Já me chamaram monstro,
criatura de assombrar,
e disseram que devoro
as crianças ao luar.
Mostram-me nos desenhos
com o olhar mais feroz
que um bicho pode ter
se nos quer deixar sem voz.
Há países, lá do norte,
onde me chamam Papão,
dizendo que eu só morro,
com setas no coração.
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17 de outubro de 2021
o ogro
dobrasdaleitura | Entre OS ANIMAIS FANTÁSTICOS, do poeta José Jorge Letria com ilustrações de André Letria (Peirópolis, 2008), o Ogre europeu aqui passou a ser chamado Ogro, embora ambos os nomes sejam aceitos pelo dicionário da língua portuguesa. Papão de antiga fama e estirpe em inúmeras mitologias, crenças e contos populares, um ogro ora vive num ponto obscuro da floresta, em ilhas distantes, nas montanhas altíssimas, ora vive a agitada vida dos palácios! Transcrevo três quadras do meio do poema, com a boca cheia de dentes esparsos e insetos:
10 de fevereiro de 2021
ainda sobre vizinhos
...e a vizinhança que não vive apenas porta a porta, mas nos leva ao mapa de hábitos de amigos, parentes e conhecidos, retomo o livro do autor português Afonso Cruz, em A CONTRADIÇÃO HUMANA (Peirópolis, 2014), outra crônica que pôe o nariz na vida alheia à altura das crianças:
"Depois de me deparar com estas coisas que desafiam a lógica de todo o universo conhecido, comecei a observar algo mais curioso ainda. Dentro das pessoas --- e isso inclui os vizinhos --- habitam as maiores contradições. Por exemplo: A minha tia gosta muito de pássaros, mas prende-os em gaiolas. É uma pena."
🧡 #quemtemquindimtem
"Depois de me deparar com estas coisas que desafiam a lógica de todo o universo conhecido, comecei a observar algo mais curioso ainda. Dentro das pessoas --- e isso inclui os vizinhos --- habitam as maiores contradições. Por exemplo: A minha tia gosta muito de pássaros, mas prende-os em gaiolas. É uma pena."
🧡 #quemtemquindimtem
2 de janeiro de 2018
inúmeros olhos para ver o mundo
peter O sagae
O sentido de um livro vai além dos fatos que ele vem contar, o sentido de um livro lá está no arrazoado de ideias novas que dá ao leitor para encontrar e colher. Assim é a narrativa de Afonso Cruz a respeito de um pintor que iremos ver, como antecipa o título, debaixo da pia, em algum momento da trama... As hipóteses de leitura a serem talhadas mentalmente talvez me fossem duas: um artista que se esconde dentro de um homem comum, fosse ele um encanador, ou realmente um homem extraordinário, um artista a esconder-se do mundo e doutros homens que lhe acossam o viver.
Claro está que o autor não desejou trabalhar com a dúvida e, na Introdução para O PINTOR DEBAIXO DO LAVA-LOIÇAS (Editorial Caminho, 2011; Peirópolis, 2016), já o leitor é arremessado a um quadro pintado em 1940 por um Josef Sors, cujo olhos intrigantes para a vida abriram-se em 23 de novembro de 1895, filho da engomadeira e do mordomo de um coronel Möller, em uma cidade que ainda não se chamava Bratislava às margens do Danúbio, na Eslováquia. Ora, mais importante que nomes e datas, apontamentos corretos, é a certeza de que “todos os jardins da nossa infância são o jardim do paraíso”. E o quadro que o narrador diz resistir em um pequeno recinto de entrada de uma casa na Figueira da Foz, esse quadro, nós leitores não o vemos nem temos pistas sobre o que nele se deveria ver!
Habilmente escrito no ritmo de capítulos curtos, a obra divide-se em duas partes – O LIVRO DOS OLHOS ACESOS e O LIVRO DOS OLHOS APAGADOS, nomes que fazem referência aos pequenos cadernos de desenho que Josef Sors levava sempre consigo. A primeira parte corresponde a dois terços da obra e pode, estruturalmente, ser dividida em duas seções: 1) aquela que se conta da infância, os anos de instrução ao lado de Wilhelm, a peculiar rotina familiar, a primeira impressão do amor como um infinito fora do alcance das mãos, a imagem de Františka a voar em um balanço no quintal contra o céu, e 2) os acontecimentos posteriores a vinte e oito de junho de mil novecentos e catorze, as muitas paisagens que Josef poderia pintar do mundo. Deste modo, 3) a última parte trata da esperança oculta às escuras, dos olhos que não podem, não querem enxergar os traços de luz nem o sol à sua volta. É uma novela em três atos, três movimentos, muito precisos – e preciosos – porque trata da dialética existencial: estar em si mesmo e sair de si para reencontrar-se.
Para quem aprecia colecionar frases, Afonso Cruz oferece uma narrativa plena de motivos para refletir – ao brincar com temas, como o amor, a guerra, a cultura, os enfrentamentos pessoais, as desventuras humanas, as palavras – e sorrir o sorriso discreto dos filósofos. Ou dos poetas. Porque já sabemos que a travessia pela primeira metade do século XX fez do homem, qualquer homem de qualquer idade e qualquer lugar, um projeto perante a existência. Sim, é necessário lançar-se ao mundo para conhecer-se. Todo homem é um viajante.
O'ABRE ASPAS
“Wilhelm reparava que Havel Kopecky costumava acender um cigarro no outro. É como eu com os livros, pensava ele. Há pessoas que julgam que podem ler um livro do princípio ao fim, mas isso não é possível. A última página de um livro é a primeira do próximo, dizia Wilhelm, como os cigarros de Kopecky. Jozef Sors encolhia os ombros. Quando Jozef era mais novo e tinha dificuldade em sentar-se à mesa confortavelmente, a sua mãe punha-lhe uma almofada debaixo do rabo. A Wilhelm, a ama punha um ou dois livros, conforme o número de páginas. Ainda não sabia ler e já pedia concretamente este ou aquele livro para se sentar em cima dele. Mais tarde haveria de dizer que a altura de um homem depende dos livros que lhe serviram de base.” Afonso Cruz: O PINTOR DEBAIXO DO LAVA-LOIÇAS (2011) #afonsocruz Editora Peirópolis (2016, p. 38)
O sentido de um livro vai além dos fatos que ele vem contar, o sentido de um livro lá está no arrazoado de ideias novas que dá ao leitor para encontrar e colher. Assim é a narrativa de Afonso Cruz a respeito de um pintor que iremos ver, como antecipa o título, debaixo da pia, em algum momento da trama... As hipóteses de leitura a serem talhadas mentalmente talvez me fossem duas: um artista que se esconde dentro de um homem comum, fosse ele um encanador, ou realmente um homem extraordinário, um artista a esconder-se do mundo e doutros homens que lhe acossam o viver.
