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21 de fevereiro de 2025

eu me sinto é que nem criança

dobrasdaleitura copiando Haroldo Bruno:
O dia emendava com a noite: era a hora do poente que se anunciava. Como quem não nada, o sol se despedia em clarão vermelhaço, a brisa amaciando o capim, o voo hesitante dos pássaros e os primeiros morcegos a se debaterem contra as copas. Um galo cantou — cocoricó! — julgando por certo fosse de madrugada. Aí Zé Grande sentiu um aperto danado no coração. Nada que pudesse definir, uma sensação de que boiava, como o próprio tempo que sobre as coisas se estendia.

Mas de repente, silêncio imenso baixou nas suas pálpebras. As árvores pareceram se iluminar por dentro, até as pedras ficarem transparentes. As poças d’água viraram espelhos, tudo que era sujo e feio ganhou estranha boniteza.

— Está sonhando, Zé? — escutou uma voz tão longe que podia vir de seu espírito ou dos confins do mundo.

Sonhando? — repetiu para si mesmo, num eco. E beliscou o rosto, os braços. Não é possível. Talvez esteja sonhando que sonho, e por esse descaminho de fantasia me perco. Uma sombra, um sonâmbulo entre coisas tão exatas. Finjo que sonho, melhor dizendo, para não me espantar com o que vejo. Deixo que sobre os meus cabelos, vinda das ramagens ou das estrelas, caia essa poeira luminosa, e meus ouvidos se encham de um silêncio que agora é a mais perfeita das músicas. Um simples olhar, a posição do corpo, um jeito que se dá nas lembranças e nas ideias — e despertamos para o encantamento. É a minha iniciação no mistério, no sonho acordado. Ou será que é fome?

Nisso, no justo momento, a Voz novamente:

— Não é fome nem nada, Zé. É a poesia. Ela só vem quando nos sentimos assim, como se nus estivéssemos diante das coisas, desligados das aparências do mundo. Mas sem esquecer o mundo, a gente que mora nele. Criando outros mundos. Leves. O coração sem ódio.
— Mas eu me sinto é que nem criança, imaginando os impossíveis — respondeu Zé Grande.
— Isso mesmo. A poesia é um dom das crianças. Mas não há nada de impossível em tudo isto.
— Então é real cair chuva de luz nos cabelos da gente?
— Sim, Zé.
— E ver moças dançando? bailarinas vestidas de folhas e com lanternas na mão?
— Sim, Zé.
— E ouvir música sem saber donde vem?
— Sim, sim, Zé. Tudo é verdadeiro no reino em que você está. E lhe pergunto agora: sabe quem são estas moças?
— Não sei, mas me lembram alguém.
— Pois são Flor-do-Sereno.
— Como? Flor-do-Sereno é somente uma e mais ninguém.
— Ora, Zé. A poesia multiplica tudo. Na dança do sonho, Flor-do-Sereno é muitas e ela só.
— Não enxergo o rosto dela, os olhos, a cor da pele, o sorriso que me doma.
— Mania de que tudo seja certinho... Só porque as coisas às vezes não se apresentam inteiras, acabadas, não quer dizer que elas não existem. Vê aquele homem ali, trepado no galho maior?
— É meu pai. E aquilo que ele toca é o pífano perdido.
— Sem tirar nem botar.
Logo a Voz foi morrendo nas quebradas, se confundindo com os cochichos das plantas sonolentas. Tudo regressou à condição desencantada de antes, e a noite já era completamente. Zé Grande gritou com angústia, tentando agarrar a Voz que fugia:

— Não vou encontrar o pífano de meu pai? Não terei mais Flor-do-Sereno?

* * *

Haroldo Bruno
O MISTERIOSO RAPTO DE FLOR-DO-SERENO
Capa: Joaquim Caetano Neto
(Salamandra, 1979) pp. 20-22.

26 de janeiro de 2025

um conto policial e surrealista

dobrasdaleitura | Você acredita nos anjos? Pois saiba que eles acumularam tesouros no Castelo dos Pirineus, aquele, incrustado numa imensa rocha de granito que flutua sobre as águas do mar, lembra? Nem mesmo os anjos dessa história escapariam de ser assaltados pelo distraído e ‘burranguela’ gigante Papa-Figo; porém não podem recorrer à polícia, porque viveram anos sem pagar impostos e correm o risco de serem imediatamente presos! Qualquer pessoa poderia ajudar a resolver o caso, mas escolheram chamar o Fernando... Sacaram?

Na companhia de Nan, hoje vou outra vez — Em busca do tesouro de Magritte, um conto policial e surrealista de Ricardo da Cunha Lima (FTD, 1988) com enquadramentos interessantes, algo cúbico e cubista, atravessando, com humor e ironia, as imagens do pintor francês. Entre espelhos que mostram suas próprias costas ou câmeras fotográficas que tiram retratos de você, no futuro, rosas e maçãs que crescem demais da conta, quem, nunca, quis falar pro garçom ou pra mamãe: tem um olho no meu bife!?? Um espia! Grite! Corra!

E eu ultimamente tenho ouvido algo sobre a literatura em campo expandido e cá penso: há mesmo literatura com horizonte reduzido? Creio que não. O livro, com sua trama fragmentária, com um narrador que muitas vezes se põe à nossa frente para tecer comentários sobre o plot que pipoca de pintura em pintura, não deixa de apresentar gracejos gráficos, desde a ideia de um livro dentro do livro. E o tesouro — que é pensar a linguagem — é dispensar a caretice das palavras e reencontrar a lógica do discurso como forma de crítica e reconstrução da realidade.

Mas, enfim, o quê o trungão do Papa-Figo roubou aos anjos? Eles não contaram nada ao Nan... Como encontrar o fruto do furto?

8 de março de 2023

memórias e invenções

dobrasdaleitura #escreverparacrianças | Neste 8 de março, que mulher escolher para apresentar o melhor da literatura infantil brasileira? Fragmentos de obras, capas e ilustrações apresentados durante a aula-aperitivo, estamos contando os dias rumo ao curso Escrever para Crianças: Memórias & Invenções na @salatatui de 5 de abril a 24 de maio, quartas-feiras das 19h às 21h30 #8M @casalygiabojunga



