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16 de dezembro de 2014

quadras para o verão

Dobras da Leitura recebeu


Marco Haurélio nasceu no sertão baiano e reuniu quadras, umas poucas adivinhas rimadas e cantigas do ciclo natalino, celebrando a poesia popular e o verde que renasce na estação das chuvas, durante dezembro. Saborosas, as quadrinhas foram quase sempre organizadas pela repetição do primeiro verso, variando depois as sequências. LÁ DETRÁS DAQUELA SERRA, il. Taisa Borges (Peirópolis, 2013).


Lenice Gomes, que nasceu no agreste pernambucano, juntou-se ao paulista Giba Pedroza e colheram, improvisaram e arranjaram quadrinhas com quem inventa um diálogo, lembrança de moços enamorados e meninas em roda, no livro ALECRIM DOURADO E OUTROS CHEIRINHOS DE AMOR, il. Cláudio Martins (Cortez, 2011).


E Elias José convida os leitores para conhecer o cancioneiro simples e amoroso de Fernando Pessoa, a partir de exemplos colhidos do livro Quadras ao gosto popular, publicado postumamente em 1965. Elias selecionou os versos mais próximos da sintaxe, do vocabulário e da sonoridade da língua portuguesa falada e escrita no Brasil, e assim surgiu FERNANDO PESSOA: O AMOR BATE À PORTA (Paulus, 2007).

Um novo ano + poético para você!

8 de setembro de 2014

outras mãos embalam a taba

Peter O'Sagae


Já faz largo tempo que a literatura infantil respira um clima de etnocentrismo no que diz respeito à circulação de narrativas do complexo universo indígena brasileiro, cujo resultado, por vezes, contrariamente ao esperado de enriquecer nossas leituras, tem contribuído para a folclorização das diferenças. É quando entra em cena a figura do bom selvagem, sem vestígios da dimensão mítica ou humana que poderiam revestir os vários personagens. É a lição desaprendida do “tupi or not tupi”, enquanto certos textos esquecem da confluência entre os povos de todo mundo que para cá vieram em busca de um caminho e futuro comuns.

Não poderia deixar de pensar o parágrafo acima, antes de mostrar três livros de três autoras sem marcadas raízes indígenas – são outras mãos que embalam a taba, a taba dos leitores.


A contadora de histórias Ana Luísa Lacombe relembra um mito civilizatório dos Wapixana, em A ÁRVORE DE TAMOROMU, com ilustrações de Fernando Vilela (Formato, 2013). A narrativa exemplifica quão universal é o desejo dos antigos de comer e viver fartamente à sombra, sem se preocupar com o arado, a conservação das sementes ou da natureza, a necessidade de provisões ou o controle sobre o tempo. Tudo começa quando dois irmãos levam para a aldeia uma cutia que só quer saber de brincar e dormir na rede. Volta e meia, ela desaparecia pela mata, e mesmo recusando a comida que os índios ofereciam, tornava-se mais gorda e preguiçosa porque... Porque havia encontrado Tamoromu, a árvore mágica que oferecia todas as frutas e os alimentos da terra. Descoberto o segredo, os imprevidentes homens da aldeia derrubaram a árvore e colocaram-se tão ocupados em fazer o carregamento, que mal perceberam a vida extinguindo-se. Os pássaros voavam embora, as plantas e rios começaram a secar, a própria árvore transformou-se em pedra. Como todo mito impõe uma explicação necessária, o grande deus Tominikare revela sua contrariedade e ordena que cada homem passe a plantar a semente da fruta que tem em sua posse, cuidando da árvore que irá nascer para sua subsistência. Para sempre.


O livro está muito bem produzido – apresentação da antropóloga Betty Mindlin e Fanny Abramovich –, contendo CD de áudio com a narração de Ana Luísa Lacombe, trilha e sonoplastia de Sérvulo Augusto. Trata-se de um reconto, uma adaptação onde se inserem onomatopeias nhac! glub! e alguns puns soltos na intenção de fazer gracejo com o pequeno leitor. Apenas é pena, por duas vezes, pp. 13 e 23, a revisão de texto não esteve de acordo com o nome da árvore: Tamoromu ou Tomoromu?


