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27 de setembro de 2014

árvores de vida e boa sorte

quase crônica, Peter O'Sagae outra vez...



Todos nós temos um sonho das coisas que desejamos ser para não perecer. Joaquim sonhava em ter uma semente no umbigo. Ele era um menino destinado à liberdade das coisas da natureza, como o vento, o morro e o rio, particularmente um rio da largura de seus ombros mais belo que qualquer outro que um poeta poderia inventar, porque corria pela cidadezinha onde nasceu o menino: um rio que lava a alma e leva um pouco de sua pessoa a um outro mais caudaloso, percurso de rio afora...


Com uma prosa delicada, Fábio Monteiro escreveu COMO NATUREZA, um texto que deságua na companhia das aquarelas de Elisabeth Teixeira (Abacatte, 2013) para representar um lugar mais distante que o infinito. Em uma primeira leitura, este lugar é própria infância e sua psicosfera especial que se abre, cresce, ilumina-se e pode se desenvolver através de belezas, ainda que uma dor se enfie como agulha pelo umbigo de Joaquim... Numa noite fria, veio o sintoma da rápida doença que o médico descobriu, então, enraizada pelo corpo do menino. “A mãe baixou a cabeça para esconder os olhos que choviam. O pai entendeu a gravidade e foi embora para sempre.” Porém, Joaquim sorriu. Compreendia que uma vida nova transbordava dentro de si. Viraria semente para ser plantado na terra. E assim foi.


Através de uma narração ligeira, o infinito desdobra-se na segunda leitura como o campo onde se cultivam as saudades, onde cresceu bela uma grande árvore – porque existia amor!

É essa imagem viva de otimismo de que necessitam a literatura infantil e seus leitores, resposta compreensiva e consoladora para uma ocorrência natural no percurso humano. Como as plantas e os animais, nascemos, crescemos, desenvolvemos e fenecemos – mas, também se extinguiria o sentimento que não é matéria, no mesmo instante? Uma mensagem de esperança vem aninhar-se em muitos corações, nos livros para crianças, sob o simbolismo da árvore da vida que se renova a cada semente lançada na direção do futuro.


Regina Chamlian e Helena Alexandrino, com intensa suavidade e alegria, convidam o leitor iniciante a caminhar com uma família de tartarugas terrestres e a pensar na importância de uma vida muito longa como o tempo quarando histórias. Não era à toa que vovô sempre fechava os olhos para ver melhor as aventuras nas antigas tardes cheias de sol... e batia forte o coração de Albertina, a menor de todas as tartaruguinhas. Se passa o tempo, passa também o vento para tirar o mundo de seu lugar e uma lengalenga apressa a morte do avô. Albertina não disse uma palavra, não chorou uma lágrima. Porém, chovia. Dentro de seu coração.


Com o livro VOVÔ VIROU ÁRVORE (Edições SM, 2009), as autoras revelam que os sentimentos jamais terminam e não há esquecimento para quem costura histórias de uma vida em outra vida, com os frutos mais doces dos laços familiares colhidos pela memória!


* * *

P.S. Ontem o começo da tarde era azul, retirei a caixa do esconderijo de presentes que guardo meses e anos, sem abrir. A caixa veio um pouco amassada para cima da mesa. Dentro, livro, literatura, segredos, sete envelopes contendo sementes de crisântemo, girassol, cravo vermelho, cravo branco, camomila, amor-perfeito mais amor-perfeito de Regina Chamlian e Helena Alexandrino. Gratidão por essa companhia palavra e imagem, doze horas da noite, doze horas do dia. No entanto, não sou eu hoje o aniversariante. Meu pai é quem nasceu no dia 27 de setembro – e isso faz muito tempo. Para ele dedico a amizade com escritores e ilustradores...


Se a literatura para crianças
também não nos serve, a quem servirá?


