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1 de fevereiro de 2021

platero y peter


Lá vai uma lembrança, lá vai também um livro emprestado a mim que não devolvi e reencontro tudo pensando em uma palestra, lá vão a passos o Platerinho, uma tradução improvisada e eu, no Capítulo CXXV – A FÁBULA: 

“Desde criança, Platero, tive um horror instintivo ao apólogo, como à igreja, à Guarda Civil, aos toureiros e o acordeão. Os pobres animais, à força de falar tolices pela boca dos fabulistas, me pareciam tão odiosos como no silêncio dos armários fedorentos da aula de história natural. Cada palavra que falavam, digo, que falava um homem áspero, amarelo e cheio de catarro, me parecia um olho de vidro, uma asa falsa de arame, um vaso com flores de plástico. Depois, quando vi nos circos de Huelva e de Sevilha animais amestrados, a fábula, que havia deixado para trás, como os planos e os prêmios, no esquecimento do que era a escola, voltou então como um pesadelo desagradável de minha adolescência. 

“Homem já, Platero, um fabulista, Jean de La Fontaine, de quem você tanto me ouviu contar e repetir, me reconciliou com os animais falantes; e um verso dele às vezes me soava a verdadeira voz da gralha, da pomba ou da cabra. Porém sempre ficava sem ler a moral, esse rabo seco, essa cinza, essa pena caída no final. 

“É claro, Platero, você não é um burro no sentido corriqueiro da palavra, nem segundo a definição do Dicionário da Academia Espanhola. Você é, sim, como eu sei e o compreendo. Você tem sua linguagem e não a minha, como não tenho eu a língua da rosa nem aquela do rouxinol. Portanto, não tema que eu nunca irei, como se pode pensar em meus livros, fazer de você um herói charlatão de uma pequena fábula, misturando sua expressão sonora com a voz de uma raposa ou de um pintassilgo, para depois deduzir, em letras inclinadas, a moral fria e presunçosa do apólogo. Não, Platero...”

28 de junho de 2017

O que há de criança em Machado de Assis?

Uma fábula, uma lengalenga do Bruxo de Cosme Velho.


CÍRCULO VICIOSO
Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela...
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?

(Machado de Assis, 1878) 

Soneto publicado na Revista Brasileira, junho de 1879,
e no livro OCIDENTAIS, lançado em 1880.


[aqui] uma bonita página com retratos e caricaturas
[aqui] grafia e aspectos notacionais estabelecidos
[aqui] reprodução do manuscrito, acervo APESP

21 de julho de 2016

Próximo!

Julho Amarelo 4 Peter O.ô Sagae


Nem todos os livros para crianças precisam ser fofos* ou demasiadamente instrutivos... BOM DIA, DOUTOR, da dupla Michaël Escoffier e Matthieu Maudet (2010), é um livro encenado com recursos de HQ. Na sala de espera, os pacientes, um a um, vão... sumindo! Um coelho com dor de ouvidos, um jacaré com dor de dente? Todos os seis personagens esperam o médico abrir a porta e chamar. Próximo! Mas algo saborosamente sórdido acontece... #edicoessm (2015) #michaelescoffier #matthieumaudet #literaturainfantil #humor trad. graziela r. s. costa pinto


A narrativa é uma anedota para leitores de 18 meses a três anos que, mesmo informalmente, poderão realizar diversas atividades de epilinguagem. Obedecendo a lógica e a estrutura fácil da narração oral, aqui se vê um balão de fala, logo adiante uma onomatopeia. PAF! Visual e verbal articulam situações comunicativas padrões, como o chamado na sala de espera, a queixa de cada paciente, o diagnóstico e a prescrição do médico. Porém tudo com humor que agrada também leitores mais experientes.




O jogo é ampliado pelo ritmo da ilustração. Afinal, pedir às crianças que digam e descrevam os seis personagens, criem hipóteses por quê motivos foram eles ao consultório e... qual o acontecimento estranho e misterioso que faz o número de pacientes diminuir mais rapidamente que os atendimentos? Quem será (se você já adivinhou) a próxima vítima?


P.S. Por que o elefante foi ao médico? Não, esse não é o motivo central da trama, nem da piada. Para completar uma resenha deveria eu contar que um desses personagens está... CHOMP-chomp-CHOMP, deixa pra lá!