Maria Inez do Espírito Santo reconta também um mitologema da tribo dos Anambé sobre a constante luta do homem contra a Fome, representada por uma criatura da floresta chamada CEIUCI, A VELHA GULOSA, em um livro com as vibrantes ilustrações de Taisa Borges (Escrita Fina, 2013). Um menino, tendo saído muito cedo de casa para pescar, fora capturado pela velha que tudo devora: peixes, mamíferos e até mesmo gente. Todavia, consegue escapar com a ajuda da filha de Ceiuci que predestina ao pássaro cancão alertar o índio toda vez que velha canibal estiver por perto. Sem descanso, ele corre e percorre um longo caminho de perigos – e, quando alcança sua aldeia, não é mais um curumim, mas homem feito, de cabelos quase brancos... Com um ritmo de conto acumulativo, a narrativa recolhida por Couto de Magalhães, em 1865, torna-se facilmente comparável a muitas outras que, simbolicamente, relaciona o motivo da perseguição mágica e inúmeras provas ao processo de amadurecimento do herói.



Por fim, Socorro Acioli nos ensina que é possível criar histórias novas com temática indígena, inspirando-se em elementos tradicionais das várias culturas – como guardar as sementes ou a castanha de uma fruta para contar a passagem dos anos, hábito bastante comum em aldeias tupis do litoral brasileiro. Lançado originalmente em 2008, pelo Governo do Estado do Ceará, TEMPO DE CAJU, recebeu depois ilustrações de Maurício Negro (Positivo, 2010), e narra a fuga do menino Porã e sua tribo, quando perceberam a iminente chegada de inimigos em suas terras. O texto não esclarece, intencionalmente, a presença do “homem branco” ou guerreiros de outra tribo... O foco está nos laços de parentesco entre os personagens: durante a viagem, o curumim leva uma cabaça com mais de setenta castanhas que pertenceram ao sábio Tamandaré, seu avô. Contudo, ao chegar a outra margem de uma lagoa, ele logo percebe ter perdido a preciosa herança, proteção para todo seu povo.


Vinte e três estações de caju mais adiante, chegariam notícias de uma nova ameaça – e, em sonhos, o conselho de Tamandaré alcança o coração do neto: “Quando a gente não sabe aonde ir, é melhor voltar por onde veio.” Impregnando o texto de um tempo cíclico e uma geografia afetiva, Socorro Acioli abre e fecha sua história à sombra do tempo bom do verão, à sombra dos ensolarados cajueiros nordestinos.


25 de março de 2013

cacos de tempos passados

por Peter O.Sagae


Somente a voz da bisavó conseguia decifrar, com sentimento sem igual, um romance pintado em miniatura no fundo de um prato de porcelana. Nos olhos dóceis e ouvidos atentos da menina Cora Coralina, a história da Princesinha Lui e do jovem plebeu reinventava-se em meandros e segredos, através dos delicados desenhos em meio-relevo em azul-forte, azul-pombinho, contra o fundo claro, contra o tempo da memória que se transforma e da imaginação que faz crescer os detalhes complicados. Todavia, um dia, por artes do salta-caminhos, o último prato do aparelho de jantar com noventa e duas peças apareceu quebrado...

Foi ou não a menina “inzoneira, buliçosa e malina”? Responder isto estava fora de cogitação... Foi mesmo castigo sem defesa, como em tempos antigos se fazia – e um caco de louça, pendurado a um cordão, foi levado ao pescoço da pequena Cora.



Brincando a seu modo com palavra e imagem, o delicado texto-vida foi publicado primeiramente no livro POEMAS DOS BECOS DE GOIÁS e estórias mais, em 1965, sob o título “Estória do aparelho azul-pombinho”. Dialogando com leitores de qualquer idade, Cora Coralina ganhou duas bonitas versões ilustradas de O PRATO AZUL-POMBINHO por Angela Lago (Global, 2001) e Lúcia Hiratsuka (2011), além de apresentar-se intertextualmente em outros trabalhos da literatura para crianças. *


