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80 anos de nascimento de Angela Lago
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13 de junho de 2025
29 de dezembro de 2017
que 2018 seja
“Resolvi montar uma loja
pra vender piadas por saco.
Adivinhas vendo por quilo,
e parlendas vendo por nacos.
Histórias da carochinha,
da galinha pintadinha
e do galo carijó que veste paletó
conto aos bis e em todas elas
acrescento mais um xis.
E pra quem gosta de verso
do joelho ao tornozelo,
do dedão até o pulmão,
pelo sim e pelo não,
ofereço de montão
poeminha e poemão.
Até a perereca da vizinha
que tá presa na gaiola,
sentada no penico tomando coca-cola,
vem na minha loja, sim, senhora!”
Terminando o ano, olha eu aqui limpando as caixas que coaxam, as antigas e novas leituras. O que merece ser compartilhado e deve permanecer nas estantes?
Livros que me deem bons enredos, divertimento, imagens na palavra e verbo criativo nos desenhos. Livros feitos para rir, para chorar e para chorar de tanto rir contra o cinza e a chatice que aí andam. Que a virada de página não corrompa o ritmo, nem o design afrouxe nosso interesse. Livros que contenham tramas fabulosas com um jeito heroico ou ingênuo, quando o personagem se revela maior que o leitor e venha surpreendê-lo.
Um exemplo, a deliciosa leitura que traz este livro, completando 20 anos – QUE NEM ELAS QUE NEM, uma parlenda de Cecy Fernandes de Assis e ilustrações de Anaraquel (Formato, 1998). Remédio para quando a gente não tem o que dizer e apenas deseja ouvir um texto bem bolado!
13 de junho de 2017
encantamentos de Elias
peter O sagae
No ano passado, ao visitar o Instituto Cultural Elias José, durante a VI semana literária promovida na cidade de Guaxupé MG em homenagem ao escritor, Silvinha me perguntou qual livro de Elias eu gostaria de levar como presente. Respondi apressado: CANTOS DE ENCANTAMENTO, que me atraía pela capa com desenhos tão cheios de detalhes com traços delicados de Mariângela Haddad (Formato, 1996, 12.ed. 2012) e pela proposta de releituras sobre os mitos brasileiros. Eu sempre via e ouvia, saltando pelas sacolas dos programas de formação de professores, de escola em escola, o poema “Os sonhos do Saci” que abre a antologia, com seu jeito bem mais risonho, bem mais moleque, e durante muitos anos ficava a imaginar quais e como seriam os outros perfis retratados com o carisma de Elias José.
É fácil dizer que a gente se encanta apenas com as criaturas que conhece bem, mas preferimos algumas surpresas, como o Cavalo-Fantasma com seu galopar onomatopaico “em triste trotre trote trote”, em três patas apenas, asas e vulto, cabeça nenhuma, pelas ruas de pedra de um lugarejo qualquer, ou o papa-menino chamado Chibamba que dança nas folhas de bananeira fazendo chiado e tambor, com o peso do próprio corpo e dos próprios pés. Mas há também no livro a Cobra-Caninana que voa “mais veloz que passarinho” envolvida nas dobras de muitos ritmos – frevo, xaxado, calango – que o poeta fez coincidir os mitos com outros aspectos da cultura popular.
Inspirado em textos lendários e informativos, Elias José apresenta com leveza o que os estudiosos poderiam reconhecer como poesia didática, cuja tradição remonta a busca e a transmissão da verdade entre os filósofos, tal a intenção de Parmênides. Porém, com o poeta das crianças, o resultado é bem diverso – e divertido, ao combinar muitas vozes em uma leitura-ciranda dos mitos populares brasileiros, como aparece na segunda estrofe do longo poema dedicado ao Curupira:
O preciosismo está nesse cuidado. Sabedor que as histórias folclóricas admitem muitas verdades, Elias José descreve, a sua maneira, a alma quente do Negrinho do Pastoreio agasalhando os meninos desamparados no frio das ruas e dos viadutos nas grandes cidades; Pedro Malasartes a espantar verdadeiramente os males do mundo, convivendo com gente que só faz artes, como os poetas.
O livro é dividido em ENCANTAMENTOS DA TERRA, incluindo ainda poemas sobre o brilho das Cavalhadas; a guerra-dança dos Caiapós, cujo entrecho dramático encerra o rapto da bugrinha bonita por um homem branco; o bate-pé querido do Cateretê ao som da viola, finalizando com a “Oração de São Longuinho” e um causo “À moda caipira” – talvez esses três últimos mais próximos das manifestações ao sul de Minas Gerais, norte do estado de São Paulo, até alcançar as tradições litorâneas, donde desconfio o caminho beira-rio, beira-mar, na direção dos ENCANTAMENTOS DAS ÁGUAS.
Na segunda parte, vem a Iara de mansinho, vem no feitiço da repetição das palavras, na hora do sol se pôr, vem Iara para levar um noivo embora... E vêm moradores sobrenaturais do Velho Chico, como o Cavalo do Rio e o Cachorrinho d’Água. Em “O Pescador Encantado”, a voz de eu-lírico-Elias se faz voz de pescador em dedo de prosa com os leitores.
Livro-ciranda, como expressou o autor, CANTOS DE ENCANTAMENTO recebeu o selo "Altamente Recomendável" FNLIJ 1996, o Prêmio de Incentivo no Concurso NOMA para Ilustradores, no Japão, em 1996, e o Prêmio Adolfo Aizen, da União Brasileira dos Escritores, para Melhor Livro Infantojuvenil em 1997, além de ter sido selecionado pela Fundação Luís Eduardo Magalhães, pelo Salão Capixaba - ES e pelo Programa Fome de Livro, da Fundação Biblioteca Nacional.
No ano passado, ao visitar o Instituto Cultural Elias José, durante a VI semana literária promovida na cidade de Guaxupé MG em homenagem ao escritor, Silvinha me perguntou qual livro de Elias eu gostaria de levar como presente. Respondi apressado: CANTOS DE ENCANTAMENTO, que me atraía pela capa com desenhos tão cheios de detalhes com traços delicados de Mariângela Haddad (Formato, 1996, 12.ed. 2012) e pela proposta de releituras sobre os mitos brasileiros. Eu sempre via e ouvia, saltando pelas sacolas dos programas de formação de professores, de escola em escola, o poema “Os sonhos do Saci” que abre a antologia, com seu jeito bem mais risonho, bem mais moleque, e durante muitos anos ficava a imaginar quais e como seriam os outros perfis retratados com o carisma de Elias José.
É fácil dizer que a gente se encanta apenas com as criaturas que conhece bem, mas preferimos algumas surpresas, como o Cavalo-Fantasma com seu galopar onomatopaico “em triste trotre trote trote”, em três patas apenas, asas e vulto, cabeça nenhuma, pelas ruas de pedra de um lugarejo qualquer, ou o papa-menino chamado Chibamba que dança nas folhas de bananeira fazendo chiado e tambor, com o peso do próprio corpo e dos próprios pés. Mas há também no livro a Cobra-Caninana que voa “mais veloz que passarinho” envolvida nas dobras de muitos ritmos – frevo, xaxado, calango – que o poeta fez coincidir os mitos com outros aspectos da cultura popular.
Inspirado em textos lendários e informativos, Elias José apresenta com leveza o que os estudiosos poderiam reconhecer como poesia didática, cuja tradição remonta a busca e a transmissão da verdade entre os filósofos, tal a intenção de Parmênides. Porém, com o poeta das crianças, o resultado é bem diverso – e divertido, ao combinar muitas vozes em uma leitura-ciranda dos mitos populares brasileiros, como aparece na segunda estrofe do longo poema dedicado ao Curupira:
“Quem já viu o CurupiraMesmo sabendo tanto (ou parecendo que sabe tanto), o poeta como tonto, pelos passos às avessas do Curupira elétrico que solta mil choques e luzes, o poeta termina seus versos com reticências e dúvidas... A resposta para esse procedimento, abertura para quem lê, está no prefácio que Elias José escreveu. “Livro pronto e em suas mãos, caro leitor, fica o convite para você ler, vibrar e brincar de modificar os poemas. Como os mitos, quero que os meus poemas sejam de todos nós. Cante, corte, acrescente, misture, mude o ritmo e o rumo.”
cai sempre em contradição:
uns falam que ele é gigante,
outros, que é um curumim
e outros, que é um anão.
