22 de junho de 2025
um fabuloso labirinto de leituras
Zubair corre por uma recente Bagdá em guerra, no labirinto em que sua própria vida se transformou — na extensão dos saques, vem o susto do menino. Homens armados em pontos estratégicos, contudo muitos soldados também se espalham, sem um cálculo preciso, pela cidade. O barulho das sirenes é infernal — e a descrição de Roger Mello, prisma cubista, acelera uma imagem de agonia: é a imagem da guerra que fica em nossa mente. Quem viu o menino tropeçar na respiração? Quem sentiu o zunido de uma caixa de marimbondos que faz o lépido Zubair guardar o ouvido no bolso?
Como todo livro é (ou deveria ser) trânsito de significados, Roger projetou sua obra em diferentes níveis de entrelaçamento entre o leitor e o objeto da leitura. Enquanto a narração caminha adiante, desenrolando o sempre-antigo fio da prosa, a capa vai sendo aberta feito um tapete que esconde dentro de si um livro. Na verdade, um outro livro: Os treze labirintos.
Certamente, não se trata apenas de um jogo caprichoso para apresentar, em três ilustrações, três ângulos da destruição, nem uma simples metáfora, ainda que tal manipulação configure uma provocativa imagem cinética. O livro em minhas mãos, a imitação do movimento de desenrolar um tapete, sincronizando as rotas do menino Zubair e o leitor. O segundo livro, assim guardado, possui uma realidade material peculiar, pois será folheado no sentido da direita para a esquerda, como fazem por todo o mundo árabe, e não deixa de ser a própria réplica do livro que Zubair tem em mãos.
• Comentários publicados na vitrine literária de Dobras da Leitura, Ano IX, n. 57, novembro de 2008.
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Roger Mello é um dos raros artistas do livro e da literatura para crianças que une os extremos do mundo atual às arqueologias da palavra e da imagem, narrando a grande ventura dos homens em constituírem a História coletiva e suas histórias individuais. É a partir deste comprometimento que o autor nos conduz a um fabuloso labirinto de leituras com os olhos, os ouvidos zunindo, o coração celerado e os pés do menino Zubair. A cidade de Bagdá (Iraque) estremecia sob o bombardeio e a invasão de tropas anglo-americanas. Durante nove dias, em abril de 2003, ruas, vielas, casas, muros, minaretes, palmeiras, janelas estilhaçadas corriam, fugiam à compreensão de que há uma vida diferente, nada heroica ou igual às realidades mostradas na televisão. A perdas materiais são sempre grandes. A cidade não existia como antes existia. Também os amigos e os parentes perderam a vida. Contudo, incontável, é a destruição cultural das peças históricas que se tornaram pó ou ainda poderiam ser encontradas sob os escombros da universidade e do museu da biblioteca nacional, alvo dos saqueadores de objetos de arte. Nove dias arrastaram, baniram, apagaram o tempo ancestral dos acádios, sumérios, assírios e babilônios: o mundo ali perdia seu precioso berço.
Neste cenário, sem ouvir os barulhos ensurdecedores da guerra, Zubair carrega um tapete enrolado em seus braços: envolvido no grosso tecido, um livro! As histórias, anedotas, alegorias, adivinhações ali registradas trazem a qualquer leitor a alegria do jogo, da poesia, da trapaça rústica e da transparência certeza de que nada mais existiria do que a invenção da palavra e suas miragens. Em nossa mente.
Com ilustrações e projeto gráfico de Roger Mello, temos aqui um duplo livro, objeto que se apresenta ao leitor primeiramente como uma capa que traz o relato da fuga do menino, entre soldados estrangeiros e iraquianos. Este livro-caracol se desenrola uma, duas, três vezes, como o próprio tapete nas mãos da personagem, escondendo outro livro em seu interior. Encontramos (Zubair e nós mesmos) o segundo livro, um volume em códex chamado “Os treze labirintos” e cujas páginas são viradas da esquerda para direita. E, no final, o jogo e o enigma. Eis que o menino conta e contabiliza somente doze labirintos... E nós, quantos nós conhecemos?