Sônia Barros escreveu O SEGREDO DA XÍCARA COR DE NUVEM, com ilustrações de Ana Terra (Moderna, 2009) — uma xícara única e delicada, cinza, azul e suave carmim, numa cor de nuvens que o tempo deu à velha porcelana, atravessa gerações: do aparelho de chá completo e branco que pertenceu a Ana, trisavó da narradora, para os guardados na cristaleira da avó Aninha e, finalmente, às mãos ansiosas e pouco seguras de Marina. A peça se desfaz em pedacinhos e lágrimas. Contudo, o incidente faz emergir as histórias a respeito das outras cinco xícaras e como se perderam ao longo do tempo. Este é o segredo de família que se compartilha, reavivando instantes e presenças do passado em cada gesto do presente. A narrativa feminina e fragmentária de Sônia Barros mantém um íntimo diálogo com a memória do prato azul-pombinho dos versos de Cora Coralina, de tal maneira que temos aí uma paráfrase bastante marcada, uma homenagem. Há, entretanto, um desvio em relação a história exemplar da doceira-poeta da Cidade de Goiás: em vez da severidade representada pelo colar de cacos no pescoço da menina, Sônia Barros inventa afetos e um outro segredo: um frasco de cola para porcelana que, anos e anos, tem sido utilizado para manter aparentemente intacta a última xícara do antigo jogo, a princesa de pele mesclada de toda a cristaleira.**


Por sua vez, Vivina de Assis Viana recolhe do fundo do córrego as tristes lembranças de uma menina, a pequena narradora, junto a seu irmão colecionando cacos de louça que brilham, na água, como vidro vivo, grandes, pequenos, arredondados, compridos, de todo jeito, coloridos ou brancos, com listras e outras estampas miúdas. Mas havia um pequeno e branco com listas cor de rosa (sic), objeto de disputa: afinal, quem o encontrou? O menino diz ter sido ele — “Mas é mentira, fui eu, e guardei lá na casinha do tanque, junto com os outros. Mas meu irmão é maior do que eu, foi lá e tirou. E guardou junto com as coisas só dele. E pôs o nome: o rei dos cacos.” Nada grave a rivalidade fraternal, principalmente quando lá estão as árvores para subir, as galinhas para correr atrás, as frutas verdes para comer e um outro dia para continuar buscando cacos no leito do rio... Se um fosse igual a outro, talvez viesse a encaixar-se no pedaço já guardado — como os textos a serem descobertos, sempre mergulhados em outros textos, tal este O REI DOS CACOS, originalmente ilustrado por Rubens Matuck (1977), depois Carlos Moreno (1983) e agora a terceira edição nas cores profundas de Taisa Borges (Brasiliense, 2009). ***


* O livro de Cora Coralina foi apresentado em Dobras da Leitura, Ano III N.º 9 (2002).
Comentários revistos e ampliados em março de 2013 para Dobras da Leitura O’Blog.

** Resenha escrita originalmente para a Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil 2009, 

da BIJ Monteiro Lobato – Secretaria de Cultura/PMSP.

*** Obrigado, May Shuravel, por lembrar e levar-me às edições anteriores!

22 de junho de 2012

lá, onde começava a ponta do mar

Temporada de contos e recontos, 4
postagem cifrada por peter # sagae


Os portugueses inventaram coisas, como inventaram... Um mar só deles, um país que se jangadou do continente restante, e terras, muitas terras a serem descobertas no fim de uma longa viagem. Também inventaram contar histórias de outros povos com seu jeito único de fazer e desfazer da inteligência dos outros. Inventaram João Ratão, João Grilo, João Pequenito e Pedro de Malas-Artes que era antes outro Urdemalas, e antes outro Jean Mâchepied, e antes outro Till Eulenspiegel ou Giufa, e antes outro rosto jovem de moral torta e duvidosa... Sim, a Esperteza viajou terras, serras, montanhas, estradas, estrelas, e não é um invenção portuguesa, mas um traço de luta, alegria, sátira e revolta, às vezes, contra os grandes do mundo, contra este ou aquele que oprimia os simples dos povoados, contra quem deveria ter telhado de vidro e caía, sim, numa esparrela à toa.

E são bem histórias assim que compõem o pequeno DEZ CONTOS DO ALÉM-MAR, livro organizado por Ana Carolina Carvalho, com ilustrações de Taisa Borges (Peirópolis, 2010), a partir do acervo registrado pelos folcloristas Adolfo Coelho e Teófilo Braga, no finalzinho do XIX.


Acasos permitem o faminto João Ratão descobrir os “fiéis” criados que haviam roubado o rei, mas ele não fica sem beber, sem saber, um copo cheio de mijo de porca... De adivinhas capciosas, escapam Frei João sem Cuidados e um moleiro disfarçado de frade, diante de um rei que não era cego, mas não tinha olhos para ver, pensando que tudo sabia! Espertas também andam as velhas, TRÊS FIANDEIRAS que fiam a felicidade da moça que só quer casar-se bem... E, naquela terra que inventou de ser a última flor do Lácio, não há jovem coitadinha que não consiga ir ao baile, com vestidos azul e cinzento, azul e prateado, azul e dourado, tal é a Linda Flor que vai colocar o rei de quatro. E tem mais tolices, jogos, desencontros, vento a favor, sopa de pedra, raposinha gaiteira e quem mais consiga mandar pais e irmãos ao palácio para dar-lhes os mais altos cargos...