28 de agosto de 2014

diante de nossos olhos

Dobras da Leitura 45, mai. 2007


Gosto dos antigos filmes de Georges Méliès.
Suas imagens caprichosas piscam em minha retina e


sobrepõem-se à figura de Pedro, a cabeça desprendendo-se leve para o alto. Cabeça de lua. Na página em preto e branco, nanquim vertido sobre o croqui, nada se parece pedra, nem peso parece possuir... Todo leitor sabe como
é doce deixar-se iludir pelas palavras. No entanto, uma imagem poderia mentir diante de nossos olhos?

Não sei... A primeira dupla-página do livro de Odilon Moraes: PEDRO E LUA (Cosac Naify, 2004) é, pois, essa surpresa e interrogação. Para os leitores mais experientes, a obra pode ser tomada como uma sincera homenagem a Manuel Bandeira, Raimundo Correia e Carlos Drummond de Andrade, apenas para chamar atenção aos nomes de uns poucos poetas e autores de “Satélite”, “Plenilúnio” e “No meio do caminho”, respectivamente.


Pois no meio do caminho de Pedro tinha um livro, onde lera que a lua era
uma grande pedra flutuando no céu. Então, o menino todo se encantara! Encontrou, encoberta por algumas palavras, uma afinidade mágica, admirável e mítica, que o faria sonhar e seguir adiante... A cada noite, Pedro ia juntando as pedrinhas que ele mesmo cismou e concordou consigo terem caído do alto


e, com essa alma mais lá que aqui embaixo, foi subindo uma montanha e asilou todas as pedras para ficarem mais próximas de casa, a lua... O esforço rumo ao aparente inútil é, realmente, sempre belo.

E, no meio do destino de Pedro, outra pedra o fez tropeçar na felicidade
– uma tartaruga – tão bonita quanto uma lua esverdeada no golfão dos ares. Daí, o correto batismo: Lua.


Esta é uma história de amizade verdadeira. Mas, por quanto tempo, durariam
as pedras, o inalcançável satélite, a solidão e a saudade? Eis o outro encanto do livro, a descoberta e a afirmação que o essencial permanece invisível aos nossos olhos.

Peter O'Sagae

21 de março de 2014

da cor de amoras e âmbar, infinito mar

Peter O. Sagae


No mar de páginas, o que mais quer o leitor é encontrar uma história. Uma história com movimento irresistível de ondas e episódios que pouco a pouco o vão puxando para longe do primeiro parágrafo. Bem o efeito desse balanço mágico tem a prosa de Eloí Bocheco que há muito tempo não lia, nem comentava. E agora andei à RUA ÂMBAR (Formato, 2013) com delicadas ilustrações, quadrinhos e vinhetas de Márcia Cardeal. A escritora permite a todos saborear a sua linguagem carregada de amoras, miniaturas e novas moradas, sempre dentro de um projeto literário que se definiu muito antes dos livros caminharem aí afora publicados.

Há mais de quinze anos, Eloí escrevia crônicas investidas de narrativa e capricho poético, no jornal A Notícia, de Santa Catarina. Seus poemas para crianças possuem a voz de acalanto e brinquedos brasileiros. A ficção que sai do seu lápis, ou das letras tamboriladas no teclado do computador (na verdade, eu nunca soube o seu segredo), reafirma sua representação de mundo que é o processo de descoberta e encantamento das personagens com a lembrança de coisas vividas e inventadas, suas feridas felizes, o ritmo cotidiano a manter as boas afeições...


Na Praia do Mariscal, a Rua Âmbar acolhe diferentes visitantes, o leitor e o personagem Miro e outras personagens que saem de velhos contos, aposentos e apólogos. Miro, Valdomiro Silveira, é um menino que mora na rua Ametista e tem uma fábrica de miniaturas escondida debaixo da cama... Em uma caixa, ele guarda as ferramentas. Em outra, as réplicas de panela, chaleira, bule, frigideira, caneca de três asas, objetos e brinquedos feitos de latinhas de alumínio que saem a falar, a confabular sabedorias e dúvidas, filosofias da vida. E saem a correr mundo também. Onde o menino poderia reencontrar seu jarro, o balde e uma panela que sumiram?