15 de abril de 2016

dentro de um dicionário

Peter On Instragram


Nunca fui grande admirador de fábulas, só algumas (as ainda possíveis de ler uma segunda vez...) Aqui vai um apólogo que acontece dentro de um dicionário. As palavras não aguentavam mais ser mal usadas, e a Verdade e a Mentira se unem para desfazer os mal-entendidos e os malefícios entre as pessoas, e vão bulir com o jogo de figuras sem escrúpulos que alteram o sentido da realidade em uma frase, um slogan, uma manchete, uma moral falaciosa, um pensamento turvo para enganar as pessoas de boa-fé. A REVOLTA DAS PALAVRAS, de José Paulo Paes com desenhos de Angela Lago #companhiadasletrinhas (1999) #literaturainfantil #josepaulopaes #angelalago


Prêmio Jabuti 2000 de Melhor Livro Infanto-Juvenil

11 de abril de 2016

olhar o próximo... como a si mesmo

Peter O.o Sagae



Desde tempos imemoriais, o cão teve motivos para correr atrás do gato – mas vivem juntos e fazem de conta que são amigos, nesta história que inventou António Torrado, morando no casebre de uma pobre velha, tudo tudo por um naco de comida e um lugar onde dormir. Um dia, a velhota morreu... e os dois incorrigíveis viram-se ao mundo, com fome e com frio, até encontrarem o Gênio das Cavernas que coloca um sob a pele do outro! O CÃO E O GATO, com ilustrações de André Letria, é uma fábula de transformações que faz cada um olhar o próximo como a si mesmo. #editorapeiropolis (2011) #literaturainfantil #antoniotorrado #andreletria



4 de março de 2016

imenso silêncio, canto e desejo

Peter O.o SagAe



Com acento de poesia, Leo Cunha conta com leveza o que é desencanto na vida de um sabiá: não saber voar, assobiando ressabiado consigo mesmo o apetite de caber no ar e “passar por cima das casas, das ruas, das gentes, do medo”. Mas há também na história uma girafa, com imenso silêncio e a vontade de cantar... O SABIÁ E A GIRAFA, il. Graça Lima (1993), é uma fábula moderna a respeito dos encontros (que podem parecer) fortuitos e o fortalecimento mútuo. Para leitores de qualquer altura. E sonhos em várias dimensões #editoraftd (2012) #literaturainfantil #leocunha #graçalima




3 de março de 2016

procurando um lugar para morar

Peter O.o SagAe



É irresistível que uma lesma responda pelo nome de Babas e ela mesmo, procurando um lugar para morar, escorregue até a Floresta Amazônica, Madagascar, ao Mar Cantábrico, ao Rio Elba... e nada! Pois Babas encontra a solução em uma cidade cinza e inóspita – ou melhor, entre as engrenagens sorridentes e espirais no laboratório de um inventor que lhe fazem um lar móvel, colorido e leve sempre às costas. Com texto bastante simples de Marta Ortells e desenhos de Martina Schreiner, UMA CASA PARA BABAS #8inverso (2012) #literaturainfantil


Outras casas, outros casos... e caracóis!
[+] bem do seu tamanho 
[+] sempre em casa 

17 de dezembro de 2015

Medo do Lobo? Não seja bobo...

Peter On Instagram


Notícias sempre chegam de outras paragens e de outros contos. A prima de mamãe tinha 7 filhos e só por muita sorte escaparam do Lobo. Mesmo morando na vila, Mamãe Cabra anda assustada, tudo pode acontecer a Lilo, Laila e Lulu... Uma história sobre antigos juízos e mudanças de hábito, com o chapéu e a echarpe vermelha de Aristide Bruant. MAMÃE TEM MEDO, de Beatrice Masini, il. Alireza Goldouzian, trad. Márcia Leite #editorapulodogato (2015)

 

Acorda o Lobo e lá vai ele, pé na estrada. Encontra um ratinho. "O senhor quer me comer?! Eu?! Mas eu sou magrinho!" - e com uma conversa fiada vão escapando também o porco-espinho, o sapo, o jabuti e hmmm, o touro! No final do caminho e ainda mais faminto, ele encontra a casa da vovó e o portão aberto... A FOME DO LOBO se sacia com bondade. Texto de Cláudia Maria de Vasconcelos, il. Odilon Moraes #editorailuminuras (2015) #literaturainfantil

 

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com o Lobo, mas correram com ele para o hospital onde foi atendido por uma ovelha branquinha e gentil que se derramou sobre o paciente em demasiadas atenções. O que era pura artimanha de lobo fingindo-se bonzinho, tomando remédio e até infecção sem reclamar, logo se transformou em uma insuspeitada paixão. O MAL DO LOBO MAU, de Cláudio Fragata, il. Luiz Maia #editorapositivo (2009) #literaturainfantil

26 de novembro de 2015

Tarde com pássaros.