1 de setembro de 2021

as dobras de dentro pra fora

dobradaleitura | não é apenas um livro dentro do livro o que vemos na ilustração de Bernardo Carvalho: este telhado é exatamente O CADERNO VERMELHO DA MENINA KARATECA, nas mãos da protagonista deste romance pluridimensional de Ana Pessoa (2012) — posto que o livro é abrigo de suas diferentes emoções e textualidades, com todo o fetiche permitido sobre o objeto: um códice de folhas vincadas ao meio e costuradas ao longo da aresta: espelho da menina, espelho do leitor para si mesmo — nesta rápida série de quatro pequenas postagens quero rever o lugar da imagem, sua metamorfose pela palavra e o humor que o livro de papel impõe, são as dobras de dentro pra fora – I
dobradaleitura | há na história de Ana Pessoa um gato preto de coleira vermelha que desaparece pela vizinhança: muito antes que se conte onde N o encontrará, Bernardo Carvalho irrompe num salto gráfico dentro do livro: o animal, ainda sem participação definida ou definitiva no enredo, aparece caminhando no interior através das páginas e leva o leitor a uma sequência de imagens que não sabemos se ilustram o que se deseja ter e obter, se fazem avançar o tempo do romance ou apontam uma realidade sem leitura — o gato não é unicamente preto, seu corpo articula-se numa passagem por duas dimensões a que chamamos verso e o outro lado da página — são as dobras de dentro pra fora – II
dobradaleitura | gosto da ideia de que uma imagem nunca mente, uma vez que ela não pode(ria) mostrar o que ela não é, mas apenas o que é — e Bernardo Carvalho retratou aqui um caso óbvio: a verdadeira página de rosto para o romance de Ana Pessoa: página com rosto que deixa atrás, no verso, a orelha e a massa do cabelo, o contorno de um ombro, cuidadosamente tirando proveito do vértice do códice para alinhar o pescoço — e eu, que lancei mão do anagrama imagens/enigmas (2008), muito desejo afagar o ROSTO DA PÁGINA, por onde humor é tudo: o destino do que irei ler na bola da goma de mascar, feito um fotograma de filme de Kieślowski — são as dobras de dentro pra fora – III
enfim, aqui o último comentário à margem de O CADERNO VERMELHO DA MENINA KARATECA, de Ana Pessoa e Bernardo Carvalho (2012) — todo texto que tomamos verbalmente deveria corresponder a uma imagem de si mesmo e não seria à toa que o tema dos gêneros textuais trabalhem muito com o conceito de espelho, de tamanha sorte que a literatura é um fantasma: o fim de qualquer caderno é transformar-se em livro e imagine, pois, que isto tudo não é um mero diário nem novela: com que assombro a narrativa andará adiante e adiante, apresentando uma discussão sobre o significado da morte do autor, por revolta dos personagens — são as dobras de dentro pra fora – IV

 

20 de agosto de 2021

a casa da madrinha

dobrasdaleitura | E minhas viagens com Lygia Bojunga durante este inverno terminam onde começam os caminhos para chegarmos até A CASA DA MADRINHA (1978). O livro agora me fez pensar na velocidade da voz e das imagens numa trama que tem lugar quando duas ou mais histórias aí se encontram. Pois aconteceu de Alexandre partir das praias de Copacabana e Ipanema, onde vendia biscoito e sorvete aos domingos, e depois sábado, e depois a semana quase inteira, deixando pra trás a escola e o barraco da família. O menino caminhou, caminhou muito para chegar à metade do caminho — lá encontrou o Pavão que nasceu num outro país, mas deixou-se capturar por homens que apenas faziam explorar sua beleza e forçaram sua matrícula numa escola onde conseguiram filtrar suas ideias, falas e ações. Depois conheceu João das Mil e Uma Namoradas, partiu num navio e tudo foi uma pena só. Chegou ao Rio de Janeiro, encalhou um tempo no zoológico, em escola de samba, em mansão de gente fina: depois ele tava estrada afora.

Alexandre e Pavão se encontraram naquele meio das viagens que inventam ser uma história nova — e juntos montam um espetáculo saltimbanco. Numa apresentação à sombra de uma mangueira, conhecem Vera que está na plateia à espera de viver uma vida verdadeira. Mas o que é uma aventura senão o emaranhado de narrativas, caminhos por água, terra, sol e lamento que fazem cada um ser o seu próprio herói? A casa da madrinha, descobriremos, fora erguida pelas palavras de Augusto, irmão mais velho de Alexandre, mais a escuta ansiosa do menino, o eco maravilhoso de uma ave cheia de penas, a desconfiança de uma menina à espera de viver... uma vida em outro plano da realidade! Tomemos um fio: os nomes desses personagens: fortes, simples, claros, evocando manchetes e odisseias que fazem da arte de narrar a garantia para continuarem e continuarmos existindo por onde os sonhos se mesclam, numa casa de quatro janelas para diferentes paisagens, com uma porta azul, com uma flor amarela no peito, com uma chave dentro... Da voz e das imagens, a narrativa é uma cavalgadura!

12 de agosto de 2021

a bolsa amarela

dobrasdaleitura | Raquel é a mais importante personagem do século XX na literatura brasileira para crianças e jovens, sem dúvida alguma, tornando-se um nome forte e único. Não é apenas uma menina, mas o espírito da própria infância vagando entre as dimensões do cotidiano e da fantasia, com seus estranhamentos diante de uma ordem pré-estabelecida. Nesta obra, escrita em 1976, Raquel deseja descobrir seu jeito, seu caminho, guardando, desde o início da aventura, três vontades: crescer de uma vez, ter nascido menino e escrever. Contudo, para que ninguém veja ou faça pouco de suas vontades, todas as três ela ajeita em uma bolsa amarela, presente de segunda mão de uma tia rica que costuma passar adiante o que não mais lhe convém. E essa bolsa torna-se um esconderijo especial — com acomodações e bolsos para outros personagens que nasceram em histórias que a menina inventou, como Rei, o galo que foge do próprio galinheiro, decidido a ter uma ideia por que lutar, o Terrível que teve o pensamento desumanamente costurado, e mais o Alfinete e uma guarda-chuva que é toda decisão, afeto e invenções de sua própria vida.

Com o recurso de fábulas e alegorias, Lygia Bojunga encena temas importantes para uma vida mais inclusiva e consciente: o cuidado com a criança e sua afirmação num mundo futuro, o cotidiano em família e a escola, o consumismo e a durabilidade das coisas, o autoritarismo e a liberdade de expressão, as questões de gênero, o lugar do feminino e do feminismo, a troca de papéis ou funções na realidade atual, um tecido em constante movimento e transformação. Neste quesito, o clímax da narrativa terá lugar na Casa dos Consertos, onde moram uma menina, um homem, uma mulher e um velho que compartilham das mesmas tarefas diárias, como estudar, cozinhar e consertar objetos, sem qualquer distinção de quem faz o quê... e tudo tão cheio de livros do teto ao chão e tempo organizado. É enfim uma história de liberdade. | Especial para o Clube de Leitura Quindim @clubequindim

5 de agosto de 2021

qual o começo da história?

dobrasdaleitura | Entre a realidade e o sonho de Maria, estende-se uma corda bamba entre os prédios da orla carioca e, noite após noite, a menina sente a necessidade de ir adiante, não importa a altura, buscando o seu próprio equilíbrio. Às vezes, puxando o fim da madrugada um bando de andorinhas segue as costas de Maria — e quem ouve os relatos da menina até mesmo vê essas aves de verão paradas no ar como se fizessem fila detrás dela! Maria tem um arco de flores coloridas e anda na corda como um passeio seguro no calçadão da praia. Então, ela percebe numa vez um outro prédio alto com janela redonda e um andaime perto: estendendo a curiosidade até lá, Maria reencontra o mar sereno e também tumultuado em que se transformou sua vida, ao atravessar um corredor com variadas portas pintadas em cores diferentes, vozes e imagens de seu passado e memórias perdidas.