Claro está que o autor não desejou trabalhar com a dúvida e, na Introdução para O PINTOR DEBAIXO DO LAVA-LOIÇAS (Editorial Caminho, 2011; Peirópolis, 2016), já o leitor é arremessado a um quadro pintado em 1940 por um Josef Sors, cujo olhos intrigantes para a vida abriram-se em 23 de novembro de 1895, filho da engomadeira e do mordomo de um coronel Möller, em uma cidade que ainda não se chamava Bratislava às margens do Danúbio, na Eslováquia. Ora, mais importante que nomes e datas, apontamentos corretos, é a certeza de que “todos os jardins da nossa infância são o jardim do paraíso”. E o quadro que o narrador diz resistir em um pequeno recinto de entrada de uma casa na Figueira da Foz, esse quadro, nós leitores não o vemos nem temos pistas sobre o que nele se deveria ver!
Habilmente escrito no ritmo de capítulos curtos, a obra divide-se em duas partes – O LIVRO DOS OLHOS ACESOS e O LIVRO DOS OLHOS APAGADOS, nomes que fazem referência aos pequenos cadernos de desenho que Josef Sors levava sempre consigo. A primeira parte corresponde a dois terços da obra e pode, estruturalmente, ser dividida em duas seções: 1) aquela que se conta da infância, os anos de instrução ao lado de Wilhelm, a peculiar rotina familiar, a primeira impressão do amor como um infinito fora do alcance das mãos, a imagem de Františka a voar em um balanço no quintal contra o céu, e 2) os acontecimentos posteriores a vinte e oito de junho de mil novecentos e catorze, as muitas paisagens que Josef poderia pintar do mundo. Deste modo, 3) a última parte trata da esperança oculta às escuras, dos olhos que não podem, não querem enxergar os traços de luz nem o sol à sua volta. É uma novela em três atos, três movimentos, muito precisos – e preciosos – porque trata da dialética existencial: estar em si mesmo e sair de si para reencontrar-se.
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O'ABRE ASPAS
“Wilhelm reparava que Havel Kopecky costumava acender um cigarro no outro. É como eu com os livros, pensava ele. Há pessoas que julgam que podem ler um livro do princípio ao fim, mas isso não é possível. A última página de um livro é a primeira do próximo, dizia Wilhelm, como os cigarros de Kopecky. Jozef Sors encolhia os ombros. Quando Jozef era mais novo e tinha dificuldade em sentar-se à mesa confortavelmente, a sua mãe punha-lhe uma almofada debaixo do rabo. A Wilhelm, a ama punha um ou dois livros, conforme o número de páginas. Ainda não sabia ler e já pedia concretamente este ou aquele livro para se sentar em cima dele. Mais tarde haveria de dizer que a altura de um homem depende dos livros que lhe serviram de base.” Afonso Cruz: O PINTOR DEBAIXO DO LAVA-LOIÇAS (2011) #afonsocruz Editora Peirópolis (2016, p. 38)
6 de junho de 2017
josé de lá, josé de cá
peter O sagae
Já faz muito tempo que um poeta disse:
O livro RIMAS DE LÁ E DE CÁ (Peirópolis, 2014) tem ilustrações de Yara Kono (que nasceu cá e vive lá) e começa com Jorge Letria lembrando que a vida é uma viagem através dos sonhos – um livro juntando mapas. Depois, vem o José de cá:
Como dois meninos curiosos, a proposta principal – tão ao jeito de um desafio cantado – é perguntar sobre os nomes dos lugares e das cidades que o Brasil tem e tem em Portugal, as aves e os peixes, as riquezas das florestas, a música, o bailarico das festas e romarias, o artesanato e as artes, a culinária, a história, os monumentos de pedra e cal, as palavras que apenas são usadas de um dos lados do mar...
Já faz muito tempo que um poeta disse:
“As aves que aqui gorjeiam,Faz muito tempo, faz, que os poetas viam-se tristes e distantes de um rincão amado. Hoje não existe distância impossível de vencer, nem exílio quando se tem a própria língua como pátria – e, no jogo de palavras que costuma caracterizar a poesia para crianças, dois autores, um português e outro brasileiro, José Jorge Letria e José Santos, refazem a ponte entre acentos e sotaques, modos de ver o mundo num vai-e-vem de versos por outro mar-oceano que se chama Internet.
não gorjeiam como lá.”
O livro RIMAS DE LÁ E DE CÁ (Peirópolis, 2014) tem ilustrações de Yara Kono (que nasceu cá e vive lá) e começa com Jorge Letria lembrando que a vida é uma viagem através dos sonhos – um livro juntando mapas. Depois, vem o José de cá:
“Na cadência dos porquêsEntão, começa outra viagem – através, atrás de um tempo em que não existia televisão e o José de lá propõem-se lembrar jogos que talvez não conheçamos cá – ou não nos lembramos mais: barra-lenço, campeonato de pião, que seria o tal jogo dos cinco cantinhos?
muitas são minhas perguntas;
qual meninas curiosas
de mãos dadas, andam juntas.
...................................
Eu começo indagando
sobre as suas brincadeiras,
sejam na casa ou na rua,
divertindo a turma inteira.”
Como dois meninos curiosos, a proposta principal – tão ao jeito de um desafio cantado – é perguntar sobre os nomes dos lugares e das cidades que o Brasil tem e tem em Portugal, as aves e os peixes, as riquezas das florestas, a música, o bailarico das festas e romarias, o artesanato e as artes, a culinária, a história, os monumentos de pedra e cal, as palavras que apenas são usadas de um dos lados do mar...
“As peúgas são as meiasSempre em trovas ligeiras e bem explicadinhas, de lá e de cá, as respostas vão sendo tiradas, não escondendo o sabor de uma travessia por compêndios de vocabulário e enciclopédias tais. O foco é certamente a lembrança de que um povo, um país se constitui – além do turismo, das curiosidades linguísticas e outras extravagâncias – com a memória de sua literatura, em especial, entre os autores que escrevem para infância dos homens. Afinal, sintetizam os autores,
que o homem costuma usar,
sem serem muito apertadas
para o sangue circular.
No Portugal mais antigo
havia quem as usasse
para guardar economias
em notas folha-de-alface.”
“A escrita para os mais novos
é caminhada para a luz
com palavras buriladas,
com minúcia de ponto-cruz.”