Uns falam que ele se mostra,
outros dizem que se esconde
bem dentro do breu da noite.”
O preciosismo está nesse cuidado. Sabedor que as histórias folclóricas admitem muitas verdades, Elias José descreve, a sua maneira, a alma quente do Negrinho do Pastoreio agasalhando os meninos desamparados no frio das ruas e dos viadutos nas grandes cidades; Pedro Malasartes a espantar verdadeiramente os males do mundo, convivendo com gente que só faz artes, como os poetas.
O livro é dividido em ENCANTAMENTOS DA TERRA, incluindo ainda poemas sobre o brilho das Cavalhadas; a guerra-dança dos Caiapós, cujo entrecho dramático encerra o rapto da bugrinha bonita por um homem branco; o bate-pé querido do Cateretê ao som da viola, finalizando com a “Oração de São Longuinho” e um causo “À moda caipira” – talvez esses três últimos mais próximos das manifestações ao sul de Minas Gerais, norte do estado de São Paulo, até alcançar as tradições litorâneas, donde desconfio o caminho beira-rio, beira-mar, na direção dos ENCANTAMENTOS DAS ÁGUAS.
Na segunda parte, vem a Iara de mansinho, vem no feitiço da repetição das palavras, na hora do sol se pôr, vem Iara para levar um noivo embora... E vêm moradores sobrenaturais do Velho Chico, como o Cavalo do Rio e o Cachorrinho d’Água. Em “O Pescador Encantado”, a voz de eu-lírico-Elias se faz voz de pescador em dedo de prosa com os leitores.
“Nas noites de sexta-feira,O rio é um lugar realmente cheio de interdição para a pescaria em dias santos e na Quaresma; seus seres encantados são uma profusão da mestiçagem brasileira. Entre caboclos e caiçaras, mais todos os mulatos, surge também “O Barba-Ruiva da Lagoa Paranaguá” que foi menino e criado nas águas foi, cresceu, virou moço que jamais envelhecia para namorar as lavadeiras. Rememorando a Semana Santa, neste mito encontradiço no interior do Piauí, Elias José vai cantando outros festejos da nossa religiosidade. Para a passagem de ano, o poeta louva e reza
eu não pesco, não.
Pode até dar lua cheia,
que eu não pesco, não.
Pode a morena pedir,
que eu não pesco, não,
podem me dar um milhão,
que eu não pesco, não.”
“Nossa mãe, Iemanjá,Lembrando, no poema final, que
ajude pretos e brancos
– todos são filhos de Deus –
a acharem um só caminho
que os leve à liberdade.”
“A Senhora AparecidaE canta Elias encantos das lendas à própria crença nas forças superiores, unindo-nos em laços de humildade perante as bênçãos divinas numa ciranda. Também as ilustrações de Mariângela Haddad ensinam e inspiram o olhar, com suas figuras e suas molduras em torno, em torneio, no sentido de elegância no desenho de folhas, pássaros, peixes, casas, tramas, cenas, bandeiras, diálogos, repetições e iluminuras de um jeito diferente, desenho feito à mão, aquarela e nanquim de bico fino, de um jeito brasileiro.
apareceu nas águas
do Paraíba
e veio abençoar
nossa gente tão sofrida.”
Livro-ciranda, como expressou o autor, CANTOS DE ENCANTAMENTO recebeu o selo "Altamente Recomendável" FNLIJ 1996, o Prêmio de Incentivo no Concurso NOMA para Ilustradores, no Japão, em 1996, e o Prêmio Adolfo Aizen, da União Brasileira dos Escritores, para Melhor Livro Infantojuvenil em 1997, além de ter sido selecionado pela Fundação Luís Eduardo Magalhães, pelo Salão Capixaba - ES e pelo Programa Fome de Livro, da Fundação Biblioteca Nacional.
12 de junho de 2017
novos e velhos ramos, verdes
peter O sagae
O tempo passa depressa, diz um verso de Eloí Elisabet Bocheco – no poema “Uni... Duni... Téia”, publicado em seu primeiro livro de poesia para crianças, com o mesmo título, e que recebi naqueles anos em que me via escondido online com O Caracol do Ouvido. Clique vai, clique vem, na palma da nossa mão, muitas alegrias se desenrolaram. Poucos sabem quanto Eloí foi madrinha das aulas de literatura infantil em minhas andanças no oeste de Santa Catarina, entre 1999 e 2004; poucos sabem da intimidade do nosso primeiro encontro, atravessando doze, quinze horas diretas de conversa admirada à porta da cozinha de sua casa enquanto André cozinhava, Luiz mexia um canto e outro no jardim, na horta, e os filhos iam e voltavam e a gente lá falando livros pelos cotovelos, se encantava.
Vou imediatamente inventariando. Das páginas de UNI... DUNI... TÉIA (Papa Livro, 1998), saíram também a antiga flauta floreada, agora “Flauta florida”, e o teimoso “Cavalinho da alvorada”. Do livro Ô DE CASA (Grifos, 2000), o poema “Tá pronto, seu lobo?” que empresta o título à nova antologia e a parlenda “Martina” com suas sementes beijadas de sol. “Posso entrar?” e “Segredos” foram originalmente publicados online pelo Jornal de Poesia, de Soares Feitosa. Ao todo, conto sete poemas que alinhavam a escrita constante de Eloí Elisabet Bocheco, cuja obra poética inspirada nas tradições orais incluem A DE AMOR, A DE ABC (1999), o premiado BATATA COZIDA, MINGAU DE CARÁ no I Concurso Literatura para Todos, do Ministério da Educação (2005), POMAR DE BRINQUEDOS (2009) e CANTORIAS DE JARDIM (2012), recentemente comentado, até chegarmos ao ano de 2014 – e já parece que temos mais dois, três livros de Eloí com poesia para crianças.
Considerando cada livro como um projeto que ladrilha o caminho da autora, o brilho de TÁ PRONTO, SEU LOBO? e outros poemas, perpassa inicialmente os brinquedos encenados através da palavra falada – como as parlendas com perguntas e respostas, os contratos de escolha que se apresentam em meio às cantigas de roda. Deste modo, as perguntas tornam-se chaves grandes, chaves mestras e fundamentais para estabelecer um contato afetivo entre as crianças, nas situações de texto-vida, entre a voz lírica e seus leitores, nas situações de leitura.
O poema que abre a antologia nos indaga, por três vezes – Posso entrar no seu reino, meu rei? E nossa memória intertextual, do leitor mais novo ao leitor mais velho, pode propor inúmeras respostas, cadenciadas e próximas das possibilidades que Eloí Elisabet oferece... O jogo do faz de conta vem nos levar para o lugar distante dos contos de fadas, para o reino das adivinhas e das tarefas cheias de ardis, do caminho que se inventa com três obstáculos etc. A primeira resposta tirada pelo poema é –
A criação poética de Eloí Elisabet Bocheco vem das tradições orais, das raízes da fala até o ouvido, mas vai também às páginas da literatura infantil e universal. Nenhum escritor, nenhum poeta pode alegar, perante seus leitores, ignorância da existência dos livros. A isso se diz consciência de metalinguagem, porque os textos novos sabem ler os textos antigos. E então, qual a melhor marca da literatura para crianças? Jogar com os segredos, com a transparência da leitura!