Peter On Instagram


A coruja sabia como juntar tintas para tingir tecidos e... por que não as próprias penas? AS CORES DOS PÁSSAROS, de Lúcia Hiratsuka (2015) Verde, turquesa, rosa e celeste vão surgindo em meio às delicadas e precisas pinceladas de sumiê, colorindo as penas do pavão, o bico do melro, até o corvo caprichoso... #editorarovelle #literaturainfantil #fabula


Tarde com pássaros. Todos aprenderam rapidamente a pescar, subir na árvore, cantar e voar. Ele não... ISSO EU POSSO FAZER, de Satoe Tone (2015) O trabalho da ilustradora japonesa é todo um algodão-doce. Sua fábula revela como alguns nascem para criar raízes, compartilhando alegria e beleza. #edicoessm #literaturainfantil #fabula #satoetone trad. Adilson Miguel


Tarde com pássaros. Os corvos precisam de asas bem grandes para voar, porém esta não é... A SORTE DE PIPO. "Já que todo mundo me chama de pinguim, só me resta tornar-me um", pensa o corvinho. Uma história que nos lembra como mergulhar na vida é tão belo e necessário quanto voar. Texto e ilustrações de Matze Doebelle (2013) #editorapeiropolis #literaturainfantil #fabula trad. Hedi Gnädinger

25 de junho de 2015

imagens com reticências

Quando o carteiro chegou... leituras risonhas 3


Todos os contos são geralmente o mesmo conto e possuem todos as mesmas imagens sábias, quase os mesmos sabores conforme foram amadurecidos pelo tempo e as terras das várias culturas, permanecendo, na casca de seus frutos, as cores e texturas locais. Esta é uma tese bastante compreensiva de quem colheu e comparou narrativas através dos continentes, desde os primeiros folcloristas, antropólogos, viajantes e estudiosos de gabinete do século XIX, e após...

Por isso, são as imagens da palavra o que me interessa na leitura de um recente reconto de Celso Sisto, BATU, O FILHO DO REI, com ilustrações de Simone Matias (DCL, 2015), a partir de uma narrativa tradicional da Etiópia, um país no chifre da África apontando o leste...

Zemene é um jovem e corajoso caçador, mas poderia ser cavaleiro, um mercador, um nobre perdido em viagens pelos contos europeus ou árabes. O nome Zemene significa ‘Príncipe’ e é como aqueles que realmente andam à frente, desde o princípio. Ele entra em uma caverna escura e lá encontra Batu, o menino, que é como um gênio, um elfo, um exu, a sorte, a parca, a fada, um animal, a alma penada de um amigo ou parente morto, que irá mudar o destino do herói se – e somente se – puder salvar o pequeno indefeso da enorme serpente de sete cabeças e levá-lo à terra distante de seus pais, onde Zemene poderá requerer um gorro vermelho que torna qualquer pessoa invisível – como Saci e Perseu – e uma lâmpada de lata, aparentemente de tão pouca valia que, no entanto, realiza todos os desejos de riqueza material em ouro e prata...

Tais imagens abrem o diálogo com diferentes saberes. E é bonito aprender a brincar por esses caminhos a fim de não perdermos nossa humanidade. Um conto são todos os outros contos, iluminando-nos a própria ignorância rumo à realização de um importante feito em nós mesmos – a resignação, a esperança e a obediência, tomar o auxílio ao próximo como uma aventura, ventura ou missão...

Das imagens tecidas pelo conto, vale abrir uma mini-galeria para a ilustração de Simone Matias. Algo que inúmeros contos tradicionais ensinam é jamais desprezar o conselho dos amigos insuspeitados...



Talvez BATU, O FILHO DO REI fosse o aguardado livro de Celso Sisto para mostrar outros títulos que há bom tempo Dobras da Leitura recebeu. Como assegura o velho provérbio – a tempestade de areia passa, as estrelas permanecem –, será testemunho da perenidade das histórias tradicionais de todos os povos o generoso volume MÃE ÁFRICA: MITOS, LENDAS, FÁBULAS E CONTOS (Paulus, 2007) com ilustrações do próprio autor. A reunião de trinta e uma narrativas seguiu principalmente o critério da beleza – da magia, da identidade, da poesia dos nomes diferentes com significados encantatórios e musicais...