11 de abril de 2016
olhar o próximo... como a si mesmo
Peter O.o Sagae
Desde tempos imemoriais, o cão teve motivos para correr atrás do gato – mas vivem juntos e fazem de conta que são amigos, nesta história que inventou António Torrado, morando no casebre de uma pobre velha, tudo tudo por um naco de comida e um lugar onde dormir. Um dia, a velhota morreu... e os dois incorrigíveis viram-se ao mundo, com fome e com frio, até encontrarem o Gênio das Cavernas que coloca um sob a pele do outro! O CÃO E O GATO, com ilustrações de André Letria, é uma fábula de transformações que faz cada um olhar o próximo como a si mesmo. #editorapeiropolis (2011) #literaturainfantil #antoniotorrado #andreletria
Desde tempos imemoriais, o cão teve motivos para correr atrás do gato – mas vivem juntos e fazem de conta que são amigos, nesta história que inventou António Torrado, morando no casebre de uma pobre velha, tudo tudo por um naco de comida e um lugar onde dormir. Um dia, a velhota morreu... e os dois incorrigíveis viram-se ao mundo, com fome e com frio, até encontrarem o Gênio das Cavernas que coloca um sob a pele do outro! O CÃO E O GATO, com ilustrações de André Letria, é uma fábula de transformações que faz cada um olhar o próximo como a si mesmo. #editorapeiropolis (2011) #literaturainfantil #antoniotorrado #andreletria
Dobras da Leitura O'Blog tem [+]
André Letria,
António Torrado,
Fábulas,
Peirópolis
5 de março de 2016
saudade que a gente tem
Peter O.o SagAe
Saudade do cheiro do mar deve de ser infinito no peito de um peixe-boi, como a saudade que a gente tem das gentes queridas. Pois, um dia, dentro do tanque rodeado por crianças, o olhar de Xica capturou a imagem tranquila de Maria e a vida veio com surpreendimentos na história da menina e sua avó: uma tartaruga em cima do capô do fusca amarelo, uma preguiça ágil na sombra das árvores, um laço de fita roubado na tarde de domingo... Coisas com sabor de bala de coco e alfenim adoçam os sentimentos no livro XICA, de Rosinha #editorapeiropolis (2011) #literaturainfantil
Escreve a autora na apresentação ao livro...
Saudade do cheiro do mar deve de ser infinito no peito de um peixe-boi, como a saudade que a gente tem das gentes queridas. Pois, um dia, dentro do tanque rodeado por crianças, o olhar de Xica capturou a imagem tranquila de Maria e a vida veio com surpreendimentos na história da menina e sua avó: uma tartaruga em cima do capô do fusca amarelo, uma preguiça ágil na sombra das árvores, um laço de fita roubado na tarde de domingo... Coisas com sabor de bala de coco e alfenim adoçam os sentimentos no livro XICA, de Rosinha #editorapeiropolis (2011) #literaturainfantil
Escreve a autora na apresentação ao livro...
“Xica está na minha vida desde sempre. Visitá-la era um passeio corriqueiro na minha infância. Os sentimentos que guardo desses encontros são de profundo carinho e amizade [...] O convite da Fundação Mamíferos Aquáticos para escrever e ilustrar esse livro me trouxe imensa alegria e o grande privilégio de compartilhar com as crianças de hoje meu encantamento por esse doce animal, que marcou o imaginário de toda uma geração.”
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27 de fevereiro de 2016
cores e formas II
Peter O.o SagAe
A mãe gosta do azul. Papai, do vermelho. Muitos gostam de uma ou outra cor, porém qualquer discussão cotidiana pode levar o coração a dividir-se em partidos (tristes partidos) e descaminhos pela rua. Com o tom pessoal da crônica, este é um pequeno livro-objeto de vigorosa síntese gráfica para entendermos o quanto vivemos um jogo de relação entre opostos e como podemos afastar, ou abraçar todas pessoas do mundo. AZUL E VERMELHO #editorapeiropolis (2015) #literaturainfantil texto: Mireya Tabuas, cor: Patrícia van Dalen, forma: Ricardo Baez, trad. Rubia Prates Goldoni #mireyatabua
“A vizinha do segundo andar e o vizinho do primeiro andar não se cumprimentam...”
“Então eu disse que minha cor preferida é...”
Literatura (e Sociologia) para crianças: o livro fala, assim, de gosto e gênero, times desportivos, política e tudo o mais que solicita tolerância e respeito às opiniões contrárias às nossas próprias convicções.
A mãe gosta do azul. Papai, do vermelho. Muitos gostam de uma ou outra cor, porém qualquer discussão cotidiana pode levar o coração a dividir-se em partidos (tristes partidos) e descaminhos pela rua. Com o tom pessoal da crônica, este é um pequeno livro-objeto de vigorosa síntese gráfica para entendermos o quanto vivemos um jogo de relação entre opostos e como podemos afastar, ou abraçar todas pessoas do mundo. AZUL E VERMELHO #editorapeiropolis (2015) #literaturainfantil texto: Mireya Tabuas, cor: Patrícia van Dalen, forma: Ricardo Baez, trad. Rubia Prates Goldoni #mireyatabua
“A vizinha do segundo andar e o vizinho do primeiro andar não se cumprimentam...”
“Então eu disse que minha cor preferida é...”
Literatura (e Sociologia) para crianças: o livro fala, assim, de gosto e gênero, times desportivos, política e tudo o mais que solicita tolerância e respeito às opiniões contrárias às nossas próprias convicções.
18 de dezembro de 2015
Presentes.
2016 Melhor!
É um livro, é.
Um poema é.
Uma carta.
É também um jogo.
Tudo isso, mais um segredo.
Tão fácil PRA VOCÊ entender...
Vera Rodrigues apanhou cores, imagens, palavras, bandeiras, números, libras, outros sinais no campo fértil das linguagens, e veio revelar diferentes modos de comunicar o carinho por alguém. Pois aqui temos um texto que é distância e presença, recado e silêncio, reunião de pequenos grandes gestos entre o dizer e querer dizer sempre mais. E depois... Deixar que o outro responda, complete por sua vez a mensagem. É assim que o livro de Vera nos diverte o olhar, mas também acalma e empresta coragem – porque é o pensamento o lugar certo onde residem as nossas histórias. Para sempre.
Presentes. A poesia do sorriso nas lentes da Rolleiflex, a poesia registrada através dos olhos de Xango, o mestre Fatumbi Verger que sempre se deixou guiar pelas próprias escolhas e soube encarar com serenidade os prazeres e os dissabores. Uma viagem pelo mundo de 1932 a 1946, na companhia do povo de muitos SORRISOS, uma lição em preto e branco, jogo emocional entre as teclas do piano e o tambor #editorasolisluna (2010) #pierreverger
Presentes. O conto é a forma narrativa da travessia por excelência. No caminho de Mariinha, filha dos empregados da fazenda, os muitos capins vestiam-se de plantação e pensamentos, enquanto ela vai ruminando. Havia o seu jeito de admirar a filha do patrão, menina-quase moça da cidade numa amizade mísera nas férias. Ruim, sim, é a INVEJA confundindo o coração no querer bem. #editorapeiropolis (2011) #livroobjeto #renatafarhatborges #silviaamstalden
É um livro, é.