Dos poemas novos – ao todo, catorze – “O que é que eu faço?” – que Suryara ilustrou com olhos de sonho, cinza, jeans rosa pespontado, amarelo e cabelo no gramado – é uma canção límpida e preguiçosa ao sol da tarde. Assim termina:
Eloí Elisabet Bocheco toma algo de José Paulo Paes, Elias José e Sérgio Capparelli, hoje parece mais liberta de Cecília Meireles ou Vinícius de Moraes, como li nos seus primeiros livros. Assim, com outra chave, entendo, quando minha amiga escreve avisando o feixe que abraça novos e velhos ramos – verdes, espero, ela disse – o significado que sua obra possui. As sementes começaram a brotar faz tempo e cresceram. Cresceram, verdejaram, deram perfume, grãos e frutos: velhos versos que ainda podem ser colhidos com frescor por alguém que não conheça este ou aquele poema, versos novos ainda verdes semeando esperança.
O tempo passa depressa, diz um verso de Eloí Elisabet Bocheco – no poema “Uni... Duni... Téia”, publicado em seu primeiro livro de poesia para crianças, com o mesmo título, e que recebi naqueles anos em que me via escondido online com O Caracol do Ouvido. Clique vai, clique vem, na palma da nossa mão, muitas alegrias se desenrolaram. Poucos sabem quanto Eloí foi madrinha das aulas de literatura infantil em minhas andanças no oeste de Santa Catarina, entre 1999 e 2004; poucos sabem da intimidade do nosso primeiro encontro, atravessando doze, quinze horas diretas de conversa admirada à porta da cozinha de sua casa enquanto André cozinhava, Luiz mexia um canto e outro no jardim, na horta, e os filhos iam e voltavam e a gente lá falando livros pelos cotovelos, se encantava.
"O tempo passa depressa...E amizade com Eloí é feita de promessas de continuar um dia, após distância e algum silêncio. Um dia, então, a gente descobre o poema do uni, duni musicado por Priscila Schaucoski e Bruno Andrade, descobre Téia na página de outro livro: TÁ PRONTO, SEU LOBO? com ilustrações de outra amigaluna, a Suryara Bernardi (Formato, 2014). Na dedicatória em letras miúdas, Eloí escreve que o livro é “um feixe poético, formado por novos e velhos ramos – verdes, espero”.
Só não passa a roda
de bem-querer
e amizade,
brincadeira de
esconde-esconde
com a saudade."
Considerando cada livro como um projeto que ladrilha o caminho da autora, o brilho de TÁ PRONTO, SEU LOBO? e outros poemas, perpassa inicialmente os brinquedos encenados através da palavra falada – como as parlendas com perguntas e respostas, os contratos de escolha que se apresentam em meio às cantigas de roda. Deste modo, as perguntas tornam-se chaves grandes, chaves mestras e fundamentais para estabelecer um contato afetivo entre as crianças, nas situações de texto-vida, entre a voz lírica e seus leitores, nas situações de leitura.
O poema que abre a antologia nos indaga, por três vezes – Posso entrar no seu reino, meu rei? E nossa memória intertextual, do leitor mais novo ao leitor mais velho, pode propor inúmeras respostas, cadenciadas e próximas das possibilidades que Eloí Elisabet oferece... O jogo do faz de conta vem nos levar para o lugar distante dos contos de fadas, para o reino das adivinhas e das tarefas cheias de ardis, do caminho que se inventa com três obstáculos etc. A primeira resposta tirada pelo poema é –
"Só se ocupar todasLeitura e reinações aí se equivalem; gramaticalidade e brinquedo, pausas são reticências de coisas que nunca terminam ou parada para o outro continuar? O lobo, cantado antes de começar a brincadeira de pega-pega, no jogo do livro, é um lobo azul de gravata e chapéu de Fernando Pessoa, vaidoso, alguém quase a perder a hora para a festa no céu que começou faz séculos...
as pausas, reinando
sobre as palavras."
A criação poética de Eloí Elisabet Bocheco vem das tradições orais, das raízes da fala até o ouvido, mas vai também às páginas da literatura infantil e universal. Nenhum escritor, nenhum poeta pode alegar, perante seus leitores, ignorância da existência dos livros. A isso se diz consciência de metalinguagem, porque os textos novos sabem ler os textos antigos. E então, qual a melhor marca da literatura para crianças? Jogar com os segredos, com a transparência da leitura!
Dos poemas novos – ao todo, catorze – “O que é que eu faço?” – que Suryara ilustrou com olhos de sonho, cinza, jeans rosa pespontado, amarelo e cabelo no gramado – é uma canção límpida e preguiçosa ao sol da tarde. Assim termina:
"Um arcoDepois das brincadeiras, poesia é devaneio. Eis a segunda marca desta antologia e encontraremos Eloí envolvida com descrições da natureza em quadros coloridos e canoros, festejando peixes, lagartos, fios prateados, renda, efeitos, infância, meses do ano, como se tudo pertencesse, de forma ininterrupta, ao mesmo céu. A riqueza de seus poemas está bem menos nas coisas do pensamento e reside, sem categorias, no toque sensível dos olhos e das mãos. Não leio, nem ouço símbolos. Pego extravagâncias, como um lago que se muda de lugar, pirilampo que esconde queijo no mato, uma sombrinha feita de flores, gato que engole letra sem mastigar – tudo isso e outras coisas mais – como coisas mais reais, objetos do conhecimento que a imaginação verbal pode manipular. E isso, esse processo, transmite uma sensação de alegria e leveza. Por isso, aqui temos poesia para crianças.
de neblina
para o cabelo
da menina."
Eloí Elisabet Bocheco toma algo de José Paulo Paes, Elias José e Sérgio Capparelli, hoje parece mais liberta de Cecília Meireles ou Vinícius de Moraes, como li nos seus primeiros livros. Assim, com outra chave, entendo, quando minha amiga escreve avisando o feixe que abraça novos e velhos ramos – verdes, espero, ela disse – o significado que sua obra possui. As sementes começaram a brotar faz tempo e cresceram. Cresceram, verdejaram, deram perfume, grãos e frutos: velhos versos que ainda podem ser colhidos com frescor por alguém que não conheça este ou aquele poema, versos novos ainda verdes semeando esperança.
“Se a poesia bater à porta,
abra como a um amigo.
Poesia é luz,
alimento e abrigo.”
22 de abril de 2016
... fazer da vida um grande moitará
Peter O'Sagae
Dia do Descobrimento do Brasil é também Dia Mundial da Terra, uma data que nos remete às lições do passado rumo à visão urgente de um futuro sustentável. PINDORAMA, TERRA DAS PALMEIRAS, de Marilda Castanha (1999), não é apenas um livro informativo, mas um livro de afetos e ideias para quem sabe que vive em uma aldeia global.
* * * Ver mais no blog de Marilda Castanha
<> marildacastanhailustradora.blogspot.com.br/2011/10/ilustracoes-do-livro-pindorama-terra.html
Dia do Descobrimento do Brasil é também Dia Mundial da Terra, uma data que nos remete às lições do passado rumo à visão urgente de um futuro sustentável. PINDORAMA, TERRA DAS PALMEIRAS, de Marilda Castanha (1999), não é apenas um livro informativo, mas um livro de afetos e ideias para quem sabe que vive em uma aldeia global.
“No tempo de Pindorama, o índio era dono sem comprar, produzia sem pensar em lucros e dividia o que caçava entre os parentes e membros de sua tribo. “Uma ajuda num parto, a confecção de um arco, ou a cura de um parente também eram pagos com um pedaço de caça ou um colar, dependendo do que se tinha naquele momento. “E havia o moitará, que acontecia quando as mulheres se reuniam para trocar aquilo que não queriam ou de que não precisavam mais. No centro da aldeia, trocavam um objeto por outro.
“Hoje em dia, povos diferentes também trocam entre si aquilo que têm por aquilo que não fabricam. Quem faz belos potes de cerâmica, bancos de madeira, sal ou pendentes de orelha pode trocar com outros povos que fazem a pasta de urucum ou gamelas de madeira. “Desse jeito, divisão e soma andam juntas. Em cada troca confirmam que bicho, gente, terra, água, peixe, árvore e ar podem fazer da vida um grande moitará. “Um montará onde cada povo indígena possa continuar a viver.”A obra de Marilda Castanha conquistou o reconhecimento de Melhor Livro Informativo – FNLIJ 2000, Prêmio Jabuti de Ilustração, Runner-up no Concurso Noma do Japão e o Prêmio Octogonal da França, tendo sido reeditado pela Cosac Naify em 2008.
