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6 de julho de 2020

o pequeno cantador



☆ NINGUÉM MAIS tinha nascido de um sopro, como ele. Por isso atravessava o tempo cantando, puxando cordas que puxavam sinos que puxavam o dia sobre as casas de telhados azuis.

☆ Lá de longe ele está vindo. Eu o escuto há anos. Ele brinca tão leve e canta tantos vôos, que não é preciso vê-lo para fazer seu retrato. Basta-me pena, pipa, balão, algodão, espuma e bolha de sabão que, pronto, aí está Beni acompanhando a estrada que liga tanta estrada. ☆☆

O desenho de Roger Mello ilustra a prosa poética de Celso Sisto @celsosisto, no livro O PEQUENO CANTADOR @dimensao.editora (1997) pp. 5-7 #FiqueBem #AbreAspas2020

7 de junho de 2017

“por que o silêncio não é colorido?”

peter O sagae


Quem foi o primeiro menino que existiu no mundo? Teria nascido, em priscas eras com um sorriso, encantando-se com as coisas por aí – e hoje estaria guardado entre as pedras e os seixos de um rio? Seria um fóssil, antigo e primitivo, em outras cores, cheio e vazio, seria semente ou fruto de nossa imaginação? Não por acaso, fui abrindo o livro com preguiça e perguntas: o que o autor vem me contar?

Pois O PRIMEIRO MENINO, de Edimilson de Almeida Pereira com ilustrações de Anabella López (Mazza Edições, 2013), vai se levantando com a sede das palavras – “Sua escrita muda como as estações. De uma notícia de chuvas para um retrato com flores.” O vento é, sem dúvida, seu melhor leitor e lhe apaga cordialmente os pontos finais, alongando o pensar pelas reticências... Da mesma sorte, cada mini-capítulo do livro também muda e passa da prosa poética a uma página com disparates e perguntas que se derramam como certos versos, versos certos.


Enquanto isso, o primeiro menino surge minúsculo na ilustração. Anabella López o fez nascer livremente naïf e rupestre em tinta preta – e um só círculo amarelo havia para colorir a espessura branca e transformar-se em outras formas. Contam as imagens, juntamente às palavras, a história de um menino que possui uma história para inventar, com asas em peso de leveza, sementes, berço, buraco de cobra, ondas de sol e raízes, poeira e pigmentos, plantas, vulcões... Mas tudo começou com aquele amarelo num círculo, como flor e sol.


O texto de Edimilson de Almeida Pereira é rio e é leitura. É inscrição – como a água que sulca a terra, fazendo uma paisagem ser o que é, diferente de outras tantas paisagens que os homens tantas vezes refazem e repetem sempre do mesmo modo. Aqui, o autor é primeiro menino. Sua palavra, no encontro dos primeiros espantos, é ravina.

Esta é então a metáfora que há para ser decifrada. Cria-se na escritura com simplicidade e não ultrapassa os limites da imaginação verbal a fim de contar fora do texto, seja interpretações outras ou um segredo. Não, a ravina não representa nada, porque a ravina é. A metáfora impõe-se com cálculo e doçura. Claro, você vai lembrar, a ravina é parte de uma saga geológica – e é, por isso, que o texto de Edimilson apresenta camadas na companhia do vento e da água.

Ora, quando se está a falar em poesia, também se está a apontar a qualidade das coisas mesmas que nos cercam os sentidos e a compreensão. É belo o movimento onde a brincadeira ressurge de si mesma, através de perguntas, na mente e no coração do leitor. Um pássaro sabe que é leve? Como o céu segura as estrelas? Por que perguntamos a vida inteira? A filosofia é o outro nome do verdadeiro encanto.



Mas há também no livro a curiosidade sobre coisas comuns, objetos e máquinas, animais que se veem pelo mundo, o pão da manhã, o nome das ruas, um poema que lê um poema, um livro para crianças – e eu me lembro quando ouvi a respeito do olhar inaugural das crianças que os poetas desejam imitar para desaprender o já aprendido. O primeiro menino é também aquele menino azul, de Cecília Meireles a Edimilson de Almeida Pereira, numa inteligente intertextualidade, neste mundo que é como um jardim. O primeiro menino é um estado de constante escrita e busca – numa escrita a ser tudo – e para todos.