Um poema é.
Uma carta.
É também um jogo.
Tudo isso, mais um segredo.
Tão fácil PRA VOCÊ entender...
Vera Rodrigues apanhou cores, imagens, palavras, bandeiras, números, libras, outros sinais no campo fértil das linguagens, e veio revelar diferentes modos de comunicar o carinho por alguém. Pois aqui temos um texto que é distância e presença, recado e silêncio, reunião de pequenos grandes gestos entre o dizer e querer dizer sempre mais. E depois... Deixar que o outro responda, complete por sua vez a mensagem. É assim que o livro de Vera nos diverte o olhar, mas também acalma e empresta coragem – porque é o pensamento o lugar certo onde residem as nossas histórias. Para sempre.
* Texto de apresentação do livro PRA VOCÊ, por Peter O'Sagae.
Presentes. A poesia do sorriso nas lentes da Rolleiflex, a poesia registrada através dos olhos de Xango, o mestre Fatumbi Verger que sempre se deixou guiar pelas próprias escolhas e soube encarar com serenidade os prazeres e os dissabores. Uma viagem pelo mundo de 1932 a 1946, na companhia do povo de muitos SORRISOS, uma lição em preto e branco, jogo emocional entre as teclas do piano e o tambor #editorasolisluna (2010) #pierreverger
Presentes. O conto é a forma narrativa da travessia por excelência. No caminho de Mariinha, filha dos empregados da fazenda, os muitos capins vestiam-se de plantação e pensamentos, enquanto ela vai ruminando. Havia o seu jeito de admirar a filha do patrão, menina-quase moça da cidade numa amizade mísera nas férias. Ruim, sim, é a INVEJA confundindo o coração no querer bem. #editorapeiropolis (2011) #livroobjeto #renatafarhatborges #silviaamstalden
8 de dezembro de 2015
Ler e ouvir Alice Vieira.
Peter O. Sagae*
Portas fechadas, corredores sem cores e as sombras a esconder os olhos de uma presença invisível e misteriosa. Talvez viesse a ser a própria Alminha-da-Senhora, ou a Outra-Pessoa de quem ninguém ousa falar. O silêncio retumba mais que outro ruído qualquer — e invade a infância de Marta. Seria preciso a ela permanecer imóvel como uma boneca de porcelana posta à exibição para as visitas posto que os seus passos pequenos, por mais leves que fossem, despertam sempre a casa e as crises de Flávia que-todos-diziam-ser-sua-mãe. Fato. A menina se convenceu de que houve uma troca, a acontecer coisas de mau destino que fez Flávia correr ao hospital como quem busca remédios para a dor de cabeça e, de lá, no entanto, retornaria com uma criança nos braços. Flávia jamais dizia seu nome, jamais saía de casa, nem durante as férias.
Em um texto que reflui tempos e nomes, Alice Vieira orquestra sombras e personagens com acordes distintos, humanamente possíveis, belos e densos, na pauta de sua escrita. O fraseado é todo melódico e até mesmo as palavras mais estranhas ou expressões desconhecidas acomodam-se dóceis e ingenuamente bem humoradas. É neste embalo que lentamente o prisma de emoções adquire movimento e refratando vai um espectro de luzes sobre os moradores, uns vivos e outros ausentes, da casa. Variados enredos ressoam iluminados pela maestria da autora e articulados pela narração de Marta, em diálogo muito próximo com alguém que não se vê (“Sabes como era Leonor: às vezes as palavras saíam-lhe da boca e, quando ia por elas, já elas estavam ditas.”) — e o leitor bem poderá sentir-se tentado a ocupar o incômodo lugar de ouvinte igualmente observado pelos olhos vigilantes de Ana Marta.
* Extraído de Dobras da Leitura n. 50, nov. 2007. O Vitrina Mundi: Portugal. Alice Vieira. OS OLHOS DE ANA MARTA, capa: Yili Rojas (Edições SM, 2005).
Ler e ouvir Alice Vieira. “Quando estou triste, gosto de ter flores perto de mim. Mas não é preciso que tenham perfume ou que sejam daquelas de caules muito altos, que dormem na vitrine das floras. Só preciso que estejam perto de mim. Que eu olhe para elas e sinta que estou tão acompanhada como se elas fossem pessoas.” Pois família é uma sintonia delicada, releio hoje ROSA, MINHA IRMÃ ROSA (1979) #editorapositivo (2014) #alicevieira #odilonmoraes
Ler e ouvir Alice Vieira, mais o verso de Adriana Calcanhoto e o rumor de Gil Vicente por uma estrada que são as muitas casas de Branca. “De repente caíam em cima de mim todas as lembranças daquele dia na Feira – ontem? há uma semana? há um ano? sonhei? –, eu a perguntar porque a minha mãe não respondia... e toda a gente a dizer coisas sem sentido.” MEIA HORA PARA MUDAR A MINHA VIDA #editorapeiropolis (2014) #alicevieira #annacunha
Portas fechadas, corredores sem cores e as sombras a esconder os olhos de uma presença invisível e misteriosa. Talvez viesse a ser a própria Alminha-da-Senhora, ou a Outra-Pessoa de quem ninguém ousa falar. O silêncio retumba mais que outro ruído qualquer — e invade a infância de Marta. Seria preciso a ela permanecer imóvel como uma boneca de porcelana posta à exibição para as visitas posto que os seus passos pequenos, por mais leves que fossem, despertam sempre a casa e as crises de Flávia que-todos-diziam-ser-sua-mãe. Fato. A menina se convenceu de que houve uma troca, a acontecer coisas de mau destino que fez Flávia correr ao hospital como quem busca remédios para a dor de cabeça e, de lá, no entanto, retornaria com uma criança nos braços. Flávia jamais dizia seu nome, jamais saía de casa, nem durante as férias.
« Leonor costumava dizer que eu tinha nascido em berço de ouro, ao mesmo tempo que enchia a minha cabeça de pavores com a Alminha-da-Senhora querendo sair das paredes assim que anoitecia. Lembro-me de ter passado muito dias a espreitar pelo buraco da fechadura dos quartos fechados para ver se descobria, nalgum deles, o tal berço de ouro. Mas o ângulo da visão era fraco, e sempre o mesmo. Acabei por desistir. De resto, de que me serviria um berço de ouro? De certeza não iria poder brincar com ele, como acontecia com as bonecas de porcelana que o pai me dava no Natal e no dia dos meus anos. »Envolta por uma atmosfera de segredos e histórias, iniciadas muito antes de seu nascimento, Marta refugia-se nas cantigas e nas aventuras do Príncipe Graciano pelas sete partidas do mundo tiradas pela velha e calorosa Leonor. Havia um tempo em que diligências cortavam planícies pelos corredores da casa e seu pai não era Martim, mas Touro Sentado, em conversações sobre alianças e emboscadas com o Coiote Vermelho. Leonor contava o passado quando sentia saudades ou quando se zangava com Flávia...