* * * Ver mais no blog de Marilda Castanha
<> marildacastanhailustradora.blogspot.com.br/2011/10/ilustracoes-do-livro-pindorama-terra.html
9 de dezembro de 2014
das águas, tão ágil
Dezembro, tempo de verso
Sou um leitor que gosta de rir e talvez, por isso, goste muito de poesia para crianças. Porém – leio poucos bons poemas para crianças, enquanto outros aqui chegam sempre tão cheios de frases, receitas antigas, rimas sem imagem ou sentimento... E esqueço-os, sem descobrir com quem pretendiam brincar esses outros, versos ruins. Foi, nessa secura, porém, que ouvi alegremente Maria Augusta de Medeiros alguns anos atrás, entre bichos de água doce, criaturas do mares, seres literários:
Ainda que seguindo intimamente uma tradição que lembra e relembra Vinícius, Sidónio, aproveitando os mesmos temas, o humor e os fonemas que vêm dos animais, Maria Augusta não se intimida em explorar a transformação das palavras no próprio objeto de sua observação, como nos dois sonoros fragmentos aqui apresentados.
Frente ao pequeno leitor, há sempre o jogo da pergunta, em muitos poemas, bem como a confissão humorada do eu-lírico por trás das cenas não controlar tudo. Como é difícil focar uma foca: vira de lado, de frente, vira de costas! Mas há beleza na vida em movimento: como são molecas e malucas as marolas nas pedras costeiras, como são bonitos os olhos dos moluscos e mariscos que a poeta revela...
Ao mesmo tempo, a ilustração de Michele Iacocca mostra-se divertida, no melhor do seu traço e em cores delicadas, decorando bem o livro, sem desviar a atenção dos poemas.
O terceiro livro de Maria Augusta de Medeiros segue um programa bastante definido – a vida na água e a água que promove toda a vida, contudo de uma maneira leve, sem os resíduos de um discurso ecológico que cansam. Há um empenho e emprego muito generoso sobre a imagem e a imaginação do leitor, das cenas em movimento, dos detalhes inéditos, em meio a uma descrição simples e direta. A antologia apresenta poemas de extensão e métrica bem variadas, e seus versos... seus versos tem o feitio dos cabelos da chuva, de pingos precisos e is nos pinguins, tem ar de festa.
Maria Augusta de Medeiros, JACARÉ COM JANELINHA: QUEM JÁ VIU QUE ME APRESENTE! E outros poemas, il. Michele Iacocca (Formato, 2009).
Sou um leitor que gosta de rir e talvez, por isso, goste muito de poesia para crianças. Porém – leio poucos bons poemas para crianças, enquanto outros aqui chegam sempre tão cheios de frases, receitas antigas, rimas sem imagem ou sentimento... E esqueço-os, sem descobrir com quem pretendiam brincar esses outros, versos ruins. Foi, nessa secura, porém, que ouvi alegremente Maria Augusta de Medeiros alguns anos atrás, entre bichos de água doce, criaturas do mares, seres literários:
“Serei a que canta?
Serei a que espera?
Serei a que inspira?
Serei a que encanta?”
Ainda que seguindo intimamente uma tradição que lembra e relembra Vinícius, Sidónio, aproveitando os mesmos temas, o humor e os fonemas que vêm dos animais, Maria Augusta não se intimida em explorar a transformação das palavras no próprio objeto de sua observação, como nos dois sonoros fragmentos aqui apresentados.
Frente ao pequeno leitor, há sempre o jogo da pergunta, em muitos poemas, bem como a confissão humorada do eu-lírico por trás das cenas não controlar tudo. Como é difícil focar uma foca: vira de lado, de frente, vira de costas! Mas há beleza na vida em movimento: como são molecas e malucas as marolas nas pedras costeiras, como são bonitos os olhos dos moluscos e mariscos que a poeta revela...
Ao mesmo tempo, a ilustração de Michele Iacocca mostra-se divertida, no melhor do seu traço e em cores delicadas, decorando bem o livro, sem desviar a atenção dos poemas.
O terceiro livro de Maria Augusta de Medeiros segue um programa bastante definido – a vida na água e a água que promove toda a vida, contudo de uma maneira leve, sem os resíduos de um discurso ecológico que cansam. Há um empenho e emprego muito generoso sobre a imagem e a imaginação do leitor, das cenas em movimento, dos detalhes inéditos, em meio a uma descrição simples e direta. A antologia apresenta poemas de extensão e métrica bem variadas, e seus versos... seus versos tem o feitio dos cabelos da chuva, de pingos precisos e is nos pinguins, tem ar de festa.
“Ele é um riacho que correUm novo ano + poético para você: 2015 com
Como tantos que já vi
Mas tem, na sonoridade,
Um algo que nunca ouvi:
Levando as águas em frente
Parece que está contente
Acho que o Riacho ri.”
Maria Augusta de Medeiros, JACARÉ COM JANELINHA: QUEM JÁ VIU QUE ME APRESENTE! E outros poemas, il. Michele Iacocca (Formato, 2009).
8 de setembro de 2014
outras mãos embalam a taba
Peter O'Sagae
Já faz largo tempo que a literatura infantil respira um clima de etnocentrismo no que diz respeito à circulação de narrativas do complexo universo indígena brasileiro, cujo resultado, por vezes, contrariamente ao esperado de enriquecer nossas leituras, tem contribuído para a folclorização das diferenças. É quando entra em cena a figura do bom selvagem, sem vestígios da dimensão mítica ou humana que poderiam revestir os vários personagens. É a lição desaprendida do “tupi or not tupi”, enquanto certos textos esquecem da confluência entre os povos de todo mundo que para cá vieram em busca de um caminho e futuro comuns.
Não poderia deixar de pensar o parágrafo acima, antes de mostrar três livros de três autoras sem marcadas raízes indígenas – são outras mãos que embalam a taba, a taba dos leitores.
A contadora de histórias Ana Luísa Lacombe relembra um mito civilizatório dos Wapixana, em A ÁRVORE DE TAMOROMU, com ilustrações de Fernando Vilela (Formato, 2013). A narrativa exemplifica quão universal é o desejo dos antigos de comer e viver fartamente à sombra, sem se preocupar com o arado, a conservação das sementes ou da natureza, a necessidade de provisões ou o controle sobre o tempo. Tudo começa quando dois irmãos levam para a aldeia uma cutia que só quer saber de brincar e dormir na rede. Volta e meia, ela desaparecia pela mata, e mesmo recusando a comida que os índios ofereciam, tornava-se mais gorda e preguiçosa porque... Porque havia encontrado Tamoromu, a árvore mágica que oferecia todas as frutas e os alimentos da terra. Descoberto o segredo, os imprevidentes homens da aldeia derrubaram a árvore e colocaram-se tão ocupados em fazer o carregamento, que mal perceberam a vida extinguindo-se. Os pássaros voavam embora, as plantas e rios começaram a secar, a própria árvore transformou-se em pedra. Como todo mito impõe uma explicação necessária, o grande deus Tominikare revela sua contrariedade e ordena que cada homem passe a plantar a semente da fruta que tem em sua posse, cuidando da árvore que irá nascer para sua subsistência. Para sempre.
O livro está muito bem produzido – apresentação da antropóloga Betty Mindlin e Fanny Abramovich –, contendo CD de áudio com a narração de Ana Luísa Lacombe, trilha e sonoplastia de Sérvulo Augusto. Trata-se de um reconto, uma adaptação onde se inserem onomatopeias nhac! glub! e alguns puns soltos na intenção de fazer gracejo com o pequeno leitor. Apenas é pena, por duas vezes, pp. 13 e 23, a revisão de texto não esteve de acordo com o nome da árvore: Tamoromu ou Tomoromu?