Pois na Rua Âmbar tem uma casa: a casa do poço onde morou gente e já não mora mais ninguém. Diziam, assombrada! Miro encontra uma formiga-ruiva à janela, olhando a paisagem à espera de uma prosa. E, nas sombras de um quarto, o menino conhece uma figura que há muito se transforma, como Nereu e lagarta, tipo coisa para viver a vida dos outros, sempre azul e gaivota no futuro. E tem, ou tinha, uma tainha. Então, uma bruxa – que é igual e diferente às outras bruxas que conhecemos, a bruxa da Costa Esmeralda, com o bem e o mal misturados nas entranhas... Ah, as bruxas de Eloí Bocheco viram e reviram seus textos, desde os primeiros! Na poeira do assoalho aberta em ilhas com os passos do menino, os diálogos se iluminam.
— Você acha ruim nascer falando?
— Não. Acho normal. Ainda mais no seu caso que, com todo o respeito, tem a boca grande.
— É mesmo, eu me acabo em boca. Mas, mudando de assunto, me conte sobre sua vida.
— Ah, eu era um pensamento...
— Um pensamento?!
— Isso mesmo. O Miro estava andando à beira-mar e pensando. Andando e pensando. Aí, um pensamento do Miro caiu no mar e virou concha. Essa concha sou eu.
Outras pessoas igualmente passam pela Rua Âmbar. Como gente de ficção, os veranistas vão e vem, uns voltam, outros não, como ondas, famílias, cotidianos a cada estação. Por exemplo, as três crianças da família Trololó da casa número 109. Este é o pé da história que passeia na realidade, com Isa, Matita e Quim, envolvidos na divisão de tarefas, notícias da televisão e sonhos que buscam o futuro. Mas a vida aí não se limita, imita o pulo do saci, vê rã voando feito borboleta sobre um pé de jasmim.


A prosa de Eloí é cheia de figuras e diálogos, é prosa feita de lenga-lenga na sua estrutura e costura. E acompanhe Miro pedalando a bicicleta pelas ruas em busca de amigos, Miro o menino de água do mar e maré. E tempestade que se arma nos sentimentos. É quando estronda a velha voz de um pescador, como que vinda de longe, anunciando o “encantamento” do pai. Foi o gigante que despertara em seu sonho, dias antes, que afundou o barco em alto-mar, fora ele, apenas ele, a quem podemos chamar pressentimento...

Eloí Elisabet Bocheco está segura dos segredos da vida, a sua verdade pessoal, e a compartilha com poesia: a transformação dos objetos em coisas novas, do carbono que vibra inteligentemente às plantas, da resina aos polímeros longevos do âmbar, da água aos animais, do humano em humanidade. E assim é bonito como o sol se elevando manhãzinha, sempre, mesmo sem a gente ver sua verdadeira cor.

* * *

28 de novembro de 2013

um canto de liberdade

peter ô.ô sagae


Berna, Zurique, Paris, qualquer capital ou outro grande centro urbano do velho mundo decifrado por pontes, no alinhavo generoso de um rio, pode ter sido o ninho de inspiração para o ilustrador suíço Patrick Lenz, autor de TOM E O PÁSSARO (Biruta, 2009), um livro de imagem narrativo extraordinário em detalhes e, ao mesmo tempo, muito simples na expressão com que abraça, leva e eleva os leitores.

Fazendo a vez de páginas de guarda, a imagem aérea de uma cidade sob as nuvens, indica um ponto de vista livre do narrador e o interesse dele por conduzir o leitor a uma feira a céu aberto, vivamente organizada. Lá, a câmera da ilustração procura o personagem, entre as pessoas, ambulantes, bicicletas, barracas de frutas, verduras, legumes, posicionando-se na altura exata de um menino. Tom é visto de costas, de mãos dadas a um senhor. Ambos caminham devagar e a aproximação é discreta. O menino veste calças claras e jaquetão roxo. Quando vira o rosto, nossos olhos encontram o perfil miúdo e delicado do menino.

