literatura infantil brasileira: história e histórias, de Marisa Lajolo e Regina Zilberman (Ática, 1984). Cadê a continuação de nossa história? Azul é Zohar Shavit, na Poética da literatura para crianças (Editorial Caminho, 2003): estudo que trata de questões, processos históricos e estruturas textuais, o que nos leva a compreender que a literatura para crianças não é um gênero, pois já configura um sistema literário (ainda que estratificado: ambivalente, em função de seus leitores "grandes e pequenos") imerso em um sistema literário canonizado. Amarelo, post-it: "a literatura infantil também é um campo que abarca quase todos os gêneros literários". Ideias para grifar no livro de Peter Hunt: Crítica, teoria e literatura infantil (Cosac Naify, 2010: 27). Que outros matizes sejam conquistados com misturas e acidentes na paleta.
1 de junho de 2009
Unindo pontos, unindo textos
Peter O'Sagae >> VER resenha atualizada em 2025

Ana Maria Machado
il. Elisabeth Teixeira
ABRINDO CAMINHO
Ática, 2003
ISBN 9788508086726
25,3 x 31 cm 40p.
Frente à capa, nossa imaginação logo se põe a funcionar — mãos dadas, menino e menina tão só João e Maria vão abrir o próprio caminho: para onde? Partindo do Rio de Janeiro a um ponto qualquer do mapa, eles têm o mundo a seus pés... E, na moldura da ilustração, pena, arco, óculos, ampulheta, árvore, um violão, um avião de rabiola, um barco antigo, a famosa torre francesa, um monstro marinho escamoso e alado. Aonde ambos vão?
A princípio, a lugar nenhum, pois este é apenas um despiste da ilustradora a respeito de que é possível encontrar dentro o livro. Mas, a viagem que nos oferece Ana Maria Machado tem outra natureza: com um livro nas mãos, nem é preciso sair do lugar para conhecer o que havia no meio do caminho de Dante, Carlos e Tom: uma floresta escura, uma pedra, um rio... Ou no caminho de Cris, Marco e Alberto: oceano, deserto, muita lonjura. E o que há nos possíveis caminhos de cada leitor, o texto diz:
Grandes e belas, as ilustrações de Elisabeth Teixeira vão abrindo caminhos para um variado cenário, dando ao olhar as pistas que o texto nos quer fazer descobrir.
A princípio, a lugar nenhum, pois este é apenas um despiste da ilustradora a respeito de que é possível encontrar dentro o livro. Mas, a viagem que nos oferece Ana Maria Machado tem outra natureza: com um livro nas mãos, nem é preciso sair do lugar para conhecer o que havia no meio do caminho de Dante, Carlos e Tom: uma floresta escura, uma pedra, um rio... Ou no caminho de Cris, Marco e Alberto: oceano, deserto, muita lonjura. E o que há nos possíveis caminhos de cada leitor, o texto diz:
No meio do meu caminhoIntertextualizando caminhos, o poema de Ana Maria vai abrindo começos de leitura para os clássicos da literatura universal, à poesia brasileira e à nossa canção popular, mais referências históricas da grande aventura que é a marcha da civilização humana. Todo o livro é uma promessa de vida — porque a autora, afinada com o diálogo entre gerações (de textos e pessoas), vai juntando frases e versos para compor sua própria canção.
tem coisa de que não gosto.
Cerca, muro, grade tem.
No meio do seu, aposto,
tem muita pedra também.
Grandes e belas, as ilustrações de Elisabeth Teixeira vão abrindo caminhos para um variado cenário, dando ao olhar as pistas que o texto nos quer fazer descobrir.
* Ilustração extraída de elisabethteixeira.blogspot.com
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