Maria Inez do Espírito Santo reconta também um mitologema da tribo dos Anambé sobre a constante luta do homem contra a Fome, representada por uma criatura da floresta chamada CEIUCI, A VELHA GULOSA, em um livro com as vibrantes ilustrações de Taisa Borges (Escrita Fina, 2013). Um menino, tendo saído muito cedo de casa para pescar, fora capturado pela velha que tudo devora: peixes, mamíferos e até mesmo gente. Todavia, consegue escapar com a ajuda da filha de Ceiuci que predestina ao pássaro cancão alertar o índio toda vez que velha canibal estiver por perto. Sem descanso, ele corre e percorre um longo caminho de perigos – e, quando alcança sua aldeia, não é mais um curumim, mas homem feito, de cabelos quase brancos... Com um ritmo de conto acumulativo, a narrativa recolhida por Couto de Magalhães, em 1865, torna-se facilmente comparável a muitas outras que, simbolicamente, relaciona o motivo da perseguição mágica e inúmeras provas ao processo de amadurecimento do herói.
Por fim, Socorro Acioli nos ensina que é possível criar histórias novas com temática indígena, inspirando-se em elementos tradicionais das várias culturas – como guardar as sementes ou a castanha de uma fruta para contar a passagem dos anos, hábito bastante comum em aldeias tupis do litoral brasileiro. Lançado originalmente em 2008, pelo Governo do Estado do Ceará, TEMPO DE CAJU, recebeu depois ilustrações de Maurício Negro (Positivo, 2010), e narra a fuga do menino Porã e sua tribo, quando perceberam a iminente chegada de inimigos em suas terras. O texto não esclarece, intencionalmente, a presença do “homem branco” ou guerreiros de outra tribo... O foco está nos laços de parentesco entre os personagens: durante a viagem, o curumim leva uma cabaça com mais de setenta castanhas que pertenceram ao sábio Tamandaré, seu avô. Contudo, ao chegar a outra margem de uma lagoa, ele logo percebe ter perdido a preciosa herança, proteção para todo seu povo.
Vinte e três estações de caju mais adiante, chegariam notícias de uma nova ameaça – e, em sonhos, o conselho de Tamandaré alcança o coração do neto: “Quando a gente não sabe aonde ir, é melhor voltar por onde veio.” Impregnando o texto de um tempo cíclico e uma geografia afetiva, Socorro Acioli abre e fecha sua história à sombra do tempo bom do verão, à sombra dos ensolarados cajueiros nordestinos.
Já faz largo tempo que a literatura infantil respira um clima de etnocentrismo no que diz respeito à circulação de narrativas do complexo universo indígena brasileiro, cujo resultado, por vezes, contrariamente ao esperado de enriquecer nossas leituras, tem contribuído para a folclorização das diferenças. É quando entra em cena a figura do bom selvagem, sem vestígios da dimensão mítica ou humana que poderiam revestir os vários personagens. É a lição desaprendida do “tupi or not tupi”, enquanto certos textos esquecem da confluência entre os povos de todo mundo que para cá vieram em busca de um caminho e futuro comuns.
Não poderia deixar de pensar o parágrafo acima, antes de mostrar três livros de três autoras sem marcadas raízes indígenas – são outras mãos que embalam a taba, a taba dos leitores.
A contadora de histórias Ana Luísa Lacombe relembra um mito civilizatório dos Wapixana, em A ÁRVORE DE TAMOROMU, com ilustrações de Fernando Vilela (Formato, 2013). A narrativa exemplifica quão universal é o desejo dos antigos de comer e viver fartamente à sombra, sem se preocupar com o arado, a conservação das sementes ou da natureza, a necessidade de provisões ou o controle sobre o tempo. Tudo começa quando dois irmãos levam para a aldeia uma cutia que só quer saber de brincar e dormir na rede. Volta e meia, ela desaparecia pela mata, e mesmo recusando a comida que os índios ofereciam, tornava-se mais gorda e preguiçosa porque... Porque havia encontrado Tamoromu, a árvore mágica que oferecia todas as frutas e os alimentos da terra. Descoberto o segredo, os imprevidentes homens da aldeia derrubaram a árvore e colocaram-se tão ocupados em fazer o carregamento, que mal perceberam a vida extinguindo-se. Os pássaros voavam embora, as plantas e rios começaram a secar, a própria árvore transformou-se em pedra. Como todo mito impõe uma explicação necessária, o grande deus Tominikare revela sua contrariedade e ordena que cada homem passe a plantar a semente da fruta que tem em sua posse, cuidando da árvore que irá nascer para sua subsistência. Para sempre.
O livro está muito bem produzido – apresentação da antropóloga Betty Mindlin e Fanny Abramovich –, contendo CD de áudio com a narração de Ana Luísa Lacombe, trilha e sonoplastia de Sérvulo Augusto. Trata-se de um reconto, uma adaptação onde se inserem onomatopeias nhac! glub! e alguns puns soltos na intenção de fazer gracejo com o pequeno leitor. Apenas é pena, por duas vezes, pp. 13 e 23, a revisão de texto não esteve de acordo com o nome da árvore: Tamoromu ou Tomoromu?
Maria Inez do Espírito Santo reconta também um mitologema da tribo dos Anambé sobre a constante luta do homem contra a Fome, representada por uma criatura da floresta chamada CEIUCI, A VELHA GULOSA, em um livro com as vibrantes ilustrações de Taisa Borges (Escrita Fina, 2013). Um menino, tendo saído muito cedo de casa para pescar, fora capturado pela velha que tudo devora: peixes, mamíferos e até mesmo gente. Todavia, consegue escapar com a ajuda da filha de Ceiuci que predestina ao pássaro cancão alertar o índio toda vez que velha canibal estiver por perto. Sem descanso, ele corre e percorre um longo caminho de perigos – e, quando alcança sua aldeia, não é mais um curumim, mas homem feito, de cabelos quase brancos... Com um ritmo de conto acumulativo, a narrativa recolhida por Couto de Magalhães, em 1865, torna-se facilmente comparável a muitas outras que, simbolicamente, relaciona o motivo da perseguição mágica e inúmeras provas ao processo de amadurecimento do herói.
Por fim, Socorro Acioli nos ensina que é possível criar histórias novas com temática indígena, inspirando-se em elementos tradicionais das várias culturas – como guardar as sementes ou a castanha de uma fruta para contar a passagem dos anos, hábito bastante comum em aldeias tupis do litoral brasileiro. Lançado originalmente em 2008, pelo Governo do Estado do Ceará, TEMPO DE CAJU, recebeu depois ilustrações de Maurício Negro (Positivo, 2010), e narra a fuga do menino Porã e sua tribo, quando perceberam a iminente chegada de inimigos em suas terras. O texto não esclarece, intencionalmente, a presença do “homem branco” ou guerreiros de outra tribo... O foco está nos laços de parentesco entre os personagens: durante a viagem, o curumim leva uma cabaça com mais de setenta castanhas que pertenceram ao sábio Tamandaré, seu avô. Contudo, ao chegar a outra margem de uma lagoa, ele logo percebe ter perdido a preciosa herança, proteção para todo seu povo.
Vinte e três estações de caju mais adiante, chegariam notícias de uma nova ameaça – e, em sonhos, o conselho de Tamandaré alcança o coração do neto: “Quando a gente não sabe aonde ir, é melhor voltar por onde veio.” Impregnando o texto de um tempo cíclico e uma geografia afetiva, Socorro Acioli abre e fecha sua história à sombra do tempo bom do verão, à sombra dos ensolarados cajueiros nordestinos.