Qual o começo da história? É onde começa o livro com Maria, na idade de dez anos, indo morar no apartamento de sua ostensiva avó chamada Maria Cecília Mendonça de Melo? Ou o começo da história é uma infância vivida no circo ou, antes de tudo isso, com Márcia e Marcelo se conhecendo? Haverá um sonho que começa e termina dentro de outro sonho? A história de Maria é certamente um filme, com ecos distantes e movimentos arriscados. Houve uma tragédia na corda bamba ou drama mesmo será conviver com quem não conhecemos as intenções?

Tantas perguntas vão se enganchando de um capítulo a outro nesta novela de uma das mais importantes autoras de literatura brasileira para crianças e jovens; este é o quinto título de Lygia Bojunga que escreve vivamente a narração e os diálogos com o sabor espontâneo da fala e do pensamento de seus personagens. O livro foi lançando em 1979, considerado o Ano Internacional da Criança, e nos aproxima do drama de Maria — uma menina trancada em seu próprio mundo interior, numa condição médica que mais modernamente tem sido conhecida como a Síndrome da Resignação: após um acontecimento terrível em sua vida, a criança apresenta sinais de apatia em diferentes graus de silêncio, imobilidade, desinteresse em alimentar-se e cuidar de si mesma. Contudo, o texto de La Bojunga possui delicadezas, juntamente a outros temas de ordem social e existencial, numa elegância entre a forma, a metonímia e a metáfora. Assim, algumas surpresas escondem-se nas suas frases e outras escolhas. A avó é então lida como uma onça irascível, toda vez que aparece com seus quatro nomes repetidos. E há uma cantilena motivada pelos nomes do casal, Márcia, Marcelo, a invocação sobre a vida da menina deles interrompida: o mar ia... no entanto, a vida de Maria voltará a ter fluxo, sentido, novas portas no vaivém dos espaços futuros | Especial para o Clube de Leitura Quindim @clubequindim

1 de agosto de 2021

um porco que vira porto

dobrasdaleitura | Nas últimas semanas aconteceu uma dose de sincronicidade entre propósitos de leitura em torno dos livros da Casa Lygia Bojunga, assim que se deu o término do curso Escrever para Crianças na @salatatui e fui retomando uma colaboração para o @clubequindim — dois para lá, dois pra cá, retomando quatro dos cinco primeiros títulos da autora. E a gente começa a ter algumas ideias abotoadas com lembranças e sugestões...
Por exemplo, ANGÉLICA (1975) é uma história de animais em diálogo com a tradição das fábulas e com um Brasil que ainda não concluiu as mudanças que tantas e tantas vezes sonhou. Na trama, há um porco que troca uma letra do nome para virar Porto e um elefante velho e sozinho cujo nome é Canarinho, ambos às voltas com a falta danada de emprego e inventando dias melhores pra todo mundo, afinal ninguém merece perder um pedaço de si mesmo (como fez o Jota), nem ninguém (como temos feito, ainda) para poder sobreviver. Do jogo literário, me encanta o encaixe de haver uma peça de teatro chamada ANGÉLICA que os personagens escrevem e encenam dentro do romance que se chama ANGÉLICA, história que abre e esconde outra história, e ocorre parecer estranho não ter lido até hoje uma comparação da obra de Lygia Bojunga com o musical de Sergio Bardotti e Luiz Enríquez Bacalov, OS SALTIMBANCOS que Chico Buarque traduziu em 1977. E, neste um ano e tralalá em que me ocupei a pensar os gêneros narrativos que me nutrem durante o isolamento social, recorto falas da página 86 que não devem ficar caladas:
ANGÉLICA — Mas se a gente sabe que é mentira, como é que a gente vive espalhando essa ideia? Como é que a gente tem até bandeira bordada com cegonha carregando bebê?

LUTERO — Porque é por causa dessa mentira que a gente vive bem, que a gente ganha presente, que todo mundo nos respeita, que...

ANGÉLICA — Mas se a gente sabe que é mentira, a gente não pode passar a mentira pros outros! A gente tem que parar e dizer: é mentira! essa ideia não vale!

LUTERO — Ah, pera lá, Angélica, e como é que a gente fica?

18 de julho de 2020

coração de tinta



☆ JÁ HAVIA ALGUNS ANOS, ele confeccionara um pequeno baú para ela carregar os livros prediletos em todas as viagens, curtas e longas, para lugares distantes e não tão distantes. “É bom ter os próprios livros quando se está num lugar estranho”, Mo dizia. Ele mesmo sempre levava pelo menos uma dúzia.

☆ Mo pintara o baú de vermelho, vermelho como uma papoula, a flor preferida de Meggie, cujas pétalas eram ótimas para prensar entre as páginas de um livro e depois carimbar na pele uma estampa com a forma de uma estrela. Na tampa, Mo escrevera, com lindas letras ornamentais, Baú do tesouro de Meggie; dentro, o forro era de tafetá preto-brilhante. Desse tecido, porém, quase nada se via, pois Meggie possuía muitos livros prediletos. E, a cada nova viagem para um lugar diferente, um novo se juntava aos antigos. “Quando você leva um livro numa viagem”, dissera Mo quando ela pôs o primeiro no baú, “acontece uma coisa estranha: o livro começa a colecionar lembranças. Depois basta abri-lo, e você já está de novo no lugar onde o leu. Tudo volta, já nas primeiras palavras: as imagens, os cheiros, o sorvete que você tomou enquanto lia... Acredite, os livros são como papel pega-moscas. Não existe nada melhor para grudar lembranças do que páginas impressas.” ☆☆


 Do livro de Cornelia Funke, CORAÇÃO DE TINTA (2003) com tradução de Sonali Bertuol @companhiadasletras (2006) @editoraseguinteoficial p. 22 #FiqueBem #FiqueFirme #FiqueEmCasa #AbreAspas2020

2 de janeiro de 2018

inúmeros olhos para ver o mundo

peter O sagae


O sentido de um livro vai além dos fatos que ele vem contar, o sentido de um livro lá está no arrazoado de ideias novas que dá ao leitor para encontrar e colher. Assim é a narrativa de Afonso Cruz a respeito de um pintor que iremos ver, como antecipa o título, debaixo da pia, em algum momento da trama... As hipóteses de leitura a serem talhadas mentalmente talvez me fossem duas: um artista que se esconde dentro de um homem comum, fosse ele um encanador, ou realmente um homem extraordinário, um artista a esconder-se do mundo e doutros homens que lhe acossam o viver.