Outros dois livros conduzem o leitor à África Ocidental e, mais especificamente, ao Senegal. O CASAMENTO DA PRINCESA, também ilustrado por Simone Matias (Prumo, 2009), tem cores suaves de rosa, vermelho, roxo terra, cor de laranja e o contraste do branco pelas páginas para contar visualmente a história da formosa Abena, com quem a Chuva e o Fogo desejam se casar. O primeiro pretendente chegou com seu olhar molhado e palavras delicadas como água no bico de pássaros. Porém, o Fogo ao pai da moça deu provas de seu poder... O caminho do amor às vezes são cinzas deixadas pra trás, mas mesmo o fogo do Fogo extingue-se com a Temperança...

Por sua vez, RAIO DE SOL, RAIO DE LUA, com imagens de Maurício Negro (Prumo, 2011), relata acontecimentos de um tempo em que o Sol e a Lua eram crianças, vivendo com suas famílias na Terra. É verdadeiramente um conto etiológico que explica por que, desrespeitando a ética e o tabu de não espiar a própria mãe nua durante o banho, o Sol e a Lua foram separados de suas andanças e brincadeiras...


26 de novembro de 2014

olhe o céu encarneirado

Peter O'Sagae, hoje


No cenário dos livros para crianças, quando muito se pensa e discute a respeito de ilustração, textos ilustrados e narrativas visuais (conceitos que se esbarram um tanto, sem contornos), acabamos nos esquecendo de que a imagem não é algo externo aos variados processos criativos e que ela – A IMAGEM – é um elemento constituinte da linguagem literária, independente do código e das relações entre os signos sonoros, visuais e verbais. Repenso e brevemente apresento a questão pois existe um sem-número de autores que reclama a originalidade de suas obras, acreditando estarem eles desobrigados da intertextualidade.

Ora, a Natureza recortada pela linguagem popular costuma oferecer ótimas imagens literárias para a criação de poesia, narrativas e ilustração. Acaso hoje, limpando as estantes, encontrei ovelhas e carneiros nos lençóis de nuvens brancas e cinzentas, criando massas redondas como flocos de algodão, com suas próprias sombras para o olhar mais imaginoso, ainda que esses rebanhos de água sejam cientificamente chamados altos-cúmulos. Então, trouxe para a mesa três livros que se nutrem da mesma imagem, porém motivando narrativas bem diferentes quanto à mensagem que reside ao fundo. O exemplo é didático.


Ana Maria Machado começa a história de BETO, O CARNEIRO (1977) exatamente com um sentimento de insatisfação, o desejo de liberdade do personagem. Cansado de uma vida de carneirices, Bebeto foge do cercado e sobe uma montanha calma e, apenas com um pensamento, resolve virar nuvem. E vira. No entanto, ele se apercebe que as nuvens respondem à vontade dos ventos, como qualquer rebanho às ordens do pastor. Bebeto, então, vira espuma das ondas do mar, na terceira vez em que o tema é apresentado aos leitores.

Originalmente lançado com o título CARNEIRINHO, CARNEIRÃO, o texto pertence a uma categoria de histórias mais conformadoras, fazendo com que Bebeto abandone suas fantasias, compreendendo quanto a liberdade está em aceitar e obedecer sua própria natureza. O encontro com a ovelha Memélia torna ambíguo o final do percurso narrativo, com a introdução de outros temas e valores que não ousam ir além de limites previamente estabelecidos, ao mesmo tempo que marca o não-lugar de todo artista, nem livre, nem preso às convenções, em seu destino itinerante.


A prosa de Ana Maria Machado já contou com ilustrações de Alberto Llinares (1977), Fernando Nunes (1993), como vemos nas fotografias, e mais recentemente Jean-Claude R. Alphen (Salamandra, 2010).


Comparando textos, Sylvia Orthof com sua MARIA-VAI-COM-AS-OUTRAS (Ática, 1982) busca demonstrar os perigos de seguir o rebanho de olhos fechados, sem qualquer lampejo de consciência. Liberdade é pensamento. No livro de imagem BRANCA, criado por Rosinha (Paulinas, 2004), a imagem literária, condensada na ilustração de uma ovelha que deseja ser nuvem, conduz o leitor a um importante enigma. No dizer de Angela Lago: “A história da ovelha Branca não nos ajuda a dormir, mas a acordar. Um belo livro que nos deixa, crianças e adultos, um pouco mais altos: sabedores que a vida – e a morte – é tudo sonho.”