4 de março de 2016

imenso silêncio, canto e desejo

Peter O.o SagAe



Com acento de poesia, Leo Cunha conta com leveza o que é desencanto na vida de um sabiá: não saber voar, assobiando ressabiado consigo mesmo o apetite de caber no ar e “passar por cima das casas, das ruas, das gentes, do medo”. Mas há também na história uma girafa, com imenso silêncio e a vontade de cantar... O SABIÁ E A GIRAFA, il. Graça Lima (1993), é uma fábula moderna a respeito dos encontros (que podem parecer) fortuitos e o fortalecimento mútuo. Para leitores de qualquer altura. E sonhos em várias dimensões #editoraftd (2012) #literaturainfantil #leocunha #graçalima




4 de dezembro de 2015

tem texto leve

No Instagram


Tudo que é belo, ardente e temeroso parece vir do céu, como o sol, a lua, um lampejo, os temporais e os anjos também... Muitas perguntas dançam do pensamento ao verso que Leo Cunha iluminou sobre o papel, numa delicada chuva de descobertas que caem ludicamente dentro da aquarela de Cris Eich. A MENINA E O CÉU #editoraftd (2014) #litetaturainfantil #poesia #leocunha #criseich


Tem texto leve. Não faltam histórias aos poetas, mas talvez uma preguiça venha até eles e deixem escapar os personagens através do vento, como o esboço de um enredo que jamais vai encontrar o final da escrita. Para onde vão? Essas histórias, conta Xan López Dominguez, há muito tempo vivem em sua lembrança... MINHAS HISTÓRIAS PERDIDAS #editoramelhoramentos (2011) #prosapoetica #xanlopez


Tem texto leve. Porém, longo. Tal como são as percepções, quando adentram a memória de Pê. E o vasto mundo que ele descobriu. Ainda na infância, ainda rio. Dono de afetos e árvores que ele mesmo redescobre. Em cada palavra e lance do coração desbravado em imagens, repetições, nomes e o desafio de ser o ser... PÊ E O VASTO MUNDO #editorapositivo (2014) #prosapoetica #pauloventurelli #fereshtehnajafi

30 de novembro de 2015

as horas, cinzas

Peter On Instagram


Primeira Hora Cinza... "O certo é que nunca estava feliz. Com essa maneira de querer muito, vivia descontente. É que jamais olhava para fora. Estava sempre atento para todos os objetos que seus olhos alcançavam. Era seu desejo trazer, para dentro de si, tudo o que estava fora. Cobiçava sempre [...] Ficava contente em jogar sozinho, ganhando ou perdendo para si mesmo." MAIS COM MAIS DÁ MENOS, de Bartolomeu Campos de Queirós com ilustrações e projeto gráfico dos irmãos irmãos Marcelo Drummond e Marconi Drummond #editorarhj (2011) #prosapoetica #bartolomeucamposdequeiros


Segunda Hora Cinza... "Zolfe fica paralisada. Não tem nenhuma idéia do que deva fazer numa situação como essa. Nenhum gesto, nenhuma palavra. Como num sonho ruim, quando se quer fugir, mas não se sabe de onde. Quando se abre a boca em busca de uma resposta cuja pergunta é impossível encontrar. Quando, em desespero, procura-se no olhar do outro uma saída..." NENHUM PEIXE AONDE IR, de Marie-Francine Hébert, trad. Maria Luiza X. de A. Borges, il. Janice Nadeau #edicoessm (2006) #mariefrancinehebert #janicenadeau


Terceira Hora Cinza... "Depois de um dia de trabalho / Dia problemático / Chato e burocrático // Que bom chegar em casa e te encontrar / Super-Homem, Homem-Aranha, Indiana Jones, Homem-Elástico // (Este existe? / Acho que é do meu tempo / De quando meu pai chegava em casa do trabalho / Trazendo alguma coisa pra mim, um doce, um brinquedo reformado) // Que bom chegar em casa e te encontrar / Capitão Fantástico" MEU FILHO, MEU BESOURO, texto e ilustração de Cadão Volpato #cosacnaify (2011) #poesia #cadaovolpato

24 de julho de 2015

pois ninguém está só

Quando o carteiro chegou... 9


É o texto que me leva à leitura. Texto, digo e repito, palavra e imagem. Palavra e imagem que nem sempre necessitam ser ilustradas, salientes. O silêncio e o vazio falam à criança e ao jovem leitor. A ausência também, também o mistério. E quanto mais forte e leve for o texto, mais longe vou... E não posso deixar de assinalar que, cuidadoso, o trabalho com a linguagem de Fábio Monteiro tem se revelado aberto para a leitura em voz alta.