• Especial para o Clube de Leitura Quindim: Seleções, fevereiro de 2021 @clubequindim.
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5 de maio de 2025
reflorestar nosso imaginário
Nesse sentindo, a imagem se enovela em um discurso veemente, um emblema, uma fábula, resultando em um diálogo com o leitor-observador, via linguagem do afeto e das narrativas mais familiares. A raposa ali acuada; os três micos que parodiam a atitude sábia-não-sábia de nada-falar, nada-ver, nada-ouvir; o peixe-boi com olhos de sesta e preguiça (você perdoe meu francês e o brilho do papel, como direi, voulez vous couché avec moi?); o aturdido cachorro-do-mato de orelha-curta, tão curta, curta, quase escapuliu do poema de Lalau! Belezuras, focinhos, queixumes, crenças, animais protegidos pelo caipora. A exposição estará aberta até 14 de junho,
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25 de abril de 2024
tal como um piquenique
Lalau e Laurabeatriz completam 30 anos de literatura e livros para crianças, desde o lançamento de BEM-TE-VI E OUTRAS POESIAS (Companhia das Letrinhas, 1994). O livro tem um tamanho afetivo, para caber na palma da mão, e tem uma sugestiva epígrafe trazendo Adoniran Barbosa: “Olha o sol, parece um remendo branco na calça azul do céu.” A frase foi retirada da crônica Um senhor piquenique! (1969) sobre uma farofada na Praia Grande. Seguir esta pista nos ajuda a aproximar o humor gaiato de ambos os poetas, aquele jeito matuto e caipira de tirar um verso alegre ou insólito das coisas mais comuns, ver e também libertar a alma de passarinho dentro do próprio leitor. De algum modo, acompanhando o primeiro poema, a ilustração de Laurabeatriz é uma imagem referencial do bem-te-vi que começa a cantar de madrugada, mas também é uma metáfora sorridente, alma desperta. O ritmo do carinho vai pontuando noutras páginas nalguns diminutivos, nas ideias do que é uma vida boa, com parentes e conversas, aprendendo como se faz palhaçadas, perguntar se Deus, no sítio do céu, tem televisão, e vai por aí afora. O que é singelo também reside na contradição: um peixinho que chora no fundo do aquário e já não sabe se nada em água ou lágrimas; uma banana danada que anda pelada para não virar marmelada; e o mar lindo e gozado (esse é meu poema preferido), onde a gente entra doce... e sai salgado!
É preciso ler e reler Lalau. E nesses dias enquanto vou caçando haicais, Lalau também, ao modo de Guilherme de Almeida, tenha talvez permissão para colocar um título nesses versos tão breves e contemplativos:
VAGALUMES
Parecem diamantes,INFÂNCIA
Em fins de tarde,
Juntos e brilhantes.
Um gosto de amoraTal como um piquenique, o livro de Lalau e Laurabeatriz começa antes do sol nascer e vai terminando com pontinhos de luz, uma lista de coisas feitas pelo poeta durante a infância, e bicos amarelos de papa-capim, esse outro passarinho que é a patativa, mas os paulistas e paulistanos chamam igualmente de cabeça-de-coco. Foi ótis, doutor, ótis!
comida com sol. A vida
chamava-se: “Agora.”
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18 de julho de 2020
coração de tinta
☆ JÁ HAVIA ALGUNS ANOS, ele confeccionara um pequeno baú para ela carregar os livros prediletos em todas as viagens, curtas e longas, para lugares distantes e não tão distantes. “É bom ter os próprios livros quando se está num lugar estranho”, Mo dizia. Ele mesmo sempre levava pelo menos uma dúzia.
