17 de maio de 2017

a cidade dentro da gente

Peter O.ô Sagae


Às vezes procuramos um livro de imagem para crianças que nos traga diversão e um modo especial de olhar/entender o mundo, entre os títulos que costumamos vasculhar como literatura infantil – e não o encontramos... O que se interpõe sob tal rótulo são diferentes conceitos de quem compreendemos ser o leitor e o público do mercado editorial; o que é ser criança, o que é ser infantil para as pessoas que vivem da arte de fazer livros?

Pois, um dia online, espiamos uma novidade: era a editora Lote 42 com o booktrailler do livro de Rafael Sica, FACHADAS, em um desfile de ilustrações, um passeio à frente de muitas casas, velhos imóveis, por uma rua de sons, vozerio, pássaros, passos e outros mais...




Os traços de Rafael Sica mesclam o discurso visual descritivo, na reconstituição das velhas fachadas que viu em várias cidades, com situações de crítica social, referências culturais, cenas quase improváveis, por vezes irreverentes e imaginárias. Há, por exemplo, uma casa com vestígios de abandono e inteiramente fechada às costas de um morador em situação de rua coberto por um jornal; nos degraus de outra casa, quatro jovens cabeludos, aparentemente desocupados, são ou serão uma banda de punk rock nos idos ou bem-vindo ano de 1974; alguém sentado no sofá calmamente soltando fumaça pela boca, enquanto atrás dele labaredas escapam pela porta e janelas; então, em algum ponto da rua há uma parada de disco-voadores, noutro trecho da calçada emerge um submarino.


Cada fachada é uma metonímia, parte de uma casa-história, um fragmento de certo lugar. Porém, quando alinhadas por justaposição, criam uma nova paisagem, uma cidade que não existia antes de ser aberta através do livro. Povoar suas páginas com uma vizinhança inédita conduziu o projeto gráfico e a arquitetura do livro: uma folha de papel com quase três metros dobrada em sanfona. Então, que porção–criança ou estigma–infantil, encontramos neste livro de imagem?



Considero alguns ingredientes necessários, como parte da literatura contemporânea: invenção artística que desafia o olhar criativo-recreativo do pequeno-grande leitor a partir do suporte material e as próprias ilustrações; um toque de modernidade, em seu traço franco de desobediência aos cânones; e até um sabor de pós-modernidade que se configura pelo pastiche, ou seja, essa composição realizada com fragmentos de tantas coisas “o que leva o leitor a jogar com um desenho de relações que descentralizam e correlacionam pontos de vista, saberes, sonhos, anseios”, abertura do possível onde moram todas as coisas selvagens (felizes e curiosas).


P.S. Outras coisas ainda se pode contar. Diferentes “fachadas” servem ao livro do gaúcho Rafael Sica – um conjunto de oito capas foram feitas com quatro cartões coloridos (roxo, laranja, verde, grafite), com aplicação em serigrafia. No verso da folha que apresenta, ao todo, trinta casas, o leitor vai encontrar objetos, como uma luva, um guarda-chuva, uma máquina de escrever, uma dentadura, uma cuia de chimarrão etc. que se relacionam, de algum modo – pistas ou realce? – com as histórias entrevistas ao longo do percurso. Foto adicional: Cecilia Schiavo.


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