27 de janeiro de 2015

'tá chovendo na roseira?

peter ô.ô sagae


Bate luz e um pouco de vento na árvore em frente à minha janela e me distraio. Estico o braço até a estante. Na letra R, encontro Rosa Branca no cercado e um jardineiro que a vigia. Bem de perto. E já sei o que está por vir. Uma narrativa rápida e poética em sua dupla estrutura: a montagem linear como uma parlenda enumerativa, sobre uma estrutura circular que a voz do narrador esconde, revela ao meio do texto, bem ao meio.


A história começa em um dia que o jardineiro amanheceu gripado de tanto que andou descalço tentando encontrar os sapatos que um gato... escondeu! O gato veio com o irmão mais moço do jardineiro que... era casado com Dalva que... tinha um tio na família que... morreu de desgosto, por conta de uma carta de amor que... nunca chegou porque caiu da sacola do carteiro, quando ele se abaixou para pegar um anel do chão. O anel de latão que a costureira atirou pela janela, recusando-se a casar com seu noivo de bigode ridículo...

E assim vai, anda a roda e tanta coisa mais. A estratégia da lengalenga é tão bela e tão velha que nem mesmo Drummond escapou de fazer uso para a sua ‘Quadrilha’ (1930), inspirando, por sua vez, textos e mais textos como a lírica de ‘Espinho na Roseira / Drumonda’, de André Abujamra (1995).


Um fato puxando o outro. E Rosa Branca fugiu do cercado? Roger Mello sabe que Todo cuidado é pouco! (Companhia das Letrinhas, 1999). Alguém sussurra que ela sumiu do mapa e, carregando consigo a rosa-dos-ventos, fez o mundo perder a direção do caminho. Cada coisa... Conversa! No meio do texto, o narrador pede – Mas espera um pouco... e a história desanda à roda: nada do que aconteceu realmente aconteceu porque Rosa Branca está dentro do cercado.


Brincando com a construção e a desconstrução do texto, o que era simples linearidade ou sucessão volta-se sobre se si e circularmente transforma a narrativa em uma experiência espacial. Tudo volta atrás... Ou seria para a frente? O jardineiro vigia Rosa Branca. Zeloso, sem desviar o rosto, bem de perto. É uma prova que a vida é mesmo assim, tá sempre no eixo, no mesmo e próprio lugar, mesmo quando parece não estar.

Mas, digo eu, espera um pouco...
E se começasse a chover?

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