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7 de junho de 2017

“por que o silêncio não é colorido?”

peter O sagae


Quem foi o primeiro menino que existiu no mundo? Teria nascido, em priscas eras com um sorriso, encantando-se com as coisas por aí – e hoje estaria guardado entre as pedras e os seixos de um rio? Seria um fóssil, antigo e primitivo, em outras cores, cheio e vazio, seria semente ou fruto de nossa imaginação? Não por acaso, fui abrindo o livro com preguiça e perguntas: o que o autor vem me contar?

Pois O PRIMEIRO MENINO, de Edimilson de Almeida Pereira com ilustrações de Anabella López (Mazza Edições, 2013), vai se levantando com a sede das palavras – “Sua escrita muda como as estações. De uma notícia de chuvas para um retrato com flores.” O vento é, sem dúvida, seu melhor leitor e lhe apaga cordialmente os pontos finais, alongando o pensar pelas reticências... Da mesma sorte, cada mini-capítulo do livro também muda e passa da prosa poética a uma página com disparates e perguntas que se derramam como certos versos, versos certos.


Enquanto isso, o primeiro menino surge minúsculo na ilustração. Anabella López o fez nascer livremente naïf e rupestre em tinta preta – e um só círculo amarelo havia para colorir a espessura branca e transformar-se em outras formas. Contam as imagens, juntamente às palavras, a história de um menino que possui uma história para inventar, com asas em peso de leveza, sementes, berço, buraco de cobra, ondas de sol e raízes, poeira e pigmentos, plantas, vulcões... Mas tudo começou com aquele amarelo num círculo, como flor e sol.


O texto de Edimilson de Almeida Pereira é rio e é leitura. É inscrição – como a água que sulca a terra, fazendo uma paisagem ser o que é, diferente de outras tantas paisagens que os homens tantas vezes refazem e repetem sempre do mesmo modo. Aqui, o autor é primeiro menino. Sua palavra, no encontro dos primeiros espantos, é ravina.

Esta é então a metáfora que há para ser decifrada. Cria-se na escritura com simplicidade e não ultrapassa os limites da imaginação verbal a fim de contar fora do texto, seja interpretações outras ou um segredo. Não, a ravina não representa nada, porque a ravina é. A metáfora impõe-se com cálculo e doçura. Claro, você vai lembrar, a ravina é parte de uma saga geológica – e é, por isso, que o texto de Edimilson apresenta camadas na companhia do vento e da água.

Ora, quando se está a falar em poesia, também se está a apontar a qualidade das coisas mesmas que nos cercam os sentidos e a compreensão. É belo o movimento onde a brincadeira ressurge de si mesma, através de perguntas, na mente e no coração do leitor. Um pássaro sabe que é leve? Como o céu segura as estrelas? Por que perguntamos a vida inteira? A filosofia é o outro nome do verdadeiro encanto.



Mas há também no livro a curiosidade sobre coisas comuns, objetos e máquinas, animais que se veem pelo mundo, o pão da manhã, o nome das ruas, um poema que lê um poema, um livro para crianças – e eu me lembro quando ouvi a respeito do olhar inaugural das crianças que os poetas desejam imitar para desaprender o já aprendido. O primeiro menino é também aquele menino azul, de Cecília Meireles a Edimilson de Almeida Pereira, numa inteligente intertextualidade, neste mundo que é como um jardim. O primeiro menino é um estado de constante escrita e busca – numa escrita a ser tudo – e para todos.

6 de janeiro de 2013

Feliz 2013!

O'ABRE ASPAS com Cecília Meireles


“A bondade está ali, – detrás daquela porta que se abre em silêncio, na sala onde a mesa está sempre posta, – com duas mãos que caminham, servindo eternamente a fruta, o leite, o pão. Inutilmente o relógio marca o dia e a noite, pois a vida é sem fim. Ninguém estremece. Ninguém pensa nas horas muito a sério. Todos se sucedem, todos se lembram uns dos outros, todos estão ali à espera dos que chegam. Para socorrer. Mesmo que fosse um inimigo, Senhor!” (Cecília Meireles) Giroflê, giroflá, 1956.

Ano Novo, Novos Caminhos.

2 de dezembro de 2010

dezembro adivinhando Belém

por Peter O’Sagae


“E os dois sairão pelo mundo / que é como um jardim / apenas mais largo / e talvez mais comprido / e que não tenha fim.” — Da poesia em versos, de Cecília Meireles, na companhia das imagens de Lúcia Hiratsuka: O MENINO AZUL (Global, 2004).


“... inaugurando o que andava esquecido. Nas vésperas da noite ela se agasalhava entre as cores do crepúsculo para sonhar constelações. Nas vésperas do dia a menina se cobria com os matizes da aurora para sonhar com o muito depois do azul. Flora, carregada de indagações, passeava pelos prados.” — Da poesia em prosa, de Bartolomeu Campos de Queirós com ilustrações de Ellen Pestili: FLORA (Global, 2009).

o menino azul

Dobras da Leitura 29

Cecília Meireles tinha lindos olhos claros, clarividentes talvez: olhos de quem sabe ver: magias, onde a rima rima fácil feito um sonho faz surgir um menino azul, azul como um desejo aberto; onde o menino encontrará um burrinho manso que saiba conversar e contar histórias...



O MENINO AZUL, poema de Cecília Meireles extraído do célebre OU ISTO, OU AQUILO (1964), é aconchegado em um livro com ilustrações de Lúcia Hiratsuka para a coleção Magias Infantis, dirigida por Edla van Steen (Global, 2004). Atravessando páginas, o pequeno leitor caminha estrofe a estrofe, respirando imagens que conduzem o olhar por uma narrativa silenciosa que ludicamente se adivinhou dos versos: um menino e seu mundo, o céu e o papel azuis, uma lua tão alta e láctea, um burrinho lá desenhado. Então, ele de lá se descola e desloca-se acompanhando rio abaixo, num passeio entre montanhas e flores encarnadas — um mundo de cores para quem ainda não sabe ler.

* Ilustração extraída de [www.luciahiratsuka.com.br]

P.S. Em 2013, o livro passou a contar com as ilustrações de Elma.


20 de novembro de 2010

“Canta e dança agora, meu povo”


Dia da Consciência Negra, consciência de todas as suas cores, com a figura heróica e libertária de Chico Rei: do congo ao samba, uma riqueza dentro de todos nós.


Visão interna/detalhe do livro CHICO REI, de Renato Lima, com ilustrações de Graça Lima (Paulus, 2006).


A HISTÓRIA DE CHICO REI: um rei africano no Brasil, com textos e ilustrações de Béatrice Tanaka, acompanhado de “Escola de samba, uma escola de vida”, de Maria Augusta Rodrigues, e seguido do “Romanceiro VIII ou do Chico-Rei”, de Cecília Meireiles (Edições SM, 2010).