O que é aparentemente apenas uma história em quadrinhos, revela a sutileza da linguagem cinematográfica na dinâmica dos recortes e movimentos. Então, súbito,


quando o menino congela os passos, a respiração suspensa – todos os ruídos de cena, ruídos sonoros e visuais à volta, desaparecem e o quadro é só amarelo. Carregado de subjetividade e iluminação, o leitor se vê, como o personagem, diante de uma árvore de pássaros exóticos – e Tom descobre o pássaro em uma gaiola, nem grande, nem muito pequena, à frente de seus olhos...


Patrick Lenz conta sua história de amizade e cativeiro. Em um mundo totalmente em desordem como é o quarto de um menino, o pássaro vem trazer a companhia muda e franca, até que um canto comovente entoa a amplidão dos caminhos semeados pelo vento. E o cantar do pássaro transforma-se em um contar por imagens. Tom entende imediatamente a narrativa...

e chora. É triste a hora, instante do desapego.

O que acontece depois é um ato de liberdade para o leitor interpretar a história, interpretando seus próprios sentimentos que completam a sequência das imagens. Há um limite do texto, como também há um limite das emoções que cada criança, ou jovem, consegue transpor de si ao personagem, olhando-o intimamente e sem medo para sonhar, ou sofrer, e voar, e viver.

2 de novembro de 2013

era uma vez outras vozes

Peter O’Sagae

Nenhum texto vem ao mundo estranhamente só. Acompanha-o,
em sua ventura, outros tantos textos em um rumoroso movimento
por trás das palavras a enfrentar. Não, por vezes, causariam mais impressão
que um cicio quase silencioso, vento, ou fazendo-se ouvir carinhosamente
como um afago parente... Transparente, o coração borda imagens e pensamentos
naquelas lembranças que não gostaria de sentir, mas quer. Sentir.
Porque precisos são os duelos da vida, obedecendo a uma causa maior...

“Era uma vez um herói e esse herói era meu pai.”
Qual vento que imita a voz de todos, dos contos maravilhosos
ao depoimento pessoal, o narrador funda-se aí juntamente
a outros narradores, distantes, a um personagem em primeira pessoa,
ao possível autor do texto, ao leitor que aceita a palavra do outro
a representar sua própria voz, advogado seu.
Que venha defendê-lo dos duelos da vida...

Rosa, minha amada irmã, Rosa Amanda Strausz
traçou com as imagens de Rui de Oliveira as linhas do grande combate e
da morte iminente de um herói sob os olhos guerreiros de seu filho.
As circunstâncias móveis do narrador, menino, revelam
a dimensão mágica e épica do pai capaz de lutar sozinho contra mil inimigos,
qual cavaleiro de pesadas armas leves na vitória dos tempos passados.
Mas outra batalha diariamente acontecia e minava as forças e formas robustas,
dentro do homem, entre exércitos invisíveis de vírus e anticorpos...

É bonito o cenário que a imaginação evoca a fim de transpor
os sentimentos aos lugares onde se tornaram verdadeiramente invencíveis.
Do quarto à sala de um pequeno apartamento, o mundo alarga-se
por encontrar janelas de compreensão sobre o sentido de viver,
de encontrar o pai e o filho no conviver e compartilhar, reviver e não se revoltar.
“Quando morremos, nosso corpo se desfaz
e se mistura aos outros elementos da vida...”


Nos minutos que não deixam de cavalgar
a favor da aventura derradeira, o conceito de imóvel diz menos respeito
aos pés e braços, à cabeça, lábios e olhos, ao corpo inerte, um dia.
Imóvel é o que não pode ser movido por coisa outra nenhuma,
nenhum outro, sentimento, ser, substância, o Amor
que não se fará diferente além do tempo, porque, a ele,
sentimento revestido de eternidade, o tempo não existe...


Um canto: histórias se inventam no contraponto às vezes, aristotélico, apostólico, por que não, nas mensagens que transformam O HERÓI IMÓVEL (Rovelle, 2011). Os textos sempre vêm e se veem, a cada leitor, na discreta escuta da trajetória palavra e imagem.