Claro está que o autor não desejou trabalhar com a dúvida e, na Introdução para O PINTOR DEBAIXO DO LAVA-LOIÇAS (Editorial Caminho, 2011; Peirópolis, 2016), já o leitor é arremessado a um quadro pintado em 1940 por um Josef Sors, cujo olhos intrigantes para a vida abriram-se em 23 de novembro de 1895, filho da engomadeira e do mordomo de um coronel Möller, em uma cidade que ainda não se chamava Bratislava às margens do Danúbio, na Eslováquia. Ora, mais importante que nomes e datas, apontamentos corretos, é a certeza de que “todos os jardins da nossa infância são o jardim do paraíso”. E o quadro que o narrador diz resistir em um pequeno recinto de entrada de uma casa na Figueira da Foz, esse quadro, nós leitores não o vemos nem temos pistas sobre o que nele se deveria ver!


Habilmente escrito no ritmo de capítulos curtos, a obra divide-se em duas partes – O LIVRO DOS OLHOS ACESOS e O LIVRO DOS OLHOS APAGADOS, nomes que fazem referência aos pequenos cadernos de desenho que Josef Sors levava sempre consigo. A primeira parte corresponde a dois terços da obra e pode, estruturalmente, ser dividida em duas seções: 1) aquela que se conta da infância, os anos de instrução ao lado de Wilhelm, a peculiar rotina familiar, a primeira impressão do amor como um infinito fora do alcance das mãos, a imagem de Františka a voar em um balanço no quintal contra o céu, e 2) os acontecimentos posteriores a vinte e oito de junho de mil novecentos e catorze, as muitas paisagens que Josef poderia pintar do mundo. Deste modo, 3) a última parte trata da esperança oculta às escuras, dos olhos que não podem, não querem enxergar os traços de luz nem o sol à sua volta. É uma novela em três atos, três movimentos, muito precisos – e preciosos – porque trata da dialética existencial: estar em si mesmo e sair de si para reencontrar-se.

* * *

Para quem aprecia colecionar frases, Afonso Cruz oferece uma narrativa plena de motivos para refletir – ao brincar com temas, como o amor, a guerra, a cultura, os enfrentamentos pessoais, as desventuras humanas, as palavras – e sorrir o sorriso discreto dos filósofos. Ou dos poetas. Porque já sabemos que a travessia pela primeira metade do século XX fez do homem, qualquer homem de qualquer idade e qualquer lugar, um projeto perante a existência. Sim, é necessário lançar-se ao mundo para conhecer-se. Todo homem é um viajante.


O'ABRE ASPAS 

“Wilhelm reparava que Havel Kopecky costumava acender um cigarro no outro. É como eu com os livros, pensava ele. Há pessoas que julgam que podem ler um livro do princípio ao fim, mas isso não é possível. A última página de um livro é a primeira do próximo, dizia Wilhelm, como os cigarros de Kopecky. Jozef Sors encolhia os ombros. Quando Jozef era mais novo e tinha dificuldade em sentar-se à mesa confortavelmente, a sua mãe punha-lhe uma almofada debaixo do rabo. A Wilhelm, a ama punha um ou dois livros, conforme o número de páginas. Ainda não sabia ler e já pedia concretamente este ou aquele livro para se sentar em cima dele. Mais tarde haveria de dizer que a altura de um homem depende dos livros que lhe serviram de base.” Afonso Cruz: O PINTOR DEBAIXO DO LAVA-LOIÇAS (2011) #afonsocruz Editora Peirópolis (2016, p. 38)

8 de abril de 2016

Muitos são os caminhos para viajar.

Peter O'Sagae


Vivi uma semana em alto mar e na tarde de ontem enviei um texto para a FTD. Muitos são os caminhos para viajar. Um bate-papo com o leitor (a convite de Luís Camargo) no final do livro VIAGENS DE GULLIVER a ser publicado ainda este ano, com adaptação de Ronaldo Simões Coelho e ilustrações de Marilia Pirillo. Vivi uma semana na companhia de Jonathan Swift, entre a tradução de Octavio Mendes Cajado (1971), um velho kamishibai, o Dicionário de Lugares Imaginários e muitas, muitas ilustrações – Arthur Rackahm, Thomas M. Balliet, Sara Oddi e as mais recentes imagens que encontrei do Weberson Santiago.



Imagens extraídas da página
www.facebook.com/webersonsantiagoart

2 de abril de 2016

2 de abril de 1727

O’ABRE ASPAS


“LAMENTO, em segundo lugar, a minha grande falta de discernimento deixando-me persuadir por instâncias e falsas razões, vossas e de outros, muito contra a minha opinião, a permitir que se me publicassem as Viagens. Lembrai-vos, por obséquio, de quão frequentemente vos pedi que refletísseis, quando alegáveis, como motivo, o benefício público, que os Yahoos era um espécie de animais absolutamente incapazes de se emendarem por meio de preceitos ou de exemplos, o que, de fato, ficou demonstrado, pois em lugar de ver posto um ponto final a todos os abusos e corrupções, pelo menos nesta pequena ilha, como eu tinha razões para esperar, após mais de seis meses de advertências, ainda não sei de um único efeito que, segundo as minhas intenções, o meu livro tivesse produzido; pedi-vos que me comunicásseis por carta quando os partidos e as facções se tivessem extinguido; quando os juízes fossem ilustrados e justos; os advogados, honestos e decentes, com alguns laivos de senso comum; Smithfield, brilhando com pirâmides de livros de jurisprudência; quando a educação dos jovens nobres tivesse sido inteiramente modificada; quando os médicos fossem banidos; quando as fêmeas dos Yahoos abundassem de virtude, honra, fidelidade e bom senso; quando as cortes e o levantar-se dos grandes ministros tivessem sido completamente extirpados; quando o espírito, o mérito e o saber fossem recompensados; quando todos os que desacreditam a imprensa em prosa e verso fossem condenados a comer o próprio algodão e a mitigar a sede com a própria tinta. Animado por vós, eu contava firmemente com estas e mil outras reformas, como eram, na verdade, manifestamente deduzíveis dos preceitos apresentados em meu livro. E força é reconhecer que sete meses seriam um prazo suficiente para corrigir todos os vícios e loucuras a que estão sujeitos os Yahoos, se as suas naturezas fossem capazes da menor disposição à virtude ou à sabedoria; entretanto tão longe estais de satisfazer as minhas expectações nalguma de vossas cartas, que sobrecarregais, pelo contrário, todas as semanas o nosso portador de libelos, chaves, reflexões, memórias e segundas partes, nas quais me vejo acusado de criticar grandes estadistas, de degradar a natureza humana (pois, ainda tem o descoco de chamar-lhe assim) e de injuriar o sexo feminino. Vejo igualmente que os autores desses pacotes não concordam entre si, pois alguns não me reconhecem por autor das minhas próprias viagens, e outros me dizem autor de livros a que sou completamente estranho.”