Do começo ao fim, leio e ouço CARTAS A POVOS DISTANTES.
Experimente um parágrafo da página 32:
Todos os dias verificava se havia alguma correspondência na caixa do correio. Cada vez que a abria e nada encontrava, a angústia da espera aumentava. Naquele tempo, os minutos, horas, dias eram mais longos que hoje. As distâncias também. O mundo era grande e muito diferente do que imaginamos hoje. Mal conhecíamos o lugar em que morávamos. As cartas levavam dias para chegar a seu destino. Claro que isso tinha certo charme – entre a espera e a chegada, criava-se um misto de ansiedade e alegria em receber notícias das “gentes” de longe.

Em seu livro, Fábio Monteiro conta a história de Giramundo, um menino que inventa línguas e lugares, mas inesperadamente passa a receber mensagens de um remetente desconhecido, de um país que ele apenas sabia ficar do outro lado do oceano... São cartas que vêm de Angola, de um amigo de Luanda. Na correspondência feita de papel e coincidências, os dois meninos começam a descobrir um ao outro através da palavra escrita e do espanto... A trama passeia entre discursos, do mundo comentado ao mundo narrado, do exercício epistolar a uma amizade sem fronteiras, traço da própria identidade, rumores do tempo a que pertencemos. Um Giramundo de cá, um amigo de lá. Como construir pontes de solidariedade e conhecimento?


Entre perguntas e respostas, o silêncio tudo amarra. Cada um dos personagens (e também o leitor) descobre que não está só. A correspondência entre os dois meninos, de um modo bastante significativo, atravessa de novembro de 1985 a março de 1986. Apesar de 10 anos independente da colonização portuguesa, Luanda aguardava ainda a retirada das forças estrangeiras em um cenário movimentado por uma guerra civil que duraria quase três décadas. No intervalo criado pela narrativa de Giramundo e seu amigo distante, o momento histórico talvez seja uma sombra desconhecida e tênue que vai se preenchendo apenas da vontade de receber a próxima carta; no entanto, é uma fração do tempo que o livro traz para ancorar, a todos nós, em nosso presente...

CARTAS A POVOS DISTANTES, de Fábio Monteiro, tem as ilustrações e o projeto gráfico assinados por André Neves (Paulinas, 2015).


“E, quando não aguentou mais o peso do conhecimento, 
dormiu um sono dobrado pela certeza de 
querer ainda mais e mais conhecer esse amigo.”

* * *
*

18 de junho de 2015

por aí flui, por aí voltei

Quando o carteiro chegou... leituras risonhas 2


Há tanto tempo tento ler um livro para crianças de Cyro de Mattos, mas confesso: desisto a meio caminho, volto atrás, volto ao livro, persisto, insisto, volto às primeiras páginas, enrolo-me depois em outros afazeres. Um livro contava a história de um boi, outro tinha a capa verde e a palavra roda no título. Ora, bois, ora roda, têm tudo a ver comigo, e gosto também do estilo, um trabalho consistente com a linguagem, aí nenhum problema. Ou o problema, porque a voz do texto como a música guarda uma tonalidade, um ritmo. Ambos os textos não me convenciam como literatura infantil. Eram canções de velho. Para leitores velhos, como também sou.

Abro hoje O QUE EU VI POR AÍ, sim de Cyro de Mattos, com ilustrações da polonesa Marta Ignerska e o projeto gráfico de Monique Sena (Biruta, 2014), e sinto-me um pouco mais em paz. A voz do texto é igualmente mansa e soa como um convite às horas de contemplação, assim que o sol acorda, com seu olho enorme, onde o céu faz uma curva e vai empurrando as sombras, inventando leões rugindo nas ondas com suas jubas brancas... Sim, respinga, no rendilhado dessa prosa poética, um olhar de criança que, como o sol, pode se admirar no espelho que ele mesmo espalha na imensidão do mar.

Sim, a descrição do amanhecer não é um objeto novo na estante de meus livros. Nem a apreciação das nuvens que rolam acima, transformando-se. Mas existe, no entanto, uma necessidade de aprender a observar a natureza de uma maneira descompromissada, sem o agito do cotidiano. E talvez a lição comece durante a infância, ou no amanhecer de um dia.