21 de março de 2014
da cor de amoras e âmbar, infinito mar
Peter O. Sagae
No mar de páginas, o que mais quer o leitor é encontrar uma história. Uma história com movimento irresistível de ondas e episódios que pouco a pouco o vão puxando para longe do primeiro parágrafo. Bem o efeito desse balanço mágico tem a prosa de Eloí Bocheco que há muito tempo não lia, nem comentava. E agora andei à RUA ÂMBAR (Formato, 2013) com delicadas ilustrações, quadrinhos e vinhetas de Márcia Cardeal. A escritora permite a todos saborear a sua linguagem carregada de amoras, miniaturas e novas moradas, sempre dentro de um projeto literário que se definiu muito antes dos livros caminharem aí afora publicados.
Há mais de quinze anos, Eloí escrevia crônicas investidas de narrativa e capricho poético, no jornal A Notícia, de Santa Catarina. Seus poemas para crianças possuem a voz de acalanto e brinquedos brasileiros. A ficção que sai do seu lápis, ou das letras tamboriladas no teclado do computador (na verdade, eu nunca soube o seu segredo), reafirma sua representação de mundo que é o processo de descoberta e encantamento das personagens com a lembrança de coisas vividas e inventadas, suas feridas felizes, o ritmo cotidiano a manter as boas afeições...
Na Praia do Mariscal, a Rua Âmbar acolhe diferentes visitantes, o leitor e o personagem Miro e outras personagens que saem de velhos contos, aposentos e apólogos. Miro, Valdomiro Silveira, é um menino que mora na rua Ametista e tem uma fábrica de miniaturas escondida debaixo da cama... Em uma caixa, ele guarda as ferramentas. Em outra, as réplicas de panela, chaleira, bule, frigideira, caneca de três asas, objetos e brinquedos feitos de latinhas de alumínio que saem a falar, a confabular sabedorias e dúvidas, filosofias da vida. E saem a correr mundo também. Onde o menino poderia reencontrar seu jarro, o balde e uma panela que sumiram?
Pois na Rua Âmbar tem uma casa: a casa do poço onde morou gente e já não mora mais ninguém. Diziam, assombrada! Miro encontra uma formiga-ruiva à janela, olhando a paisagem à espera de uma prosa. E, nas sombras de um quarto, o menino conhece uma figura que há muito se transforma, como Nereu e lagarta, tipo coisa para viver a vida dos outros, sempre azul e gaivota no futuro. E tem, ou tinha, uma tainha. Então, uma bruxa – que é igual e diferente às outras bruxas que conhecemos, a bruxa da Costa Esmeralda, com o bem e o mal misturados nas entranhas... Ah, as bruxas de Eloí Bocheco viram e reviram seus textos, desde os primeiros! Na poeira do assoalho aberta em ilhas com os passos do menino, os diálogos se iluminam.
A prosa de Eloí é cheia de figuras e diálogos, é prosa feita de lenga-lenga na sua estrutura e costura. E acompanhe Miro pedalando a bicicleta pelas ruas em busca de amigos, Miro o menino de água do mar e maré. E tempestade que se arma nos sentimentos. É quando estronda a velha voz de um pescador, como que vinda de longe, anunciando o “encantamento” do pai. Foi o gigante que despertara em seu sonho, dias antes, que afundou o barco em alto-mar, fora ele, apenas ele, a quem podemos chamar pressentimento...
Eloí Elisabet Bocheco está segura dos segredos da vida, a sua verdade pessoal, e a compartilha com poesia: a transformação dos objetos em coisas novas, do carbono que vibra inteligentemente às plantas, da resina aos polímeros longevos do âmbar, da água aos animais, do humano em humanidade. E assim é bonito como o sol se elevando manhãzinha, sempre, mesmo sem a gente ver sua verdadeira cor.
No mar de páginas, o que mais quer o leitor é encontrar uma história. Uma história com movimento irresistível de ondas e episódios que pouco a pouco o vão puxando para longe do primeiro parágrafo. Bem o efeito desse balanço mágico tem a prosa de Eloí Bocheco que há muito tempo não lia, nem comentava. E agora andei à RUA ÂMBAR (Formato, 2013) com delicadas ilustrações, quadrinhos e vinhetas de Márcia Cardeal. A escritora permite a todos saborear a sua linguagem carregada de amoras, miniaturas e novas moradas, sempre dentro de um projeto literário que se definiu muito antes dos livros caminharem aí afora publicados.
Há mais de quinze anos, Eloí escrevia crônicas investidas de narrativa e capricho poético, no jornal A Notícia, de Santa Catarina. Seus poemas para crianças possuem a voz de acalanto e brinquedos brasileiros. A ficção que sai do seu lápis, ou das letras tamboriladas no teclado do computador (na verdade, eu nunca soube o seu segredo), reafirma sua representação de mundo que é o processo de descoberta e encantamento das personagens com a lembrança de coisas vividas e inventadas, suas feridas felizes, o ritmo cotidiano a manter as boas afeições...
Na Praia do Mariscal, a Rua Âmbar acolhe diferentes visitantes, o leitor e o personagem Miro e outras personagens que saem de velhos contos, aposentos e apólogos. Miro, Valdomiro Silveira, é um menino que mora na rua Ametista e tem uma fábrica de miniaturas escondida debaixo da cama... Em uma caixa, ele guarda as ferramentas. Em outra, as réplicas de panela, chaleira, bule, frigideira, caneca de três asas, objetos e brinquedos feitos de latinhas de alumínio que saem a falar, a confabular sabedorias e dúvidas, filosofias da vida. E saem a correr mundo também. Onde o menino poderia reencontrar seu jarro, o balde e uma panela que sumiram?
Pois na Rua Âmbar tem uma casa: a casa do poço onde morou gente e já não mora mais ninguém. Diziam, assombrada! Miro encontra uma formiga-ruiva à janela, olhando a paisagem à espera de uma prosa. E, nas sombras de um quarto, o menino conhece uma figura que há muito se transforma, como Nereu e lagarta, tipo coisa para viver a vida dos outros, sempre azul e gaivota no futuro. E tem, ou tinha, uma tainha. Então, uma bruxa – que é igual e diferente às outras bruxas que conhecemos, a bruxa da Costa Esmeralda, com o bem e o mal misturados nas entranhas... Ah, as bruxas de Eloí Bocheco viram e reviram seus textos, desde os primeiros! Na poeira do assoalho aberta em ilhas com os passos do menino, os diálogos se iluminam.
— Você acha ruim nascer falando?Outras pessoas igualmente passam pela Rua Âmbar. Como gente de ficção, os veranistas vão e vem, uns voltam, outros não, como ondas, famílias, cotidianos a cada estação. Por exemplo, as três crianças da família Trololó da casa número 109. Este é o pé da história que passeia na realidade, com Isa, Matita e Quim, envolvidos na divisão de tarefas, notícias da televisão e sonhos que buscam o futuro. Mas a vida aí não se limita, imita o pulo do saci, vê rã voando feito borboleta sobre um pé de jasmim.
— Não. Acho normal. Ainda mais no seu caso que, com todo o respeito, tem a boca grande.
— É mesmo, eu me acabo em boca. Mas, mudando de assunto, me conte sobre sua vida.
— Ah, eu era um pensamento...
— Um pensamento?!
— Isso mesmo. O Miro estava andando à beira-mar e pensando. Andando e pensando. Aí, um pensamento do Miro caiu no mar e virou concha. Essa concha sou eu.
A prosa de Eloí é cheia de figuras e diálogos, é prosa feita de lenga-lenga na sua estrutura e costura. E acompanhe Miro pedalando a bicicleta pelas ruas em busca de amigos, Miro o menino de água do mar e maré. E tempestade que se arma nos sentimentos. É quando estronda a velha voz de um pescador, como que vinda de longe, anunciando o “encantamento” do pai. Foi o gigante que despertara em seu sonho, dias antes, que afundou o barco em alto-mar, fora ele, apenas ele, a quem podemos chamar pressentimento...
Eloí Elisabet Bocheco está segura dos segredos da vida, a sua verdade pessoal, e a compartilha com poesia: a transformação dos objetos em coisas novas, do carbono que vibra inteligentemente às plantas, da resina aos polímeros longevos do âmbar, da água aos animais, do humano em humanidade. E assim é bonito como o sol se elevando manhãzinha, sempre, mesmo sem a gente ver sua verdadeira cor.