Da carta do Capitão Gulliver a seu primo e editor Richard Sympson, em 2 de abril de 1727. Tradução de Octavio Mendes Cajado, em Viagens de Gulliver, de Jonathan SWIFT. Porto Alegre: Globo, 1971. Ilustração: 2013 © Sara Oddi

8 de dezembro de 2015

Ler e ouvir Alice Vieira.

Peter O. Sagae*


Portas fechadas, corredores sem cores e as sombras a esconder os olhos de uma presença invisível e misteriosa. Talvez viesse a ser a própria Alminha-da-Senhora, ou a Outra-Pessoa de quem ninguém ousa falar. O silêncio retumba mais que outro ruído qualquer — e invade a infância de Marta. Seria preciso a ela permanecer imóvel como uma boneca de porcelana posta à exibição para as visitas posto que os seus passos pequenos, por mais leves que fossem, despertam sempre a casa e as crises de Flávia que-todos-diziam-ser-sua-mãe. Fato. A menina se convenceu de que houve uma troca, a acontecer coisas de mau destino que fez Flávia correr ao hospital como quem busca remédios para a dor de cabeça e, de lá, no entanto, retornaria com uma criança nos braços. Flávia jamais dizia seu nome, jamais saía de casa, nem durante as férias.
« Leonor costumava dizer que eu tinha nascido em berço de ouro, ao mesmo tempo que enchia a minha cabeça de pavores com a Alminha-da-Senhora querendo sair das paredes assim que anoitecia. Lembro-me de ter passado muito dias a espreitar pelo buraco da fechadura dos quartos fechados para ver se descobria, nalgum deles, o tal berço de ouro. Mas o ângulo da visão era fraco, e sempre o mesmo. Acabei por desistir. De resto, de que me serviria um berço de ouro? De certeza não iria poder brincar com ele, como acontecia com as bonecas de porcelana que o pai me dava no Natal e no dia dos meus anos. »
Envolta por uma atmosfera de segredos e histórias, iniciadas muito antes de seu nascimento, Marta refugia-se nas cantigas e nas aventuras do Príncipe Graciano pelas sete partidas do mundo tiradas pela velha e calorosa Leonor. Havia um tempo em que diligências cortavam planícies pelos corredores da casa e seu pai não era Martim, mas Touro Sentado, em conversações sobre alianças e emboscadas com o Coiote Vermelho. Leonor contava o passado quando sentia saudades ou quando se zangava com Flávia...

Em um texto que reflui tempos e nomes, Alice Vieira orquestra sombras e personagens com acordes distintos, humanamente possíveis, belos e densos, na pauta de sua escrita. O fraseado é todo melódico e até mesmo as palavras mais estranhas ou expressões desconhecidas acomodam-se dóceis e ingenuamente bem humoradas. É neste embalo que lentamente o prisma de emoções adquire movimento e refratando vai um espectro de luzes sobre os moradores, uns vivos e outros ausentes, da casa. Variados enredos ressoam iluminados pela maestria da autora e articulados pela narração de Marta, em diálogo muito próximo com alguém que não se vê (“Sabes como era Leonor: às vezes as palavras saíam-lhe da boca e, quando ia por elas, já elas estavam ditas.”) — e o leitor bem poderá sentir-se tentado a ocupar o incômodo lugar de ouvinte igualmente observado pelos olhos vigilantes de Ana Marta.

* Extraído de Dobras da Leitura n. 50, nov. 2007. O Vitrina Mundi: Portugal. Alice Vieira. OS OLHOS DE ANA MARTA, capa: Yili Rojas (Edições SM, 2005).


Ler e ouvir Alice Vieira. “Quando estou triste, gosto de ter flores perto de mim. Mas não é preciso que tenham perfume ou que sejam daquelas de caules muito altos, que dormem na vitrine das floras. Só preciso que estejam perto de mim. Que eu olhe para elas e sinta que estou tão acompanhada como se elas fossem pessoas.” Pois família é uma sintonia delicada, releio hoje ROSA, MINHA IRMÃ ROSA (1979) #editorapositivo (2014) #alicevieira #odilonmoraes


Ler e ouvir Alice Vieira, mais o verso de Adriana Calcanhoto e o rumor de Gil Vicente por uma estrada que são as muitas casas de Branca. “De repente caíam em cima de mim todas as lembranças daquele dia na Feira – ontem? há uma semana? há um ano? sonhei? –, eu a perguntar porque a minha mãe não respondia... e toda a gente a dizer coisas sem sentido.” MEIA HORA PARA MUDAR A MINHA VIDA #editorapeiropolis (2014) #alicevieira #annacunha

28 de julho de 2015

voltas e revoltas

Dobras da Leitura, 47*


Nem sempre voltar para casa, depois de seis meses no hospital, é a melhor coisa da vida — ainda mais sabendo o que você já sabe e precisará enfrentar: os vizinhos, os parentes, os amigos dos amigos de seus pais e da escola também. Sim, os olhares curiosos, silenciosos e falantes! Seria ótimo evitar as visitas, seria ótimo evitar qualquer forma de exposição... Será mesmo que ninguém percebe, você não é mais a menina que costumava ser? Não, por fora — shit, shit, shit! Todos apenas olham a careca, mas não enxergam a diferença que vem por dentro.

Voltar para casa dói... Papai parece não entender que o carro deve ir mais depressa, pois Marina não ’tava com a mínima vontade de olhar a rua em câmara lenta, muito menos ver Sanya e Ivana brincando na praça – e ser vista igualmente por elas. Mamãe também jamais entende que seria melhor parar de andar pela casa com seus agasalhos ridículos e queimá-los urgentemente, porque isso não a deixa mais nova, e não entende nem uma palavra quando ouve Marina dizer: “Se você continuar babando em mim, vou acabar vomitando. Ou desmaiando. Ou as duas coisas ao mesmo tempo! E não me chame de ‘alminha’. É como se eu fosse um fantasma. Porque, como você pode ver, ainda estou viva!” E Darko... Darko precisa... Darko não precisava nem mesmo ter nascido para se achar o cara mais inteligente do mundo. Decididamente, Marina sente que não precisava voltar para casa.

Realmente, toda a família Bakaritch passa a viver em estado de alerta. A novela Pula-elástico, do croata Zoran Pongrašic, escrita em 2001 e que chegou a nós através do texto em francês, com tradução de Heitor Ferraz Mello (Edições SM, 2006), evidencia uma série literária que se descortina por temas delicados, situações-limites, textos fortes — e uma aposta na virtude curativa das palavras.

Depois do tratamento contra a leucemia e a experiência de pressentir a morte todos os dias, observando as camas da enfermaria amanhecerem com novos rostos ou simplesmente vazias, Marina está de volta à casa. Talvez Gvozden e Lyerka, seus pais, não consigam ainda pensar quanto a nova lição que se apresenta seja bastante simples, porque é preciso dar um passo adiante após a doença e ir à vida... Quais os desejos de uma menina de doze anos?