Cyro de Mattos passeia do horizonte à mata, à chuva da tarde, às figuras da noite. Formas e formigas enfileiram-se em seu texto que soa, enfim, como uma oração que exalta a vida, incansável, de flores e insetos, cores e aves, água e pedras em uma correnteza de imagens. Olhar as belezas do mundo faz lembrar outros textos, como O MENINO MAIS BONITO DO MUNDO, de Ziraldo (1983). Porém aqui a narrativa mítica cede lugar às cenas engraçadas, quando o olhar contemplativo de menino assume a proposição de imagens imaginadas e lembranças: um jogador anão no meio do campo fazendo um gol no goleiro grandão, uma velhinha (que não assobia) mas chupa cana com um dente só, palhaços, presepadas, uma macaca (que não é caixeira de uma venda) mas faz toda a família dormir...


Desde a capa do livro, já se anunciava a posição de expectador de um grande cinema. O que há de diferente é a sugestão da criança narrar e também editar seu próprio filme, após a aprendizagem das coisas simples, leves e engraçadas. Tudo isso explica as ilustrações de Ignerska, as figuras de muitos braços e olhos que povoam as páginas do livro, sempre em movimento. Apenas o projeto gráfico poderia ser mais suave, claro e aberto à intervenção dos leitores. Os mais novos, não eu. Sempre em movimento.

* * *


P.S. Também Manuel Filho possui um livro com título bastante parecido:  
O que vi por aí: andanças e descobertas de um escritor pelo Brasil, il. Marcello Araujo (Arvoredo, 2013) para jovens leitores, que eu vi por aí, dia 1º de julho. Foto: Patrícia Machado/Facebook.

21 de setembro de 2014

Bartolomeu e a árvore

Peter O'Sagae


O que caracteriza um texto de Bartolomeu Campos de Queirós?

Em A ÁRVORE, livro com ilustrações de Mario Cafiero (Paulinas, 2010), é uma aptidão lírica para tornar presente um objeto, primeiramente por uma relação de pertencimento e uma qualidade sensível: “Eu tenho uma árvore. Minha árvore é verde e...”, acomodando, em nossa retina, uma visão rememorativa em estrutura, forma e cor. A imagem da árvore ali está: em meio às palavras.

Soma o poeta rapidamente uma metonímia, lembrando que uma árvore “suporta um mar de folhas”. Então, adensa a descrição com adjetivos e uma humanidade que só poderiam vir do próprio observador: “Minha árvore tem uma copa redonda e crespa copiando o mundo.” E, frente às demais coisas, sua árvore torna-se uma paisagem singular... “A brisa sopra nas folhas e faz ondas na superfície. O barulho das folhas parece água correndo entre cascalho.” E, da tangibilidade de vários elementos, desse roçar palpável e sonoro, Bartolomeu abre o convite e a ordenança. Claramente diz: “Para escutar, é necessário afinar as conchas dos ouvidos. Só as conchas gravam o barulho do mar.

Em um repente, a imagem salta da palavra e parece já distante, diluindo-se... Contudo, sabendo o efeito que provocou, o escritor puxa leitor para mais perto de sua realidade: “A sombra de minha árvore se estica pela sala da minha casa. A sala fica na penumbra. Na penumbra eu penso com mais preguiça.


A árvore de Bartolomeu torna-se, como dizem os filósofos, inteligível. Criança ou adulto pode compreender sua existência e amá-la. Deixado o primeiro parágrafo para trás, as relações da árvore com outros seres viventes fatiam o tempo, congelam-no em quadros: a árvore é casa para passarinhos, sala de esperar borboletas, esconderijo de cigarras, grilos, lagartas com vocação para rendeiras, formigas interessadas em açucares – e, mesmo tendo debruçado o homem sobre a janela, a alma do poeta voa dentro da árvore que lhe pertence. É assim que ele dela extrai a seiva e a substância ideal, buscando palavras para transmitir esse conhecimento.


Mas não é um conhecimento tecido em conceitos científicos. É uma experiência para ampliar os sentidos – da visão, da escuta e do tato, andando por lembranças de sabores, cheiros e temperaturas diversas – a fim de ampliar os significados que a mente, alerta, sonolenta, acolhe para decifrar. Quando se apercebe de si, o leitor pode ter todas as árvores em um só texto, com seus botões e flores, mistérios e perfumes, e novas relações, descobertas, desenhos que se multiplicam por um caprichoso exercício com a linguagem verbal. Já a árvore não é uma, porém milhares. Ou um milagre.

