3 de junho de 2009

Diante dos olhos de Marcelo


Caio Riter
O RAPAZ QUE NÃO ERA DE LIVERPOOL
capa: Graça Lima
Edições SM, 2006


Os olhos castanhos de Marcelo eram únicos naquela família e não havia mais como negar as evidências. Na aula, o professor de Biologia explicara as leis da hereditariedade, quais características dominantes, quais recessivas e agora são as ervilhas de Mendel que rodam dentro da mente do rapaz. A velha desconfiança, afinal, tinha um fundamento! Nenhuma foto da mãe esperando por ele, Marcelo jamais esteve em seu ventre: seus olhos não tinham a cor do mar, a cor do céu, a cor dos olhos da mãe, a cor dos olhos do pai. Era um só Marcelo, diferente e só, adotado.

O que sente e pensa Marcelo? Algo como tristeza ou desespero? Amargura, por quinze anos vividos sob a custódia de uma traição? Seus pais — ou melhor: eles, Inês e Pedro Paulo não tinham o direito. De trocar uma história por outra! E o rapaz caminha pelo quarto, como se tudo ali fosse diferentemente novo. Estranho. No entanto, algumas coisas permaneciam familiares... Ele, que não era exceção às regras de Mendell, o filho de coração, sentia-se o verdadeiro rapaz que não era de Liverpool. De fato, os Beatles eram apenas quatro, como Pedro Paulo, Inês, Ramiro e Maria. Alguém sobrava naquela casa. O quinto Beatle não existiu. E era ele. Encarando os outros, olhos nos olhos: qual a sua verdadeira história?

Muitos dizem que a vida pode passar diante de nossos olhos — sejam claros, escuros, castanhos, azuis, não importa —, como um filme em alta velocidade. Caio Riter traduz essa sensação para o leitor, emprestando voz para o personagem: é Marcelo, em primeira pessoa, quem narra o torvelinho de imagens e emoções num rápido pulsar de fragmentos que o autor ordena com técnica cinematográfica. O texto é dividido em cinco capítulos, nos quais a ação no presente se estende por pouco mais que uma semana e alguns dias. Esse plano narrativo é interrompido por cenas que são à força das digressões, trazendo tanto a memória de fatos isolados da infância e da juventude de Marcelo, quanto os poucos instantes que antecederam a conversa com a mãe. É também a derradeira confirmação que marca o início da narrativa, às primeiras linhas do capítulo um.

« — Não, Marcelo, você não nasceu de mim!
Ela disse. Falou o que eu queria-temia escutar. Falou. As palavras foram claras. Sem sombras. Sem dúvidas. A confirmação ali, naquela frase tão simples. Tão. Não era minha mãe. Não era. E, no entanto.
Estendeu a mão. A mão que muito carinho já me fizera. A mão. Tremia? Queria ser toque. Acarinhar meu cabelo, daquele jeito calmo que eu tanto gosto. Gostava.
Leve toque em meu braço.
Fugi.
Lágrimas nos olhos dela. E nos meus.
Fugi para meu quarto.
Único abrigo naquela casa que agora me parecia por demais estranha. Ela não era minha mãe. Mas e se? Nao, não era. Suas palavras, naquela voz que não tremeu, naquela voz que, talvez, há muito tempo desejasse ser, e foi, revelação, não deixavam dúvidas. Você não nasceu de mim. De quem, então? Ela respondeu apenas à primeira, à principal, pergunta. Muitas outras agora me invadem e, tenho certeza, me invadirão para o resto da vida. »

Nenhum leitor mais se espanta com o congelamento da ação presente para introduzir um FLASH-BACK, recurso que ajuda a erguer estruturas não-lineares de efabulação, em idas e vindas dentro de um texto. É exatamente na interpolação de diferentes planos que vai se afirmando a originalidade do autor e um laborioso trabalho técnico. Caio Riter interrompe por dezessete vezes o fluxo dos capítulos, com cenas numeradas e subtítulos, em que o leitor salta para o passado de Marcelo. As lembranças surgem encaixadas pelo incurso do MATCH CUT, isto é, alguma informação do instante presente (um nome, uma foto, uma palavra, uma dor) repete uma situação já vivida, assim deflagrando a visão do passado. De outro modo, a saída das dezessete cenas é feita sem avisos ou abruptas separações, flutuando o pensamento de Marcelo em efeitos de FUSÃO com o presente.

Da estrutura geral da obra à estrutura das frases, a linguagem privilegia um ponto de vista e uma fala em perfeita síncope. Das emoções. É a pontuação rígida e seca que pára. O pensamento entrecortado que se permite. Das lacunas entre palavras ao fosso existencial. São fendas e senhas: por interrupção, intermitência: interrogações. A todo instante, torcemos por Marcelo. Pela resposta que procura, pela paz. Céu e mar para o rapaz que não era de Liverpoll.

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