Marina naufraga, simplesmente naufraga sem uma imagem em que possa reconhecer-se diante do espelho e diante dos outros. Este é o verdadeiro centro dramático do texto, dividido em sete capítulos como são sete as etapas do jogo de pula-elástico: canelas, joelhos, quadris, cintura, costelas, axilas e céu. «É comovente, em Pula-elástico, a obstinação amorosa com que os pais evitam abordar o medo da morte com sua filha caçula.», escreve Maria Rita Kehl, no posfácio ao livro. «Mas, ao escolher conduzir sua novela a partir do ponto de vista de uma pré-adolescente furiosa com a inabilidade dos pais, Zoran Pongrašic desliza agilmente do comovente ao cômico.»

Assim, antes de oferecer um texto pesado pelo assunto de que trata, o autor estabelece uma narrativa que flui através de bons diálogos e mudanças precisas quanto à voz que domina o discurso. Ora é Marina, abrindo registros de seus sentimentos no diário, ora um narrador intruso capaz de assimilar a fúria e a ironia tão próprias da personagem.
Ela tinha a impressão de estar sentada numa sala de teatro cujas cortinas esqueceram de levantar e onde o espetáculo já havia começado. Dito de outra maneira, sentada no seu lugar, ela olhava para a porta do banheiro e escutava as vozes do outro lado.

TIO MITCHO: Gvosden, ainda tem ameixa?
BOYANA: Onde tá a Malina?
TIA ROUJA: Mitcho, deixe-os em paz.
BOYANA: Onde tá a Malina?
TIO MITCHO: Estou atrapalhando? O que você acha, Lyerka?
BOYANA: Onde tá a Malina?
MAMÃE: Não, não, jamais! Claro que você não está atrapalhando ninguém!
PAPAI: Imagina.
DARKO: Prefiro não dizer o que penso.
BOYANA: Onde tá a Malina?
TIO MITCHO: Mas, realmente, onde ela está?
DARKO: E se você tentar adivinhar?
(Pausa prolongada)
* Texto apresentado no site Dobras da Leitura, Ano VII n. 43 (março de 2007). Pertencem também à coleção “Estado de Alerta”, os títulos Se até as árvores morrem, de Jeanne Benameur, As duas mães de Mila, de Clara Vidal, e O desafio, de Marie Leymarie.

14 de setembro de 2014

outros brasileirinhos

Peter O'Sagae


Todos os meninos de rua são diferentes – ainda que passem através da gente tão iguais no compasso imóvel do rinoceronte da cidade. Dizia Maria Dinorah (1986) que o abandono tem pés de cimento e o peito de ferro. E pergunto qual a ponte entre os negros, loiros e pardos... Talvez seja “um ar de pouco tempo sobre a idade”, porque o problema não é mesmo a cor, é crescer. Na rua. E arranjar um lugar para ficar, passar o tempo e dormir. E, então, um pedaço de papelão para se arranjar. E mais outro pedaço de algo para matar. A fome. E tomar cuidado com ela. A fome. E não folgar demais. Que ela devora...

Um livro de retratos – para todo mundo não esquecer de olhar as ruas – escreveu Délcio Teobaldo com os olhos tardonhos e flagrantes de PIVETIM (Edições SM, 2009) Prêmio Barco a Vapor 2008.

Não se trata de um moleque de oito anos, somente. Talvez ele tenha onze, não dá para saber, corpo pequeno, onze anos e meio, sem registro de identidade. Um dia, viu a família dar as costas e fugir. Sim, às vezes a família é quem foge da gente, do primeiro campo de visão e afetos. É assim, vivendo hoje em situação de rua e – que dirá se amanhã vai dar para contar com confusão ou trabalho. Vender flores para os casais nas mesas dos restaurantes. Ou castanha, ou amendoim. Pivetim, Pivetim, acostumado a entrar pela porta dos fundos, um bico aqui, outro ali, rumo à cozinha, lavando pratos, ganhando o possível e o devido, entregando metade do dinheiro nas mãos do guarda, que é a coisa erroneamente certa que se faz pra continuar vivo. Na paz, sem inimigos, em trânsito.

E eu digo: não é apenas um. Tem Pivetim, tem a comuna – Carol, Maravilha, Bala Perdida e Dimba. Mas poderiam ter quaisquer nomes de guerra: Dora, Professor, Sem Pernas, Gato ou Pedro Bala. Que diferença faz? Se é Carol, essa ou aquela menina, a violência não amaina. Poucas sobrevivem. Maravilha é esperança e fé, comprou um álbum para guardar os pais que encontrava nas bancas de jornal e revistas. Bala Perdida mostrava sempre a cicatriz no alto da cabeça para inibir. Dimba logo, logo vira sujeito-homem e terá muito mais a perder...

Em um estilo cinematográfico de capítulos curtos, os retratos adquirem movimento e expressão; os diálogos são rápidos, por vezes incompletos ou cifrados com as gírias que podemos ouvir nas praças e debaixo das marquises no Rio de Janeiro, São Paulo ou Salvador. É um livro cheio de vozes e afetos, um romance que acaba chamando o leitor para dentro das cenas. É uma roda viva, máquina viva das cidades com seus rinocerontes de cimento e ferro, pedra e navalha, fazendo desaparecer afetos, fazendo ressurgir um rosto mais adiante... Estamos todos à espreita. E muitas histórias que não vemos, pressentimos entre os intervalos desses novos encontros.

O primeiro romance juvenil de Délcio Teobaldo não toma apenas meninos de rua como personagens, contudo vem dar voz e presença à fome. Não sinto que o autor tenha pensado apenas em uma alegoria literária. Ela é espírito vivo, má conselheira que assedia o corpo e a alma, mastigando os pensamentos de Pivetim, manobrando seus passos. E é, na subordinação da fome aos problemas econômicos, que se permite a visão de uma psicologia social totalmente à espera por libertar-se de toda forma de exploração e das obsessões que se transfiguram na violência contra a educação, as oportunidades de trabalho e as referências familiares das crianças. Afinal, já somos muitos buscando o caminho. Outros brasileirinhos.

E então eu digo: não é apenas um. Tem Pivetim e todos nós.

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7 de agosto de 2013

alimento e inteligência

O’ABRE ASPAS para uma árvore


“Talvez porque não tenham raízes para traduzir a linguagem do chão, nem folhas para transformar a luz do sol em alimento e inteligência, as pessoas vivem falando, sem parar, mas quase nunca se fazem entender. Na verdade, eu acho que é porque são umas criaturas que estão há muito pouco tempo no mundo. Quando apareceram por aqui, a maioria das plantas já tinha explorado todos os cantos e recantos da terra, já tinham ocupado os vales, as montanhas, os desertos, os pântanos, as planícies, as margens dos rios, as praias e até os mares sem fim. Por isso é que sabemos tanto e tentamos ensinar o que sabemos às outras criaturas, tão mais jovens do que nós.” (Marcos Bagno) AS MEMÓRIAS DE EUGÊNIA, 2011.