☆ Mo pintara o baú de vermelho, vermelho como uma papoula, a flor preferida de Meggie, cujas pétalas eram ótimas para prensar entre as páginas de um livro e depois carimbar na pele uma estampa com a forma de uma estrela. Na tampa, Mo escrevera, com lindas letras ornamentais, Baú do tesouro de Meggie; dentro, o forro era de tafetá preto-brilhante. Desse tecido, porém, quase nada se via, pois Meggie possuía muitos livros prediletos. E, a cada nova viagem para um lugar diferente, um novo se juntava aos antigos. “Quando você leva um livro numa viagem”, dissera Mo quando ela pôs o primeiro no baú, “acontece uma coisa estranha: o livro começa a colecionar lembranças. Depois basta abri-lo, e você já está de novo no lugar onde o leu. Tudo volta, já nas primeiras palavras: as imagens, os cheiros, o sorvete que você tomou enquanto lia... Acredite, os livros são como papel pega-moscas. Não existe nada melhor para grudar lembranças do que páginas impressas.” ☆☆
Do livro de Cornelia Funke, CORAÇÃO DE TINTA (2003) com tradução de Sonali Bertuol @companhiadasletras (2006) @editoraseguinteoficial p. 22 #FiqueBem #FiqueFirme #FiqueEmCasa #AbreAspas2020
15 de abril de 2016
dentro de um dicionário
Nunca fui grande admirador de fábulas, só algumas (as ainda possíveis de ler uma segunda vez...) Aqui vai um apólogo que acontece dentro de um dicionário. As palavras não aguentavam mais ser mal usadas, e a Verdade e a Mentira se unem para desfazer os mal-entendidos e os malefícios entre as pessoas, e vão bulir com o jogo de figuras sem escrúpulos que alteram o sentido da realidade em uma frase, um slogan, uma manchete, uma moral falaciosa, um pensamento turvo para enganar as pessoas de boa-fé. A REVOLTA DAS PALAVRAS, de José Paulo Paes com desenhos de Angela Lago #companhiadasletrinhas (1999) #literaturainfantil #josepaulopaes #angelalago
Prêmio Jabuti 2000 de Melhor Livro Infanto-Juvenil
27 de novembro de 2015
My Black Friday is bone...
Com Rosa Amanda Strausz: SETE OSSOS E UMA MALDIÇÃO (2006) O olhar frio e coruscante da boneca de louça espanhola não é nada, o problema é quando ela começa a sorrir para você... Vozes zombam de sua razão e coragem. Vê agora um corpo debruçado no tapete, será seu? #editoraglobal (2013) #literaturafantastica #literaturajuvenil #rosaamandastrausz
My Black Friday is bone, com Machado de Assis: UM ESQUELETO (2015) O mar violento e calmo, sempre igual e diferente, ora escreve sobre a areia, ora apaga os traços... Uma viva adaptação do conto de 1875 para HQ mantendo seu clima de fina ironia e romantismo. #editorapulodogato #literaturafantastica #machadodeassis #hq roteiro #diegomolina desenhos #marciokoprowski
My Black Friday is bone, com Angela Lago: SETE HISTÓRIAS PARA SACUDIR O ESQUELETO (2002) É necessário humor para cada um de nós ouvir uma boa história de terror ou enfrentar nosso reflexo na página... Bem ali, nas dobras insuspeitadas, nossos ossos se unem, dançam e fulguram em sua trêmula brancura #companhiadasletrinhas #literaturainfantil #angelalago
27 de janeiro de 2015
'tá chovendo na roseira?
Bate luz e um pouco de vento na árvore em frente à minha janela e me distraio. Estico o braço até a estante. Na letra R, encontro Rosa Branca no cercado e um jardineiro que a vigia. Bem de perto. E já sei o que está por vir. Uma narrativa rápida e poética em sua dupla estrutura: a montagem linear como uma parlenda enumerativa, sobre uma estrutura circular que a voz do narrador esconde, revela ao meio do texto, bem ao meio.
