1 de dezembro de 2013

de olho nos argumentos

peter ô.ô sagae


Característica de muitos livros de imagem com dois autores – que dividem a responsabilidade sobre um roteiro e as ilustrações – é a presença de recursos narrativos da história em quadrinhos, como a multiplicação de imagens sequenciais para representar ação contínua e facilitar a leitura no espectro da decodificação visual a exemplo de três títulos de Carolina Michelini e do ilustrador Michele Iacocca, lançados recentemente.

Lembremos como qualquer imagem pode responder por um caráter indicativo, mais ou menos preciso, ou incerto. Quando uma imagem junta-se a outra, o traço ambíguo de um gesto, uma cena, um quadro, tende a desaparecer. Correndo uma sequência de imagens, cada qual vem explicitar detalhes, somar informações, amparar diferenças entre si... Mas, sem dúvida, é a linguagem verbal que melhor prescreve ou dá sentido à imagem, limando, orientando, limitando seus significados (de maneira que resumos e resenhas frequentemente circunscrevem um entendimento e até mesmo roubam a liberdade de futuras leituras). Qual seja, aqui estamos nós! É necessário reconhecer, então, quando um roteiro virá ativar uma função pedagógica para a elaboração de um livro de imagem, delineando previamente as formas de sentir e pensar da criança.


O pássaro (Formato, 2013) é uma narrativa que começa com um menino e uma menina trazendo água e comida para o novo animal de estimação, dentro de uma gaiola. Porém, toda a comodidade não basta ao pássaro – e ele, muito esperto, observando como o dono abre e fecha a portinhola, não tarda em administrar a própria fuga. Em meio à natureza ou pousando em outros quintais, a vida não lhe é nada fácil... O pássaro, ferido no orgulho e nas asas vermelhas, retorna à casa de onde partiu e é reconduzido ao confortável cárcere.

Opondo-se ao final da história propriamente dita, o livro de imagem se estende por uma nova sequência que mostra o pássaro destrancando outra vez a portinhola e voando no céu azul. Surgem, então, as dúvidas da leitura: o personagem partiu para sempre ou tornará a voltar? Temos aí uma obra aberta ou [um texto utilitário] às avessas? O olhar do leitor deve dirigir-se ao comportamento humano, alimentando e prendendo bem os pássaros, ou à aprendizagem simbólica de “me acariciaram” mas 'eu mesmo' saio quando dá na teia? O que se quis argumentar às crianças?

Nas outras propostas de Carolina Michelini e Michele Iacocca, uma visão de mundo igualmente ambígua faz oscilar o foco sobre as boas intenções do texto.


Em O violino (2013), o tom esmaecido do rosa nos móveis, cortinas do quarto e no instrumento, denota uma questão de gênero, apesar da menina deter características físicas e vestuário que a fariam facilmente ser confundida com um garoto de cabelos compridos – quebra ou manutenção dos estereótipos?


Algo semelhante parece acontecer aos personagens de A carta (2013), afinal, o que distingue um gênero de outro: cabelos? orelhas descobertas? comprimento dos cílios? tamanho do pé? São um menino e uma menina, ou poderia ser a declaração de afeto de um menino por outro? E, quanto aos papéis socialmente pressupostos, quem fica à janela à espera? Esta última narrativa apresenta três episódios encaixados em uma cena maior, retratando os ressentimentos entre um casal, uma briga entre mãe e filho, e as saudades de uma viúva. Sempre alguém encontra a carta ao lado de um banco na praça – e, claro, a função missivista da literatura para crianças não poderia ser expressa tão francamente ou representada nessa sequência de imagens.

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