Ora, histórias! Para dar conta dos nossos danos morais, estas narrativas transmitem vivamente ainda uma noção que permitiu ao espírito coletivo perdoar sempre, sempre a ausência de escrúpulos por um pouco de troça. Ou não. Esta é só uma chave. De interpretação.

Mas, talvez o último conto da coletânea traga uma advertência sincera, daquelas terras, onde o rei não andava nu... era só uma vez o seu filho nascido e fadado a ter orelhas de burro! Soube disso o barbeiro nas horas quantas de fazer a barba do menino. E foi o homem ao padre: “Eu tenho um segredo que me mandaram guardar, mas eu se não o digo a alguém morro, e se o digo o rei manda-me matar.” Pois vai ele cavar um buraco para esgotar o que sabia falando lá dentro – mas, passa o tempo, crescendo o verde verde de uma nova plantação e, um dia, a Verdade subiriam no sopro das gaitas que deram voz ao canavial.


Agora, vocês, que assobiem e pensem: quem deu pra inventar, lá longe, onde começa a ponta do mar... Adivinhou, adivinhão?

21 de outubro de 2011

farfalha livro de imagem

peter o.sagae

A lagarta passa e, na capa do livro de Taisa Borges, já vira título: A BORBOLETA (Peirópolis, 2009). Este é um livro de imagem descritivo em que o percurso (do olhar do leitor, de uma vida breve) se faz: do galho ao casulo, daí rompendo um voo em asas brancas. A borboleta vai: páginas, páginas, páginas... E farfalha, sobre um espelho d’água: na folha, eleva-se à proa: sob a chuva, qual chuva, vai: e abriga-se, então. Seca à sombra. E depois...

Temos j'aí uma narrativa sequencial? Através de vários fragmentos, Taisa Borges representa o voo de sua borboleta por um espaço que muito se parece com uma floresta de perigos... Mas é tudo uma questão de ponto de vista e o leitor vai engatilhando as imagens, página a página, metonimicamente – isto é, somando partes, pistas e instantes, compondo o todo de um conjunto: há, enfim, uma cena para ser descoberta. Por onde veio, vai e voa a borboleta?

Respondida a pergunta, o que vemos é uma nova dupla-página: praticamente um adendo, um extra, uma rubrica visual que, se não faz parte do jogo da leitura iniciado desde a capa até a grande cena final, ora, ora, ora, ajuda-nos a ampliar nossa percepção do código imagético como linguagem. Vale observar bem e comentar: além de ser uma forma de registro, a imagem é recursiva e, sobretudo, exercita sua própria capacidade de fazer referência a si mesma. E a lição de metalinguagem não poderia ser mais explícita que essa:


borboleta que pousa sobre a capa de um livro com folhas verdes e fortes desenhadas sobre um fundo roxo, uma lagarta que passa, um casulo na ponta do galho... e o par das brancas asas batendo onde o título está.


* Ver mais páginas do livro de Taisa Borges, na apresentação Caiu no livro é feixe... de imagens e ideias, oficina do 18o Encontro Regional do PROLER de Caxias do Sul, RS [2:45 a 3:04].

15 de agosto de 2011

quando é que a língua estala

peter o’sagae


A poesia de José Jorge Letria tem rima, sotaque e aquele ritmo da melhor cantoria: não é fado, mas é fatal: é aquele estalo da língua: portuguesa, com certeza, com invenções e sutilezas que deslizam do léxico simples e vário para os vários sentidos da palavra sobre a mesa, sobre a página impressa, sobre a ideia de quem lê José Jorge Letria sem pressa. Ou mesmo apressado pois o poeta recita e receita trocadilhos, delícias e surpresas. É o estalo da língua que deve estrelar na leitura em voz alta, alta memória, metalinguagem, literatura e história. Tudo é brincadeira, extravagância e tem um quê mais inteligente para dizer. Queres um exemplo? Vai aqui apenas um ponteio do que Letria apronta:

Disse Cabral
a Pêro Vaz de Caminha:
“Queres um pêro
para comer à noitinha?”
Respondeu o cronista:
“Vou comê-lo antes
de ir para a caminha.” [...]