* * *
1 de dezembro de 2013
de olho nos argumentos
peter ô.ô sagae
Característica de muitos livros de imagem com dois autores – que dividem a responsabilidade sobre um roteiro e as ilustrações – é a presença de recursos narrativos da história em quadrinhos, como a multiplicação de imagens sequenciais para representar ação contínua e facilitar a leitura no espectro da decodificação visual a exemplo de três títulos de Carolina Michelini e do ilustrador Michele Iacocca, lançados recentemente.
Lembremos como qualquer imagem pode responder por um caráter indicativo, mais ou menos preciso, ou incerto. Quando uma imagem junta-se a outra, o traço ambíguo de um gesto, uma cena, um quadro, tende a desaparecer. Correndo uma sequência de imagens, cada qual vem explicitar detalhes, somar informações, amparar diferenças entre si... Mas, sem dúvida, é a linguagem verbal que melhor prescreve ou dá sentido à imagem, limando, orientando, limitando seus significados (de maneira que resumos e resenhas frequentemente circunscrevem um entendimento e até mesmo roubam a liberdade de futuras leituras). Qual seja, aqui estamos nós! É necessário reconhecer, então, quando um roteiro virá ativar uma função pedagógica para a elaboração de um livro de imagem, delineando previamente as formas de sentir e pensar da criança.
O PÁSSARO (Formato, 2013) é uma narrativa que começa com um menino e uma menina trazendo água e comida para o novo animal de estimação, dentro de uma gaiola. Porém, toda a comodidade não basta ao pássaro – e ele, muito esperto, observando como o dono abre e fecha a portinhola, não tarda em administrar a própria fuga. Em meio à natureza ou pousando em outros quintais, a vida não lhe é nada fácil... O pássaro, ferido no orgulho e nas asas vermelhas, retorna à casa de onde partiu e é reconduzido ao confortável cárcere.
Opondo-se ao final da história propriamente dita, o livro de imagem se estende por uma nova sequência que mostra o pássaro destrancando outra vez a portinhola e voando no céu azul. Surgem, então, as dúvidas da leitura: o personagem partiu para sempre ou tornará a voltar? Temos aí uma obra aberta ou [um texto utilitário] às avessas? O olhar do leitor deve dirigir-se ao comportamento humano, alimentando e prendendo bem os pássaros, ou à aprendizagem simbólica de “me acariciaram” mas 'eu mesmo' saio quando dá na teia? O que se quis argumentar às crianças?
Nas outras propostas de Carolina Michelini e Michele Iacocca, uma visão de mundo igualmente ambígua faz oscilar o foco sobre as boas intenções do texto.
Em O VIOLINO (2013), o tom esmaecido do rosa nos móveis, cortinas do quarto e no instrumento, denota uma questão de gênero, apesar da menina deter características físicas e vestuário que a fariam facilmente ser confundida com um garoto de cabelos compridos – quebra ou manutenção dos estereótipos?
Algo semelhante parece acontecer aos personagens de A CARTA (2013), afinal, o que distingue um gênero de outro: cabelos? orelhas descobertas? comprimento dos cílios? tamanho do pé? São um menino e uma menina, ou poderia ser a declaração de afeto de um menino por outro? E, quanto aos papéis socialmente pressupostos, quem fica à janela à espera? Esta última narrativa apresenta três episódios encaixados em uma cena maior, retratando os ressentimentos entre um casal, uma briga entre mãe e filho, e as saudades de uma viúva. Sempre alguém encontra a carta ao lado de um banco na praça – e, claro, a função missivista da literatura para crianças não poderia ser expressa tão francamente ou representada nessa sequência de imagens.
Característica de muitos livros de imagem com dois autores – que dividem a responsabilidade sobre um roteiro e as ilustrações – é a presença de recursos narrativos da história em quadrinhos, como a multiplicação de imagens sequenciais para representar ação contínua e facilitar a leitura no espectro da decodificação visual a exemplo de três títulos de Carolina Michelini e do ilustrador Michele Iacocca, lançados recentemente.
Lembremos como qualquer imagem pode responder por um caráter indicativo, mais ou menos preciso, ou incerto. Quando uma imagem junta-se a outra, o traço ambíguo de um gesto, uma cena, um quadro, tende a desaparecer. Correndo uma sequência de imagens, cada qual vem explicitar detalhes, somar informações, amparar diferenças entre si... Mas, sem dúvida, é a linguagem verbal que melhor prescreve ou dá sentido à imagem, limando, orientando, limitando seus significados (de maneira que resumos e resenhas frequentemente circunscrevem um entendimento e até mesmo roubam a liberdade de futuras leituras). Qual seja, aqui estamos nós! É necessário reconhecer, então, quando um roteiro virá ativar uma função pedagógica para a elaboração de um livro de imagem, delineando previamente as formas de sentir e pensar da criança.
O PÁSSARO (Formato, 2013) é uma narrativa que começa com um menino e uma menina trazendo água e comida para o novo animal de estimação, dentro de uma gaiola. Porém, toda a comodidade não basta ao pássaro – e ele, muito esperto, observando como o dono abre e fecha a portinhola, não tarda em administrar a própria fuga. Em meio à natureza ou pousando em outros quintais, a vida não lhe é nada fácil... O pássaro, ferido no orgulho e nas asas vermelhas, retorna à casa de onde partiu e é reconduzido ao confortável cárcere.
Opondo-se ao final da história propriamente dita, o livro de imagem se estende por uma nova sequência que mostra o pássaro destrancando outra vez a portinhola e voando no céu azul. Surgem, então, as dúvidas da leitura: o personagem partiu para sempre ou tornará a voltar? Temos aí uma obra aberta ou [um texto utilitário] às avessas? O olhar do leitor deve dirigir-se ao comportamento humano, alimentando e prendendo bem os pássaros, ou à aprendizagem simbólica de “me acariciaram” mas 'eu mesmo' saio quando dá na teia? O que se quis argumentar às crianças?
Nas outras propostas de Carolina Michelini e Michele Iacocca, uma visão de mundo igualmente ambígua faz oscilar o foco sobre as boas intenções do texto.
Em O VIOLINO (2013), o tom esmaecido do rosa nos móveis, cortinas do quarto e no instrumento, denota uma questão de gênero, apesar da menina deter características físicas e vestuário que a fariam facilmente ser confundida com um garoto de cabelos compridos – quebra ou manutenção dos estereótipos?
Algo semelhante parece acontecer aos personagens de A CARTA (2013), afinal, o que distingue um gênero de outro: cabelos? orelhas descobertas? comprimento dos cílios? tamanho do pé? São um menino e uma menina, ou poderia ser a declaração de afeto de um menino por outro? E, quanto aos papéis socialmente pressupostos, quem fica à janela à espera? Esta última narrativa apresenta três episódios encaixados em uma cena maior, retratando os ressentimentos entre um casal, uma briga entre mãe e filho, e as saudades de uma viúva. Sempre alguém encontra a carta ao lado de um banco na praça – e, claro, a função missivista da literatura para crianças não poderia ser expressa tão francamente ou representada nessa sequência de imagens.
29 de outubro de 2013
portos de consolação
Peter O’Sagae
O diálogo da criança com a morte tornou-se um dos temas mais requisitados na produção dos últimos anos. Obviamente, por um viés distinto de algumas tradições e estratégias literárias que jamais exilaram a morte das narrativas. É assim que – a despeito da morte que regenera o mundo nos antigos mitos, a morte simbólica ou punitiva do males morais nos contos populares, a morte em série e despersonalizada nas novelas policialescas, a morte afetiva e filosófica das novelas, a morte ricamente dolorosa porque estruturadora da personalidade nas obras clássicas –, agora, nos livros, a morte, por vezes, é acolhida e amealhada pelo discurso da autoajuda na ficção para crianças, o que revela muito mais a inquietação do escritor e seu leitor adultos.