*** 


Um dos destaques do ano passado, o livro de Marcos Bagno, com ilustração de capa e vinhetas de Miguel Bezerra (Positivo, 2011), foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Prêmio Jabuti – Melhor Livro Juvenil. Em torno da amizade e dos cento e cinquenta anos de Eugênia, uma árvore, a novela articula diferentes dobras ficcionais, como o desenvolvimento de uma cidade, junto à pequena muda de jambeiro transportada para uma terra nova, a primeira escola, as casas e os colonos, a praça, as ruas, já uma população anônima; a ventura familiar de Margarida, o nascimento de sua filha Violeta, e o segredo que passaria por seis gerações, seis histórias de mulheres daquela mesma casa; o amor perseverante de Rosa e Floriano; as voltas ao mundo e o lugar de cada um no mundo, como os frutos saborosos, na construção e a interação de caminhos entre a vida social e o universo particular.


“As pessoas se iludem tanto, Eugênia, achando que a felicidade é alguma coisa grandiosa, brilhante, infinita, inalcançável. Elas acham que a felicidade é o céu que, ele sim, é grandioso, brilhante, infinito e inalcançável... Eu sempre desconfiei que a felicidade é simples, valiosa justamente por sua humildade. A felicidade é isso aqui: um jambo maduro, cheio de perfume e de lembranças... Obrigado, Eugênia.”

***

P.S. Contracenando com o livro sobre o centenário jambeiro (Eugenia malaccensis), os poros leitores da mesa de imbuia (Ocotea porosa) e as flores-cinderelas de cedro-branco (Cedrela fissilis).

30 de março de 2013

uma escritora e o jabuti de ouro

peter o.sagae nos bastidores da leitura

Entre os escritores e ilustradores de literatura infantil, reza a lenda ou fábula de que o sujeito precisa de cuidados redobrados após conquistar um jabuti, o primeiro Jabuti com J maiúsculo... Não pense você em um animal de carapaça dura e fria: pense em um quelônio com letras às costas, no prêmio concedido anualmente pela Câmara Brasileira do Livro aos melhores do setor editorial.


Se o primeiro vem, nunca se sabe quando chegará o segundo... Dizem que todos os parentes são lentos! E resta aos premiados torcerem pacientemente por uma jabota – a fim de formar um casalzinho, assim que possível, e estabelecer família.


Contudo, em 2012, Stella Maris Rezende veio mineiramente nos contar outra história. Arrebatou, de maneira inédita, o primeiro e segundo lugares do 54º Prêmio Jabuti – Melhor Livro Juvenil, respectivamente com A MOCINHA DO MERCADO CENTRAL (Globo, 2011) e A GUARDIÃ DOS SEGREDOS DE FAMÍLIA (Edições SM, 2011), título também vencedor do Prêmio Barco a Vapor 2010.


Foi uma noite de verdadeira estrela brilhando e, quem suspeitaria, vinte anos de espera, veteranamente Stella literária, candidata ao Livro do Ano de Ficção... e Stella Maris voltou ao palco da Sala São Paulo para abraçar o mais novo filhote, tão rápida assim é a felicidade de um casal promissor: um Jabuti de Ouro.


Meninos, eu vi... meninos, eu li! 

Com outro título, o texto de A MOCINHA DO MERCADO CENTRAL havia passado por minhas mãos, em maio de 2008, quando estive no júri de leitores críticos do Barco a Vapor. Era somente “Guia mágico para imaginar Maria” e já surpreendia por uma estrutura de capítulos justapostos como quadros pendurados à parede invisível da memória. Maria emoldurada por diferentes nomes, assumindo diferentes vidas, passando uma temporada ou uma chuva, como se diz, em diferentes cidades brasileiras... Mágico mesmo é essa coisa, essa ânsia de mudar o próprio mundo com uma palavra só, um nome. Maria sabe que precisa vestir-se com muitos nomes, para despir-se como personagem em busca de si mesma e de sua história, sonhos escapando pelos olhos, esperança e fragilidade no sorriso construído com gestos firmes. Stella Maris Rezende convida-nos para irmos lendo, lendo, imaginando o que sabemos sobre o perdão. Quando comecei a ler o livro ilustrado por Laurent Cardon e editado por Cecilia Bassarani, pensei: esse filme, eu já vi. E estava certo.

Coincidência ou não, no concurso do Barco a Vapor 2010, voluntariamente cruzava os dedos pelo texto de A GUARDIÃ DOS SEGREDOS DE FAMÍLIA, sem atinar quem poderia ser a autora daquela escrita de ficção que, rompendo com o caráter linear, nos conduz a um universo poético, feminino e dramático. Trata-se de uma obra rica em recursos de linguagem e muitos vazios para o leitor preencher & recompor a história de Nenenzinha, menina ainda e tia de quatro órfãos: Niquinho, Chiquito, Quinzinho e Célia, batizados Antônio Francisco, Francisco Antônio, Joaquim Francisco e Célia Francisca, confiados ou confinados na casa de um parente e sua esposa má. Muitos personagens sob o mesmo teto, muitas falas em um mesmo texto, provocam a impressão de estarmos todos entre as três paredes de um teatro – sim, de algum modo, fomos convidados a tomar parte das cenas e estamos bem próximos a esta família, ouvindo as conversas, meias sentenças, palavra e meia, silêncio, a ponto de descobrir seus segredos...


Conheci Stella Maris Rezende em carne e osso, três dimensões, abraços e cores, ladeada por Mariângela Haddad e Vivina de Assis Viana, na noite do 6º Prêmio Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil, aqui em São Paulo. Esse encontro levou-me de volta ao primeiro livro de Stella que li e ao estilo tão monjolo, milho, mão de almofariz e beija-flor que bate direto no coração... Mas essa história fica para outro dia!

14 de março de 2013

recortes e citações poéticas para o alto levam

Três livros para jovens leitores, por Peter O’Sagae


POEPLANO, de Dilan Camargo (Projeto, 2010) com ilustrações de Ana Claudia Gruszynski. O título do poema “A musa e o mouse” bem resume o programa poético do autor em sua obra: novos contextos para uma voz que ressoa virtualmente através dos tempos de amor juvenil, dos primeiros queixumes às cantigas contendo estribilhos: “Você não me fere com a mão/ me fere com seu olhar de distração.” E o respiro que se ouve, e se sente, longo, discursivo, como se palavra fosse laço para prender os sentimentos de alguém. Versos que aqui recorto é língua que não estala na boca, apenas na tela: “Você é um voce/ sem circunflexo / um pequeno ome/ sem H e sem M/ um ser sem nexo”. Dilan propõe dilemas e fugas, entre viver e esperar, conversas de MSN e chamadas de SMS que se perdem, controle-delete.  Ao fim de 96 páginas, a dúvida: se haveria algo mais breve, que versos ninguém esquece?

