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11 de fevereiro de 2025

enigmas

dobrasdaleitura | Qual conto de encantamento não tem deixado um rastro de PERGUNTAS INQUIETAS atrás de si? Pois antes mesmo de abrir o livro de Beatriz Martín Vidal, poderíamos fazer uma lista de questionamentos sobre os importantes pontos de luz, sombras e as relações humanas, familiares, entre iguais-desiguais que as narrativas populares de magia carreiam.

À nossa percepção, instinto, memória e sentimentos de abandono, torna-se notável como o sono é uma constante nas tramas de A Bela Adormecida, Branca Neve e mesmo Chapeuzinho Vermelho, mas nunca os narradores tradicionais adentraram o sonho e registraram de lá as imagens misturadas de esperança e destruição. As ilustrações de Beatriz Martín Vidal não se propõem a ocupar esse espaço, mas chamar a atenção, com traços de realismo fantástico, a pintura a óleo, para a existência de um assombroso mundo interior iluminado de dúvidas.

Entre o selvagem negro que o lobo teme e o branco esquecimento sobre a história da menina que jamais voltou da floresta, meninas e princesas apenas parecem dormir — as pupilas da vigília sobrevoam paixões e flores de pedra. E os olhos cerrados, semicerrados, ou quase cegos pela abundância da luz, olhos amarelos, garços, cinzas, estranho estado de atenção, cabelos presos, cabelos cortados, com vigor. De repente, a beleza de uma ideia sobre a maldade como instinto ou aprendizado. Qual a nossa história, como buscamos por um final feliz?

@beatrizmartinvidal
Thule Ediciones, 2016
tradução de Márcia Leite para
Editora Pulo do Gato, 2023
@editorapulodogato

🧡 #quemtemquindimtem

27 de março de 2021

letras de carvão

E.. chegamos mesmo a alcançar o povoado de Palenque de San Basilio, na Colômbia, com o livro da escritora Irene Vasco e do ilustrador Juan Palomino. Palenque, o primeiro lugar livre para os negros da América, na dobra de dois tempos que admitem o convívio e a conquista da linguagem escrita. LETRAS DE CARVÃO, com tradução de Márcia Leite (Pulo do Gato, 2016), é um conto dentro do conto que se inicia nos dias atuais de letras pulsantes na tela do computador, numa conversa entre mãe e filho: "Gosto tanto de ver você escrevendo seus contos, meu filho. Às vezes eu também escrevo. Sabe, quando eu tinha a sua idade, não sabia ler nem escrever."

Tomamos distância para ler/ouvir uma história que revela quão perto se pode estar das palavras em embalagens, listas da conta na mercearia e cartas de amor que não podem ser decifradas, apenas supondo o seu significado, quando não se domina o código. Através das imagens e do subtexto narrativo do livro, lembramos das implicações da voz na manutenção de sociedades orais e na propagação de novas visões de mundo na leitura em voz alta... Tudo pode mudar individual/coletivamente com letras e acenos de carvão, ou buscar os vários Os nas palavras de uma página como bolhas de sabão no ar.

5 de fevereiro de 2021

o domínio da flor azul

 

das imagens e traduções: a arte de Beatriz Martín Vidal não vem ilustrar, em sentido estrito, a narrativa da alemã Gudrun Mebs: BIRGIT. EINE GESCHICHTE VOM STERBEN (1982), no entanto elabora uma leitura no campo da metáfora que evoca o doloroso e invasivo processo do câncer, quanto explicita poeticamente uma história de morte: o domínio da flor azul em suas raízes é um eufemismo para a metástase e, veloz, vemos o afastamento da personagem até a dispersão das pétalas; na tradução de Daniel Bonomo para a editora Pulo do Gato, o título empresta à menina o nome da flor e busca atenuar a certeza da morte, com ÍRIS - UMA DESPEDIDA (2012) 



#quemtemquindimtem

17 de dezembro de 2015

Medo do Lobo? Não seja bobo...

Peter On Instagram


Notícias sempre chegam de outras paragens e de outros contos. A prima de mamãe tinha 7 filhos e só por muita sorte escaparam do Lobo. Mesmo morando na vila, Mamãe Cabra anda assustada, tudo pode acontecer a Lilo, Laila e Lulu... Uma história sobre antigos juízos e mudanças de hábito, com o chapéu e a echarpe vermelha de Aristide Bruant. MAMÃE TEM MEDO, de Beatrice Masini, il. Alireza Goldouzian, trad. Márcia Leite #editorapulodogato (2015)

 

Acorda o Lobo e lá vai ele, pé na estrada. Encontra um ratinho. "O senhor quer me comer?! Eu?! Mas eu sou magrinho!" - e com uma conversa fiada vão escapando também o porco-espinho, o sapo, o jabuti e hmmm, o touro! No final do caminho e ainda mais faminto, ele encontra a casa da vovó e o portão aberto... A FOME DO LOBO se sacia com bondade. Texto de Cláudia Maria de Vasconcelos, il. Odilon Moraes #editorailuminuras (2015) #literaturainfantil

 

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com o Lobo, mas correram com ele para o hospital onde foi atendido por uma ovelha branquinha e gentil que se derramou sobre o paciente em demasiadas atenções. O que era pura artimanha de lobo fingindo-se bonzinho, tomando remédio e até infecção sem reclamar, logo se transformou em uma insuspeitada paixão. O MAL DO LOBO MAU, de Cláudio Fragata, il. Luiz Maia #editorapositivo (2009) #literaturainfantil

27 de novembro de 2015

My Black Friday is bone...