O LIVRO EXTRAVAGANTE e outros poemas, de José Jorge Letria, tem organização de José Santos e ilustrações de Taísa Borges (Peirópolis, 2010).

16 de abril de 2010

Diálogos com Alice

Dobras da Leitura recebeu...
[textos condensados a partir do catálogo e do press-release]



A VERDADEIRA HISTORIA DE ALICE, de Rita Taborda il. Thais Beltrame (Girafinha, 2008). Esta Alice bem que tentou falar a língua difícil dos adultos. Mas aquilo não fazia muito sentido. Pediam-lhe que não se pendurasse nos braços da cadeira. E cadeira tem braços? Diziam-lhe que não riscasse as pernas da mesa da sala. E por acaso as mesas têm lá pernas? A língua dos adultos precisava mesmo ser melhorada... Esta é a verdadeira história da pequena Alice, uma miúda que ainda não era uma pessoa grande, mas já era, isso sim, uma grande pequena pessoa.


ALICE NO PAÍS DA POESIA, de Elias José, il. Taísa Borges (Peirópolis, 2009, fora de estoque). No primeiro poema do livro, Alice é "flagrada" no momento em que descobre o mundo das palavras, enquanto vivia no país das maravilhas. Esse é o ponto de partida para 33 poemas repletos de encantamento: o leitor segue em companhia de Sherazade, Peter Pan e Dom Quixote, além de um séquito de fadas e feiticeiras, duendes e sereias, reis e rainhas, príncipes e princesas, pássaros e cavalos mágicos. As ilustrações de Taisa Borges se encarregam de estilizar esses sonhos de criança.



LEWIS CARROLL NA ERA VITORIANA: outras histórias de Alice, de Kátia Canton, il. Adriana Peliano (DCL, 2010). O livro resgata o contexto de criação das narrativas de Alice, na segunda metade do século XIX, revelando os costumes de época e como Lewis Carroll criou seus personagens, em um momento de paz e prosperidade na história inglesa — a Era Vitoriana. O leitor saberá quem foi a Rainha Victoria, o que ela fez em benefício ao povo inglês e como tudo isso se relaciona com as histórias de Alice e a vida do autor, cujo nome verdadeiro era Charles Dogdson. Com colagens digitais de Adriana Peliano, a obra faz parte da coleção Arte conta História.

2 de outubro de 2009

naquela floresta de abraços

por Peter O'Sagae


Taisa Borges, no livro de imagem A BELA ADORMECIDA (Peirópolis, 2007), remonta a versão de Charles Perrault, em meio à estamparia floral que evoca os longos braços de folhas e espinhos que circundaram o velho castelo.

São finíssimos os traços que detalhadamente desenham rostos e vão contornando os volumes todo-brancos do cenário e do rico figurino. Como que assinalando faltas e ausências, as imagens surgem tingidas por um vazio de cores — um amarelo apenas esmaece ao fundo do casal real; um vermelho pouco rubro mancha a toalha da mesa, onde se reúnem sete fadas elegantes, durante a celebração do nascimento da princesa; mais adiante, existe um verde que a esperança do príncipe exige sobre seu manto... E branca será a floresta por onde o amado há de passar. Somente o vestido de Bela tem sempre cores, da ansiedade juvenil ao sono irrevogável: vermelho, azul, amarelo, o corpete, o recortado das mangas, a saia, a floração que ali se insinua em giros e onde mesmo há de brotar um novo matiz para a sua história.

Pois bem: ao escolher a versão francesa do conto, Taisa Borges reserva as páginas centrais para uma seqüência, por vezes, desconhecida dos pequenos leitores. Sob a proteção do castelo, no aconchego da floresta de abraços, Bela e o príncipe tiveram dois filhos — e é mais do que chegado o momento dele apresentar a nova família, em outro reino, perante seus pais. E as cores, as vestes escuras, o rosto mal iluminado da Rainha-Mãe antecipam o destino sombrio que está para acontecer!