“Minha vida é ler
o nome na lista
o sangue na pista
os cacos de vidro
os brancos do livro
a febre de sentir
a ânsia de partir.”

VAGALOVNIS, de Antonio Barreto (Autêntica, 2011) com colagens de Diogo Droschi. Já o sumário se apresenta como Embarques, Escalas, Paradas, Baldeações... e os poemas adentram o leitor na noite renovada dos velhos plenilúnios, entre palavras comuns e esdrúxulas que os sapos coaxam, palavra-valises que aqui e ali se soltam, embaralhadas com os vagalumes e alguns neologismos. Este é o jogo, palavra-colagem, “quem somos nós?/ quem seremos?” para cada um buscalevar(-se) entre objetos voadores nau-identificados com a própria viagem. A poética de Antonio Barreto é uma teia de aranha que me entrelaça com a força do surrealismo e a velocidade de uma surrealesma.

“quando será
o minuto elétrico
o hipotético
instante
milimétrico
em que esse
milagre poético
acontecerá?”

PÉS DE ARAGEM, de Marco de Menezes (Bipolar, 2007). O livro não pertence a um catálogo de literatura juvenil, mas os versos que contém são extremamente joviais, no sentido da leveza que inspiram. O eu-lírico atravessa a rua difícil, a viela enlameada, a passagem improvável, mas, desde o primeiro poema, desperta milonga, uma estrela turquesa, luas pequeninas e confessa com zelo e felicidade as cantigas que espia de cada janela entreaberta. Penso, qual poema dar a um jovem leitor? Marco de Menezes utiliza palavras e efeitos de cores, aliterações e cintilações fotográficas que entram pelos poros e ouvidos. A isso dá-se o nome de sinestesia, o que provoca insônia em olhares de pedra. E copio e colo inteiro, aqui um poema:
escritos a estilete

por cima das nuvens
uma luz mais branca
se inclinará rumo ao chão
de terra e pasto
até tocar a velha árvore
 
rente à árvore a luz
– filete de jasmim
em permanente branco –
soçobrará contida a cicatriz
o raso e o fundo
da figura irregular que abriga
desde a cor verde do passado
o teu nome e o meu
escritos a estilete

6 de janeiro de 2013

Feliz 2013!

O'ABRE ASPAS com Cecília Meireles


“A bondade está ali, – detrás daquela porta que se abre em silêncio, na sala onde a mesa está sempre posta, – com duas mãos que caminham, servindo eternamente a fruta, o leite, o pão. Inutilmente o relógio marca o dia e a noite, pois a vida é sem fim. Ninguém estremece. Ninguém pensa nas horas muito a sério. Todos se sucedem, todos se lembram uns dos outros, todos estão ali à espera dos que chegam. Para socorrer. Mesmo que fosse um inimigo, Senhor!” (Cecília Meireles) Giroflê, giroflá, 1956.

Ano Novo, Novos Caminhos.

24 de novembro de 2012

boreais, coração dentro dos livros

Peter O. Sagae*


Alguns livros são feitos de 
pura emoção, acrescentando, aos poucos, ao discurso, em fogo brando, um suspiro e mais outro, descobertas boreais e úmido sangue correndo esperançoso às veias do leitor.
 E o primeiro título juvenil de Eloí Elisabet Bocheco, BEATRIZ EM TRÂNSITO, vencedor da terceira edição do Prêmio Casa de Cultura Mário Quintana
 (Porto Alegre, 2005), assim se entrega: sem medo de invadir a distância, tocar os afetos, tomar nossa respiração (meu coração viu tudo, alerta a narradora) e você — você vai se emocionar!


Beatriz e seus parentes vivem de muitas mudanças pela vida, de cidade em cidade. Por isso, tem sempre casa nova pelo caminho e a necessidade maior de se desacostumar do costume dos mesmos lugares. E das paisagens internas que só para quem não quer ver parecem quase sempre iguais, mas movendo se vão com o talismã do tempo e da compreensão, ao vento do próprio destino. Ora, essa coisa de mudar é gosto que nasce dentro de certas pessoas. O avô curtia viagens e, de silêncio bem curtido, virou tropeiro de bois celestiais.
 A família, a família estacionou em Santo Antônio dos Campos e, desde então, a avó cuida da menina como se criança sem mãe fosse de vidro. Moravam juntos e juntos mudavam, de tanto em tanto, a tia Leonor, tia Rosana, tio Pedro, Eduardo, Lia...

Numa das escolas que conheceu, Biazinha (detesto que me chamem de Biazinha) ficou de olho assim grudado no armário bege de livros guardados de Guiomar, uma professora que sabia 
misturar aula e vida. Foi quando conheceu Samuel, um menino
 em trânsito sobre sua cadeira de rodas com jeitão de quem havia lido montanhas de livros, tantas paisagens ele conhecia! Depois, será Samuel seu melhor amigo correspondente. Melhor não fosse, nós até poderíamos pensar. Melhor seria não tê-lo conhecido, Beatriz até poderia pensar. Porque a saudade também existe para doer. E perdoar. Em outra escola, chegará Mariana de longe, com 
medo trancado que não pode abrir feito pote de barro que “dentro tinha coisa que chacoalhava, tilintava, farfalhava”.

Capítulo a capítulo, a história de Beatriz se descobre em um verdadeiro ‘livro de admirações’ por outro livres, como inventaram a menina e seu grande amigo, e coube à Autora realizar, obediente ao desejo dos personagens, através da urdidura da palavra. Tem momentos para suspirar um jardim inteiro (Sento na escada da varanda pra esperar a boca da noite soltar os pirilampos.) No entanto, melhor que contar o segredo dessas pessoas, é contar que essas pessoas todas têm segredos: vivos, dentro e fora da ficção. BEATRIZ EM TRÂNSITO encerra-se com um aceno
 de adeus e amizade, texto de encantos e asperezas em equilíbrio, denso e leve como a vida, mais uma pitada de umas coisas que se repetem e outras que nunca mais acontecerão.


« Devagarinho fomos saindo. Decerto a alma de minha mãe ficou contente com tanta flor bonita
 só pra ela. Me deu medo que as outras almas ficassem com ciúme porque não ganharam flor e viessem me pegar no meio da noite pra reclamar. Tinha tanta alma ali que era preciso um campo inteiro de flor. Nem olhei pra trás de medo desse pensamento não me largar mais até em casa e depois de chegar em casa também. Acho que a minha mãe me protegeu porque,
 dum ponto em diante da estrada, o pensamento se foi não sei pra onde. » 


* Resenha extraída do site Dobras da Leitura, por ocasião da publicação do texto pela editora Nova Prova, 2005, com a capa de Thanara Schonardie. A obra foi reeditada com ilustrações de João Lin (Dimensão, 2007).