Em um texto que reflui tempos e nomes, Alice Vieira orquestra sombras e personagens com acordes distintos, humanamente possíveis, belos e densos, na pauta de sua escrita. O fraseado é todo melódico e até mesmo as palavras mais estranhas ou expressões desconhecidas acomodam-se dóceis e ingenuamente bem humoradas. É neste embalo que lentamente o prisma de emoções adquire movimento e refratando vai um espectro de luzes sobre os moradores, uns vivos e outros ausentes, da casa. Variados enredos ressoam iluminados pela maestria da autora e articulados pela narração de Marta, em diálogo muito próximo com alguém que não se vê (“Sabes como era Leonor: às vezes as palavras saíam-lhe da boca e, quando ia por elas, já elas estavam ditas.”) — e o leitor bem poderá sentir-se tentado a ocupar o incômodo lugar de ouvinte igualmente observado pelos olhos vigilantes de Ana Marta.
* Extraído de Dobras da Leitura n. 50, nov. 2007. O Vitrina Mundi: Portugal. Alice Vieira. OS OLHOS DE ANA MARTA, capa: Yili Rojas (Edições SM, 2005).
Ler e ouvir Alice Vieira. “Quando estou triste, gosto de ter flores perto de mim. Mas não é preciso que tenham perfume ou que sejam daquelas de caules muito altos, que dormem na vitrine das floras. Só preciso que estejam perto de mim. Que eu olhe para elas e sinta que estou tão acompanhada como se elas fossem pessoas.” Pois família é uma sintonia delicada, releio hoje ROSA, MINHA IRMÃ ROSA (1979) #editorapositivo (2014) #alicevieira #odilonmoraes
Ler e ouvir Alice Vieira, mais o verso de Adriana Calcanhoto e o rumor de Gil Vicente por uma estrada que são as muitas casas de Branca. “De repente caíam em cima de mim todas as lembranças daquele dia na Feira – ontem? há uma semana? há um ano? sonhei? –, eu a perguntar porque a minha mãe não respondia... e toda a gente a dizer coisas sem sentido.” MEIA HORA PARA MUDAR A MINHA VIDA #editorapeiropolis (2014) #alicevieira #annacunha
26 de novembro de 2015
Tarde com pássaros.
Peter On Instagram
A coruja sabia como juntar tintas para tingir tecidos e... por que não as próprias penas? AS CORES DOS PÁSSAROS, de Lúcia Hiratsuka (2015) Verde, turquesa, rosa e celeste vão surgindo em meio às delicadas e precisas pinceladas de sumiê, colorindo as penas do pavão, o bico do melro, até o corvo caprichoso... #editorarovelle #literaturainfantil #fabula
Tarde com pássaros. Todos aprenderam rapidamente a pescar, subir na árvore, cantar e voar. Ele não... ISSO EU POSSO FAZER, de Satoe Tone (2015) O trabalho da ilustradora japonesa é todo um algodão-doce. Sua fábula revela como alguns nascem para criar raízes, compartilhando alegria e beleza. #edicoessm #literaturainfantil #fabula #satoetone trad. Adilson Miguel
Tarde com pássaros. Os corvos precisam de asas bem grandes para voar, porém esta não é... A SORTE DE PIPO. "Já que todo mundo me chama de pinguim, só me resta tornar-me um", pensa o corvinho. Uma história que nos lembra como mergulhar na vida é tão belo e necessário quanto voar. Texto e ilustrações de Matze Doebelle (2013) #editorapeiropolis #literaturainfantil #fabula trad. Hedi Gnädinger
A coruja sabia como juntar tintas para tingir tecidos e... por que não as próprias penas? AS CORES DOS PÁSSAROS, de Lúcia Hiratsuka (2015) Verde, turquesa, rosa e celeste vão surgindo em meio às delicadas e precisas pinceladas de sumiê, colorindo as penas do pavão, o bico do melro, até o corvo caprichoso... #editorarovelle #literaturainfantil #fabula
Tarde com pássaros. Todos aprenderam rapidamente a pescar, subir na árvore, cantar e voar. Ele não... ISSO EU POSSO FAZER, de Satoe Tone (2015) O trabalho da ilustradora japonesa é todo um algodão-doce. Sua fábula revela como alguns nascem para criar raízes, compartilhando alegria e beleza. #edicoessm #literaturainfantil #fabula #satoetone trad. Adilson Miguel
Tarde com pássaros. Os corvos precisam de asas bem grandes para voar, porém esta não é... A SORTE DE PIPO. "Já que todo mundo me chama de pinguim, só me resta tornar-me um", pensa o corvinho. Uma história que nos lembra como mergulhar na vida é tão belo e necessário quanto voar. Texto e ilustrações de Matze Doebelle (2013) #editorapeiropolis #literaturainfantil #fabula trad. Hedi Gnädinger
13 de julho de 2015
tempo para saber o que o tempo é
Quando o carteiro chegou... 5
O tempo é um dos meus temas mais queridos, poético em essência, porque carrega consigo as disparidades do mundo sensível e do pensamento, pertence ou mostra-se em um número concreto de coisas, mas também possui algo das coisas imateriais como são os sentimentos, como não deixam de ser a felicidade e a tristeza. No tempo, tudo emparelha-se. Querem saber?
No livro de Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso, COM O TEMPO (Peirópolis, 2015), as autoras brincam com a compreensão que todos nós, crianças ou adultos, podemos ter a respeito do tempo. Partem do sentido do olhar, comparando as medidas e as mudanças com cada pessoa e com as pessoas a nossa volta, aos alimentos que se transformam de instante a instante, de um dia para o outro, durante uma estação. A experiência vai se transformando em regras, intervalos e períodos, tempo feito de temporadas.
Como as páginas de um livro que amarelecem, o tempo passa a ser percebido em suas qualidades mais subjetivas, nesse caminhar entre verbal e imagens. O feio transforma-se em bonito, contam as autoras, o difícil se torna fácil, a experiência do dia-a-dia vai adensando o conhecimento de cada um de nós. E tudo isso é dito de um modo lúdico, bem humorado, lúcido, bem retratado. O tempo da leitura exige então que se completem as lacunas pois nem tudo está dito, nem tudo está ilustrado...
Quase o tempo todo, o tempo é um ritmo de complementação. Ainda que venhamos a opor a palavra e a imagem, elas são, quando bem casadas, um só texto, quando se pensa os avanços da literatura endereçada à infância. E infância aqui adquire o sentido múltiplo de alcançar crianças e leitores adultos.