31 de outubro de 2013

o corpo leve no curso do rio

Peter O’Sagae*


Será que a morte sente saudades quando a gente parte? Talvez o pato da história de Wolf Erlbruch pudesse fazer essa pergunta depois de alguns dias na companhia da morte de sorriso sempre amigo que seguia os seus passos.


Contudo, justamente ela, justamente com ele, aprendeu a mergulhar no lago, ter alguém para conversar e esquentar seu corpo, ver o mundo de cima de uma árvore... Até que o dia em que o pato deitou para descansar – e não mais acordou!

Com uma delicada trama ao gosto das fábulas, apólogos e parábolas, profundamente filosófica, simples e poética, sobre os sentidos que a vida possui para cada pessoa ou ser, o leitor encontrará o amparo que a amiga morte fez ao companheiro, nas páginas finais, ao deitar corpo leve no curso do rio e pousar em seu peito uma tulipa e, por pouco, muito pouco, não ficar triste. Porque assim é vida, feita de encontros que nos fazem estar mais próximos de quem se gosta.

O PATO, A MORTE E A TULIPA, de Wolf Erlbruch e ilustrações do próprio autor, tradução de José Marcos Macedo (Cosac Naify, 2009) é uma obra para leitores de todas as idades, sem sombra de dúvidas.


* Especial para a Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil 2009, produzida pela BIJ Monteiro Lobato de SP.

29 de outubro de 2013

portos de consolação

Peter O’Sagae


O diálogo da criança com a morte tornou-se um dos temas mais requisitados na produção dos últimos anos. Obviamente, por um viés distinto de algumas tradições e estratégias literárias que jamais exilaram a morte das narrativas. É assim que – a despeito da morte que regenera o mundo nos antigos mitos, a morte simbólica ou punitiva do males morais nos contos populares, a morte em série e despersonalizada nas novelas policialescas, a morte afetiva e filosófica das novelas, a morte ricamente dolorosa porque estruturadora da personalidade nas obras clássicas –, agora, nos livros, a morte, por vezes, é acolhida e amealhada pelo discurso da autoajuda na ficção para crianças, o que revela muito mais a inquietação do escritor e seu leitor adultos.

Sabemos que as coisas que fazem o coração transbordar não possuem traduções objetivas em palavras ou imagens. Mas exatamente aí, na impossibilidade de comunicar determinadas experiências, a literatura tem o seu propósito de evocar sentimentos e trazer para perto de nós o que é singelamente singular... De modo contrário, as explicações necessitam abstrair de múltiplas vivências um caráter geral, generalíssimo e compreensível a todos. Desconfiamos. Uma resposta – ou concepção de morte – não estará inteiramente nos livros, senão nas pessoas que a possuem previamente por alguma intuição, ou esperança, e vêm buscar nesta ou naquela literatura mais poética, científica, psicológica, espiritualista, religiosa ou pedagógica, seus portos de consolação.


Alguns títulos que Dobras da Leitura recebeu...


A MENINA, A VACA E O AVÔ, de Luís Pimentel com ilustrações de Rosinha (Positivo, 2011), transmite, ao final da história, uma visão finita da existência. Tudo nasce, vive a infância e a vida adulta, e naturalmente tudo acaba. Sem a companhia do avô, a menina vê a vaca crescendo, de bezerra a novilha, vê a vaca envelhecendo. E um rio, seguindo o próprio curso, vê a moça vendo a vaca seguir ao encontro do avô. Explica o narrador que “os dois estão guardados bem próximos um do outro, num pedaço de terra que se espalha entre o pasto e o rio.”


A MENINA E O SOL, de Constança Lucas e Júlio Gonçalves Dias (Formato, 2011), reforça a ideia de um segundo céu para os mortos, lugar que não se vê como as estrelas ofuscadas à luz do sol. Nesse outro céu, está a avó da menina – e ainda que muito insista em querer espiá-la, se iria conseguir subindo nos ombros do pai, no telhado, procurando de binóculos ou lanterna, de olhos bem abertos... As respostas da mãe são sempre curtas e negativas; há um súbito desvio na conversa com o convite da mulher para irem tomar sorvete: o que logo se compreende é a dificuldade do adulto em lidar com a saudade.


