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3 de abril de 2013

No tempo em que os bichos falavam...

peter o'sagae e o mês de abril por aqui


As histórias de animais da literatura para crianças, sem dúvida alguma, descendem das mais antigas fábulas que foram perpetuadas pela voz de diferentes narradores e pelos registros em pedra, argila, pergaminho que intentavam transportar importantes valores morais por terras e povos do Oriente ao Ocidente. Remontando às civilizações egípcia e indiana, as fábulas migraram de uma cultura a outra através da memória de sábios anônimos, ou da figura lendária de Esopo que teria vivido entre os gregos, por volta do VII a.C. Suas pequenas histórias espirituosas foram transcritas para o latim, principalmente por Fedro, no início da Era Cristã — e muitas outras adaptações surgiram até meados do III d.C., atravessando depois séculos e séculos de sombra e proibições, chegando, sob as luzes do XVII, à pena poética de Jean de La Fontaine. Mas seria interessante lembrar – e encaixar entre esses nomes — um poeta espanhol, pouco comentado entre nós outros, chamado Samaniego que igualmente versificou as fábulas em sua língua, além de um certo Manuel Mendes da Vidigueira...
Ora, a essa corrente ou tradição esópica, é preciso juntar narrativas de tribos aborígenes, indígenas e africanas para compreender que o combate aos vícios e o exercício das virtudes impõem um gesto verbal que não conhece fronteiras, porque é Necessidade maior a busca da justiça entre os homens.


São inúmeros os lançamentos de seletas de fábulas, parábolas e apólogos. Porém, desde que comecei a lecionar literatura infantil, praticamente não consigo abrir mão de alguns livros e devo indicá-los a quem deseja um sincero palpite sobre o que não pode faltar em sua biblioteca de estudos ou para compartilhar com as crianças: Fábulas de La Fontaine, por Ferreira Gullar, com versos elegantes e gravuras de Gustave Doré (Editora Revan, 1997); Fábulas de Esopo, compiladas por Ash Russel e Bernard Higton, com a tradução cuidadosa de Heloisa Jahn e um compêndio de variados ilustradores (Companhia das Letrinhas, 2000) e, claro, o volume das Fábulas por Monteiro Lobato, animadamente comentadas pelos personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo (1922).

E vou lembrando, partidário, Emília batendo o pé: ainda que não servissem para grande coisa, as fábulas têm a vantagem de serem curtinhas... Portanto, transmitidas por textos breves e ágeis que privilegiam a inteligência do leitor! Também vale aqui uma recomendação de Dona Benta, tirada após a moral da história da águia e da coruja — Essa fábula se aplica a muita coisa, minha filha. Aplica-se a tudo que é produto nosso. Os escritores acham ótimas todas as coisas que escrevem, por piores que sejam. Quando o pintor pinta um quadro, para ele o quadro é sempre bonitinho. Tudo quanto nós fazemos é “filho de coruja”.
 



Dobras da Leitura recebeu

Alarcão ilustrou, convencionalmente, o livro Fábulas: histórias de Esopo e La Fontaine para o nosso tempo, compilação em prosa de Paulo Coelho (Benvirá/Saraiva, 2011), primeiro livro que o mago do mercado editorial dirige às crianças e aos jovens. Ao contrário do astrônomo da fábula, o escritor sabe, com douta simplicidade em seu texto, que não adiantaria contemplar as maravilhas do céu, sem capacidade para perceber as armadilhas da terra!

Em outro livro, taludo, em capa dura, os admiráveis olhos e o bom humor dos personagens do ilustrador tcheco Adolf Born acompanham 46 fábulas reunidas sob o título O melhor de La Fontaine, com tradução e adaptação de Nílson José Machado (Escrituras, 2012). As velhas fábulas aqui vão se alongando e, entre dísticos e sextilhas, predomina a modalidade da narrativa em trovas.


