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11 de maio de 2010

da Terra do Nunca para nunca esquecer

por Peter O’Sagae



O primeiro Peter Pan veio-me através de um pequeno livro que comprei por reembolso postal: era um reconto RECONTO de Paulo Mendes Campos, a partir do original de James Mattheu Barrie (Ediouro, 1972). Depois de outros voos, incluindo a ADAPTAÇÃO de Monteiro Lobato, o último pouso: na edição em capa dura, com as ilustrações de Eric Kincaid (1990) e a TRADUÇÃO de Dinah de Abreu Azevedo (Edições Loyola, 1995). Além do tilintar de asas na Terra do Nunca, interessam-me os flagrantes da metalinguagem e seus jogos, pouco ou jamais explorados numa leitura crítica do texto que migrou do roteiro teatral (1904) para a narrativa em prosa (1911).

É exemplo curioso todo o capítulo 11 — “A história de Wendy” que resume, sob o ponto de vista da menina, a própria história de PETER AND WENDY — porém, apagando o companheiro no relato de suas aventuras, pois ela não invoca o nome do menino como personagem nesta versão particular. “Vejam vocês”, explicita Wendy aos pequenos ouvintes a seus pés, “a heroína dessa história sabia que sua mãe deixaria a janela do quarto sempre aberta para as crianças poderem entrar, quando voassem de volta.” Em sua própria narração, Wendy faz um interessante convite a todos: “— Vamos dar uma espiadinha no futuro... E quem é essa linda senhora que vemos descendo do trem na estação de Londres?” Simplesmente, revela a menina, é ela mesma.

Na mesma cena, o diálogo de Wendy com os meninos perdidos é um indicativo da consciência que o pequeno grupo tem sobre o fato de serem apenas personagens e como cada um sente a necessidade de reconhecer-se através de um nome, em meio às aventuras, garantindo a própria mágica da existência. “Wendy, um dos meninos perdidos”, vai perguntando Caladinho, “era chamado de Caladinho?” Sim, responde carinhosamente a narradora, claro que sim. “Estou numa história, estou numa história!”, grita excitado o pequeno — de fato: ele não mais se encontrava perdido na criativa trama da escritura.

A questão do nome também é importante para o Capitão Gancho não se confundir totalmente com um bacalhau — embora aí entre mais uma das brincadeiras de Peter. Na lagoa das sereias, próximo à Pedra dos Abandonados, o aparvalhado pirata nem pisca, quando Pan imita sua voz e afirma ser James Hook, o verdadeiro Gancho. “Se você é o Capitão Gancho, quem sou eu?” Enxugando o suor da testa, sem enxergar a si mesmo e sem o testemunho de seus homens inteiramente calados a respeito de sua identidade, ele sente a desconfiança de começar a enlouquecer, “que o Capitão Gancho estava abandonando o Capitão Gancho”, que o papel que acreditava desempenhar abandonava seu próprio ser — tão inesperadamente roubado lhe foi o nome por uma estranha voz. Ao final da tensa brincadeira de adivinhação, Peter Pan grita Pan! Peter Pan! num estampido de ataque, e o Capitão Gancho pode tornar-se, outra vez, quem era.