A história começa em um dia que o jardineiro amanheceu gripado de tanto que andou descalço tentando encontrar os sapatos que um gato... escondeu! O gato veio com o irmão mais moço do jardineiro que... era casado com Dalva que... tinha um tio na família que... morreu de desgosto, por conta de uma carta de amor que... nunca chegou porque caiu da sacola do carteiro, quando ele se abaixou para pegar um anel do chão. O anel de latão que a costureira atirou pela janela, recusando-se a casar com seu noivo de bigode ridículo...
E assim vai, anda a roda e tanta coisa mais. A estratégia da lengalenga é tão bela e tão velha que nem mesmo Drummond escapou de fazer uso para a sua ‘Quadrilha’ (1930), inspirando, por sua vez, textos e mais textos como a lírica de ‘Espinho na Roseira / Drumonda’, de André Abujamra (1995).
Um fato puxando o outro. E Rosa Branca fugiu do cercado? Roger Mello sabe que TODO CUIDADO É POUCO! (Companhia das Letrinhas, 1999). Alguém sussurra que ela sumiu do mapa e, carregando consigo a rosa-dos-ventos, fez o mundo perder a direção do caminho. Cada coisa... Conversa! No meio do texto, o narrador pede – Mas espera um pouco... e a história desanda à roda: nada do que aconteceu realmente aconteceu porque Rosa Branca está dentro do cercado.
Brincando com a construção e a desconstrução do texto, o que era simples linearidade ou sucessão volta-se sobre si e circularmente transforma a narrativa em uma experiência espacial. Tudo volta atrás... Ou seria para a frente? O jardineiro vigia Rosa Branca. Zeloso, sem desviar o rosto, bem de perto. É uma prova que a vida é mesmo assim, tá sempre no eixo, no mesmo e próprio lugar, mesmo quando parece não estar.
Mas, digo eu, espera um pouco...
E se começasse a chover?
16 de abril de 2013
era cigarra, era formiga
Nunca pude saber se as formigas têm dentes para sorrir pois, mesmo banguelas, o fato não as impediria de cair na risada contra a cigarra, tal como fabulou Esopo a respeito da colheita dos preguiçosos, num belo e distante dia de inverno...
Roberto Piumini transformou a velha fábula, curtinha, em uma lengalenga: pousada no alto de um galho, a cigarra azucrina um ratinho, uma abelha e, por fim, uma formiga fatigada que puxa um pesado grão de trigo. Ora, o frescor verde das folhas de verão desaparece, tudo seca e a cigarra vai ao chão. Zanzando por todos os lados, ela não mais estridula, mas treme com fome e com frio... Ao fim do percurso narrativo, encontram-se A CIGARRA E A FORMIGA, com imagens de Nicoletta Costa e a tradução de Daniela Bunn (Positivo, 2010), no formigueiro.
A primeira suplica, a outra explica: “Para trazer aqui dois ou três grãos, duas ou três de nós trabalharam dois ou três dias.” Educadíssima a formiga. Porém, o coro de vozes não muda um til ou uma vírgula da lição, enquanto a cigarra se aproxima da porta: cantou, agora dance!
No entanto, dizem... que, ao escolher a história da cigarra e da formiga para encabeçar e abrir o volume de suas Fábulas Escolhidas, em 1668, La Fontaine
Muitos escritores e poetas posicionaram-se em defesa da cigarra – o que é bastante óbvio, modificando principalmente o desfecho da narrativa com ampliações, remendos, arremedos, com a moral esópica às avessas, como as duas versões de Monteiro Lobato (1922), a narrativa rimada de Braguinha (nos anos de 1960) ou o poema de José Paulo Paes, breve sempre e bastante sensível, no livro POEMAS PARA BRINCAR, com ilustrações de Luiz Maia (Ática, 1989).
SEM BARRA
Enquanto a formiga
Carrega a comida
Para o formigueiro,
A cigarra canta,
Canta o dia inteiro.