O universo tão imenso parece pequeno e verde, cheio de esperanças entre a folhagem que cresce e estampa o céu.


26 de abril de 2012

anunciam as sereias

peter o’sagae*


Há um canto de sereia entre as montanhas: em águas de sonho, querer o amado que vai distante... Era assim o mar dentro dos pensamentos de uma menina que não conhecia o mar. Ela adorava colecionar cartões postais de seu litorâneo amor, guardar as paisagens em caixas e gavetas. Mais que tudo, cheiro gosto barulho beleza cor do mar, a menina queria conhecer os cocos nos coqueiros.

Como podia uma árvore plantada na areia? E tão comprida e tão fina, segurando frutos grandes e esféricos? Por que o coco variava de cores, ora esverdeadas, ora amareladas, oras escuras?

Um dia, oh: a surpresa: um passeio a uma lagoa de água doce. Não era exatamente o mar, mas havia lá praia com areia e coco. O coco, um grande e bem verde, é a lembrança que decide trazer para casa — viajou com ele, o caminho inteiro, no colo. Depois, o coco foi tudo para ela: mesa de apoio, almofada, globo terrestre, pião, bola de futebol... no entanto, um coco assim não é para sempre e, um dia...


COM A MARÉ E O SONHO, de Ninfa Parreiras com ilustrações de André Neves (RHJ, 2006), é um conto de suavidades, com mineirações tão próprias dos escritores que nasceram entre montanhas. Bartolomeu Campos Queirós, como nenhum outro, já havia confessado as amarrações de ser menino e conter uma ideia sobre a imensidão: « Eu crescia marinheiro em terra seca onde antes estava o mar, carregando o amor entre pálpebras — conchas guardando sonhos. » (AH! MAR..., 1985). Agora ele vem e escreve um bem na quarta capa, em um diálogo de navegar: « Ninfa Parreiras nos convida a buscar, pelo silêncio, o sal que mora em nós temperando nossas cheias e vazantes. Mas, para tanto, há que ter coragem para explorar os mistérios. »

Às bordas do texto e do sonho, André Neves cria uma atmosfera visual coerente às sugestões da narrativa — muito mais que "desenhar" ao pé da letra. Assim, a relação palavra&imagem não é feita de simples complementariedade, reconhecimento por identificação ou reforço de sentido: reinam no livro homologias de figuras linguísticas e plásticas. Do coco-barco nas ondas em cor de rosa, detalhes bem bolados, bem colados que não foram previstos no plano verbal, mostram-se ludicamente para o leitor: um guarda-chuva com peixinhos listrados pendurados a barbante, estrelas-do-mar espalhadas pelo chão — e, numa visão surrealista — gavetas cheias de guardados que se abrem a partir da parede e, dentro delas, coqueiros belamente plantados.

* Extraído de Dobras da Leitura 37: setembro de 2006.

29 de março de 2012

se a bondade cultivar

peter o ;-)sagae


Muitos autores de literatura infantil ainda buscam definir seus personagens pela ação direta e inúmeros diálogos, ao recriarem o que acreditam ser o modo e o mundo da criança. Nada disso, porém, é necessário a Biagio D’Angelo que dá vida calma a um menino que já não podia jogar futebol, polícia e ladrão, nem pular carnaval... Com paz e canções de berço, ele mesmo parece viver somente lá, entre as palavras, onde o leitor é obrigado a adivinhar desenhos e música, espera de fazer adulto, escola, terremotos, serenidade...

Narrado em primeira pessoa, o escritor e seu personagem (con)fundem-se poeticamente. Afinal, quem é o autor dessas memórias ou invenções? É Benjamin, ou um menino que não se chama Benjamin e, um dia, descobriu “as chuvas que estavam atrás de poucas letras” de seu nome? Biagio, Bóris, Bernardo, Baltazar, Bento... Quem é este menino de estranhas estações, quando o vento traz aulas, já entrando abril e professoras: umas velhas são quase sempre, têm olhos de alguém que nunca dormiu, nem sonhou: trocam o nome dos meninos e jamais se importam... outras, o menino ainda não conheceu.