AGRIDOCE NOSTALGIA, de Tatiana Belinky e Elisabeth Teixeira (Paulinas, 2011), apresenta um depoimento organizado em versos. Quando era pequena e caía, não havia motivos para chorar porque o pai cuidava dos machucados – que feriam tão por fora – com sorriso e proteção. Era um tempo de desconhecer dor que viesse do medo de estar só, completamente só... Até o dia funesto, como ela diz, e o chão desapareceu sob seus pés! Jorrou o pranto sentido e, então, ela ouviu: “Venha cá que eu te levanto!” Era a voz do pai acudindo-a, qual acalanto, da desolação.


TATI É ESPECIAL, de Jean-Claude R. Alphen (Scipione, 2011), busca pela mensagem transcendente das estrelas que já se apagaram... “embora continuemos a ver sua luz”. Entre o discurso científico e a metáfora, Juca questiona como os seres e as coisas também podem morrer e desaparecer, deixando de si, um brilho especial. Tão importantes são as pessoas – e Tati – e sua conclusão é que ninguém deixa de existir de verdade, mas vira estrela no céu, sempre triste e maravilhoso para ser observado, despertando lembranças de quem partiu.


RECADO DA CHUVA, de Célia Cris Silva e Rogério Coelho (Vida e Consciência, 2011), faz contraponto entre a cinzenta paisagem fora de casa e o acolhimento doméstico que aquece a companhia de mãe e filha, brincadeiras, abraços, chá, bolinho de chuva, olhar para dentro do coração e perceber o mundo que, ali dentro, se pensa e sente. A filha cresce, sai de casa; num dia futuro de chuva, a morte da mãe será compreendida como uma viagem, longa, sem volta, que, no entanto, recomenda lembranças e sentimentos alegres dos dias bem vividos.


SEMPRE PERTO, de Stéphane Servant e Aurélia Fronty, com tradução de Adilson Miguel (Scipione, 2011), é uma tessitura poética, ao som da imagem parampá-pam-pam de um tambor estampado com um coração rubro, na primeira página, e cuja narração se deixa tocar por uma linguagem direta e subjetiva que desdobra a primeira pessoa: “Naquela manhã, soprou um vento muito forte, soprou tão forte... que levou mamãe.” E a sinestesia da memória faz da cidade um labirinto por onde o menino reencontra os gestos maternos que o vento espalhou, mas não levaria jamais embora o abraço apertado que a mãe vem lhe dar. Em seus sonhos.

8 de agosto de 2010

debaixo de um guarda-silêncio

por Peter O’Sagae

Quando meu pai morreu, a minha vida parou. Eu não sabia ainda qual e quanto sentimento estava represado, que nome dar ao que sentia e como diminuir as lágrimas que se derramavam igualmente além desta existência. 2008 foi um ano em que se anteciparam à minha vontade um amigo-adulto que tive na infância chamado Agamenon, o poeta Elias José e meu pai. Eu estava sensível e não sabia.

Porque raramente temos a educação dos pensamentos rumo às verdadeiras questões da vida e sofremos quando uma mudança inevitável se interpõe em nosso caminho. Inevitável, pensamos nós, porque somos pequenos frente a toda forma de silêncio. Contudo, exite um silêncio que deveríamos saber significativamente belo, porque nos transforma. Se não temos mais aqueles instantes de ver e abraçar as pessoas amadas, é porque talvez elas tenham vindo morar em nosso próprio íntimo, sem nos acordarmos por qual estrada vieram.

E é um sentido novo de saudade que se revela igualmente nas páginas do livro O GUARDA-CHUVA DO VOVÔ, do casal Carolina Moreyra e Odilon Moraes (DCL, 2008). Não é como uma ausência na casa vazia, um retrato na parede parado, uma lembrança de viagem que não se repetirá. Ao contrário, existe uma saudade-saudável que traz felicidade e presença, quando abrimos o sentimento à estrada da gratidão da experiência vivida, nos fazendo achegar outra vez de nossos queridos companheiros.