Peter On Instagram


Com Rosa Amanda Strausz: SETE OSSOS E UMA MALDIÇÃO (2006) O olhar frio e coruscante da boneca de louça espanhola não é nada, o problema é quando ela começa a sorrir para você... Vozes zombam de sua razão e coragem. Vê agora um corpo debruçado no tapete, será seu? #editoraglobal (2013) #literaturafantastica #literaturajuvenil #rosaamandastrausz


My Black Friday is bone, com Machado de Assis: UM ESQUELETO (2015) O mar violento e calmo, sempre igual e diferente, ora escreve sobre a areia, ora apaga os traços... Uma viva adaptação do conto de 1875 para HQ mantendo seu clima de fina ironia e romantismo. #editorapulodogato #literaturafantastica #machadodeassis #hq roteiro #diegomolina desenhos #marciokoprowski


My Black Friday is bone, com Angela Lago: SETE HISTÓRIAS PARA SACUDIR O ESQUELETO (2002) É necessário humor para cada um de nós ouvir uma boa história de terror ou enfrentar nosso reflexo na página... Bem ali, nas dobras insuspeitadas, nossos ossos se unem, dançam e fulguram em sua trêmula brancura #companhiadasletrinhas #literaturainfantil #angelalago

18 de dezembro de 2014

cinquenta e cinco

Dezembro, tempo diverso


Leitura e memória, poesia e política. Um livro de capa branca. O título e o desenho em traços pretos simples, a expressão de tristeza no rosto de duas crianças, o nome de Bertolt Brecht e, antigos, outros versos me sopram o afeto de uma esperança, ecoam e ricocheteiam das páginas de outro livro para este agora...
Pequena caixinha que carreguei quando em fuga
Para que suas válvulas não pifassem,
Que levei de casa para o navio e o trem
Para que os meus inimigos continuassem a falar-me
Perto de minha cama, e para a angústia minha,
As últimas palavras da noite e as primeiras da manhã
Sobre suas vitórias e sobre meus problemas
– Prometa-me não ficar muda, de repente.
De repente, a leitura adiante impõe uma certa acústica e uma inquietação: o texto presente terá os mesmos encanto e silêncio a serem percebidos a cada linha percorrida?


Polônia, ano de trinta e nove. As cidades eram só chamas e rumores de uma estranha história. Tropas de crianças nas ruas, pequeninos retratos com frio.
Escapavam às batalhas
e deixavam a dor pra trás,
desejavam só descanso
num país cheio de paz.

Havia um pequeno chefe
que animá-los bem queria,
porém algo o preocupava:
o caminho não sabia.

Procurando um lugar entre os lugares desolados e perigosos, na neve infinita, ora marchando contra o vento, a fome, ora aprendendo as lições de caligrafia, todo dia a lição da amizade, ia o bando dos cinquenta e cinco pequeninos atrás de uma cidade sem bombas aonde ninguém sabia. Tarra-ta-ta-tá, o solitário som da caixa alta do tambor. Incansavelmente, eles, sempre com medo...
Quando fecho os meus olhos,
vejo-os perambular,
vagando de sítio em sítio
sem nenhum auxílio achar.

A partir da ascensão e o domínio do nazismo na Alemanha, em 1933, Bertolt Brecht viu-se obrigado a percorrer outros países. Embora fugindo aos perseguidores, o poeta e dramaturgo sempre escreveu seus textos como uma expressão de resistência e esperança. O contorno de suas palavras claramente testemunhou a crueldade, as injustiças, a dor, porém com acentuada ternura pelos pobres, infelizes, soldados mortos, viúvas e órfãos da guerra, e todos os demais abandonados em uma trajetória sem casa, sem descanso.

A cada página, o livro impõe o encanto e um silêncio a serem percebidos: certa vida percorre duplamente voz e imagem. É o presente mesmo que segue adiante, sem indicações seguras, apenas vibração, um golpe de vista... O poema narrativo A CRUZADA DAS CRIANÇAS apareceu publicado pela primeira vez em 1948 e foi acolhido pela ilustradora espanhola Carme Solé Vendrell, em um projeto bastante pessoal em 2011. Bertolt Brecht, assim, hoje ainda, poderá cativar novos leitores, por sua força, beleza e simplicidade. Por que somos pequeninos. Necessariamente.


Um novo ano + poético para você: 2015
com A CRUZADA DAS CRIANÇAS, de Bertolt Brecht
trad. Tercio Redondo, il. Carme Solé Vendrell
(Pulo do Gato, 2014).

*

13 de março de 2014

deram os peixes a voar

O.O Sagae: Ilutrações Comparadas

O peixe do poeta se pescava com palavras dentro d’água, morria afogado no ar. Também ele dizia em verdade e prosa: “Um dia na vida de um peixe dá para viver muita coisa.” Não sei quando, em que rio onde, deram os peixes a voar pela imaginação que jamais adormece nas páginas dos livros ilustrados para crianças. Olhos são mesmo peixinhos. Do dentro de meninos e meninas agora escorrem os cardumes em algo de céu e calabouço. É tempo de melancolia.


Ilustração de Alicia Baladan realizada em 2011 para CÉU MENINO, do poeta italiano Alessandro Riccioni (Pulo do Gato, 2013).


Thais Beltrame para BENJAMIN, POEMA COM DESENHOS E MÚSICAS, narrativa de Biagio D’Angelo (Melhoramentos, 2011). [saiba+]
 

Alexandre Rampazo nas ilustrações para CAIXINHA DE GUARDAR O TEMPO, de Alessandra Roscoe (Gaivota, 2013). [saiba+]