Com o tempo, perdemos algumas coisas, por exemplo, um dente que nos impede de sorrir – mas, se perdemos um sabonete dentro da banheira, sempre encontrávamos um motivo para brincar e rir com essa lembrança... e ganhamos outras! Uma medalha que outra coisa não é que uma vitória, após anos e anos de esforço e trabalho dentro da água. As ideias passam de uma a outra através da evocação, e a emoção de um acontecimento a outro flui continuamente...
Então, esse texto, esse livro que tenho em mãos torna-se difícil de classificar, mas tão fácil descrevê-lo como um texto enumerativo, uma lista de impressões, comparações, jogos de marcadas oposições, contrários, paradoxos, espantos, admiração... É um velho álbum de imagens, um imagiário, mas também é um poema novo que vai se construindo para nossa diversão e fazer refletir. Ali está o tempo do relógio, o tempo da ciência e da filosofia, o tempo do conhecimento, o tempo fora e o tempo dentro da gente. E assim vamos passando as páginas, como o tempo.
Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso, levam-nos juntamente com o tempo... da vida e da leitura. Um livro sem idade.
O tempo é um dos meus temas mais queridos, poético em essência, porque carrega consigo as disparidades do mundo sensível e do pensamento, pertence ou mostra-se em um número concreto de coisas, mas também possui algo das coisas imateriais como são os sentimentos, como não deixam de ser a felicidade e a tristeza. No tempo, tudo emparelha-se. Querem saber?
No livro de Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso, COM O TEMPO (Peirópolis, 2015), as autoras brincam com a compreensão que todos nós, crianças ou adultos, podemos ter a respeito do tempo. Partem do sentido do olhar, comparando as medidas e as mudanças com cada pessoa e com as pessoas a nossa volta, aos alimentos que se transformam de instante a instante, de um dia para o outro, durante uma estação. A experiência vai se transformando em regras, intervalos e períodos, tempo feito de temporadas.
Como as páginas de um livro que amarelecem, o tempo passa a ser percebido em suas qualidades mais subjetivas, nesse caminhar entre verbal e imagens. O feio transforma-se em bonito, contam as autoras, o difícil se torna fácil, a experiência do dia-a-dia vai adensando o conhecimento de cada um de nós. E tudo isso é dito de um modo lúdico, bem humorado, lúcido, bem retratado. O tempo da leitura exige então que se completem as lacunas pois nem tudo está dito, nem tudo está ilustrado...
Quase o tempo todo, o tempo é um ritmo de complementação. Ainda que venhamos a opor a palavra e a imagem, elas são, quando bem casadas, um só texto, quando se pensa os avanços da literatura endereçada à infância. E infância aqui adquire o sentido múltiplo de alcançar crianças e leitores adultos.
Com o tempo, perdemos algumas coisas, por exemplo, um dente que nos impede de sorrir – mas, se perdemos um sabonete dentro da banheira, sempre encontrávamos um motivo para brincar e rir com essa lembrança... e ganhamos outras! Uma medalha que outra coisa não é que uma vitória, após anos e anos de esforço e trabalho dentro da água. As ideias passam de uma a outra através da evocação, e a emoção de um acontecimento a outro flui continuamente...
Então, esse texto, esse livro que tenho em mãos torna-se difícil de classificar, mas tão fácil descrevê-lo como um texto enumerativo, uma lista de impressões, comparações, jogos de marcadas oposições, contrários, paradoxos, espantos, admiração... É um velho álbum de imagens, um imagiário, mas também é um poema novo que vai se construindo para nossa diversão e fazer refletir. Ali está o tempo do relógio, o tempo da ciência e da filosofia, o tempo do conhecimento, o tempo fora e o tempo dentro da gente. E assim vamos passando as páginas, como o tempo.
Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso, levam-nos juntamente com o tempo... da vida e da leitura. Um livro sem idade.
14 de janeiro de 2015
dentro da alma
O’ABRE ASPAS, crônica com poesia
Eu gostava de pensar como sou corajoso, nos finais de tarde. O céu vinha cinza carregado de nuvens e vento e logo caíam uns pingos grossos, de tanto em tanto, duros e gelados. Tocavam os meninos a correr. Até hoje o som de trovoada me agrada como o som de uma artilharia de água do Céu contra a Terra, eu estava lá... Talvez fosse emboscada, tão certa quanto a hora de buscar o cavalo. Ainda o vejo. Um tordilho velho com a pelagem branca, cinzenta, manchada, as quatro pernas negras. Ele era a própria imagem da Tempestade.
Alguns anos depois, quando lia os versos de Henriqueta Lisboa que, por todas as letras do seu nome só poderia ser uma pessoa antiga o bastante, me intrigava pensar se escrevia conhecendo-me. Ela tinha a resposta que eu daria em casa...
“Eu não sou feito de açúcar
para derreter na chuva.
Eu tenho força nas pernas
para lutar contra o vento!”
Sei que versos são imagens, cadência e pensamentos que passam dentro da gente, e essa leveza cor de chumbo, assim que a chuva chega batendo o tropel, leva-me para longe. Abandono as leituras com alegria. Já não sei como resenhar. O granizo desce no verão.
Atrelo assim a vontade às palavras de Renata Farhat Borges, apresentando a mais recente edição de O MENINO POETA, com 66 poemas, prefácio de Bartolomeu Campos de Queirós e um estudo em pós da poeta chilena Gabriela Mistral. Para colecionadores de todas as idades.
Um novo ano + poético para você, com
Henriqueta Lisboa, O menino poeta: obra completa
Ilustrações de Nelson Cruz (Peirópolis, 2008).
Eu gostava de pensar como sou corajoso, nos finais de tarde. O céu vinha cinza carregado de nuvens e vento e logo caíam uns pingos grossos, de tanto em tanto, duros e gelados. Tocavam os meninos a correr. Até hoje o som de trovoada me agrada como o som de uma artilharia de água do Céu contra a Terra, eu estava lá... Talvez fosse emboscada, tão certa quanto a hora de buscar o cavalo. Ainda o vejo. Um tordilho velho com a pelagem branca, cinzenta, manchada, as quatro pernas negras. Ele era a própria imagem da Tempestade.
Alguns anos depois, quando lia os versos de Henriqueta Lisboa que, por todas as letras do seu nome só poderia ser uma pessoa antiga o bastante, me intrigava pensar se escrevia conhecendo-me. Ela tinha a resposta que eu daria em casa...
“Eu não sou feito de açúcar
para derreter na chuva.
Eu tenho força nas pernas
para lutar contra o vento!”
Sei que versos são imagens, cadência e pensamentos que passam dentro da gente, e essa leveza cor de chumbo, assim que a chuva chega batendo o tropel, leva-me para longe. Abandono as leituras com alegria. Já não sei como resenhar. O granizo desce no verão.
