3 de setembro de 2014

a lição dos mares

Peter o.O'Sagae


“... hoje, apresenta-se uma bela oportunidade de vos contar, a todos vós, as minhas sete viagens”, disse generosamente o marujo Simbad aos convivas de sua casa e, com especial atenção, ao outro mercador, o que ainda não se fez aos mares: “não vos arrependereis de ouvir-me, porquanto há nelas, além de seus aspectos maravilhosos, uma lição de audácia e uma lição de fé no destino dos homens.”

Tais palavras recorto do prólogo da adaptação de Alaíde Lisboa de Oliveira para Simbad, o marujo, uma edição para o leitor juvenil como se nota pelo contorno e a extensão do texto, com ilustrações de Angelo Abu (Peirópolis, 2014), quando comparada à proposta de Quentin Gréban: Simbá, o marujo, com texto adaptado por Gudule (a escritora belga Anne Duguël) e a tradução de Ricardo Lísias (Pequena Zahar, 2014).

A velha narrativa do século X já fora considerada parte de As mil e uma noite, após as artimanhas literárias de Antoine Galland, especialista em numismática, manuscritos e línguas orientais que viveu entre 1646-1715. Mas é um fato que a história de Sindbad, Simbad ou simplesmente Simbá, possui uma organização particular para ser considerada uma obra autônoma, sob a tríplice chave de um maravilhoso romance de aventuras, uma novela formativa sobre os valores que os jovens devem herdar dos mais sábios ou uma espécie de conto mágico possuidor de ensinamentos a respeito do esforço rumo ao trabalho, à autonomia, ao descanso e à liberdade existencial do espírito.

Sob a proteção do onipotente Allah, acompanhamos como o velho marujo conduziu sua vida, constituiu fortuna e coloca-se finalmente na direção do outro, seus conterrâneos. Encontramos, na cena de enunciação de suas aventuras, o bem mais precioso que Sindbad pode e sabe compartilhar perante o mais pobre que passou debaixo de sua janela lamentando o destino: a palavra que dinamiza a compreensão sobre as coisas do mundo.



Em algumas versões, como o mercador marítimo, também o mercador terrestre é chamado Sindbad – mas Alaíde Lisboa preferiu dar-lhe o nome de Himbad. Entre os dois personagens, há um evidente espelhismo, imagem e reflexo, entre o passado de uma condição pouco próspera de onde partira o marujo e a futura bem aventurança a ser objetivada pelo mísero ouvinte. Essa e outras dobras da leitura podem ser abertas a partir de traduções ou versões que resgatam os diálogos, por vezes, longos e intrincados do texto original...

Com a suave aquarela de Quentin Gréban, flagra-se uma narração para leitores principiantes como um resumo informativo sobre as proezas do herói. Assim começa a adaptação: “Todas as noites, quando o sol se põe sobre Bagdá, um senhor de barbas brancas conta a seus hóspedes, sentados diante de um jantar suntuoso, as viagens de sua juventude. Ele se chama Simbá e viveu aventuras impressionantes pelos sete mares e os cinco continentes. Você quer conhecê-las? Então, faça silêncio. Aproxime-se na ponta dos pés, sente-se perto e escute.” Na mesma página, a ilustração representa o leitor implícito do texto – eis, lá, um menino que espia a janela, furtivamente...

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