INFELIZMENTE, quando não terminam com exclamações, reticências ou dois pontos, certas estrofes foram arrematadas por um inadvertido ponto final, de tanto em tanto, comprometendo a fluência do texto, pois conduziu à separação as unidades sintáticas que deveriam compor o enjambement entre versos de estrofes distintas. É o que acontece em “Tributo enviado pelos animais a Alexandre” ou "O asno vestido com a pele do leão”. Problemas de revisão que pontuou ora demais, ora de menos. Assim, quando era desejável uma vírgula – ou um pequeno travessão, em meio a numerosas fábulas, nenhum traço dá aos leitores indicações de pausa e entonação que melhor promoveriam a compreensão do texto.

Fiquemos próximos de a raposa de Ferreira Gullar
que, esperta, percebeu, por nós, uma coisa curiosa:
— O rastro dos que entram é coisa certa, 
enquanto o dos que saem é duvidosa. 

E concluiu, embora sem ter prova: 
— Quem bem pesar as coisas, lá não vai. 
Sabe-se como se entra nessa cova, 
mas não se sabe bem como sai.

11 de maio de 2010

da Terra do Nunca para nunca esquecer

por Peter O’Sagae



O primeiro Peter Pan veio-me através de um pequeno livro que comprei por reembolso postal: era um RECONTO de Paulo Mendes Campos, a partir do original de James Mattheu Barrie (Ediouro, 1972). Depois de outros voos, incluindo a ADAPTAÇÃO de Monteiro Lobato, o último pouso: na edição em capa dura, com as ilustrações de Eric Kincaid (1990) e a TRADUÇÃO de Dinah de Abreu Azevedo (Edições Loyola, 1995). Além do tilintar de asas na Terra do Nunca, interessam-me os flagrantes da metalinguagem e seus jogos, pouco ou jamais explorados numa leitura crítica do texto que migrou do roteiro teatral (1904) para a narrativa em prosa (1911).

É exemplo curioso todo o capítulo 11 — “A história de Wendy” que resume, sob o ponto de vista da menina, a própria história de PETER AND WENDY — porém, apagando o companheiro no relato de suas aventuras, pois ela não invoca o nome do menino como personagem nesta versão particular. “Vejam vocês”, explicita Wendy aos pequenos ouvintes a seus pés, “a heroína dessa história sabia que sua mãe deixaria a janela do quarto sempre aberta para as crianças poderem entrar, quando voassem de volta.” Em sua própria narração, Wendy faz um interessante convite a todos: “— Vamos dar uma espiadinha no futuro... E quem é essa linda senhora que vemos descendo do trem na estação de Londres?” Simplesmente, revela a menina, é ela mesma.

Na mesma cena, o diálogo de Wendy com os meninos perdidos é um indicativo da consciência que o pequeno grupo tem sobre o fato de serem apenas personagens e como cada um sente a necessidade de reconhecer-se através de um nome, em meio às aventuras, garantindo a própria mágica da existência. “Wendy, um dos meninos perdidos”, vai perguntando Caladinho, “era chamado de Caladinho?” Sim, responde carinhosamente a narradora, claro que sim. “Estou numa história, estou numa história!”, grita excitado o pequeno — de fato: ele não mais se encontrava perdido na criativa trama da escritura.

A questão do nome também é importante para o Capitão Gancho não se confundir totalmente com um bacalhau — embora aí entre mais uma das brincadeiras de Peter. Na lagoa das sereias, próximo à Pedra dos Abandonados, o aparvalhado pirata nem pisca, quando Pan imita sua voz e afirma ser James Hook, o verdadeiro Gancho. “Se você é o Capitão Gancho, quem sou eu?” Enxugando o suor da testa, sem enxergar a si mesmo e sem o testemunho de seus homens inteiramente calados a respeito de sua identidade, ele sente a desconfiança de começar a enlouquecer, “que o Capitão Gancho estava abandonando o Capitão Gancho”, que o papel que acreditava desempenhar abandonava seu próprio ser — tão inesperadamente roubado lhe foi o nome por uma estranha voz. Ao final da tensa brincadeira de adivinhação, Peter Pan grita Pan! Peter Pan! num estampido de ataque, e o Capitão Gancho pode tornar-se, outra vez, quem era.

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