Atrelo assim a vontade às palavras de Renata Farhat Borges, apresentando a mais recente edição de O MENINO POETA, com 66 poemas, prefácio de Bartolomeu Campos de Queirós e um estudo em pós da poeta chilena Gabriela Mistral. Para colecionadores de todas as idades.
Em 1941, Henriqueta Lisboa, poeta mineira com quem Mário de Andrade manteve uma de suas mais ricas correspondências, recebe do modernista uma carta, pela qual esperou por dois meses, com o seguinte comentário: “são simplesmente um encanto pros ouvidos, pros olhos, pro corpo todo. O menino poeta, isso achei maravilha integral”.
Os versos a que Mário se refere, aqui reunidos em edição especial, foram publicados pela primeira vez em 1943 e marcaram para sempre a história da literatura infanto-juvenil no Brasil. Embora, como definidos pelo próprio modernista, não sejam feitos para criança nem tampouco versos interessados, os poemas milagrosos em ritmo, melodia e encantamento coincidem com a imagem da infância, cheias de pureza, cristalinidade, alegria, melancolia leve, graça e sonho acordado.
São poemas da plenitude da poeta, que encantam a todo leitor, de qualquer idade.
A obra foi apreciada por escritores contemporâneos da autora e pelas gerações seguintes, crianças, jovens e adultos que, como Mário de Andrade, encontraram na poesia de Henriqueta Lisboa acalento para o menino poeta que mora e brinca dentro da alma.
Murilo Mendes, logo após a leitura do livro publicado, assim escreveu a Henriqueta: “O menino Murilo gostou muito dele”. Que o seu menino se encante também.
Um novo ano + poético para você, com
Henriqueta Lisboa, O menino poeta: obra completa
Ilustrações de Nelson Cruz (Peirópolis, 2008).
16 de dezembro de 2014
quadras para o verão
Dobras da Leitura recebeu
Marco Haurélio nasceu no sertão baiano e reuniu quadras, umas poucas adivinhas rimadas e cantigas do ciclo natalino, celebrando a poesia popular e o verde que renasce na estação das chuvas, durante dezembro. Saborosas, as quadrinhas foram quase sempre organizadas pela repetição do primeiro verso, variando depois as sequências. LÁ DETRÁS DAQUELA SERRA, il. Taisa Borges (Peirópolis, 2013).
Lenice Gomes, que nasceu no agreste pernambucano, juntou-se ao paulista Giba Pedroza e colheram, improvisaram e arranjaram quadrinhas com quem inventa um diálogo, lembrança de moços enamorados e meninas em roda, no livro ALECRIM DOURADO E OUTROS CHEIRINHOS DE AMOR, il. Cláudio Martins (Cortez, 2011).
E Elias José convida os leitores para conhecer o cancioneiro simples e amoroso de Fernando Pessoa, a partir de exemplos colhidos do livro Quadras ao gosto popular, publicado postumamente em 1965. Elias selecionou os versos mais próximos da sintaxe, do vocabulário e da sonoridade da língua portuguesa falada e escrita no Brasil, e assim surgiu FERNANDO PESSOA: O AMOR BATE À PORTA (Paulus, 2007).
Marco Haurélio nasceu no sertão baiano e reuniu quadras, umas poucas adivinhas rimadas e cantigas do ciclo natalino, celebrando a poesia popular e o verde que renasce na estação das chuvas, durante dezembro. Saborosas, as quadrinhas foram quase sempre organizadas pela repetição do primeiro verso, variando depois as sequências. LÁ DETRÁS DAQUELA SERRA, il. Taisa Borges (Peirópolis, 2013).
Lenice Gomes, que nasceu no agreste pernambucano, juntou-se ao paulista Giba Pedroza e colheram, improvisaram e arranjaram quadrinhas com quem inventa um diálogo, lembrança de moços enamorados e meninas em roda, no livro ALECRIM DOURADO E OUTROS CHEIRINHOS DE AMOR, il. Cláudio Martins (Cortez, 2011).
E Elias José convida os leitores para conhecer o cancioneiro simples e amoroso de Fernando Pessoa, a partir de exemplos colhidos do livro Quadras ao gosto popular, publicado postumamente em 1965. Elias selecionou os versos mais próximos da sintaxe, do vocabulário e da sonoridade da língua portuguesa falada e escrita no Brasil, e assim surgiu FERNANDO PESSOA: O AMOR BATE À PORTA (Paulus, 2007).
Um novo ano + poético para você!
17 de setembro de 2014
não importa onde
Peter O'Sagae
Já não importa onde você esteja, quando possui um sonho, uma imaginação aberta para as demais pessoas, porque sonhar fechadamente é sinal de timidez e egoísmo. Mente fechada, fachada sobre a qual o tempo pousa e seca, não oxigena, não transforma o que permanece secretamente guardado no peito, na alma, na correnteza do sangue. Sonhar exige coragem. É, eu penso hoje assim. Amanhã desejo mudar. E também gostaria de ler poucos livros. Talvez você não compreenda isto, nada me fadiga tanto que um livro ser igual aos livros do dia anterior.
Pois, acordo toda manhã buscando temas de inspiração. E escrevo, quando os encontro... “Era uma vez um rei. E o rei se chamava Alexandre.” Seus olhos estão sonolentos, olhando ainda uma página que já passou... Um pássaro à esquerda, página que é rápida passagem para o pequeno e grande leitor. O pássaro, no entanto, tem o corpo vermelho e chamará nossa atenção por trás das grades de metal delicado, feito Alexandre sentado entre as colunas de mármore. O trono é vermelho, um par de asas. E isso é uma me-tá-fo-ra...
E fora do castelo, terras e terras, mares e mares, Anna Cunha pintou uma paisagem verde para o texto de Alaíde Lisboa: O AVIÃO DE ALEXANDRE (Peirópolis, 2013). Em uma linguagem simples e pausada, que as palavras se repetem sem repetir ideias, a história narra o desejo do menino rei abarcar,
num só lance, o vasto olhar sobre os domínios do mundo. Como muito ainda teríamos de aprender, antes que Santos Dumont pudesse inventar o avião, será um barco que Alexandre arremessará para o alto no rastro de duas águias... Sem limites para o sonho, o menino pensava, inspirava-se e pesquisava as oportunidades tão próximas de si. Sonhar o futuro é uma bela aprendizagem para o leitor.
E o vislumbre pode unir pessoas – tal é o argumento do austríaco Heinz Jansich, a bordo de O AVIÃO DOS SONHOS, registrando o diálogo de dois meninos sentados no banco de uma praça. Enquanto esperam os pais, seus olhos encontram um superjato cruzando o céu, um trem, um barco a vela, piratas, caubóis, índios, uma lesma com propulsão ultra-veloz, uma baleia voando como nuvem cheia de tempestade... Samuel e seu amigo alimentam a imaginação um do outro, é isso o que importa e aí está toda a cena da brincadeira. Com tradução de Elisa Zanetti, as ilustrações do dinamarquês Søren Jessen fundem os dois espaços: o banco da praça e o abraço da fantasia (Biruta, 2012).