A formiga é só trabalho.
A cigarra é só cantiga.
Mas sem a cantiga
Da cigarra
Que distrai da fadiga,
Seria uma barra
O trabalho da formiga!
Por fim, Alessandra Pontes Roscoe também escreve, leva e traz A OUTRA HISTÓRIA DA CIGARRA E DA FORMIGA, com ilustrações de Adilson Farias (Mundo Mirim, 2010), introduzindo um bem-te-vi para resolver o bate-boca ao pé do formigueiro. O texto possui uma divisão formal como se escrito em versos, deixando prevalecer, contudo, a feição da prosa em ordem direta:
A formiga, arrependida,
percebeu que estava sendo metida,
até mesmo um pouco exibida,
achando que só o seu trabalho
era importante na vida.
3 de abril de 2013
no tempo em que os bichos falavam...
As histórias de animais da literatura para crianças, sem dúvida alguma, descendem das mais antigas fábulas que foram perpetuadas pela voz de diferentes narradores e pelos registros em pedra, argila, pergaminho que intentavam transportar importantes valores morais por terras e povos do Oriente ao Ocidente. Remontando às civilizações egípcia e indiana, as fábulas migraram de uma cultura a outra através da memória de sábios anônimos, ou da figura lendária de Esopo que teria vivido entre os gregos, por volta do VII a.C. Suas pequenas histórias espirituosas foram transcritas para o latim, principalmente por Fedro, no início da Era Cristã — e muitas outras adaptações surgiram até meados do III d.C., atravessando depois séculos e séculos de sombra e proibições, chegando, sob as luzes do XVII, à pena poética de Jean de La Fontaine. Mas seria interessante lembrar – e encaixar entre esses nomes — um poeta espanhol, pouco comentado entre nós outros, chamado Samaniego que igualmente versificou as fábulas em sua língua, além de um certo Manuel Mendes da Vidigueira...
Ora, a essa corrente ou tradição esópica, é preciso juntar narrativas de tribos aborígenes, indígenas e africanas para compreender que o combate aos vícios e o exercício das virtudes impõem um gesto verbal que não conhece fronteiras, porque é Necessidade maior a busca da justiça entre os homens.
São inúmeros os lançamentos de seletas de fábulas, parábolas e apólogos. Porém, desde que comecei a lecionar literatura infantil, praticamente não consigo abrir mão de alguns livros e devo indicá-los a quem deseja um sincero palpite sobre o que não pode faltar em sua biblioteca de estudos ou para compartilhar com as crianças: Fábulas de La Fontaine, por Ferreira Gullar, com versos elegantes e gravuras de Gustave Doré (Editora Revan, 1997); Fábulas de Esopo, compiladas por Ash Russel e Bernard Higton, com a tradução cuidadosa de Heloisa Jahn e um compêndio de variados ilustradores (Companhia das Letrinhas, 2000) e, claro, o volume das Fábulas por Monteiro Lobato, animadamente comentadas pelos personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo (1922).
E vou lembrando, partidário, Emília batendo o pé: ainda que não servissem para grande coisa, as fábulas têm a vantagem de serem curtinhas... Portanto, transmitidas por textos breves e ágeis que privilegiam a inteligência do leitor! Também vale aqui uma recomendação de Dona Benta, tirada após a moral da história da águia e da coruja — Essa fábula se aplica a muita coisa, minha filha. Aplica-se a tudo que é produto nosso. Os escritores acham ótimas todas as coisas que escrevem, por piores que sejam. Quando o pintor pinta um quadro, para ele o quadro é sempre bonitinho. Tudo quanto nós fazemos é “filho de coruja”.