No ritmo das palavras que tocam as coisas, as pessoas, as distâncias, o mundo do menino é todo feito de colecionar sentimentos, pressentimentos. Um dia, uma catástrofe longe trouxe para perto Rosália, um presente de gente, a sobrinha de um pintor famoso, só podia ser, ela também sabia desenhar e sabia explicar como fazer. E o que o menino gostava era fazer barcos por onde mares e histórias Rosália inventava. E como os desenhos, a vida revela coisas novas e inesperadas, separações, certas revelações. Quando é mesmo que uma imagem esconde um som?


BENJAMIN, POEMA COM DESENHOS E MÚSICAS, de Biagio D’Angelo, é uma narrativa ilustrada por Thais Beltrame (Melhoramentos, 2011). Delicados traços, brancos amplos para respirar, bico de pena fazendo poesia sobre o que há de mais invisível e seus devaneios: peixinhos pelas páginas, pequenos, em passeio, passarinhando. No ar, no chão. Do conforto do piano, da ponte que extrema as saudades, do alçapão que se abre não se sabe para onde... E, constante, o vermelho dentro do contorno preciso. Uma beleza comandada pela confissão do narrador, em toda a sua pertinência palavra&imagem: “O meu irmão, ainda um pouco sem juízo, esparramava, por brincadeira, nos meus desenhos a geleia de morango de que ele (e eu também) tanto gostava. Era um toque escarlate no desenho. Bem, na verdade, eu não gostava, mas era o meu irmão menor, me fazia rir com aquilo, e, portanto, o que fazer?”

18 de agosto de 2011

cores, ventos, radar e bartolomeu

sagae o sagae


Os sentidos cinco que temos não são radares ou fim para dividir as experiências, mas ajudar a reconstituir a essência que somos. Bem querer, colheres e descoberta. Há, nisso, algo de fenomenologia e metafísica. Para todos. Para crianças? Assim seja. Em puro estado de elevação e movimento, as palavras de Bartolomeu acordam o olhar, tecendo fantasias sobre tudo, muito, pouco e aquilo mais, o que permanece escondido atrás das coisas. Ou dentro do silêncio, para escutar os lugares que o pensamento visita, a seu jeito. Além da visão, ou delicada audição: o olfato, o paladar e o tato em roda. Pelo corpo inteiro, todos os sentidos que OS CINCO SENTIDOS têm.


Um livro de Bartolomeu Campos de Queirós publicado há tanto tempo pela editora Miguilim, em 1999, segunda edição pela Companhia Editora Nacional, em 2004, e ainda novo, belamente ilustrado e colorido por Camila Mesquita para a Global, em 2009.


Com sua prosa poética, o escritor mineiro reinventa o nosso modo de estar no mundo: eu-lírico sentindo-se finito e infinito, bem medido e acabado, com os pontos cardeais na ponta das mãos, leste e oeste, o olhar voltado para o norte e todo o sul, passado e sonhos, às costas. Reflexão e leveza, o tempo que passa, primavera, verão, outono, inverno... o coração que dispara e acolhe as sugestões que o relógio do pensamento traz, a bússola da vida. Tão perfumada de sinestesias para nos orientar por dentro, ROSA DOS VENTOS.


Outro livro de Bartolomeu Campos de Queirós, lançado em 2000 pela simpática Miguilim, que também passou pela Companhia Editora Nacional, em 2004, e ganha agora a terceira edição com ilustrações de Camila Mesquita: Global, 2009.

11 de agosto de 2011

amados encontros, espelhos e sonhos

peter o:saga:e


É provável: este foi, há muito tempo, o primeiro Bartolomeu que me chegou às mãos. Azul, capa azul, num livro que dava beleza e musicalidade às montanhas mineiras que tanto lembravam, ao poeta, o mar, o amado nunca visto, mas todo cor e coração vindo só e imenso, no devaneio, para ser adivinhado. AH! MAR... Areia, aspas, um parágrafo amado: “Eu suspeitava o mar me buscando para levar-me marinheiro, quando as águas transbordavam os leitos e dormiam enchentes nos quintais. Vislumbrando, ao longe, fragata sufocada em neblina, oferecia-me farol, cais, ancoradouro.” Pois literatura é. Com sinais de uma devoção inédita, autor súdito da palavra. E eu me descobria leitor, assim embalado: “Sempre vou ser um desejo, se vivo ausente do mar. Não chega a ser marinheiro quem nasce longe de lá. As águas são muito frágeis para quem por sobre terra aprendeu a caminhar.”