Sabemos que as coisas que fazem o coração transbordar não possuem traduções objetivas em palavras ou imagens. Mas exatamente aí, na impossibilidade de comunicar determinadas experiências, a literatura tem o seu propósito de evocar sentimentos e trazer para perto de nós o que é singelamente singular... De modo contrário, as explicações necessitam abstrair de múltiplas vivências um caráter geral, generalíssimo e compreensível a todos. Desconfiamos. Uma resposta – ou concepção de morte – não estará inteiramente nos livros, senão nas pessoas que a possuem previamente por alguma intuição, ou esperança, e vêm buscar nesta ou naquela literatura mais poética, científica, psicológica, espiritualista, religiosa ou pedagógica, seus portos de consolação.
Alguns títulos que Dobras da Leitura recebeu...
A MENINA, A VACA E O AVÔ, de Luís Pimentel com ilustrações de Rosinha (Positivo, 2011), transmite, ao final da história, uma visão finita da existência. Tudo nasce, vive a infância e a vida adulta, e naturalmente tudo acaba. Sem a companhia do avô, a menina vê a vaca crescendo, de bezerra a novilha, vê a vaca envelhecendo. E um rio, seguindo o próprio curso, vê a moça vendo a vaca seguir ao encontro do avô. Explica o narrador que “os dois estão guardados bem próximos um do outro, num pedaço de terra que se espalha entre o pasto e o rio.”
AGRIDOCE NOSTALGIA, de Tatiana Belinky e Elisabeth Teixeira (Paulinas, 2011), apresenta um depoimento organizado em versos. Quando era pequena e caía, não havia motivos para chorar porque o pai cuidava dos machucados – que feriam tão por fora – com sorriso e proteção. Era um tempo de desconhecer dor que viesse do medo de estar só, completamente só... Até o dia funesto, como ela diz, e o chão desapareceu sob seus pés! Jorrou o pranto sentido e, então, ela ouviu: “Venha cá que eu te levanto!” Era a voz do pai acudindo-a, qual acalanto, da desolação.
RECADO DA CHUVA, de Célia Cris Silva e Rogério Coelho (Vida e Consciência, 2011), faz contraponto entre a cinzenta paisagem fora de casa e o acolhimento doméstico que aquece a companhia de mãe e filha, brincadeiras, abraços, chá, bolinho de chuva, olhar para dentro do coração e perceber o mundo que, ali dentro, se pensa e sente. A filha cresce, sai de casa; num dia futuro de chuva, a morte da mãe será compreendida como uma viagem, longa, sem volta, que, no entanto, recomenda lembranças e sentimentos alegres dos dias bem vividos.
O diálogo da criança com a morte tornou-se um dos temas mais requisitados na produção dos últimos anos. Obviamente, por um viés distinto de algumas tradições e estratégias literárias que jamais exilaram a morte das narrativas. É assim que – a despeito da morte que regenera o mundo nos antigos mitos, a morte simbólica ou punitiva do males morais nos contos populares, a morte em série e despersonalizada nas novelas policialescas, a morte afetiva e filosófica das novelas, a morte ricamente dolorosa porque estruturadora da personalidade nas obras clássicas –, agora, nos livros, a morte, por vezes, é acolhida e amealhada pelo discurso da autoajuda na ficção para crianças, o que revela muito mais a inquietação do escritor e seu leitor adultos.
Sabemos que as coisas que fazem o coração transbordar não possuem traduções objetivas em palavras ou imagens. Mas exatamente aí, na impossibilidade de comunicar determinadas experiências, a literatura tem o seu propósito de evocar sentimentos e trazer para perto de nós o que é singelamente singular... De modo contrário, as explicações necessitam abstrair de múltiplas vivências um caráter geral, generalíssimo e compreensível a todos. Desconfiamos. Uma resposta – ou concepção de morte – não estará inteiramente nos livros, senão nas pessoas que a possuem previamente por alguma intuição, ou esperança, e vêm buscar nesta ou naquela literatura mais poética, científica, psicológica, espiritualista, religiosa ou pedagógica, seus portos de consolação.
Alguns títulos que Dobras da Leitura recebeu...
A MENINA, A VACA E O AVÔ, de Luís Pimentel com ilustrações de Rosinha (Positivo, 2011), transmite, ao final da história, uma visão finita da existência. Tudo nasce, vive a infância e a vida adulta, e naturalmente tudo acaba. Sem a companhia do avô, a menina vê a vaca crescendo, de bezerra a novilha, vê a vaca envelhecendo. E um rio, seguindo o próprio curso, vê a moça vendo a vaca seguir ao encontro do avô. Explica o narrador que “os dois estão guardados bem próximos um do outro, num pedaço de terra que se espalha entre o pasto e o rio.”
A MENINA E O SOL, de Constança Lucas e Júlio Gonçalves Dias (Formato, 2011), reforça a ideia de um segundo céu para os mortos, lugar que não se vê como as estrelas ofuscadas à luz do sol. Nesse outro céu, está a avó da menina – e ainda que muito insista em querer espiá-la, se iria conseguir subindo nos ombros do pai, no telhado, procurando de binóculos ou lanterna, de olhos bem abertos... As respostas da mãe são sempre curtas e negativas; há um súbito desvio na conversa com o convite da mulher para irem tomar sorvete: o que logo se compreende é a dificuldade do adulto em lidar com a saudade.
AGRIDOCE NOSTALGIA, de Tatiana Belinky e Elisabeth Teixeira (Paulinas, 2011), apresenta um depoimento organizado em versos. Quando era pequena e caía, não havia motivos para chorar porque o pai cuidava dos machucados – que feriam tão por fora – com sorriso e proteção. Era um tempo de desconhecer dor que viesse do medo de estar só, completamente só... Até o dia funesto, como ela diz, e o chão desapareceu sob seus pés! Jorrou o pranto sentido e, então, ela ouviu: “Venha cá que eu te levanto!” Era a voz do pai acudindo-a, qual acalanto, da desolação.
TATI É ESPECIAL, de Jean-Claude R. Alphen (Scipione, 2011), busca pela mensagem transcendente das estrelas que já se apagaram... “embora continuemos a ver sua luz”. Entre o discurso científico e a metáfora, Juca questiona como os seres e as coisas também podem morrer e desaparecer, deixando de si, um brilho especial. Tão importantes são as pessoas – e Tati – e sua conclusão é que ninguém deixa de existir de verdade, mas vira estrela no céu, sempre triste e maravilhoso para ser observado, despertando lembranças de quem partiu.
RECADO DA CHUVA, de Célia Cris Silva e Rogério Coelho (Vida e Consciência, 2011), faz contraponto entre a cinzenta paisagem fora de casa e o acolhimento doméstico que aquece a companhia de mãe e filha, brincadeiras, abraços, chá, bolinho de chuva, olhar para dentro do coração e perceber o mundo que, ali dentro, se pensa e sente. A filha cresce, sai de casa; num dia futuro de chuva, a morte da mãe será compreendida como uma viagem, longa, sem volta, que, no entanto, recomenda lembranças e sentimentos alegres dos dias bem vividos.
SEMPRE PERTO, de Stéphane Servant e Aurélia Fronty, com tradução de Adilson Miguel (Scipione, 2011), é uma tessitura poética, ao som da imagem parampá-pam-pam de um tambor estampado com um coração rubro, na primeira página, e cuja narração se deixa tocar por uma linguagem direta e subjetiva que desdobra a primeira pessoa: “Naquela manhã, soprou um vento muito forte, soprou tão forte... que levou mamãe.” E a sinestesia da memória faz da cidade um labirinto por onde o menino reencontra os gestos maternos que o vento espalhou, mas não levaria jamais embora o abraço apertado que a mãe vem lhe dar. Em seus sonhos.
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
Constança Lucas,
Editora Positivo,
Elisabeth Teixeira,
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Jean-Claude R. Alphen,
Paulinas,
Portos de Consolação,
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Rosinha,
Scipione,
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