Dobras da Leitura recebeu
Alarcão ilustrou, convencionalmente, o livro Fábulas: histórias de Esopo e La Fontaine para o nosso tempo, compilação em prosa de Paulo Coelho (Benvirá/Saraiva, 2011), primeiro livro que o mago do mercado editorial dirige às crianças e aos jovens. Ao contrário do astrônomo da fábula, o escritor sabe, com douta simplicidade em seu texto, que não adiantaria contemplar as maravilhas do céu, sem capacidade para perceber as armadilhas da terra!
Em outro livro, taludo, em capa dura, os admiráveis olhos e o bom humor dos personagens do ilustrador tcheco Adolf Born acompanham 46 fábulas reunidas sob o título O melhor de La Fontaine, com tradução e adaptação de Nílson José Machado (Escrituras, 2012). As velhas fábulas aqui vão se alongando e, entre dísticos e sextilhas, predomina a modalidade da narrativa em trovas.
INFELIZMENTE, quando não terminam com exclamações, reticências ou dois pontos, certas estrofes foram arrematadas por um inadvertido ponto final, de tanto em tanto, comprometendo a fluência do texto, pois conduziu à separação as unidades sintáticas que deveriam compor o enjambement entre versos de estrofes distintas. É o que acontece em “Tributo enviado pelos animais a Alexandre” ou "O asno vestido com a pele do leão”. Problemas de revisão que pontuou ora demais, ora de menos. Assim, quando era desejável uma vírgula – ou um pequeno travessão, em meio a numerosas fábulas, nenhum traço dá aos leitores indicações de pausa e entonação que melhor promoveriam a compreensão do texto.
Fiquemos próximos de a raposa de Ferreira Gullar
que, esperta, percebeu, por nós, uma coisa curiosa:
— O rastro dos que entram é coisa certa,
enquanto o dos que saem é duvidosa.
E concluiu, embora sem ter prova:
— Quem bem pesar as coisas, lá não vai.
Sabe-se como se entra nessa cova,
mas não se sabe bem como sai.
15 de março de 2013
guardo segredo ou faço uma postagem?
Pode uma imagem resenhar um livro de imagem ou, ao menos, desenhar seu perfil? Tentemos um diálogo quase mudo, à boca pequena. A extensão da fofoca: “Gossip”, de Norman Rockwell, na capa da revista The Saturday Evening Post, 6 de março de 1948. Afinal,
Foi em fevereiro de 2006... Tânia Piacentini presenteou os amigos do site Dobras da Leitura (Ano VI, n.30) com um artigo e o cartaz-publicitário do jornal Leia, apresentando uma galeria de autores em secretas conversas. Em sua coluna Alinhavos, explicava a amiga da Barca dos Livros, na nota de rodapé: “O cartaz está emoldurado na parede de meu escritório-biblioteca e muitos exemplares, encadernados, me trazem de volta pessoas, artigos, fotos e fatos, discussões, teorias e fofocas, vidas, a vida literária do país e do mundo. Retrato ainda vívido e substancial da cultura do fim da década de 70 e grande parte dos anos 80.” – Cultura também se fofoca.
Então, o livro de imagem de Renato Moriconi em parceira com Ilan Brenman, TELEFONE SEM FIO (Companhia das Letrinhas, 2011). Pintura ou argumento? Para cada um desenhar suas próprias relações...
Pode uma sequência de imagens resenhar um livro?
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P.S.1. Das mais curiosas lições para escrever uma rádio-ficção, aprendi que não é importante revelar os segredos de um personagem: basta simplesmente contar ou indicar que uma pessoa os tem a fim de despertar o interesse da audiência. Com Harri Huhtamäki (YLE), 1994.
P.S.2. Você aí viu García-Marquez, Kafka, Borges, Clarice Lispector, Brecht, Shakespeare, Mário de Andrade, Simone de Beauvoir, Pessoa, Joyce, Beccket, Proust, Amado, Ernest Hemingway, Doris Lessing, M. Duras, Sartre e... novamente o Gabriel?


















