AH! MAR..., de Bartolomeu Campos de Queirós, com projeto gráfico de Walter Ono e Mário Cafiero (Quinteto Editorial, 1985), inventa-se outro, juvenil-infantil, no arremesso de cores com André Neves (RHJ, 2007). Leio, então, que “As águas são muito abertas para quem, por sobre veredas, aprendeu a caminhar.”

10 de agosto de 2011

espelhos sonoros em um nome só

peter o.sagae


No estuário de sons que um nome contém, Bartô promove suas escavações poéticas: coisa, enfeite e canto de inventor mineiro, tirando desse mergulho imagens que nadam de uma ideia a outra. MÁRIO, nome de poeta e menino, é feito de mar e rio, habitado, todo e mágico, por peixes... Do doce som da cachoeira ao choro dá água salgada, o rio encontra o mar. E no caminho? Céu, plantas, nuvens e aves. MÁRIO é também ar... E, tomando cada palavra que emana incessante do próprio curso-discurso, Bartolomeu faz chover literariamente em nossa imaginação o silêncio que o olhar mais raso não viu: debaixo da casca das palavras, um mundo por descobrir. Onde Mário morava? Numa casa coberta de hera? O que ouvia o coração do menino? Barco sem leme é ninho? Ou concha onde repousa um ovo branco como pérola? Com que pena se registra a poesia?


Eu não respondo, mas indico este livro que irradia rumo a outros textos de Bartolmeu Campos de Queirós. MÁRIO foi publicado, pela primeira vez, com ilustrações de Sara Ávila de Oliveira (Miguilim, 1982) e, em sua terceira casa editorial, ganha aquarelas de Lélis (Global, 2009). “Mário agora é farol em alto-mar.”

9 de agosto de 2011

à leitura, espelhos no curso do rio

peter o’sagae


Um rio é um livro que corre sorrindo. Cada paisagem, uma página, um reflexo diferente, açúcares de vidro macio. Ler Bartolomeu é buscar a sua respiração num percurso de parágrafos, como que realizando estrofes por onde desliza sua prosa poética. “E o rio passa logo, amarrando com seu comprido leito os campos, povoados, vilas, cidades, nas margens do rio todos se batizam irmãos. Ao receber outros córregos e riachos, mais se soma com outras águas. Com a energia das correntezas, o rio se faz luz clareando ruas, travessas, casas, movendo o mundo.” O que aí temos é um discurso literário passeando em delicada metalinguagem? Um rio que passa e não permite mais repetir o mesmo banho, o batizado mesmo. E, no seu espelho líquido estendendo-se rumo ao mar, sombras, linhas, amarras, aflições, margens provisórias. À leitura do leito, literatura, lavadeiras “desbotando as manchas do trabalho”. Bartô pesca contemplação.


O RIO, texto inédito de Bartolomeu Campos de Queirós, traz desenhos e projeto gráfico de Walter Ono; conta também com o nome de Mario Cafiero na feitura da capa e edição de arte, marcando a estreia da ÔZé Editora, neste agosto de 2011.

27 de julho de 2011

“como se escreve o tamanho do tempo”

peter o.sagae


O tempo e a leitura coincidem em certas marcas, letras, horas, vozes: disso estou quase seguro. Voos que não se repetem, presente que não se embrulha, manhã ou primavera que se guarda na memória, amizades. Assim, a cada visita a um texto de Bartolomeu Campos de Queirós, encontramos algo que não se consegue tocar outra vez, posto sentimento que passa mais depressa que passarinho: os pousos nas pausas serão sempre novos, modificando o que imaginávamos saber, saboreando o que antes não fora pressentido.



TEMPO DE VOO, texto que nos leva para dentro da gaiola vazada do tempo, destrava o lugar dos encontros entre o velho e um menino, em um diálogo de descobertas sobre o instante presente e o antes vivido. Duas vozes, suas muitas interrogações, a mesma teima em compreender o tempo que modifica tudo no mundo. “Ele muda a história, desvia águas, come estrelas, mastiga reinos, amadurece frutos, apodrece sementes. Nada fica fora do tempo. Moramos dentro dele, impedidos de abraçá-lo. O tempo foge para não ser amado. Quem ama para e fica. O tempo foge.”

Livro ilustrado pelo espanhol Alfonso Ruano, com a inspiração e a força de imagens surrealistas, publicado primeiramente no México (capa dura), antes de chegar ao leitor brasileiro: TIEMPO DE VUELO (Ediciones SM, 2008), TEMPO DE VOO (Comboio de Corda, 2009).