Talvez o maior o sonho da linguagem seja vestir um poema. E aí podemos crer que tudo durma – cegonha, enguias, e vislumbre um futuro – fogo, aleluia, cavalinhos-marinhos – e, por fim, agite-se – tapete, coruja, rio, arranha-céu... Um dos maiores livros em minha estante, 40 por 28 centímetros, bem lembra o jornal que todo dia Oswald de Andrade abriria no Esplanada hotel: uma janela. É um livro, um livro cujo título é um convite para pensar...
O TAMANHO DO MEU SONHO, do escritor Przemyslaw Wechterowicz e da ilustradora Marta Ignerska, premiados autores poloneses, conta com uma recriação sugestiva de Bronislawa Altman Mello (Biruta, 2010).
Na língua original, Wielkie marzenia significa apenas “grandes sonhos”, e a obra poderia ser vista e lida como uma galeria exibindo o grande sonho de diferentes animais e objetos habitualmente inanimados. Mas temos aqui um pouco mais. No título em português, uma presença que diz “meu sonho” e comigo vem conversar, e vejo-me a pensar também qual o tamanho do meu sonho. Pois a tradutora personificou cada coisa, cada criatura. E o que era quase uma legenda, um verso rápido com gosto de trava-língua, virou uma pequena sequência narrativa. Se não era possível traduzir todos os sons, a escolha foi manter uma insólita visão sobre o mundo.
Jetka:
jeszcze jeden dzien zycia.
Aleluia (ou efemérida):
mais um dia de vida.
A aleluia reclama:
nessa minha vida tão curtinha, eu tinha
de viver mais um dia de muita alegria.
Piec:
chociaz na godzinke
zamienié sie w chmurę.
O forno:
uma hora, porém,
me transformo em nuvem.
O forno pede gritando:
eu queria ser uma nuvenzinha
nem que fosse por uma horinha.
* Acima, o texto original em polonês, seguido de uma tradução +/- literária/literal e as soluções narrativas de Bronislawa Altman Mello, respectivamente.
Já não importa onde você esteja, quando possui um sonho, uma imaginação aberta para as demais pessoas, porque sonhar fechadamente é sinal de timidez e egoísmo. Mente fechada, fachada sobre a qual o tempo pousa e seca, não oxigena, não transforma o que permanece secretamente guardado no peito, na alma, na correnteza do sangue. Sonhar exige coragem. É, eu penso hoje assim. Amanhã desejo mudar. E também gostaria de ler poucos livros. Talvez você não compreenda isto, nada me fadiga tanto que um livro ser igual aos livros do dia anterior.
Pois, acordo toda manhã buscando temas de inspiração. E escrevo, quando os encontro... “Era uma vez um rei. E o rei se chamava Alexandre.” Seus olhos estão sonolentos, olhando ainda uma página que já passou... Um pássaro à esquerda, página que é rápida passagem para o pequeno e grande leitor. O pássaro, no entanto, tem o corpo vermelho e chamará nossa atenção por trás das grades de metal delicado, feito Alexandre sentado entre as colunas de mármore. O trono é vermelho, um par de asas. E isso é uma me-tá-fo-ra...
E fora do castelo, terras e terras, mares e mares, Anna Cunha pintou uma paisagem verde para o texto de Alaíde Lisboa: O AVIÃO DE ALEXANDRE (Peirópolis, 2013). Em uma linguagem simples e pausada, que as palavras se repetem sem repetir ideias, a história narra o desejo do menino rei abarcar,
num só lance, o vasto olhar sobre os domínios do mundo. Como muito ainda teríamos de aprender, antes que Santos Dumont pudesse inventar o avião, será um barco que Alexandre arremessará para o alto no rastro de duas águias... Sem limites para o sonho, o menino pensava, inspirava-se e pesquisava as oportunidades tão próximas de si. Sonhar o futuro é uma bela aprendizagem para o leitor.
E o vislumbre pode unir pessoas – tal é o argumento do austríaco Heinz Jansich, a bordo de O AVIÃO DOS SONHOS, registrando o diálogo de dois meninos sentados no banco de uma praça. Enquanto esperam os pais, seus olhos encontram um superjato cruzando o céu, um trem, um barco a vela, piratas, caubóis, índios, uma lesma com propulsão ultra-veloz, uma baleia voando como nuvem cheia de tempestade... Samuel e seu amigo alimentam a imaginação um do outro, é isso o que importa e aí está toda a cena da brincadeira. Com tradução de Elisa Zanetti, as ilustrações do dinamarquês Søren Jessen fundem os dois espaços: o banco da praça e o abraço da fantasia (Biruta, 2012).
Talvez o maior o sonho da linguagem seja vestir um poema. E aí podemos crer que tudo durma – cegonha, enguias, e vislumbre um futuro – fogo, aleluia, cavalinhos-marinhos – e, por fim, agite-se – tapete, coruja, rio, arranha-céu... Um dos maiores livros em minha estante, 40 por 28 centímetros, bem lembra o jornal que todo dia Oswald de Andrade abriria no Esplanada hotel: uma janela. É um livro, um livro cujo título é um convite para pensar...
O TAMANHO DO MEU SONHO, do escritor Przemyslaw Wechterowicz e da ilustradora Marta Ignerska, premiados autores poloneses, conta com uma recriação sugestiva de Bronislawa Altman Mello (Biruta, 2010).
Na língua original, Wielkie marzenia significa apenas “grandes sonhos”, e a obra poderia ser vista e lida como uma galeria exibindo o grande sonho de diferentes animais e objetos habitualmente inanimados. Mas temos aqui um pouco mais. No título em português, uma presença que diz “meu sonho” e comigo vem conversar, e vejo-me a pensar também qual o tamanho do meu sonho. Pois a tradutora personificou cada coisa, cada criatura. E o que era quase uma legenda, um verso rápido com gosto de trava-língua, virou uma pequena sequência narrativa. Se não era possível traduzir todos os sons, a escolha foi manter uma insólita visão sobre o mundo.
Jetka:
jeszcze jeden dzien zycia.
Aleluia (ou efemérida):
mais um dia de vida.
A aleluia reclama:
nessa minha vida tão curtinha, eu tinha
de viver mais um dia de muita alegria.
Piec:
chociaz na godzinke
zamienié sie w chmurę.
O forno:
uma hora, porém,
me transformo em nuvem.
O forno pede gritando:
eu queria ser uma nuvenzinha
nem que fosse por uma horinha.
* Acima, o texto original em polonês, seguido de uma tradução +/- literária/literal e as soluções narrativas de Bronislawa Altman Mello, respectivamente.
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