A partir da mesma imagem, diferentes textos revelam camadas do discurso eufórico, crítico ou emancipatório, marcando a posição dos autores frente às crianças. Leia outros comentários sobre os livros de Sylvia Orthof e Rosinha, abaixo, na sequência.

por onde Maria vai

Dobras da Leitura 49, outubro de 2007


O que é necessário para alguém dar uma ‘requebrada’ na vida e modificar todo o seu caminho? Dos textos mais bem comportados de Sylvia Orthof, esta história é uma das primeiras delícias que conheci: MARIA-VAI-COM-AS-OUTRAS, com desenhos da própria autora (Ática, 1982), uma fábula risonha, cheia de rimas e arejada com a precisão da lengalenga, com um bordão marcando um ritmo e o final de cada cena: Maria ia sempre com as outras.

E ela ia mesmo: pra baixo, pra cima. Ia pro deserto, pro polo sul. Enquanto o rebanho seguia com um sorriso de aceitação e as pestanas fechadas, Maria surge na ilustração de olhos abertos, insatisfeita, constrangida, mesmo assim Maria ia sempre com as outras... No meio da alvura azulada de suas irmãs, Maria era bem parecida com a maioria. Porém, sofria, como sofria. Pegava gripe e insolação.


Até que foram todas comer jiló (e Maria detestava jiló), mas como as outras ovelhas comiam, Maria comia também. Ora, é neste instante que o narrador se manifesta com uma simples e enfática exclamação: “Que horror!” E Maria pensa pela primeira vez. Pensa em si. Bastou? Que nada, Maria continuou seguindo o rebanho... E vão as ovelhas parar no alto do morro do Corcovado e, fofinhas e faceiras, vão saltando pra lagoa abaixo, muito abaixo. Conseguiram? Que nada! E Maria?


Sylvia Orthof dá um desfecho simples à história com seu recado inteligente, leve, gracejando com os leitores, com as ovelhas e com o narrador. Agora, méée, leia você este livro e descubra como caminhar por onde manda o seu pé!


* * *



no rebanho do céu

Dobras da Leitura 55, maio de 2008


Na ponta da pedra, a ovelha — e assim começamos a ler BRANCA, o livro de imagem de Rosinha (Paulinas, 2004). O lugar deve ser alto, muito alto, tamanha a concentração da personagem: os olhinhos quase envesgando para baixo. Será que ela pretende pular? Por quê?

Os leitores devem estar lembrados daquela outra ovelha que se chamava Maria e se meteu numa enrascada, no tempo em que não seguia o que queria o seu pé... Porém aqui os caminhos são outros, logo veremos.


A interna da capa e a primeira página são ambas magenta. De um lado, nuvens; do outro, Branca aconchegada em cima da dedicatória do livro. As volutas de nuvem e o emaranhado de lã alinhavam a comparação — ovelhas se parecem com nuvens na terra, nuvens são ovelhas no rebanho do céu. Cabe ao leitor predizer a história, o desejo de Branca voar!

 Pois bem: virando a página, vemos pássaros que atravessam a folha de rosto — e continuam voando, vão passando por Branca sozinha no chão... Descobrimos, nesta pequena fábula visual, como a consecutividade vai sendo construída por aparentes saltos no fio da narrativa e no modo como ler as páginas.


Quase sempre, a paisagem é uma só. O tempo é um ou dois, três, vários, encapsulados pela imagem apresentada em página dupla. Rosinha brinca com a ilusão de movimento pela repetição da figura da personagem: em suas tentativas de voar, muita vezes, podemos ver Branca lançando-se para o alto à esquerda das páginas abertas e... bem à direita, a ovelha estatelada no chão! Assim, o trajeto do olhar deve coincidir, recuperar e completar o rastro invisível que Branca desenhou pelo ar. Três efeitos do tempo – ritmo, velocidade e duração – dependem do jogo entre o desenho e apreensão sensorial da criança.


Rosinha passa a preencher a paisagem com muitas figuras de Branca, representando as emoções da ovelha e tirando proveito, ora do humor, ora da desolação de cada cena. E veremos a danada tentando de tudo para voar, voando por um instante... contudo, nem é preciso completar as imagens ou dizer que ela, muitas vezes, vai voltar ao chão.

Branca é uma história de persistência —
e existe uma poesia sugerida no ar...
O leitor há de encontrar novamente a cena da capa. A ovelha, na ponta da pedra. O que acontecerá depois, seria magia, sonho ou realidade?