No livro, debaixo de um guarda-chuva, a neta confessa: “Quando chove as janelas ficam todas fechadas, os jardins ficam molhados e não podemos brincar lá fora. Muita gente não gosta quando chove... mas eu fico feliz, porque sei que o vovô também está.” Este é o seu segredo, conforme leio no meu próprio guarda-silêncio: descobrir e reconhecer, mesmo que pareça tão difícil, a oportunidade maior que a vida nos estende: um reencontro interior e eterno.

Um ótimo domingo em companhia de nossos pais, com um pouco de literatura sugerida.

17 de maio de 2010

E ele não conseguiu deixar de ver...

por Peter O'Sagae

Katherine Paterson
trad. Ana Maria Machado
 

PONTE PARA TERABÍTIA
Moderna, 1999
2.ed. Salamandra, 2006
ISBN 9788516050528
160p.


Não importa o frio das manhãs de férias, nem os pés descalços: Jess Aarons se levanta e dispara pelo pasto extenso, quase todo já seco e marrom... De coração afogueado, o menino vai compreendendo como o vento e o balanço do corpo podem ajudá-lo a ser o corredor mais veloz de toda a Escola Primária do Riacho da Cotovia. Jess tem as pernas bem compridas e uma determinação sem igual para um menino de 10 anos de idade! Na volta às aulas, entretanto, quem cruza, bem a sua frente, a linha de chegada, é Leslie Burke: uma garota que acabara de se mudar, ora essa, para a casa vizinha! Jess não sabia, mas assim começava uma nova temporada em sua vida.

Leslie mudara-se de Washington, com seus pais, para a pacata e recatada comunidade rural do Riacho da Cotovia. É bem verdade que ninguém entendia ao certo o que aquelas pessoas da cidade grande vieram fazer e viver ali. Era uma gente excêntrica, sem aparelho de televisão, ora essa, em uma casa repleta de livros! O fato é que a garota de cabelos curtos como um menino e coruscantes olhos castanhos viria a selar, com Jess, uma das amizades mais bonitas que o destino podia oferecer — e surpreendentemente irá requisitar de volta.

Do outro lado do rio, à beira da floresta escura, as palavras de Leslie criam o reino secreto de Terabítia, onde prevalece a paz, lugar de imaginação e aprendizagem mútua na distância das coisas triviais do cotidiano: em Terabítia, onde Jess e Leslie são soberanos, nem um, nem dois outros colegas, nenhum inimigo, nem a velha professora, nenhuma das quatro irmãs de Jess, pode chegar... A ponte para o local sagrado pertence mágica e invisivelmente a eles. Até o dia que o destino ruir!

Livro ganhador da Medalha John Newbery, conferida pela Divisão Infantil da Associação de Bibliotecas Americanas, em 1978, e do Prêmio Hans Christian Andersen 1998, Ponte para Terabítia é uma novela sobre a generosidade e a perseverança. Sob um olhar terno, verista, afetuoso e atento aos detalhes, como é seu próprio discurso, Katherine Paternon aviva o cine-mental de seus leitores com tons de ocre, lavanda, brim e verde que renasce após a chuva.


« Percebeu que ela tinha dito “Jess” uma vez, mas como o ônibus era muito barulhento, deu para fazer de conta que não tinha ouvido. Quando chegou a hora de descer, ele agarrou a mão de May Belle e a puxou para fora, o tempo todo consciente de que Leslie vinha bem atrás. Mas ela não tentou falar com ele de novo, nem os seguiu. Só saiu correndo para a velha casa dos Perkins. Ele não conseguiu deixar de se virar para ver. Ela corria como se isso fizesse parte de sua natureza. Fez com que ele se lembrasse do vôo dos patos selvagens no outono. Tão suave... A palavra “bonito” lhe veio à mente, mas ele a sacudiu para longe, e tratou de ir depressa para casa. »