Neste trabalho, que encerra uma trilogia de homenagens aos contos de fadas, Taisa Borges enfrenta o desafio de cenas mais estáticas e estancadas, principalmente na primeira parte do livro, como se os personagens estivessem posando para um quadro ou parados à beira de um palco. As páginas são verdadeiramente rememorativas, exibindo certos momentos do conto, sem encadeamento de ações, o que exige conhecimento e esforço da memória para o leitor completar a narração.

cores e ambientes instintivos

por Peter O'Sagae


Da voz à palavra escrita, os contos tradicionais guardaram imagens sabiamente mágicas na medida em que libertam a mente para o sonho. Mesmo um conto que se inicia tristemente e desperta sentimentos de desamparo, possui nuances de força, brilho e otimismo. Assim, para escapar da floresta, João e Maria ludibriam a má sorte com pedrinhas brancas cor de lua e encontram o caminho de volta para a casa. No entanto, ao marcarem a trilha com pedacinhos de pão, as crianças são conduzidas à ventura em bico de passarinho...

Inspirado no conto registrado pelos Irmãos Grimm e nas pinturas de Kirchner, o segundo livro de imagem de Taisa Borges: JOÃO E MARIA (Peirópolis, 2006) parte do Romantismo no início do XIX para refugiar-se nas cores e nas formas do Expressionismo, às vésperas da Primeira Guerra. A autora adivinha e alinhava tradições pictóricas e literárias num gesto particular de contigüidade. Entre a angústia e a pobreza, existe, pois, um mal estar social representado “nas formas quase sempre pontiagudas e nas cores, às vezes sombrias, e outras puras e quase sem nuances, criando ambientes instintivos e, em certos momentos, agressivos”, de acordo com Taisa.

Ao instinto, então. Que o leitor se deixe capturar — e, mais que compreender com a razão, sinta o efeito das cores em sua sensibilidade. Desde as paredes internas da casa, tingidas de vermelho intenso e dramático, à noite sem fim através da floresta, a trama visual evoca o estado de abandono das personagens. E João e Maria têm figuração em branco e preto, alheios às cores, de fato, às outras dores.

o silêncio e canto inestimável

por Peter O'Sagae


Um livro de imagem nem sempre narra uma história; poderá ser um portfolio de ilustrações, tal como mostra Taisa Borges ao rememorar um velho conto de H.C. Andersen: O ROUXINOL E O IMPERADOR (Peirópolis, 2005). Suas experiências, nas artes plásticas e na criação de estamparia têxtil, habilitam-na a sugerir cenas com riqueza de padrões coloridos, decoração farta e elementos figurativos sobrepostos, auxiliada pelos recursos e recortes da computação gráfica. Contudo, as cenas que Taisa ilustra pedem que o leitor tenha conhecimento prévio da história sobre um imperador, donos de largas terras e um imenso jardim que se confundia com as florestas e chegava até as franjas do mar. Longe de seus olhos e de seu coração, apenas os mais simples pescadores conheciam o canto de um inestimável pássaro, um pardacento rouxinol.

Nesse livro, notas e claves musicais são projetados do bico do pássaro por todos os quadros, atravessando páginas e transformando-se em flutuantes mensagens escritas na forma de ideogramas. O texto de Andersen revela que, somente através de notícias do estrangeiro, o poderoso imperador tomou conhecimento da existência do sonoro rouxinol e fortemente o desejou para si. Contudo, ninguém em seu palácio, fosse nobre, fosse conselheiro, ou qualquer outro cortesão, sabia de seu paradeiro. Apenas uma simples e jovem cozinheira o ouvira cantar...


Para os pequenos leitores talvez seja impossível adivinhar a trama que une o verdadeiro pássaro ao rouxinol mecânico, com penas de ouro e cravejado de pedrarias que o imperador recebe de presente — pois o livro de imagem de Taisa Borges não apresenta a continuidade de uma ação à outra; entre os quadros, um intervalo extenso se interpõe. O livro assemelha-se ao tradicional ‘kamishibai’, uma modalidade de entretenimento em que contadores profissionais ou missionários budistas narravam histórias e fábulas a partir de desenhos, previamente feitos, apresentados em pranchas com o texto escrito no verso, a uma platéia de populares, entre adultos e crianças. Depois da década de 1920, as folhas ilustradas do ‘kamishibai’ foram recuperadas por vendedores ambulantes de doces e também por agentes de ensino, como estratégia para garantir-lhes a venda e a atenção do público infantil. Para nós, a relação palavra&imagem, aí perpassada da voz aos ouvidos e dos desenhos aos olhos, caracteriza O rouxinol e o imperador como um livro de ilustrações que procede do texto verbalmente escrito e a ele retorna.